Bebida e cigarro
Estreia pífia da seleção canarinho na Copa, mais uma noite de muito frio e a gripe que pensei curada me pegando de jeito de novo. Mas vamos nessa que é vida que segue. Amanhã é dia de labuta, que termina, aliás, com alvoroço na Lapa.
Hoje foi meio feriado no Brasil varonil do futebol. Muita festa nas ruas desde cedo, mas preferi o sossego de casa para assistir ao jogo. Recusei dois convites de amigos queridos para torcer em grupo porque ia rolar muita bebida, que já conheço o eleitorado, e como não bebo fico um tanto deslocada e sem tolerância, admito, para os excessos nos xingamentos e comemorações — no caso de hoje, mais xingamentos que comemorações, com certeza.
Fiquei então na companhia da dupla cafezinho e cigarro, sem ninguém por perto para reclamar da fumaça do meu Hollywood.
Enquanto via o time de Dunga rolar, naquela lerdeza, a jabulani pelo gramado, voltei a matutar sobre o assunto: por que fumar tornou-se um hábito tão politicamente incorreto enquanto beber continua sinal de alegria e até sociabilidade?
Lembro do tempo em que se fumava em todos os lugares, nos ônibus, restaurantes, lojas, sem nenhum constrangimento. Era horrível, claro. Ninguém reclamava porque fumar era sinal de status. Os mocinhos dos filmes e novelas fumavam. A indústria do tabaco patrocinava tudo, até esporte. Quem não se lembra do Ayrton Senna pilotando o carro preto patrocinado pelo John Player Special, que chegou a liderar as vendas da Souza Cruz no Brasil?
Pois vieram as leis, a mega campanha contra o tabaco — aliás, não voto no Serra, tampouco gosto dos tucanos, mas este é um mérito do então ministro da Saúde — e todas as leis protegendo quem não estava a fim de fumar por tabela o cigarro alheio. Palmas para a iniciativa. O cigarro provoca muitas doenças, mata pessoas e os fumantes passivos também adoecem.
Mas e a bebida? Não mata? Quantos assassinatos cometidos por pessoas sob efeito do álcool, quanta violência doméstica, quantos acidentes de trânsito? Quando não chega a tanto, quantas brigas, situações inconvenientes, incidentes desnecessários? O ato de beber, no entanto, de longe enfrenta o bombardeio que o ato de fumar tem provocado nas pessoas. Quantos jovens ganham dos pais, aos 18 anos, o direito ao porre como ritual de chegada à maioridade? Às vezes bem antes disso, contrariando a lei. Nos filmes e novelas, lá estão o whisky, a cerveja, a cachaça. Só abordam como problema quando o caso é de alcoolismo. Mas o porre eventual é aceito é até encarado como divertido.
Será que o lobby da indústria da bebida é mais forte que o da indústria do tabaco? O álcool não é, afinal, um problema de saúde pública?
Da minha parte, parar de fumar é uma meta que ainda pretendo alcançar. Mas enquanto não chego lá tenho pelo menos a consciência de que faço mal só a mim, a partir do momento em que respeito os espaços fechados, lógico. Além disso, o cigarro não me tira a lucidez. Já quanto aos bêbados, haja paciência...