Arthur Soffiati - Roteiro dos Sete Capitães
*Arthur Soffiati - Atualizado em 01/08/2026 10:04



Novamente, estou às voltas com o Roteiro dos Sete Capitães, documento que
pode ser considerado a certidão de nascimento do norte fluminense. Não se discute
muito a pouca documentação deixada por Pero de Gois resultante da tentativa do
donatário em colonizar a capitania de São Tomé, que lhe foi doada. Seu intento
fracassou. Seu filho, Gil de Gois, devolveu a capitania à Coroa Ibérica em 1619. Tudo
devidamente documentado.
Sabendo que as terras da capitania estavam disponíveis, sete fidalgos
(homens ricos) que haviam lutado no Rio de Janeiro e em São Vicente requereram
terras a título de sesmarias entre os rios Macaé e Iguaçu. Seu pleito foi atendido por
Martim Correia de Sá, então governador do Rio de Janeiro, mediante carta de doação
de agosto de 1627. Os sete capitães eram Miguel Aires Maldonado, João de Castilho
Pinto, Antonio Pinto Pereira, Miguel Riscado, Gonçalo Correia, Manuel Correia e
Duarte Correia Vasqueanes.
Eles fizeram três viagens às suas terras e iniciaram a colonização contínua do
futuro norte fluminense, sem discutir agora o pioneirismo de pescadores que teriam se
instalado em Atafona dez anos antes. O documento, conhecido como Roteiro dos Sete
Capitães, teria sido registrado em Cabo Frio, em 1664, e no cartório de São João da
Barra muito tempo depois. Ele foi queimado em Cabo Frio por ataque de traças. Parte
dele foi divulgada por Augusto de Carvalho, no seu livro “Apontamentos para a história
da capitania de São Tomé”, publicado em 1888. Um advogado seu amigo doou-lhe
cópia obtida no cartório de São João da Barra. Carvalho não publicou a íntegra do
documento. Essa publicação só se efetuou em 1893, na Revista do Instituto Histórico
e Geográfico do Brasil. Em 1908, José Vieira Fazenda, em número da mesma revista,
acusou o documento de apócrifo porque, em 1664, quando o documento foi enviado
por Miguel Aires Maldonado para registro em Cabo Frio, ele já havia morrido há muito
tempo.
Na parte final do Roteiro, há uma discussão entre Maldonado e Salvador
Correia de Sá e Benevides sobre as sesmarias que ficou conhecida como “Escritura
endiabrada”. Salvador manifesta interesse pelas sesmarias dos capitães e propõe uma
nova divisão. O historiador inglês Charles Boxer também considera o documento
apócrifo porque, em 1647, quando ocorreu a discussão, Salvador Correia de Sá e
Benevides estava em Portugal.
A “Escritura endiabrada” foi o motivo de Viera Fazenda, Boxer e José Honório
Rodrigues para considerarem o documento apócrifo. Parece que ninguém leu o relato
das três viagens dos capitães. Se leu, não deu a ele a devida atenção. Foram
historiadores, ora essa! Historiador se interesse por gente, não por território.
Renato Pereira Brandão leu o relato das três viagens e reforçou a apocrifia do
documento porque um dos capitães batiza uma lagoa de Saquarema de Cabo Frio,
como se não existissem não uma, porém duas lagoas de Saquarema no norte
fluminense e drenadas pelo DNOS.

No mais, as três viagens, sobretudo a segunda, mostram que os capitães
estavam pisando a planície do norte fluminense melhor do que nós pisamos hoje. Eles
reconheceram a restinga e a planície aluvial. Batizaram as lagoas de Carapebus,
Jagoroaba, Feia, Salgada e outras. Homens rudes, eles se maravilharam com as
campinas, as lagoas e os rios. Encontraram dois grupos indígenas goitacá: um na
margem sul da lagoa Feia e outro no Cabo de São Tomé. Entre eles, viviam
degredados portugueses cujo navio naufragou nas costas do norte fluminense.
Encontraram, inclusive, um negro que supuseram se tratar de um escravo fugido. Ele
despareceu no dia seguinte.
Os capitães vieram preparados para enfrentar os indígenas, que julgavam ser
violentos. Ao contrário, os habitantes nativos lhe oferecerem pesca e caça para se
alimentarem. O rio dos Sete Capitães não é o Paraíba do Sul, como é para nós
atualmente, mas o rio Iguaçu, muito bem descrito no Roteiro.
Mas, afinal, quem é seu autor? Consta, no seu início, que foram os capitães
Miguel Aires Maldonado e José (João) de Castilho Pinto. Nasce aí outra desconfiança
que me parece oportuna. Os capitães, embora donos de muitas terras e engenhos,
talvez não soubessem escrever. Assim, levantam-se duas hipóteses: ou um deles era
letrado (João de Castilho Pinto) ou os sete contrataram um escrivão para registrar as
três viagens. O pronome pessoal “eu” só aparece uma vez na parte relativa às
viagens. Não se sabe se esse pronome revelaria um escrivão ou se João de Castilho,
nome que figura logo em seguida do “eu”. O documento teria sido escrito durante as
três viagens? Pela minha experiência de excursionar a pé, sei que é difícil escrever um
documento em movimento. Eu registrava o que via em gravador para depois
descrever. Assim, crê-se que o escrivão anotou os pontos principais para depois
redigir o documento quando de volta a Cabo Frio ou Rio de Janeiro. O documento foi
redigido espontaneamente ou sob pressão de interesses cobiçosos? Entendo que esta
é a questão a ser elucidada.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras. 
 

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