Edmundo Siqueira
26/07/2026 21:11 - Atualizado em 26/07/2026 21:13
Foto: ernie114/Pixabay
Entramos de maneira efetiva nas eleições deste ano. A Copa se foi — rápida e dolorosa — e a maior parte das convenções aconteceu. Estamos a 70 dias de uma eleição estranha: importante demais para ser relegada a segundo plano e previsível o bastante para gerar um certo tédio e preguiça em discuti-la.
Mas é aí que a coisa complica — na preguiça. Estamos cansados de batalhas, eu sei. Estamos há anos discutindo em redes sociais, em reuniões de família, em grupos de WhatsApp, no trabalho e até no boteco (aquele ambiente sagrado de risadas e desavenças de times de futebol). Fomos expulsos de grupos e saímos de outros tantos, parentes não nos olham do mesmo jeito, evitamos lugares com “certas pessoas” e bloqueamos mais de uma dezena de perfis no Instagram.
Portanto, viemos de tempos de guerra. Conflitos constantes por termos construído um ambiente em que decisões políticas definem nossa identidade. A declaração de voto em um político ou partido é logo vista como definidora de características pessoais, de formas de pensar. Além disso, como em toda guerra, os lados radicalizados tendem a endurecer ainda mais quando pressionados. E aí cabe uma questão: devemos entender que não há solução e abandonar os “campos de luta” ou continuar em guerra?
Essa indagação admite duas respostas opostas, ambas defensáveis com argumentos igualmente genuínos. Mas a proximidade das eleições parece reacender a necessidade de respondê-la em tom de continuidade. A premissa dessa dualidade impõe uma guerra inevitável — que nos obriga a desertar ou entrar em novas batalhas —, mas há os que não percebem essas diferenças políticas como um embate, e sim como algo que deveria gerar concordâncias — paz, portanto.
A questão é que a democracia não é um ambiente distensionado. Para se manter funcional, a democracia exige tensões constantes, choques entre visões de mundo distintas que disputam qual delas será a regra do jogo vigente. O equilíbrio e alternância pacífica são o que se espera idealmente, mas a realidade ideal não é algo a ser conquistado, mas buscado.
A paz e o silêncio
Buscar a convivência pacífica não significa abrir mão de se posicionar, tampouco silenciar diante de injustiças. Conviver pacificamente diante das diferenças é o que o regime democrático espera e a convivência vinda do medo e da repressão é o que uma ditadura impõe. O resultado é o mesmo — o viver pacífico —, mas as formas de chegar até ele fazem toda a diferença.
Cabe uma ponderação sobre a “paz”: ela pode significar ausência de conflitos, mas a paz em uma sociedade democrática significa que há soluções pacíficas para os conflitos, que todos serão tratados igualmente nessas soluções.
A “preguiça” de discutir política nos meios sociais em que estamos inseridos vem de um esgotamento e da ideia de que não será possível mudar o outro, o que ele pensa politicamente e sua escolha de candidato. Em casos mais extremos, vem do medo da reação, de sofrer represálias e até atos violentos.
Excetuando-se os casos que envolvem crimes, não é saudável democraticamente aceitarmos o “não-argumento” e a omissão política em ambientes em que devemos ter voz ativa. E não apenas na política eleitoral e partidária, mas também devemos ter o direito de argumentar e de nos posicionarmos diante das situações cotidianas. Quando isso é suprimido pelo ambiente ou por alguém, e não por uma decisão pessoal, vira um problema. Em outras palavras: quando queremos nos manifestar diante de uma injustiça ou de um posicionamento que consideramos errado e não o fazemos por medo de como será a reação, não é paz e sim silenciamento.
Então, temos as eleições. E elas são justamente uma das principais formas de resolução pacífica de um conflito — como as democracias brigam e decidem sem destruir nem silenciar. O voto é o substituto civilizado da guerra, não sua continuação. Ou seja: aquilo de que você está cansado — a política, a disputa, o desgaste familiar — não é a doença; é justamente o remédio.
Mas, como toda boa ciência médica explica, a diferença entre um remédio e um veneno é a dosagem e a forma de aplicação. A disputa praticada como aniquilação — em que se espera a extinção do oponente depois da apuração — deixa de ser eleição e volta a ser guerra.
Daqui a pouco mais de dois meses, e depois deles e de um eventual segundo turno, as pessoas continuarão a pensar diferente. A pergunta certa a se fazer é: a voz dos derrotados será garantida independentemente do resultado?
Porque a democracia não se revela na festa dos vencedores, mas na liberdade que continua assegurada aos derrotados.