Apenas eu
candida 12/08/2010 00:17
                                                                                                                                                       Cândida Albernaz      2-8-2010             Esperava em vão que o telefone chamasse. Não o ouviria mais. Sabia que acabara e era melhor assim. Não sentia dor ou angústia, apenas constatava o fato de que não eram necessárias despedidas ou explicações.             Encheu a banheira com água morna e despejou um pouco de sabão líquido. Sentia um perfume suave.             Entrou, sentou e em seguida mergulhou. A espuma formada cobriu-a por inteiro             A música que colocara era lenta, mas não melancólica. Fechou os olhos enquanto se tocava, buscando sentir o corpo. A mente deixara de pensar no cotidiano, concentrando-se na sensação que provocava. Conhecia cada centímetro de sua pele e o gosto de si mesma.             Pena não poder ficar ali por muito mais tempo. O dia seguinte seria de trabalho intenso. Carecia dormir.             Sentiu-se relaxada quando deitou e cobriu-se com o lençol.             Vivera sem alguém na rotina do dia a dia por muitos anos, até que numa noite qualquer, de um lugar qualquer, Artur apareceu e foi se metendo em sua vida, sem cerimônia alguma.             Talvez por isso tenha conseguido chegar tão perto de onde outros tentaram sem sucesso. O jeito simples e arrogante não deixou espaço para que criasse a distância habitual.             Quando deu por si, iam aos lugares juntos, rindo das mesmas coisas, enxergando com os mesmos olhos.             Só não permitiu quando ele tentou mudar-se para sua casa. Não suportaria dividir a privacidade conquistada, com outra pessoa. Ansiava por solidão de vez em quando.  Principalmente não estar sob olhares diários, o que com certeza, com o tempo, viriam tomar satisfações por hábitos adquiridos ou atitudes tomadas.             Ele ainda insistiu algumas vezes, mas depois se conformou. No início falava em filhos, estabilidade, dizia ser um sonho formar a própria família. Sonho dele, não dela.             Ultimamente, começaram com desentendimentos por tudo e coisa nenhuma. Brigou com um colega de trabalho e discutiram quando contou o motivo e ela não lhe deu razão.             Quis viajar num momento em que ela não poderia se ausentar da firma, mas não entendeu. Pediu a ele que fosse, já que queria tanto. Não o fez e ainda ficou insinuando de como poderia ter sido bom, mas por culpa dela...             Enfim, o relacionamento não estava como antes. Costumavam se divertir, o que não ocorria mais.             Conversaram há dois dias e ele pediu um tempo para reorganizar a vida. Concordou na hora. Também necessitava refletir sobre como gostaria de estar vivendo.             Pensou que talvez fosse melhor assim. Se o telefone viesse a tocar outro dia, resolveu que não atenderia. Precisava estar consigo mesma. Queria sua solidão de paz outra vez.             Quem sabe em outra noite qualquer, em um lugar qualquer, com uma pessoa qualquer, voltasse a imaginar estar junto com alguém mais uma vez.             A única coisa que queria agora era a própria companhia, o que sabia  ser o bastante.             Virou-se e ajeitou melhor o corpo entre os lençóis. O sono estava chegando.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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