e o show continua
14/11/2018 | 23h46

E o show continua

Cândida Albernaz

O burburinho é grande. A casa está cheia. Olho o relógio e vejo que ainda sobra um tempo. Vou lá fora fumar. Acho uma sacanagem este negócio de proibir cigarro em tudo que é lugar. “Cigarro causa câncer”. E daí? O pulmão é meu e faço o que quero com ele.

Hoje não estou muito bem, amanheci com a garganta doendo. Deve ter sido o excesso de gelo no uísque de ontem. Também, o Jaime resolveu me convidar para sair e ainda por cima, pagar a conta. Aproveitei e enchi a cara. De bebida boa, e não destas porqueiras que tomo porque não posso pagar coisa melhor. Jaime é um amigo que ficou da época em que eu ganhava bem. Pode parecer mentira, para quem me vê hoje, mas já fiz sucesso e tive vários discos gravados. Discos sim, porque na época não havia cd. Era o velho vinil. Gravei música de bons compositores e dei autógrafos também. Há pelo menos vinte anos não autografo para mais ninguém.

Ganhei dinheiro. Muito. E gastei. Muito.

Tive a mulher que quis na minha cama. Não digo os nomes porque sou um cavalheiro. Acredito que o único que sobrou por esses dias. Não fazia esforço para isso. Elas ficavam a minha volta como moscas. Claro que eu era mais bonito. E tinha cabelo. Uma merda essa história de ficar careca!

Mas voltando ao Jaime, foi bom reencontrá-lo. Um dos que continua meu amigo. Ele e o Armando. Esse me procura sempre para contar como seus rendimentos estão crescendo, o carro novo que comprou, a viagem que fez. Torço por ele, porque sei que se precisar, vai ser o primeiro a querer me ajudar. Apesar do que, mesmo que necessite, não peço. Detesto dever qualquer coisa a alguém. Quanto mais a amigo.

Jaime ontem lembrava quando fiz um show para cinco mil pessoas e a maioria acompanhava cantando as músicas. E quando nós dois saímos com três garotas? Foi demais. Naquele tempo, tudo era demais. Até o meu tesão. Hoje só dá para o gasto e olhe lá.

Ontem no final da noite, de porre, comecei a lembrar das farras e de quanta coisa ingeri e injetei. Desandei a aprontar. Arranjava confusão nos hotéis, batia em fotógrafos, faltava aos espetáculos porque simplesmente não conseguia andar. Cantar então, nem imaginar. Os caras se encheram, o empresário desistiu e as portas foram lacrando suas passagens. Droga! Para que fui pensar nisso? Acabei a noite bêbado e chorando no ombro de Jaime. Ainda vomitei e sujei a calça dele. Creio que vai levar mais um ano sem me procurar.

Tenho que encarar a realidade: sou um fracassado e o responsável por isso. Não adianta ficar reclamando feito velha. Aliás, nem sou disso. O problema é que quando encontro com esses dois amigos relembro como foi minha vida e sinto saudade. Mas a fossa dura pouco. Volto a tomar todas e me preocupo apenas com o presente.

Este bar onde canto hoje é pequeno e a maioria das mesas está ocupada. Espero que pelo menos alguns me ouçam. Se um deles aplaudir então, ganho a noite. Costumam ficar tão entretidos com as conversas que nem notam que a música é ao vivo. Eu os entendo.

O que gosto mesmo de fazer, é fumar, beber e cantar. Não exatamente nesta ordem.

Compartilhe
frass nem tão soltas XXXVI
08/11/2018 | 07h07

Frases nem tão soltas XXXVI

Cândida Albernaz

Pegou o pedaço do coração que partira e juntou à outra metade que ainda permanecia em seu próprio peito. Sorriu quando ouviu o bater ritmado novamente. Voltara a ser inteira,

*

O tempo parece carregar sua vitalidade. Engane o tempo com um, dois, três sorrisos. Costuma dar certo.

*

Foi virando-se devagar porque tinha medo de dar as costas ao que se acostumara. Não foi tão ruim assim. Quando conseguiu, percebeu que havia uma enorme luz diante de si.

*

Em qual esquina do amor eu dobrei para não mais te encontrar?

*

Ser mulher é acreditar que o mundo cabe dentro de nós. E por que não caberia?

*

Deu o melhor de si e não bastou. O que você queria era alguém inventado.

*

Pisando forte seguiu em frente. Cada batida no assoalho fazia ressoar em seu peito a força que precisava.

*

Não venha com palavras doces se me fez provar o fel. Tenho péssima digestão.

*

Vem aqui e me dá um beijo. Sentiu o gosto de amor? É seu.

*

Transforme sua dor em escritos. Aos poucos a tinta da caneta vai sendo absorvida pelo papel. Deixe que fique lá.

*

Não tenho medo da morte. O que me assusta é o não viver. É deixar que o tempo passe sem perceber.

*

Cansou de dar explicações para quem não fazia questão de se explicar.

*

Ficou deitada de olhos fechados. Esperava que o tempo levasse com ele a dor que sentia.

*

Vem correndo me abraçar. Talvez ainda possamos acreditar que é possível.

*

Colocou um pé e depois outro. Sentiu o chão firme. A areia movediça foi sugada por si mesma.

Compartilhe
doença
01/11/2018 | 00h52

Doença

Cândida Albernaz

Naquela noite o medo transparecia em seus olhos. Não o medo do desconhecido, mas o temor da constatação, do fato enfim consumado. Pela primeira ele a agrediu.

Com a mão ainda no ar depois do tapa que lhe dera, olhou-a não acreditando no que acabara de fazer.

Ela não sentia dor no rosto vermelho e também não percebia que de seus olhos escorriam lágrimas. Apenas ficou parada vendo a sua frente aquele homem transfigurado e se perguntando por que estava ali, por que deixou até aquele momento. Não teve coragem de tomar uma atitude antes, mesmo reconhecendo que era naquele ponto que chegariam. Fitava o rosto masculino, desconhecido agora, e tinha pena. Dele, pois entrara por um caminho sem retorno. Dela, por ter perdido tanto tempo.

Não falavam e não se encaravam. Caminhou para a porta do quarto e saiu.

Ele permanecia na mesma posição. Deixou-se cair no chão olhando para onde a mulher acabara de passar. Colocou a cabeça entre as mãos e chorou forte. Chorava a dor do reconhecimento da perda sentindo o peito comprimir.

A que ponto chegou. Os indícios foram muitos. A princípio, discussões. Mais tarde, as mesmas vinham regadas de gritos e palavrões. Houve até um empurrão quando ela caiu sobre a cama.

Não se reconhecia. Não se continha. Um ciúme insuportável o asfixiava. Juntava provas que não existiam. Tinha certeza em cenas que criava. Sua mente e a realidade percorriam rumos diferentes. Vivia num imaginário seu e não entendia como a lógica não correspondia ao real. A dor que sentia era intensa, quase não a suportava.

Queria parar, mas suas palavras nunca obedeciam. O que vinha a mente era despejado como vômito: sem controle.

Magoava e feria.

Quantas noites, a cabeça no travesseiro e o sono a fugir. Virava-se e a mulher dormia. Parecia tranquila. Apoiava o corpo no cotovelo e a observava. Que sonho estava agora a sonhar? Com quem? Achava que ela sorria. Seria ele provocando esse sorriso ou algum outro? Como ousava? Rasgava-se por dentro.

Levantava e andava por toda casa. Os pensamentos não o deixariam dormir e os pesadelos viriam: sua mulher sorrindo para muitos enquanto ele permanecia num canto sentindo o abandono. Observando. Acabavam da mesma forma: ela o via e desdenhava dele. Encontraria com algum homem que a faria feliz como ele não conseguia fazer. Como podia traí-lo até mesmo em sonhos?

Agora chegou a bater nela.

Ouviu um barulho. Era o carro. Ela deve ter levado as crianças. Meu Deus! Como seria sem eles? Pediria perdão. Tinha tanto amor a ela. Sabia que errara e reconheceria mais uma vez. Prometeria mudar. Faria qualquer coisa.

Como pudera duvidar de sua mulher? Estava decidido: começaria um tratamento e quando estivesse curado viveriam bem novamente. Tantas vezes ela pedira isso.

Mas talvez ela agora estivesse deixando as crianças com a avó e satisfeita, fosse ao encontro do amante. Ririam dele. O idiota sentindo-se culpado enquanto os dois trocavam carinho, cumplicidade.

Foi ao armário do quarto e procurou na prateleira de cima, embaixo dos casacos. Ela estava ali.

Não zombariam dele. Os encontraria e então.

Compartilhe
um aperto no estômago
18/10/2018 | 10h16

Um aperto no estômago

Cândida Albernaz

Hoje quando acordei senti um aperto na barriga. Não era fome, mesmo não tendo comido muito no dia anterior. Parecia uma dor que começava no estômago e ia até o coração. Não era daquelas que doíam era uma que me deixava triste. Parecia agonia.

Levantei e chamei meu irmão:

- Vamos, temos que trabalhar. A mãe não está em casa e já viu como vai ser quando ela chegar.

Não trocamos a roupa. Também não havia roupa para trocar.

Antes de sair cobri os dois menores com o pano que usei durante a noite. Estavam encolhidos, deviam ter frio. No cômodo onde moramos não há muito espaço, mas no inverno era até bom, um acabava esquentando o outro. Chato mesmo é que na maior parte do tempo faz calor.

Dia desses encontrei um ventilador no lixo, levei para casa e tentei consertar. Quando a mãe viu, começou a rir. Não entendi. Depois ela perguntou onde ia ligar se não temos luz. Havia esquecido. Pelo menos serviu para distrair os pequenos por algum tempo.

Ainda não era totalmente claro. Fomos correndo até o mercado e pegamos os sacos de biscoito. Precisávamos aproveitar o horário em que o pessoal ia para o trabalho, porque se conseguíssemos vender tudo, além do dinheiro ganhávamos pão com café.

Não sei, mas ontem quando mãe saiu não estava com uma cara boa, estou com medo de como vai chegar hoje. Às vezes bebe um pouco e se meus irmãos choram, perde a paciência e bate neles. Uma vez, quando cheguei da rua, minha irmãzinha sacudia a mão onde mãe havia colocado uma colher quente, queimando-a. Nem chorava a coitadinha. Tinha medo. Sabia que se chorasse seria pior. Aprendemos cada coisa nessa vida!

Não desgosto da mãe, mas se bebe... ou quando algum cliente bate nela, volta para nós furiosa. Coitada, também não tem como se defender e desconta na gente. Comigo não se mete mais, porque estou crescido.

Quando estou perto ela se segura. O problema é que quase nunca estou. Tenho que arranjar dinheiro para ajudar. Sabe que agora avanço para defender meus irmãos. Tem respeito ou tem medo, sei lá. Nunca encostei a mão nela, mas por eles faço qualquer negócio.

A pequena é grudada comigo. Toda vez que chego me agarra no pescoço e pede para eu girar com ela. Então enlaça as pernas na minha cintura e eu seguro suas mãos enquanto joga a cabecinha para trás. Rodo, rodo e rodo com ela. Ri tanto que nem se lembra do que mamãe fez.

Sei lá, estou com aquele aperto no peito novamente. É uma dor de tristeza tão forte.

Vou chamar meu irmão, pois acabei de vender tudo. Ah! Pelo jeito vendeu também. Tem dia que é assim mais fácil. Fomos pegar nossa parte e tomar o café com pão. Na volta parei no caminho e comprei feijão e batata. Vai ser bom. A mãe cozinha bem, pena que nem sempre tem o que colocar na panela.

Nossa, tem tanta gente em frente ao barraco. O que foi? Ninguém respondeu pareciam nos olhar com piedade. Saí empurrando todo mundo e ao entrar vi nossa mãe sentada no chão com os olhos arregalados, a roupa suja de sangue e repetindo:

- Eles não paravam de chorar, eu queria dormir e eles chorando e falando que tinham fome. Chorando, chorando, chorando.

Ouvi um gemido e vi os dois do outro lado da cama. Eu e meu irmão agarramos cada um no colo e corremos. Vai dar tempo. Eu sei que vai.

Compartilhe
para casa não posso voltar
10/10/2018 | 23h44

Para casa não posso voltar

Cândida Albernaz

 

Ele está olhando de novo. Se não conseguir desta vez, estou frito.

-E aí, tio? Não tem um trocado pra me dar?

Vamos lá, abaixe esse vidro e dê a grana. Não percebe o Traíra do outro lado da rua?

Até agora o que juntei vai me garantir uma surra.

-Valeu tia.

Droga! Não chega a um real. Esses ricaços estão ficando a cada dia pior. A gente pede um dinheirinho e quando dão, é essa mixaria.

Ontem apanhei feito um puto. Não consegui ganhar o que ele queria.

Traíra disse que está precisando de uma camisa nova e que sou eu quem vai dar a ele. A gola da antiga está puída, falou.

Com o frio que fez esta noite, pensei que fosse morrer congelado. Ainda bem que o Chamuca dividiu o cobertor comigo, e deixou que eu encostasse nele. Não sei se ia aguentar. Esse brother é o único que me trata bem. Os outros têm raiva, dizem que sou mole. Não é isso, vou aprendendo aos poucos.

Lá em casa, mamãe vivia gritando que eu era demente, lerdo e não me suportava mais. Meus irmãos, sim, são inteligentes. Eu nasci meio burro.

Ela falou que bebia muito quando estava em seu bucho porque não queria que eu nascesse. Tentou de tudo para se livrar de mim. Tinha ódio.

Ficava falando que meu pai foi embora porque não suportava olhar na minha cara. Deve ser verdade mesmo. Não entendo direito as coisas e falo devagar. Minha cabeça às vezes doía tanto que começava a gritar. Foi isso! Ele largou a gente por causa dos meus gritos. Hoje em dia, quando a dor chega, fico quieto, coloco as mãos de um lado e do outro e aperto muito. Não adianta, mas não grito.

Mamãe sempre dizia que não gostava de mim, que queria que eu sumisse, ou melhor, que nem tivesse nascido. Resolvi ir embora. Andei quatro dias seguidos, até que encontrei o Traíra. Me deu comida, arrumou um canto dentro do galpão para eu dormir e me abraçou. Sabe há quanto tempo ninguém me abraçava? Nunca havia acontecido.

Só avisou que eu teria que ajudar nas despesas. Eu tento, mas sempre levo menos que os outros. Ele disse que perdeu a paciência comigo.

Já deve ter seis meses que estou com ele. Levei pelo menos dez surras. No início dizia que eu estava em treinamento, mas agora não tenho mais o que aprender, só agir.

O que posso fazer se esses manés ficam com medo de abrir o vidro do carro? Sou feio e muito alto, acho que assusto.

Outro dia fui chamado para escolher umas donas e arrancar a bolsa delas. Pensei: do jeito que sou, vão me pegar.

Chamuca é quem se preocupa. Diz que tem um irmão e que pareço com ele. Não o vê há dois anos. Se não fosse por ele, Traíra já tinha me matado de tanto bater. Como ele é sempre quem traz mais dinheiro, Traíra o respeita. Não quer perder Chamuca para ninguém.

Filho da mãe! Tá me olhando de longe. E eu aqui parado pensando na vida. Tenho que apanhar mesmo. Sei que mereço.

-Tia, um trocado?

-Aí, valeu!

Olhei para ele. Essa foi melhor e rendeu uma graninha. Sorri e ele entendeu. Virou e foi para a outra esquina. Vai pegar no pé de Andrezinho. Me deixou em paz.

Tem um bar aqui perto que vende umas balas.

Vou o mais rápido que posso e compro só uma. Se Traíra me pega...

Cara, que bala gostosa!

-E aí, tio? Uma moedinha, só pra ajudar. Tô com fome.

-Valeu!

Acho que minha sorte está mudando...

 

Compartilhe
imaginação
04/10/2018 | 00h39

Imaginação

 

Cândida Albernaz

 

Nos olhos inquietos percebe-se a lucidez indo embora. A dúvida o corrói e não se controla mais.

Tenta fugir de sua direção, mas a persegue como animal, as narinas abertas sentindo o cheiro do que apenas sua imaginação consegue enxergar.

 

* * *

 

Não casaram porque ela sempre achou que um pedaço de papel diante de um juiz era mera burocracia. Queria se sentir livre mesmo vivendo com ele, que dizia ser o ar de garota selvagem, que escapa entre os dedos, sua maior sedução.

Veio o primeiro filho e a mulher independente que se tornaria, nunca existiu.

Não foi o papel que a prendeu, ela se deixou encarcerar como numa teia tecida dia após dia entre diálogos ríspidos e carinhos no meio da noite.

Quando o segundo filho nasceu, fechou o consultório por pouco tempo, mas nunca mais voltou.

O marido costumava reclamar por ficar sozinha com seus pacientes durante a consulta. Afinal de contas, “você é linda e não há outra igual”.

Explicou que a secretária estava sempre presente e nunca houvera qualquer problema. Não o convenceu.

Quando surgiu a oportunidade de abrir uma clínica com colegas, ele foi contra, já que “o safado do Carlinhos só finge ser médico, porque o que ele quer mesmo é dar cantada nas pacientes. Pensa que não reparei o jeito que olha para você também? Qualquer dia quebro a cara dele”.

Tentou mostrar que isso era impossível, Carlos era um cara bem mais velho do que ela e costumava ser reservado e respeitar as pessoas. Insistiu tanto no que faria caso ele se aproximasse dela, que achou melhor desistir do projeto.

A clínica está funcionando e outra dermatologista ocupa a sala que seria sua.

Na época em que havia planejado voltar ao trabalho, o marido sofreu um acidente e exigiu sua presença. “Só você sabe cuidar de mim”. Mais um mês sem se decidir. Estavam chegando as férias e ele planejou a viagem de seus sonhos com as crianças. Ficariam por trinta dias na Europa. O irmão dele morava na Itália e os hospedaria.

Deixou-se levar como algo sem peso no meio de uma ventania. Sem que percebesse as forças foram fugindo e achou que sendo guiada por ele, as discussões diminuiriam e o ciúme doentio também.

Só havia um problema: ele passou a exigir cada vez mais. Nada o satisfazia e se não tinha mais como reclamar do trabalho, era na rua, entre uma compra e outra, entre levar um filho ao médico, entre a saída da escola das crianças, era nas horas mais corriqueiras que as supostas traições aconteciam.

Sentiu-se sufocada e perdeu o brilho. Envelhecia antes da hora. A mulher que gostaria de ter sido, só conseguia vê-la quando estava sozinha diante do espelho e imaginava ter forças para se libertar.

 

* * *

 

Não fez as malas, não retirou nada seu. Avisou que pegaria depois. Os filhos, quando saíssem do colégio, deixaria com sua mãe por algum tempo.

Os olhos dele de tiranos foram ficando débeis enquanto falava. Pedia que ficasse e desse mais uma chance para os dois.

Ela cuspiu tudo de uma só vez e enquanto ele absorvia o que dizia e implorava mudanças, saiu, entrou em seu carro e sentindo o vento pelos vidros abertos, sorriu com segurança. Ia recuperar sua vida.

A garota que fora, ardia dentro dela com tal intensidade que se sentia queimar.

Compartilhe
ficamos quites
27/09/2018 | 11h42

Ficamos quites

Cândida Albernaz

- Estou ficando cansada nessas nossas saídas com o pessoal

- O que sugere? Mudamos de turma?

- Não foi o que eu disse.

- Mas se está cansada de nosso grupo, a solução é trocarmos de amigos.

- Você e suas opiniões radicais. Adora extremos.

- Então entendi. Você quer apenas reclamar um pouco e que eu escute sem tentar arranjar soluções.

- Pode ser.

- Nunca vou compreender vocês mulheres.

- Nem precisa. Basta nos venerar.

- Qual é!

- Estou brincando. É claro.

- Brincando, mas é o que sonha. Ser venerada, obedecida, atendida em todos os seus desejos.

- Que mulher não gostaria? Por falar em brincar, por que não jogamos?

- Jogar o que?

- Jogo da verdade.

- Não acredito. Está querendo brigar.

- Nada disso. É para passar o tempo enquanto os outros não chegam.

- Na última vez em que tentamos isso, quase terminamos.

- Mas agora estou mais segura e tenho certeza de que você também

- Como vamos começar?

- Você faz a primeira pergunta.

- Que seja. Qual o motivo para você estar querendo mudar de grupo? Envolveu-se com algum de nossos amigos?

- Que pergunta cretina é esta?

- Vai responder ou fugir? A ideia foi sua.

- Não é bem isso. Sabe o Marcelo?

- O que tem ele? Desembucha.

- Lembra-se daquele dia em que ninguém apareceu e ficamos eu e ele?

- Continua.

- Bebemos demais e você deve recordar que foi na época em eu havia descoberto o seu caso com Roberta.

- Já falamos sobre isso e concordamos que era passado.

- E é, mas naquele dia eu ainda sofria muito.

- E...

- E Marcelo estava ali, todo triste porque sempre foi apaixonado pela Roberta e ela nem aí.

- E...

- Conversamos muito e nos consolamos.

- O que quer dizer nos consolamos?

- Vou falar tudo de uma vez.

- É bom mesmo.

- Foi você quem perguntou. Aí vai! Acabamos a noite no apartamento dele e não foi ruim não.

- Vocês transaram?

- É isso. Transamos e foi só.

- Só? E eu fazendo papel de bobo este tempo todo?

- Papel de bobo por quê? Então acha que sou boba porque você também transou com Roberta?

- Não coloque palavras na minha boca. Quer desfazer o grupo porque você e Marcelo me cornearam?

- Começou. Se não queria respostas para que fez as perguntas?

- Não imaginei que o motivo seria tão sério.

- Não entendeu. O motivo não é a transa.

- Ah não?

- O motivo é que Marcelo se apaixonou por mim e não me deixa em paz.

- Como é que é? Vocês continuam se encontrando pelas minhas costas?

- Claro que não, querido. Só mais uma vez.

- Mais uma vez?

- Sabe aquele dia em foi a Vitória e antes de sair disse que precisávamos dar um tempo?

- Trepou com Marcelo de novo.

- Que maneira de falar.

- E quer que eu fale como?

- Com calma, do mesmo jeito que pediu que eu falasse quando soube sobre seu caso com Roberta.

- É vingança então.

- Lógico que não, amor.

- Não me chame de amor!

- Que jeito de falar.

- Vou quebrara a cara desse filho da...

- Ah, não vai não. Recorda quando falei que ia desfigurar aquela carinha de boa moça da Roberta? Você disse que eu era superior a estas coisas.

- E você está sugerindo que eu engula a seco essa conversa toda.

- Se vai engolir ou não, não faço a menor ideia. Mas brigar com Marcelo seria ridículo. Já viu seu tamanho e o dele?

- Pois eu esmago aquela mosca.

- Chega! Acabou a brincadeira. Não sabe ouvir verdades.

- Isso não é apenas uma verdade. Isso são dois chifres enormes que você colocou na minha testa e ainda quer que eu fique quieto.

- Olha, aceita minha sugestão inicial e nos afastamos do grupo.

- E esqueço que você e Marcelo me sacanearam? Espera aí. Foi só com ele?

- Chega. Acabou o jogo.

- Não acredito.

- Estamos quites.

- Então foi isso?

- Não foi. Aconteceu. Olha querido, vamos embora. Não precisamos esperar ninguém.

- Embora para onde?

- Sabe o que estou usando embaixo deste vestido?

- ...

Compartilhe
uma realidade só sua
20/09/2018 | 14h54

Uma realidade só sua

Cândida Albernaz

No bar, em volta das mesas, ela dançava como se jovem fosse. Nos olhos a falta de brilho era compensada por movimentos sensuais, buscando no tempo perdido e em seus devaneios, momentos passados de uma juventude onde soubera ser notada. Os cabelos com tons dourados e brancos pela tintura mal feita, estavam presos em um coque de onde alguns fios se soltavam.

Michele (seria este seu nome?) se julgava importante, não se preocupando com os risos e o deboche a sua volta. Naquele momento ela era a atração principal e recebia de bom grado os aplausos e assovios. Agradecendo com as mãos para o alto e soltando beijos esquecia-se do quarto imundo e escuro onde sobrevivia.

Dos filhos que um dia deve ter tido, nunca mais ouviu falar. Dos netos que talvez tenham sido concebidos jamais tomou conhecimento.

Sua alegria era real, tirada do seu imaginário, do sonho que escolhera viver. Não importava. Ela não precisava da realidade, fazia a sua.

Sentia-se repleta de sedução no corpo enrugado e encurvado pelo tempo.

Não havia problema se não a conheciam ou reconheciam pelo seu passado, onde fora alguém em que o tido como normal era o mais importante. Não se enganassem quanto a ser feliz ou insatisfeita. Sua loucura era escolhida e a completava. Ela hoje era tudo o que precisava.

Satisfazia-se e na sua mente reinava absoluta por onde passava, isso era o maior bem que possuía.

Talvez não tivesse sido sempre assim. De vez em quando vinham imagens que não sabia distinguir se foram fatos que um dia aconteceram ou apenas um exercício de sua criatividade.

Como quando pensa se recordar da noite em que seu pai entrou no quarto e pediu que o abraçasse. As mãos dele sempre foram afáveis, mas nesse dia exigiu que as apertasse entre suas coxas. Não entendeu muito bem. Talvez ele estivesse com frio, mas aquelas mãos subiram um pouco mais e fizeram com que ela sentisse um arrepio por seu corpo. Tal qual sentia agora. Sua imaginação às vezes ia longe demais.

Teria sido casada mesmo? Em alguns momentos tinha certeza que sim, como quando deitada na cama de uma clínica lhe entregaram um bebê, muito feio e murchinho. De cara, gostou dele. Principalmente quando sugou seu seio com força. Pensou lembrar-se da emoção que sentia a cada vez que o colocava no colo com o corpo quente contra o seu.

Onde estaria aquele bebê agora? Será que um dia fora seu realmente? Quem seria aquele jovem que costumava visitá-la e a olhava com compaixão? Talvez fosse o menino que crescera.

O hospital onde passou boa parte da sua vida tinha paredes encardidas, que um dia talvez tivessem sido brancas. Esse mesmo rapaz sempre estava por lá. Parece estar vendo agora o dia em que ele chegou com uma caixa de bombons. Adorava bombons. Ele ficou sentado na sua frente sem falar nada, vendo-a comer todo o chocolate de uma só vez.

Algumas vezes tinha certeza de que era a mesma criança que amamentara. Seu filho e de Amaro. Por que esse nome agora? Não gostava de nomes. Eles davam certeza de existência e preferia não conhecer a realidade. Muito menos agora em que só sobrara a solidão.

Quando recebeu alta, esse filho instalou-a em um quarto com banheiro e depois de duas ou três visitas nunca mais o viu.

Ainda parece ouvir a conversa onde ele disse que se mudaria para outra cidade. Ou teria sido estado? Ou país?

Recebeu uma carta... quem sabe alguém veio pessoalmente contar sobre o acidente onde o rapaz perdera a vida? Falou não saber de quem se tratava. Afinal nunca tivera família. Sempre fora sozinha nesse mundo tão pequeno que cabia naquele cômodo.

Desistiram de tentar convencê-la sobre um possível filho que nascera dela.

Não conhecia ninguém e queria continuar do mesmo jeito.

Enrolou o xale bordado nos ombros e recomeçou a dançar. As pessoas a olhavam, riam e faziam comentários.

Sorriu para eles. Não sabiam o quanto era feliz!

Compartilhe
frases nem tão soltas II
13/09/2018 | 12h20

Frases nem tão soltas II

Cândida Albernaz

Dê-me flores. Eu te dou frutos.

*

Em alguns dias tenho uma gastura do mundo e não sei o que fazer com ela. Corrói-me sem motivo aparente.

*

Cartas não foram escritas, palavras não foram ditas, abraços não foram dados. E tudo o que poderia ter sido o tempo se encarregou de levar.

*

Às vezes canso de gente. Gente dá trabalho, exige. Cansaria de mim também. Dou muito trabalho.

*

Meu grito mais forte é aquele que não se ouve. Só no peito ele faz o eco de uma explosão.

*

Quando olho para a folha em branco e as letras brincam de se esconder, penso em fugir. Para algum lugar onde observando o nada, balõezinhos surjam com toda a história dentro deles.

*

Assusta-me escrever sobre você. Tenho medo que um dia releia o que passou.

*

O tempo passado pode ser tão pesado que nossos braços não carregam. Fazer contas antigas... pesam tanto que chega a doer.

*

E porque meu coração sangra deve ser muito bem cuidado.

*

Em alguns dias continuo a procurar... Em outros, penso que encontrei.

*

Pode estar tão perto, pode parecer tão pouco, pode ser tão fácil de tocar. Ninguém precisa de excessos.

*

Alguns segundos que vivemos levam uma eternidade para se deixar esquecer.

*

Um olhar pode nos fazer continuar ou estancar. Um olhar desnuda ou assusta. Ou assusta porque desnuda.

*

Alguns pensam que podem agradar a Deus e ao diabo ao mesmo tempo. Não vejo como.

*

Porque a melhor parte pode ser esperar pelo dia seguinte. E hoje já é o dia seguinte!

*

A sensação de alguns momentos deveria ser para sempre. Mas se fosse assim, que graça teria buscar novos momentos?

Compartilhe
tchau
06/09/2018 | 00h41

Tchau

Cândida Albernaz

Não adianta olhar para mim com esta cara de bobo. Não volto atrás.

Já sei, já sei o que vai dizer e não pretendo escutar. Cansei. De você, de mim, e dessa posição ridícula em que me coloquei. É, porque fui eu mesma quem admitiu estar neste lugar onde minha opinião pouco importa. Isto vai mudar. Está assustado? Vai ficar muito mais. Acabou a era do senhor-todo-poderoso onde amém era a palavra preferida.

Quando resolvemos ficar juntos eu estava de quatro por você e só pensava em agradá-lo, mas abusou da minha paciência.

Já sei, já sei, vai dizer que ser paciente nunca foi o meu forte. E daí? O que você precisa saber é que ou modifica o seu jeito de enxergar ou nada feito: cada um por si.

Não fale com este tom de voz alto porque não tenho medo. Sabe aquela historinha do “antes só do que mal acompanhada”? Pois é, este é o lema que seguirei. Não acredita? Acha que na primeira dificuldade volto com o rabo entre as pernas? Você não entendeu. Hoje sei que não tenho rabo. Aliás... bom, deixa para lá.

E a comidinha pronta quando chega a casa e ainda assim reclama do que preparei para o jantar? Sempre quer outra coisa. A burra aqui corre até a cozinha para tentar agradar. A camisa passada não pode ter um vinco, caso contrário a ladainha que escuto é intensa. O uísque servido na hora em que chega com três pedras de gelo. Não bebo e ainda tenho que cuidar de sua bebida. E bebedeira.

Poeira no móvel? O senhor-perfeição mal entra na sala faz questão de passar o dedo para ver se está limpo. Achou sujeira? Pois daqui para frente limpe você. Nem a garota que me ajuda na faxina aguenta mais, está querendo pedir demissão.

Já sei, já sei, vivo no salão fazendo unha, cabelo, depilação. Mas quem usufrui além de me sentir bonita? E ainda necessito escolher um horário que não me procure, para que não reclame.

Não, não fale. Nem pense que estou querendo discutir a relação. Quero que ouça! e quieto. Nada de discussão. Apenas escute.

Acha que sou chata, que falo demais?

Já sei, já sei o que pensa de mim. Estou há dez anos ouvindo como acha que sou, o que devo fazer, o que falar, a maneira de vestir. Este é outro item importante. Lembra-se do vestido preto que comprei e tinha um decote nas costas? Disse que nunca me levaria a lugar nenhum vestida daquele jeito porque eu parecia uma qualquer. Pois é, pretendo usá-lo na próxima vez em que sair: com você ou não. Ah! ia esquecendo: comprei outro, mas não se assuste. Não tem decote nas costas e nem é preto. É vermelho e o decote agora é na frente. E-nor-me!

Vai me deixar? Está bem. Se quiser ajudo a preparar sua mala. Pela última vez. Só tem uma coisa; não tem o direito de reclamar se esquecer de colocar algo, caso contrário, jogo no chão tudo o que estiver dentro.

Feche a boca, por favor. Não fique tão surpreso. Depois de tanta pressão, devia esperar que um dia eu explodisse. Bum!

Por falar nisso, vou à casa de uma prima e sua comida está no forno. A esta hora não vai conseguir trocar a fechadura da porta para que eu não entre, mas se encontrar algum meio de impedir que durma em casa, me viro e amanhã estarei de volta.

Tchau! Não vou despedir com um beijo porque não sou hipócrita.

Compartilhe
Sobre o autor

Candida Albernaz

[email protected]

Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".