Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VIII)
- Atualizado em 18/06/2017 10:02
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 18 de junho de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VIII)
Arthur Soffiati
Depois da expulsão dos Jesuítas do império colonial português pelo Marquês de Pombal, em 1859, os canais naturais da baixada campista ficaram sem limpeza periódica. Houve o entupimento deles. Pombal concebeu um projeto avançado para o império português. A monarquia não enfrentaria mais a rivalidade interna de nenhuma instituição. Todos os habitantes do império seriam considerados súditos, inclusive os índios. A escravidão foi abolida em Portugal, mas não nas colônias. Todos os pontos vulneráveis seriam defendidos com fortalezas.
O plano de Pombal de implantar um despotismo esclarecido fracassou. Os tempos eram outros. Rebeliões de cunho liberal varreram o império colonial, inclusive em Portugal, sua sede. Não foi possível substituir os Jesuítas, que se infiltravam nos poros da metrópole e das colônias. Na planície deltaica, o grande problema era o fluxo das águas e as cheias. Couto Reis lista os canais naturais sujeitos a entupimento: Castanheta, do Rodrigo, do Ingá, do Barro Vermelho, dos Canudos, Vala Grande, da Onça, do Marcelo, de Filipe, do Coqueiro, do Pensamento, da Mãe Teresa, Grande, da Passagem, do Mulaco, Madureira, da Capivara, dos Pauzinhos, do Tucum, Doce, Fundo e vários outros. Esclarece ele: “Todos estes brejos e outros muitos oferecem admiráveis pastos em tempo seco, porém, com as grandes chuvas se alteram de modo que em canoas se navegam desembaraçadamente, passando-se de uns para outros mais vizinhos.”
A rigor, não eram córregos como entendemos, mas defluentes que saíam da lagoa Feia e do rio Paraíba do Sul em direção ao rio Iguaçu. Eram defluentes de vários sistemas em direção a outros que ficavam tomados de aguapés e bofes, plantas que dificultavam o escoamento hídrico. No conjunto, eles formavam um verdadeiro caos, no sentido científico. A engenharia sanitária tentará impor uma ordem geométrica a este caos no século XX.
Embora não simpatizasse com os Jesuítas, Couto Reis escreve sobre as consequências da sua expulsão para a baixada: “Depois daquela extinção tentaram algumas fazendas grandes fazer os mesmos benefícios; esmoreceram por descuriosos e pouco zelosos do bem público, dizendo que como todo o povo juntamente não concorre para aquele necessário e importantíssimo serviço, e não veem para o seu interesse pessoal a menor precisão, não estão para sujeitar-se a um trabalho inútil; menos lembrados de que com estes descuidos ou negligência, virão a experimentar nos seus campos e gados gravíssimos danos; e a razão é porque as águas não tendo livre expedição ficam paradas; e quem duvidará que daqui se sigam as podridões e consequentemente epidemias?
O capitão cartógrafo já identificava nos proprietários rurais da baixada um traço típico da modernidade: o individualismo. Os missionários da Companhia de Jesus tinham espírito público e trabalhavam gratuitamente para a comunidade. Os proprietários pensavam unicamente em seus interesses pessoais, descuidando dos assuntos públicos. Diante desse quadro, o capitão propõe: “deveria haver uma ordem rigorosa nas Câmaras deste Distrito, para que anualmente obrigassem aos povos, debaixo de certas penas, a concorrerem para um benefício de tanta utilidade e importância, procedendo-se com as mais justas regras da equidade, a fim de que à proporção das forças de cada um se repartisse o trabalho que em menos de oito dias se concluía sendo bem dirigido.”
O voluntarismo dos proprietários rurais não aceitaria qualquer decisão das câmaras municipais para executar atividade de interesse público, como reconhece o próprio Couto Reis ao descrever o perfil do campista: “nada mais apetecem que a vida campestre; possuem bons cavalos para seu divertimento, nutrição para sua rebeldia e amparo de inobediência, como via mais pronta e segura para toda a sorte de libertinagem; nascendo desta má inclinação criarem-se tantos vadios para o flagelo dos pacíficos e mais virtuosos; cometendo roubos nos gados, sendo assassinos e deteriorando a boa harmonia da sociedade; e o mais é que a continuação de alguns gênios possuidores desta maldade não faz expectação e conhecendo-se nas praças, passeiam nelas sem o menor receio, logrando estimações, talvez por não causar novidade e estranheza, um uso inveterado.”
Diante de tal individualismo, “(...) seria melhor que a Câmara tomasse este benefício a seu cargo, dirigindo o trabalho, de modo que fazendo uma das fazendas por si só esse benefício, se obrigassem as que se seguissem – uma depois de outra – sucessivamente a fazerem o mesmo quando fosse o tempo próprio, sem jamais concorrerem juntas por conveniência particular a fazerem este precioso benefício no combro do mar, em o sítio chamado do Furado: com pás e enxadas afastam as areias, abrindo um rego ou vala até por que por ele se encaminham as águas facilmente, e correm para o mar com força prodigiosa formando uma barra de muito fundo e largura, que para vadear-se é necessário canoas. Logo que a Barra do Furado se conservava aberta, concorria o Mestre de Campo José Caetano Barcelos mandando uma canoa a gente para dar passagem aos viajantes (...) Assim se esgotam os campos, até que os ventos contrários arrastando areias com as violências do mar a vêm tapando.”

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