Chequinho pelo lado acusado
Aluysio Abreu Barbosa e Paula Vigneron - Atualizado em 17/06/2017 17:26
Thiago Virgílio
Thiago Virgílio/Antônio Leudo
 
Um bloco de oposição com até 10 vereadores e participação direta nas CPIs da Lava Jato e das Rosas, já publicadas em Diário Oficial. Conhecido em seu mandato anterior como “Pitbull Rosa”, o vereador Thiago Virgílio (PTC) chegou à Câmara Municipal ameaçando morder com boca larga. Ele também revelou a visão que os acusados têm da operação Chequinho, questionou os cinco dias que passou na cadeia por conta dela e fez críticas aos métodos de investigação. Embora ressalte que torcer contra o governo Rafael Diniz (PPS) é torcer contra Campos, além de admitir seu canal aberto com o chefe de gabinete Alexandre Bastos, Thiago promete não dar facilidades na missão de fiscalizar os atos do prefeito e do presidente da Casa de Leis goitacá, vereador Marcão (Rede). Se vai só rosnar ou de fato morder, os próximos dias dirão.
Folha da Manhã — Apesar de condenado pela Justiça Eleitoral de Campos na Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije), você conseguiu assumir seu mandato com um recurso no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) a partir da concessão de um habeas corpus criminal no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Seu recurso na condenação eleitoral ainda não foi julgado no TRE, que já condenou Jorge Magal (PSD) e Vinícius Madureira (PRP). Qual sua estratégia para não seguir o mesmo caminho deles, já que as acusações na Chequinho são basicamente as mesmas?
Thiago Virgílio — Pelo que os nossos advogados vêm falando, as estratégias serão diferentes das que foram usadas pelos vereadores Magal e Vinícius Madureira. Nosso jurídico acha que houve alguns equívocos nas estratégias dos advogados deles, sem querer fazer nenhuma crítica, até por questão de ética.
Folha — Mas você pode dizer qual é a diferença dessa estratégia?
Thiago — Não. Eu não sei. Não tenho conhecimento porque os advogados não abriram isso para a gente. Mas a gente confia que terá êxito no TSE. Eu entendo ali, por exemplo, no caso do Madureira, pelo que a gente soube, parece que teve uma tentativa de supressão de instância. Antes de ele pedir a cautelar no TSE, deveria ter uma declaração de admissibilidade do TRE. Parece. Não sou advogado. Tanto é que Magal ainda não entrou. Estão trabalhando para que tenha essa declaração de admissibilidade do TRE, para que, assim, ele possa tentar. Pesquisei com vereadores que são advogados, como Thiago Ferrugem e Vinícius Madureira, e eles mostraram que, praticamente, todo mundo que entrou com uma cautelar, neste sentido, consegue êxito. Até porque o TSE, no julgamento do nosso habeas corpus, deixou claro que entende que vereador tem que ficar no cargo até a última instância.
Folha — Além da Aije, seu envolvimento na Chequinho, como o de todos os demais candidatos beneficiados no “escandaloso esquema” da troca de Cheque Cidadão por votos na eleição de 2016 gerou também ação criminal na 100ª Zona Eleitoral de Campos, ainda não julgada. Qual sua expectativa?
Thiago — Eu participei de uma audiência até agora. Doutor Ralph até dispensou os réus. Estávamos eu, Linda Mara (PTC), Jorge Rangel (PTB) e Kellinho (PR). Logo que chegamos, ele liberou. Os réus poderiam sair da sala. Não precisavam participar. No primeiro depoimento, que foi da Beth Megafone, ele perguntou a ela: “Só tem um réu na sala. Quer falar na presença dele ou não?”. Ela ficou sem responder por uns 30 segundos. Eu levantei e falei que estava saindo para não atrapalhar. Eu poderia ter ficado, mas não quis. E, agora, tem uma audiência marcada para o dia 26. Eu também estou muito confiante porque, pelas provas que têm, no meu caso, acho que não são consistentes para poder me condenar. Mas cabe ao juiz. Não sei qual é o entendimento dele. Tiveram o entendimento sobre Magal. Nem aceitaram a denúncia dele. Dá uma esperança de que eles possam rever com calma. Como no caso do Cláudio Andrade (PSDC). Ele também respondeu e foi arquivado. O Ministério Público entrou...
Folha — Cláudio Andrade na Chequinho?
Thiago — Cláudio Andrade na Chequinho. Foi o único caso em que teve acareação. Nenhum outro teve. Eu tenho o processo e posso te fornecer aqui mesmo. São 84 páginas. Na Chequinho. Foi arquivado.
Folha — Qual seria o envolvimento de Cláudio Andrade?
Thiago — Uma das assistentes sociais o beneficiou. Teria pedido. Só que teve acareação. Ele também foi denunciado.
Folha — Uma daquelas assistentes sociais, que fizeram denúncia inicial à Polícia Federal PF), teria falado que beneficiou Cláudio Andrade também? Mesmo ele não estando no grupo?
Thiago — É. Porque o contato dele seria com a assistente social. Seria pessoal. E, aí, houve uma acareação com as três pessoas. Elas falaram que não teve isso. E foi simplesmente arquivado. Então, a gente fica com esperança. Algumas pessoas estão sendo absolvidas; de outras, nem a denúncia está sendo aceita. A gente acredita que possa ter uma decisão favorável na criminal.
Folha — Ainda no ano passado, você foi afastado do seu mandato anterior e depois preso por cinco dias, pelo envolvimento na Chequinho. Chegou a pensar em fazer delação premiada enquanto esteve na Casa de Custódia?
Thiago — Nunca cheguei a pensar.
Folha — O Ministério Público ou a PF chegaram a propor a delação?
Thiago — Não. No dia, não foi formal, mas um dos agentes disse: “Rapaz, você tem que pensar na sua família. Você é casado. Estou vendo a aliança no seu dedo. Deve ter filho”. Eu disse que tenho três.
Folha — Sabe qual o nome do agente?
Thiago — Não. Se eu encontrar, hoje em dia, até sei reconhecer.
Folha — Então não pensou em fazer delação?
Thiago — Hora nenhuma. E também não tive proposta.
Folha — E se tivesse?
Thiago — Com certeza, não faria. Eu sou totalmente contra a delação premiada.
Folha — Mas você acha possível fazer uma operação como a Lava Jato, que já recuperou R$ 10,3 bilhões desviados dos cofres públicos, sem delação premiada?
Thiago — Não é questão de ser possível. É questão de que não tem para onde correr. É diferente do meu caso. Eu não tinha nada para entregar.
Folha — E se fosse executivo da Odebrecht, você falaria?
Thiago — Ali, acho que não tem para onde correr. Com as provas, não tem para onde.
Folha — Depois de assumir seu novo mandato, você disse na tribuna da Câmara que chegou a pensar em desistir. Por quê?
Thiago — Em alguns momentos, porque foi muito difícil. A meu ver, criaram um clima de terrorismo.
Folha — Quem criou?
Thiago — Acredito que a Polícia Federal, a própria mídia e o Ministério Público. Para você ter ideia, os dias em que eu fiquei mais tranquilo, desde quando estourou a Operação Chequinho, foram os dias em que eu fiquei preso. Eu sabia que, pelo menos, minha mãe, meu pai e minha esposa sabiam que não tinha mais nada para acontecer comigo. Porque (diziam): “olha, vai prender; no dia da eleição, prende todo mundo”. A gente ouvia dizer que, no dia da diplomação, não dariam o diploma; que, no dia da posse, caso diplomados, não tomaríamos posse. Ali, eu fui muito prejudicado porque todo mundo sabe que eu era o candidato (à presidência da Câmara) do grupo da época, da prefeita. Pela composição e pelo trabalho feito, a gente acreditava que tinha chance de ganhar pela conversa que tínhamos com vereadores e partidos. Com a canetada que nós tomamos, deixaram de fora seis vereadores, alguns com experiência, como Jorge Rangel e Kellinho. Isso aí desarticulou. As pessoas falavam: “aqui, não vai dar mais”. E começaram a conversar com o pessoal de Marcão (Rede). Então, acreditamos que isso foi primordial para que Marcão levasse a (presidência da) Mesa.
Folha — Então, esse foi o clima de terrorismo do qual você falou?
Thiago — É. Terrorismo de “vai prender”, de Polícia Federal. E ainda acontece. Em minha opinião, não há necessidade. Até as testemunhas, hoje, estão sendo notificadas para uma audiência pela Polícia Federal. Isso já assusta as pessoas. O cara está na casa dele e chega a Polícia Federal. Existem os oficiais de Justiça para isso. Então, para que isso?
Folha — Você falou que um clima de terrorismo foi criado pelo Ministério Público, Polícia Federal e imprensa. Você acha que imprensa, MP e PF se juntaram?
Thiago — Não. Em minha opinião, não houve uma aliança. Mas houve cada um atuando dentro do que cabia. Vou dar um exemplo da minha prisão. Primeiro, me chamaram lá, em um dia de sábado, jogo do Flamengo. A mesma pessoa, o policial federal Alessandro, me ligou na quinta-feira, dizendo: “Eu preciso que você tome ciência de que está sendo afastado da Câmara”. Ele me ligou em um dia de sábado e falou: “Você precisa vir à Polícia Federal para poder assinar novamente”. Eu disse que tinha assinado. Ele disse: “Mas o cara encrespou com sua assinatura”. Isso no WhatsApp. Tenho essa conversa salva até hoje. Ele disse: “Calma aí. Não é isso. Ele quer que você coloque o seu CPF com sua letra”. Perguntei que horas. “Às 15h”. Cheguei. Avisei que estava lá na frente. Entrei. Deu meia hora, 40 minutos. Tinha um primo meu lá fora, no carro. Pedi para pegar a minha filha, que estuda no Auxiliadora. Tinha que pegar às 16h. Acho que, pela câmera, eles viram que fui até o portão e pensaram que eu ia embora. Porque não falei com ninguém. Estava sentado no pátio. Aí, desceu outro delegado, meio ofegante. Ele me puxou para o canto e disse: “Infelizmente, o documento que tem para você aqui não é para você assinar. Tem um mandado de prisão para você”. Eu perguntei: “Mandado de prisão? Mas pediram para eu vir aqui assinar”. Liguei ao advogado da Câmara e falei que não tinha dez minutos que eu havia sido comunicado sobre a prisão. Ele disse: “Não, eu vi há 20 minutos, no blog da Suzy” (Monteiro). Então, a Polícia Federal, no meu entendimento, era o tempo todo querendo mídia. Não sei se a Lava Jato estimulou. E todo mundo nesse clima, o Judiciário abusando. Em minha opinião, no Brasil inteiro, existem vários abusos ocorrendo, e nós vivemos uma ditadura do Judiciário. Não falo em Campos, mas de modo geral. E nós temos que enfrentá-la. O cara chega à sua casa, às 6h da manhã, e te leva em uma condução coercitiva. Ou te leva preso porque ouviu dizer ou porque você pode vir a atrapalhar as investigações. Eles falaram que pelos cargos que eu tinha, de vereador e vice-presidente da Câmara, eu poderia atrapalhar. Qual o indício tinha? Será que eu não tinha, primeiro, que ter atrapalhado alguém? Ou ter ido em cima de alguém? Não houve nada disso. Então, não tinha motivo para a prisão. Eles vêm, jogam a gente para dentro de uma cela por cinco dias, sujam o nosso nome, desgastam a nossa imagem. Eu estava no meu primeiro mandato. São questões irreparáveis.
Folha — Você ainda pensa em desistir?
Thiago — Não. Foram alguns momentos. Não foi um só. Minha família não estava suportando mais. Eu era estudante de Direito. Meus amigos diziam para eu voltar a estudar, largar política. Ouço isso, às vezes, de político experiente. Paulo Feijó falou: “Thiaguinho, não dá mais”. Então, políticos experientes acham que não dá mais para tocar a política. Acho que, hoje, é a atividade mais perigosa que tem. O policial, que trabalha na UPP, trabalha mais tranquilo do que uma pessoa que trabalha em cargo eletivo. Se chegar uma pessoa e disser que eu fui ao prefeito e pediu isso, eles estão levando. Prendem. Não param mais para ouvir os dois lados. Está cada vez mais difícil por conta do Judiciário.

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