Arthur Soffiati - Meus Arquivos
Meu primeiro contato com um arquivo ocorreu em 1972, quando eu ainda cursava história, na Faculdade de Filosofia de Campos. Recebi convite da professora Maria Nilza Patrão Dias para arrolar os livros da Câmara Municipal de Campos. Ela convidou também um colega meu. Ele não pôde trabalhar por ser alérgico a pó. O levantamento resultou num trabalho apresentado pela professora Maria Nilza num congresso. Até hoje, tenho o caderno com esse levantamento.
Ao ingressar no mestrado, eu teria que forçosamente pesquisar em arquivos. Voltei à Câmara Municipal de Campos para consultar um códice. Compulsei muitos números de “O Monitor Campista” na Biblioteca Municipal de Campos e na Biblioteca Nacional. Baseei-me muito nas então chamadas fontes-monumento. São aqueles documentos abrangentes, como a “Narração da viagem de Knivet”, o “Roteiro dos Sete Capitães”, o “Relatório do Marquês de Lavradio, Vice-Rei do Rio de Janeiro, entregando o governo a Luiz de Vasconcellos e Sousa que o sucedeu no Vice-Reinado”, o manuscrito de Manoel Martins do Couto Reis, a Representação de André Martins da Palma, a correspondência de Pero de Góis, documentos que foram publicados pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Quanto à documentação produzida pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento, tive a sorte de contar com cópias de muitos ofícios, relatórios e mapas que iriam para o lixo, mas que acabaram nas minhas mãos graças a um amigo. Não eram os documentos originais, que não sei se se perderam ou foram salvos. Contudo, são cópias autenticadas de originais autênticos. Guardei-os com cuidado. Vali-me também de correspondência pública e privada que seria comprometedora se divulgada no governo militar. Não eram documentos sigilosos, mas reservados. Contei com o consentimento dos autores ainda vivos para divulga-los.
Vali-me de periódicos campistas como “Monitor Campista” (1893-1894/1978/1981), “A Notícia” (1978-1981), “Folha da Manhã” (1978-1996), “Folha do Commercio” (1909-1935/1974). De Niterói, consultei “O Fluminense” (1978-1981). Do Rio de Janeiro, “Jornal do Brasil” (1980), “O Dia” (1980) e “O Globo” (1978-1981). E livros, muitos livros. Livros raros que eu encontrava em sebos ou microfilmava na Biblioteca Nacional. Quem conhece “O eresipho do cafeeiro: breve estudo desta infecção epifítica, de Miguel Alamir Baglione (1878), “A cigarrinha dos canaviais”, de Adrião Caminha Filho (1944), “A Quarta Exposição Nacional de 1875”, de José de Saldanha da Gama (1876) e vários outros? E os relatórios de Henrique Luiz de Niemeyer Bellegarde, de Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, do DNOS?
Recorri aos viajantes brasileiros e europeus que passaram pelo Norte e Noroeste Fluminense, com Burmeister, Darwin, Freireyss, Léry, Ribeyrolles, Saint-Hilaire, Muniz de Souza, Tschudi e Wied-Neuwied. Recorri também a obras literárias e a mim mesmo, como acontece com quem está começando a vida acadêmica.
No mestrado, fui acadêmico, mas não produzi uma dissertação com ranços acadêmicos. Se a redigisse hoje, ela seria mais simples ainda. Dei um grande passo na tese de doutorado. Saí dos arquivos de gabinete e fui para o mundo exterior, ao escolher o litoral para estudar. Segui o professor do historiador Simon Schama, que falava num “arquivo dos pés” Fiz cinco longas caminhadas junto à costa. Na primeira, percorri o trecho entre os rios Itapemirim e Itabapoana; na segunda, entre os rios Itabapoana e Guaxindiba; na terceira, entre os rios Guaxindiba e Paraíba do Sul; na quarta, entre os rios Paraíba do Sul e Iguaçu; na quinta, entre os rios Macaé e São João. Evitei o trecho entre Barra do Furado e Macaé por já ter feito o percurso na década de 1980.
Um boné, uma camiseta e um calção. Numa das mãos uma câmera fotográfica. Na outra, um gravador. Pés descalços. A academia não exigia que os entrevistados autorizassem por escrito seus depoimentos. Assim, ouvia pessoas que encontrava nas andanças e fotografava paisagens, rios, animais e plantas. Sobretudo, as plantas. Eu as incluí como fontes primárias. Plantas e animais falam. Tive de aprender a entender o que eles me diziam. Sei que os historiadores vão me considerar um aventureiro. Muitos me consideram. Até me disserem que eu devia cursar biologia ou geografia. Mesmo os historiadores ambientais não são muito afeitos ao mundo exterior diretamente.
Superei barreiras e continuo trabalhando com um arquivo nada convencional. Na verdade, eu me sinto mais à vontade fora dos arquivos do que dentro. Sigo o exemplo dos historiadores George Macaulay Trevelyan e Arnold Toynbee em suas longas caminhadas.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.