Dora Paula Paes
02/09/2026 07:47 - Atualizado em 02/09/2026 07:48
Paula Gicovate
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Divulgação
Em 2022, a escritora campista Paula Gicovate se despediu da mãe, Laura Pereira Pinto. Desde então, passou a viver no mar revolto do amor e do luto. Foi do questionamento sobre “quem nos tornamos com as perdas” que nasceu seu terceiro livro, “Como navegar o abismo”. A obra confirma Paula, no meio literário, como uma das vozes mais interessantes de sua geração, com uma escrita que mergulha nas complexidades dos vínculos afetivos, na difícil arte de nascer de novo e nas marcas indeléveis do cuidado e do afeto femininos.
O lançamento do romance, inspirado também em experiências da vida real, acontece em Campos nesta quinta-feira (3), às 19h, no restaurante GV. O encontro com amigos terá um bate-papo da autora com a jornalista Marina Bruno, seguido de sessão de autógrafos. A obra, que marca a estreia de Paula na editora Record, já foi apresentada no Rio de Janeiro e em São Paulo.
A escrita de Paula é reconhecida por explorar os afetos, os desejos e as zonas mais delicadas dos relacionamentos humanos pela ótica feminina. Neste novo momento de sua literatura, a autora apresenta uma narrativa sobre perda, reconstrução e a difícil tarefa de voltar à vida quando tudo aquilo que parecia sólido deixa de existir.
Entre a ficcionalização e a experiência vivida do luto, Paula construiu a trajetória da protagonista Nara, uma chef de cozinha premiada que recebe a notícia mais importante de sua carreira na mesma noite em que descobre que sua mãe, Cecília, tem um câncer agressivo e incurável. Pouco tempo depois, a doença interrompe brutalmente uma relação marcada pelo amor e pela cumplicidade entre mãe e filha.
Com a morte da mãe, Nara abandona a vida que construiu no Rio de Janeiro, deixando para trás o trabalho, os projetos profissionais e o relacionamento com o namorado. Ela retorna a Fontana, cidade interiorana onde cresceu e passou parte da juventude. Lá, reencontra a avó, Júlia, uma mulher já idosa, marcada pela austeridade e pela dificuldade de expressar afeto.
Enquanto busca compreender a própria dor, Nara encontra na avó uma resistência em falar sobre a morte de Cecília. As duas passam a conviver em extremos opostos do luto. De um lado, a neta que precisa exorcizar a ausência e reaprender a existir. Do outro, a mãe que parece determinada a seguir vivendo como se tudo permanecesse igual.
“Quando uma versão de nós morre junto com alguém que amamos e é preciso nascer de novo, quem a gente vira?”, pergunta a autora. Ela mesma encontra uma resposta ao longo da obra: a morte de Cecília obriga Nara a confrontar tudo aquilo que parecia definitivo.
“O mesmo abismo desolador da perda é também um espaço vazio para a reinvenção”, afirma Paula.
A reflexão se amplia para uma questão recorrente na experiência feminina: a responsabilidade pelo cuidado. Ao longo da vida, Cecília dividiu-se entre o trabalho, a maternidade e os cuidados com a própria mãe. Esse papel acaba sendo herdado por Nara.
No livro, a culinária surge como pano de fundo da história, provocando os sentidos e despertando sentimentos que nem sempre podem ser traduzidos em palavras.
Apesar da distância e da aspereza da relação com a avó, Nara herda de Júlia o talento para a doçaria fina, como os chuviscos e os complexos doces de ovos. O que antes era uma necessidade financeira da avó transforma-se, para Nara, em profissão.
Diante do luto, a protagonista se vê impossibilitada de se dedicar ao que mais gosta: cozinhar. É, porém, no reencontro com sabores afetivos que começa a buscar caminhos para permanecer e não sucumbir ao vazio. A cozinha se transforma em espaço de elaboração da perda, mas também de descoberta de novos desejos.
O desejo, o amor, o sexo, o trabalho e a criação aparecem no romance como forças capazes de devolver movimento à existência quando tudo parece paralisado. Com humor, delicadeza e intensidade emocional, Paula constrói uma narrativa sobre aquilo que permanece depois do fim.
Sobre a autora - Paula Gicovate é autora dos romances Notas sobre a impermanência, semifinalista do Prêmio Oceanos 2022 e publicado em Portugal, e Este é um livro sobre amor, lançado também na Espanha.
"Como navegar o abismo" tem 208 páginas. O livro custa R$ 69,90, enquanto a versão digital (e-book) está disponível por R$ 39,90.
Conversa rápida
O que significa apresentar seu livro em Campos?
Paula — Estou emocionada há muitos dias por voltar a Campos para lançar um livro que escrevi enquanto navegava o luto da minha mãe. É a nossa cidade, o lugar onde eu nasci e onde minha mãe foi tão feliz. Ela era a maior incentivadora da minha carreira, então fiz questão de que o lançamento também acontecesse em Campos como uma homenagem a ela.
O livro é uma forma de homenagear sua mãe, Laura, mesmo sendo uma obra de ficção?
Paula — Tudo na minha vida vai ser uma homenagem a ela. Mesmo que Laura não seja Cecília, a personagem do livro, eu só escrevi essa história porque perdi minha mãe. Nara, a protagonista, foi uma mulher muito amada pela mãe, como eu fui, e acho que uma criança amada ganha um superpoder, inclusive o de continuar. Isso tanto Nara quanto eu ganhamos. Criei no livro uma mãe incrível porque tive uma. Consigo falar de amor porque o vi de frente.
Ao mesmo tempo, no livro também tem uma mãe difícil, porque, ao perder a minha, eu descobri que nem toda mãe era assim. O que eu tinha era raro. Eu achava que todo filho era muito amado. Por isso, quis trazer luz para esses dois polos do amor materno: a presença e a falta.
Alguns amigos da sua mãe dizem: “Estou curiosa para ler”. Quem conhece a história de vocês vai reconhecer essa relação?
Paula — Acho que vão reconhecer o amor de mãe e filha e vão ver que a inspiração de Cecília foi a existência luminosa da minha mãe. Porém, é um livro que fala de muitos outros temas. Acho que quem perdeu alguém vai se identificar e, ao mesmo tempo, quem de alguma forma precisou recomeçar a vida de maneira compulsória também vai entender o que eu falo. Quando o leitor se reconhece e sente algo que escrevi, já não estou mais sozinha.