* Arthur Soffiati
- Atualizado em 06/05/2026 12:29
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Quando se trata da história do cinema no Brasil, os nomes mais lembrados são Humberto Mauro, Mário Peixoto, Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Cacá Diegues, Fernando Meirelles, Walter Salles, José Padilha, Héctor Babenco, Bruno Barreto, Anna Muylaert etc. A lista é grande. Que o leitor consulte o Google. Nela, porém, não aparecem os nomes dos pioneiros. Não aparece José Medina, a menos que seu nome seja digitado separadamente.
José Medina nasceu em Sorocaba no ano de 1894 e morreu em 1980. Viveu quase um século. Trabalhou como ator, fotógrafo e radialista, mas ficou conhecido como um dos pioneiros do cinema brasileiro. Medina começou como projecionista de cinema em 1910. Estudou cinema por conta própria na cidade de São Paulo, para onde se mudou em 1912. Com Gilberto Rossi, fundou um pequeno estúdio, filmando “Exemplo Regenerador”, um curta lançado em 1919.
Ele atuava em quase todos os filmes que dirigiu. Sua filmografia não é grande, mas contribuiu significativamente para afirmar a arte do cinema no Brasil. Além de dirigir filmes para o cinema, ele inaugurou o jornal da tela na década de 1920. Em 1921, começou com esse informativo, com título geral de “Assuntos e Atualidades de São Paulo”, ano em que também lançou “Perversidade” e “Carlitinhos”. No ano seguinte, lança “A Culpa dos outros” e a comédia “Do Rio a São Paulo para casar”, que mereceu uma crítica de Mário de Andrade não muito elogiosa por imitar traços da cultura estadunidense, como riscar fósforo em sola de sapato. Mário foi um dos primeiros a vislumbrar o cinema como arte com linguagem própria. Nem literatura, nem teatro, nem música, nem fotografia apenas. Mas fotografia em movimento.
Medina ainda filmou “Nos pantanais de Mato Grosso” e “Gigi” (1925), “Passando o conto” (1926), “Fragmentos da vida” (1929) e “O canto da raça” (1943). De sua filmografia, só restaram “Exemplo regenerador” e “Fragmentos da vida”. Um incêndio no Estudio Rossi destruiu os outros, sobrevivendo apenas fotos e cartazes.
Nos dois filmes sobreviventes, Medina enfocava questões morais de maneira moralista. “Exemplo regenerador” versa, em poucos minutos, a questão do casamento em que o marido não dá atenção à esposa até que esta simule infidelidade. As condições para realizar este curta foram mínimas. O filme pode ser considerado o primeiro drama do cinema brasileiro.
Já “Fragmentos da vida” tem duração de 40 minutos. Os críticos o consideram um marco da cinematografia brasileira por usar planos-sequência em ruas e praças. As tomadas são fantásticas. O estúdio é a cidade de São Paulo, que estava passando por rápidas mudanças. As tomadas panorâmicas deslumbram. São Paulo é vista do alto em plano aberto. A fotografia não apresenta mais a mesma qualidade pela ação do tempo. O roteiro baseia-se em conto do americano O. Henry.
Talvez a escolha tenha sido feita por conta de uma mensagem moral: o trabalho dignifica o homem. Mas o malandro só descobre o conselho do seu pai operário quando está na cadeia, onde se mata.