Correndo atrás de sonhos.
Correndo atrás de sonhos Cãndida Albernaz
Ontem à tarde, minha menina caiu de cama mais uma vez. Desde que a mãe foi embora, e isso tem seis meses, ela adoece toda semana. Nem posso cuidá-la direito. Deixo com minha mãe, que já está velha demais, mas nada reclama. Não tenho mais ninguém para pedir ajuda. Trabalho o dia inteiro, sou eletricista, e graças a Deus não me falta serviço. Não foi sempre assim. Fiquei um ano parado, sem poder trabalhar. Pressão alta, pressão baixa, parei no hospital algumas vezes. Nem sei como não parti dessa para uma outra. Acho que foram as orações de minha mãe, porque fé ela tem de sobra. O que falta mesmo são olhos para enxergar melhor e força nas pernas para andar. Não reclama de nada. Em alguns dias fica na cama com dores sem gemido, mas através dos olhos e caretas que faz quando pensa que ninguém está olhando, sei que são fortes.
Quando ela decidiu nos deixar, minha mãe chamou Arlinda para conversar. Falou sobre os filhos em idade difícil, Ruizinho com treze anos e Néli com catorze. Disse que eu não conseguiria cuidar dos dois, e que nessa idade, a filha precisa dos conselhos da mãe. Todos ali necessitavam de uma mulher-mãe por perto.
Arlinda escutou tudo bem quietinha, porque quando mãe falava, apesar de magrinha e miúda, nenhum de nós costumava retrucar. Mas não era filha, e assim que deu as costas, arrumou a bolsa, despediu dos filhos e me olhando nos olhos, disse que precisava tentar. Sua vida estava difícil e se ia para longe, era porque queria voltar logo. A irmã, que morava em São Paulo, convidou-a para que ela ajudasse a cuidar de um salão de beleza que abriu. Propôs um salário razoável e quem sabe sociedade. Quem sabe para mim, é o mesmo que nunca-vou-te-dar-sociedade-nenhuma.
Ela disse que precisava tentar, o nosso casamento estava complicado, não era essa a vida que imaginara, os filhos estavam crescidos e que enfim, seria apenas por algum tempo. Respondi que a amava, pedi que tentasse mais um pouco ao nosso lado. Prometi abrir um salão para ela no próximo ano. Riu na minha cara, não foi um riso de deboche, foi pior, riso de pena. Abaixei a cabeça, e insisti quase num sussurro que ficasse, porque não saberia viver sem ela. Colocou as mãos no meu cabelo e acariciou meu pescoço, como sabia eu gostava. Olhou-me e afirmou que voltaria. Precisava de um tempo. Ou talvez pudéssemos ir para lá e morarmos juntos. Foi a minha vez de sorrir com pena. Tristeza por todos nós, porque sabia que os sonhos, eram só dela e não meus ou dos filhos. Nossa vida estava aqui, nessa cidade pequena, com amigos de infância e família por perto. Com meu trabalho, sempre consegui que não faltasse nada, menos no ano passado, é claro. Nunca tivemos luxo ou dinheiro sobrando, mas na mesa colocava o que precisávamos.
Não deixo de compreender Arlinda. Casamos muito jovens, ela quase quinze anos a menos que eu. Logo tivemos Néli e ela ainda queria estudar fora, conhecer pessoas e crescer na vida. Eu a convenci que daria tudo o que queria e ainda mais. Estava apaixonado e tinha medo de perdê-la para seus desejos. Não adiantou. Perdi de qualquer forma.
Sei que ela vai voltar, mas já estarei amargurado e desconfiado o suficiente para ser o mesmo homem. Nem vou dizer que torço para que realize o que quer. Porque o que espero mesmo é que ela se decepcione e apareça aqui pedindo colo.
Nossos filhos sentem sua falta, e Néli que sempre possuiu a saúde frágil, vive tendo desmaios e fraqueza no corpo. Marquei médico para ela mais uma vez. Agarrada com a mãe, que só vendo. Falou outro dia que queria morar com ela. Ah, filha. Deixo não. Sua mãe não posso segurar, mas você fica comigo. Olhou-me com raiva. Virei as costas e saí. Desculpe minha Néli, mas você se parece tanto com Arlinda quando a conheci... Não vou conseguir ficar longe de sua mãe duas vezes. Olhando para você, é como se um pedaço dela ainda estivesse aqui. E depois, sei que vai se arrepender. Qualquer dia desses ela entra por essa porta e pede desculpas. Então vou levá-la para dentro e cumprir todas as promessas que não pude.