É bom ter família. Filhos e netos. É bom ter contato com a terra. Plantar árvores. Cultivar uma horta. Ter animais. Um ditado antigo diz que um homem deve ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Tenho filhos. Plantei muitas árvores e escrevi mais de 40 livros. Durante 40 anos, servi ao magistério, bem mais que Jacó serviu Labão por causa de Raquel, a bela pastora.
Mas me faltava algo. Eu gosto de ilhas. Não de continentes, que são ilhas imensas. Gosto de ilhas pequenas e misteriosas. Acho que trago este interesse desde os sete anos, quando passei um mês inteiro na ilha do Mel, na baía de Paranaguá.
Arthur Soffiati
Como guardei saudades misteriosas dessa ilha, voltei a ela mais duas vezes. A última foi em 2018. Logo no ano seguinte, cismei de visitar Tristão da Cunha, ilha perdida no Atlântico sul. Dizem que se trata da ilha mais remota do mundo. Ela foi avistada pela primeira vez, em 1506, pelo navegador português Tristão da Cunha. Passou a ser habitada pela Inglaterra, juntamente com Ascensão e Santa Helena, também no Atlântico Sul. A sede da hoje Tristan da Cunha é o povoado de Edimburgo dos Sete Mares.
Viajei de avião até a África do Sul e parti da cidade do Cabo numa navegação de sete dias. Acabei retido por mais tempo na ilha por conta da Covid-19. Fiz passeios, caminhadas e navegações em torno da ilha vulcânica. Ainda hoje, leio notícias de lá no “Tristan da Cunha News”.
Em 2022, fiz uma viagem imaginária ao Catar para assistir à Copa do Mundo. Aproveitei para conhecer a ilha ferruginosa de Ormuz, onde existem ruínas de um forte construído pelos portugueses no início do século XVI.
Arthur Soffiati
Já controlado o vírus da Covid, pude fazer uma viagem à Europa. Nos meus planos, estava uma visita à ilha da Madeira e à ilha de São Miguel, uma das nove do arquipélago dos Açores. Ainda encontrei encantos em Funchal, capital da Madeira, sobretudo no interior e em meio à Laurissilva, aquela floresta imponente no alto da montanha. Percorri também grande parte da ilha de São Miguel, admirando suas paisagens naturais e culturais. Mas não fiquei satisfeito. Meu desejo era conhecer também as outras oito ilhas, sobretudo Corvo, a mais ocidental e menor ilha do arquipélago. Meu trisavô veio dos Açores. Gostaria também de conhecer a pequena ilha portuguesa de Porto Santo. Não foi possível na minha viagem de 2024. Mas, de volta a Portugal continental, viajei para Galícia, na Espanha. Na entrada da ria de Pontevedra, avistei a bela ilha de Ons. Tive um impulso incontrolável de conhecê-la, mas não foi possível.
Em 2025, voltei-me de novo para o Brasil. Tracei minuciosamente um roteiro que acompanhava a linha do Equador, na Amazônia. Não se pode seguir essa linha o tempo todo. Passa-se acima e abaixo dela. Conheci São Gabriel da Cachoeira, no alto rio Negro. Trata-se de uma região mágica dentro da Amazônia, pois tem uma história rica e, ao mesmo tempo, sofrida. São Gabriel é a capital indígena do Brasil, com as línguas nheengatu, baniwa e tukano como línguas oficiais ao lado do português.
Arthur Soffiati
Depois de descer o rio Amazonas de Manaus a Belém num grande catamarã durante cinco dias, viajei para Macapá e, de lá, para a pequenina cidade de Afuá, onde não podem circular automóveis. Toda a cidade é uma grande palafita na ilha de Marajó. Os meios de transporte são caminhada a pé ou de bicicleta. As casinhas são pintadas e muito atraentes. Afuá é conhecida como a Veneza da ilha de Marajó. Ao sul desta grande ilha fluviomarinha, eu já conhecia Soure e Salvaterra.
Meu próximo destino é a ilha de Páscoa, neste ano de 2026. Há muito tempo, alimento o sonho de conhecê-la. Talvez seja a última viagem a ilhas da minha vida. Creio que a idade não permite mais aventuras. Se permitisse, eu gostaria de conhecer a ilha de Socotra, na entrada do mar Vermelho. Ela pertence ao Iêmen. Tem uma vegetação nativa endêmica que só ocorre ali. Os portugueses também tentaram construir uma fortaleza nessa ilha para controlar a entrada do Mar Vermelho, mas não deu certo.
Se não puder conhecer os lugares que desejo, farei viagens imaginárias.
* Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.