quero voltar!
- Atualizado em 14/06/2017 21:29
do céu se vê
do céu se vê
Quero voltar!
Cândida Albernaz
Hoje eu morri. Não posso dizer ainda se é bom como alguns esperam que seja ou se é tão ruim quanto outros dizem. Por enquanto estou achando um saco. Não vejo nada além do que via antes e também não encontrei nenhum parente ou amigo que se foi. Na verdade o que mais incomoda é o desespero de minha filha, Carolzinha. Tenho um casal, ou melhor, tinha. Esse negócio de falar no passado vai levar um tempo para eu acostumar.
Queria saber como está minha mulher, mas ela sumiu daqui. Acho que vou dar uma volta pela casa.
O que é isso? Chorando abraçada com o Alfredo?! Sempre disse que não gostava dele, que era folgado, mulherengo e não servia para meu amigo, que bebia demais, que... Será? Nunca percebi nada. Acho que não... Ele beijou o rosto dela muito próximo à boca e estão se olhando mais tempo do que deveriam.
Carol acabou de entrar. Bem feito! Se ia rolar alguma coisa, estreparam-se. Isso mesmo, filhinha, não saia daí não, porque estes dois querem me fazer de corno depois de morto. Dizem que quando a gente morre, não tem problema, não somos mais denominados corno, afinal a mulher é viúva e viúva pode. Comigo não!
Veja só você, em vez de estar preocupado porque morri, estou pensando em como evitar que minha mulher me traia, mesmo já morto.
Sempre tive alguns casos pela rua, no trabalho, nos dias em que dizia que ia jogar... E as reuniões marcadas com fulano ou sicrano? Casa de massagem era do que mais gostava. Tempo bom. Mas espera aí! Sou homem, é diferente, não posso evitar. Ou não podia. Ai, ai.
Será que agora vou descobrir que ela fazia o mesmo? Ah, danada. Só por imaginar sinto o coração acelerar. Engraçado, como acelera se não bate mais? Esquisito isso.
Olhe quem acaba de chegar. Falei que não queria este rapaz em nossa casa. Foi só eu morrer e o sujeitinho está aqui de novo. O que é isso? Minha filhinha e ele se beijando! Como se atrevem? Preciso ir lá fora pegar um ar ou vou explodir.
Eu e esse moleque trabalhamos juntos. Há uns seis meses engraçou-se para o lado da Carolzinha, e fiquei de olho nele. Minha menina tem apenas dezessete aninhos e o safado vinte e cinco. Vinte e cinco! O pior é que tem um bebê de dois anos e nem cumpriu com a obrigação de se casar com a coitada da mãe da menina. Quer dizer, desgraçou a vida de uma e queria vir se esbaldar com minha garotinha. Mandei embora, porque nem era tão bom de serviço assim. Proibi Carolzinha de falar com ele e avisei que tiraria a mesada. No início, ela quis reclamar, mas sou durão e teve que obedecer.
Mal acabo de morrer e o indivíduo está enfiado em casa. Não sei como, mas lá de cima (ou para onde quer que eu vá), arranjarei um jeito de colocá-lo para correr.
Espera aí, outra vez! Que conversa é essa desses dois? Carol está grávida e ele quer casar com ela? Claro, vai botar a mão no dinheiro da herança. Não vou suportar estar morto por muito tempo.
Quem está entrando é a Zilda e continua linda. Nossa vizinha há uns dez anos. Desde que coloquei os olhos nela, fiquei doido. Agora posso contar: a Zilda e eu temos um caso (ou tivemos. O maldito verbo no passado). Esse mulherão me deu a maior bola e mal acreditei. Vive aqui em casa. Amiga da minha esposa e dos filhos. Essa mulher na cama... até eu pedia arrego. Para ela era sempre pouco. Vou sentir saudades da vizinha.
O meu caçula está com quinze anos, gosta de conversar com a Zilda. Os dois perdem horas conversando. Minha mulher costumava pedir que ela desse conselhos ao Júnior, então ele ia à sua casa com frequência. Zilda tem um jeito de se comunicar com os jovens, como se falasse a língua deles.
Mas o que é isso agora? Zilda e meu filho trancados no banheiro. E a mão dela? Que mão boba é essa aí? Não pode ser. Desisto de morrer. Não quero mais. Por favor, quero voltar. Quero voltar!

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".