Maria Laura Gomes
- Atualizado em 23/05/2026 08:26
Foto: Rodrigo Silveira
Entre tintas verde e amarelo, bandeiras penduradas entre as casas e o som de moradores trabalhando juntos na decoração, a pequena Rua da Lapa, conhecida pelos moradores como “Ruazinha”, voltou a viver uma tradição antiga: transformar a rua em um espaço de encontro, memória e celebração popular durante o período de Copa do Mundo. Participando do I Festival de Ruas Enfeitadas da Copa, promovido pela Prefeitura de Campos, a comunidade decidiu unir futebol, identidade campista e história familiar em um projeto construído coletivamente.
A ornamentação da rua chama atenção não apenas pelas cores e desenhos, mas também pela homenagem a personagens históricos do futebol ligados à cidade, como Didi Folha Seca. O espaço virou ponto de visitação de moradores de outros bairros, curiosos para conhecer de perto o trabalho feito inteiramente pela comunidade, sem apoio financeiro externo.
Uma das organizadoras da iniciativa, Tamires Alves explicou que a escolha do tema surgiu da necessidade de valorizar a cultura local e apresentar às novas gerações a importância de nomes históricos do futebol campista. Segundo ela, a decoração da rua também se tornou uma forma de unir moradores de diferentes idades em torno de um objetivo em comum.
“Então, o Didi, ele é o símbolo do futebol brasileiro e ele é uma referência para todos nós campistas. Quando entramos nesse campeonato, pensando em cultura e história, não tinha como não pensar no Didi. A nova geração vem toda chamando pelo Neymar, então temos o Menino Ney escalado e as crianças estão com esperança. Acho sim que a gente pode chegar lá. A expectativa está bem grande, todos empenhados dando o seu melhor para fazer a Roazinha campeã. Hoje tudo que temos aqui é parte de doação: mão de obra, tempo, amor e disponibilidade.”
A história da Ruazinha, no entanto, vai muito além do festival. O envolvimento da comunidade com festas populares, ornamentações e eventos culturais atravessa décadas e passa de geração em geração. Morador da rua há 67 anos, Valter Batista relembra que cresceu vendo a família transformar a Lapa em um espaço de convivência e celebração coletiva.
Segundo ele, as tradições da rua nasceram ainda com os antigos moradores e foram mantidas pelos filhos, netos e vizinhos que continuam preservando o espírito comunitário do lugar. Para Valter, o sentimento de pertencimento é o que mantém viva a essência da Ruazinha.
“A nossa família sempre foi de festas. Aqui sempre teve carnaval, quadrilha, festa de rua. As gerações foram passando e os outros foram chegando com o mesmo comprometimento. É por isso que o nome é Ruazinha, porque aqui praticamente todo mundo é família. Isso não vem de hoje não, vem dos antigos. Amanhã essa geração nova vai fazer a vez deles e a gente fica só olhando e vendo continuar.”
Foto: Rodrigo Silveira
Além da tradição familiar, o festival também fortaleceu a convivência entre vizinhos e despertou o interesse de pessoas que nunca tinham vivenciado uma rua ornamentada para a Copa. A movimentação diária, as pinturas e os encontros durante os preparativos acabaram aproximando moradores e transformando a rua em um espaço ainda mais coletivo.
Um dos organizadores, Alessandro Rangel contou que a ideia surgiu em conversa entre amigos da própria rua, que decidiram mobilizar a comunidade assim que souberam do concurso. A homenagem aos jogadores campistas foi pensada justamente para reforçar o orgulho da cidade dentro do tema da Copa do Mundo.
“Todo mundo abraçou a ideia e ajudou de alguma forma. Pensamos que, se o festival é sobre Campos na Copa do Mundo, tínhamos que homenagear quem saiu daqui e chegou lá. Temos o Didi, campeão de duas Copas, e o Adivan, que ganhou Copa América. O mais legal de tudo é ver os vizinhos interagindo, as crianças animadas e pessoas querendo conhecer a rua por causa da nossa iniciativa.”
Entre os mais jovens, a experiência também vem sendo marcada pela descoberta. Aos 15 anos, Maryah Vitória participa pela primeira vez da ornamentação da rua e acompanha de perto a mobilização da vizinhança. Apaixonada por futebol, ela conta que sempre ouviu falar das ruas enfeitadas em época de Copa, mas nunca tinha participado da construção de uma.
“É a primeira vez que eu ajudo e estou super animada. Nunca vivi isso em lugar nenhum. Amo futebol, jogo bola também, e tomara que venha o hexa. Acho que o Brasil consegue chegar sim.”