frases nem tão soltas II
13/09/2018 | 12h20

Frases nem tão soltas II

Cândida Albernaz

Dê-me flores. Eu te dou frutos.

*

Em alguns dias tenho uma gastura do mundo e não sei o que fazer com ela. Corrói-me sem motivo aparente.

*

Cartas não foram escritas, palavras não foram ditas, abraços não foram dados. E tudo o que poderia ter sido o tempo se encarregou de levar.

*

Às vezes canso de gente. Gente dá trabalho, exige. Cansaria de mim também. Dou muito trabalho.

*

Meu grito mais forte é aquele que não se ouve. Só no peito ele faz o eco de uma explosão.

*

Quando olho para a folha em branco e as letras brincam de se esconder, penso em fugir. Para algum lugar onde observando o nada, balõezinhos surjam com toda a história dentro deles.

*

Assusta-me escrever sobre você. Tenho medo que um dia releia o que passou.

*

O tempo passado pode ser tão pesado que nossos braços não carregam. Fazer contas antigas... pesam tanto que chega a doer.

*

E porque meu coração sangra deve ser muito bem cuidado.

*

Em alguns dias continuo a procurar... Em outros, penso que encontrei.

*

Pode estar tão perto, pode parecer tão pouco, pode ser tão fácil de tocar. Ninguém precisa de excessos.

*

Alguns segundos que vivemos levam uma eternidade para se deixar esquecer.

*

Um olhar pode nos fazer continuar ou estancar. Um olhar desnuda ou assusta. Ou assusta porque desnuda.

*

Alguns pensam que podem agradar a Deus e ao diabo ao mesmo tempo. Não vejo como.

*

Porque a melhor parte pode ser esperar pelo dia seguinte. E hoje já é o dia seguinte!

*

A sensação de alguns momentos deveria ser para sempre. Mas se fosse assim, que graça teria buscar novos momentos?

Compartilhe
tchau
06/09/2018 | 00h41

Tchau

Cândida Albernaz

Não adianta olhar para mim com esta cara de bobo. Não volto atrás.

Já sei, já sei o que vai dizer e não pretendo escutar. Cansei. De você, de mim, e dessa posição ridícula em que me coloquei. É, porque fui eu mesma quem admitiu estar neste lugar onde minha opinião pouco importa. Isto vai mudar. Está assustado? Vai ficar muito mais. Acabou a era do senhor-todo-poderoso onde amém era a palavra preferida.

Quando resolvemos ficar juntos eu estava de quatro por você e só pensava em agradá-lo, mas abusou da minha paciência.

Já sei, já sei, vai dizer que ser paciente nunca foi o meu forte. E daí? O que você precisa saber é que ou modifica o seu jeito de enxergar ou nada feito: cada um por si.

Não fale com este tom de voz alto porque não tenho medo. Sabe aquela historinha do “antes só do que mal acompanhada”? Pois é, este é o lema que seguirei. Não acredita? Acha que na primeira dificuldade volto com o rabo entre as pernas? Você não entendeu. Hoje sei que não tenho rabo. Aliás... bom, deixa para lá.

E a comidinha pronta quando chega a casa e ainda assim reclama do que preparei para o jantar? Sempre quer outra coisa. A burra aqui corre até a cozinha para tentar agradar. A camisa passada não pode ter um vinco, caso contrário a ladainha que escuto é intensa. O uísque servido na hora em que chega com três pedras de gelo. Não bebo e ainda tenho que cuidar de sua bebida. E bebedeira.

Poeira no móvel? O senhor-perfeição mal entra na sala faz questão de passar o dedo para ver se está limpo. Achou sujeira? Pois daqui para frente limpe você. Nem a garota que me ajuda na faxina aguenta mais, está querendo pedir demissão.

Já sei, já sei, vivo no salão fazendo unha, cabelo, depilação. Mas quem usufrui além de me sentir bonita? E ainda necessito escolher um horário que não me procure, para que não reclame.

Não, não fale. Nem pense que estou querendo discutir a relação. Quero que ouça! e quieto. Nada de discussão. Apenas escute.

Acha que sou chata, que falo demais?

Já sei, já sei o que pensa de mim. Estou há dez anos ouvindo como acha que sou, o que devo fazer, o que falar, a maneira de vestir. Este é outro item importante. Lembra-se do vestido preto que comprei e tinha um decote nas costas? Disse que nunca me levaria a lugar nenhum vestida daquele jeito porque eu parecia uma qualquer. Pois é, pretendo usá-lo na próxima vez em que sair: com você ou não. Ah! ia esquecendo: comprei outro, mas não se assuste. Não tem decote nas costas e nem é preto. É vermelho e o decote agora é na frente. E-nor-me!

Vai me deixar? Está bem. Se quiser ajudo a preparar sua mala. Pela última vez. Só tem uma coisa; não tem o direito de reclamar se esquecer de colocar algo, caso contrário, jogo no chão tudo o que estiver dentro.

Feche a boca, por favor. Não fique tão surpreso. Depois de tanta pressão, devia esperar que um dia eu explodisse. Bum!

Por falar nisso, vou à casa de uma prima e sua comida está no forno. A esta hora não vai conseguir trocar a fechadura da porta para que eu não entre, mas se encontrar algum meio de impedir que durma em casa, me viro e amanhã estarei de volta.

Tchau! Não vou despedir com um beijo porque não sou hipócrita.

Compartilhe
josé e lena
30/08/2018 | 01h23

José e Lena

Cândida Albernaz

Cheguei a casa mais cedo. Está silenciosa. Antes de entrar sentei na rede da varanda olhando o pé de manga ao lado do portão. Sempre gostei da terra, o verde das folhas me transmite paz. Acendi um cigarro. Maldito hábito! Se Lena chegasse agora me repreenderia: José, não sabe que faz mal? Olha o exemplo para nossos filhos. Nossos filhos... Pedro estava casado e morava perto dali. Deu-nos dois netos. Umas pestes! Toda vez que nos visitavam fazia com que lhes contasse alguma história do passado e eu gostava disso. Eram sempre as mesmas, mas os garotos ouviam atentos e riam delas. No meio da conversa Lena trazia bolo e refresco. Sentavam nos degraus da escada e comiam sem pressa enquanto a avó passava as mãos nos cabelos deles para em seguida encostar-se ao portão e ficar admirando como se fossem as crianças mais lindas do mundo. Então perguntava: viram o tio Artur esta semana? Os dois moviam a cabeça de um lado para o outro negando. Eu não conseguia entender porque ela sempre fazia a mesma pergunta aos meninos. Sei que ela e o filho se veem de vez em quando. Artur foi embora dali há tempo. Brigou comigo quando tinha dezoito anos, nunca mais apareceu e nem lembro mais o motivo. Há seis anos. Nem penso mais nele. Enviou algumas cartas para a mãe e nem uma palavra para mim. Não ligo. Ele era brigão, vivia arrumando confusão na rua. Uma vez quebrou a antena do carro de um dos vizinhos e este veio reclamar. Dei uma surra no Artur e ele jurou vingar-se dizendo que um dia iria embora e nunca mais voltaria. Cumprira a promessa. Menino de palavra! Lena diz que se parece comigo: turrão, briguento e com um coração enorme. Sei não, esse negócio de coração enorme acho que puxou a mãe. Mentira quando digo que não ligo. Sinto saudades e às vezes choro escondido imaginando como ele está. Qualquer dia desses vou procurá-lo e pedir desculpas. Não sei do quê, mas peço desculpas assim mesmo. Não tivemos uma filha. Lena sempre quis tanto, mas Deus sabe o que faz. De vez em quando vejo minha mulher rezando de olhos fechados com as mãos no peito segurando o terço. Eu fico escondido observando-a. Sempre gostei de olhar para ela. Quando jovem era muito bonita. Eu a conheci na igreja e na época estava noiva. Não teve jeito. Nunca mais a deixei em paz até que resolveu acabar o noivado. Casamos seis meses depois. Grande amor, mesmo com o passar do tempo não diminuiu o gostar. Na cama éramos um só. Depois que Artur se foi ela envelheceu muito e seus olhos perderam o brilho. De vez em quando eu a coloco no colo, a enlaço com os braços fazendo com que encoste a cabeça em meu ombro e a embalo como a um neném. Ficamos assim sem falar, apenas sentindo. Acho que vou passar a noite aqui na rede. Não conseguirei entrar em casa. Lena não estará esperando com o jantar pronto. Não beijarei sua testa sentindo o cheiro de seu cabelo e à noite não dormiremos encaixados um no outro. Tive que deixar Lena lá. Sozinha com a terra cobrindo o corpo macio. Sinto que não vou aguentar. Estou pensando uma coisa... Artur não se aproximou de mim. Como farei para que ele entenda que não importa mais? Amanhã vou até onde ele está. Ou depois de amanhã. Ou.

Compartilhe
Um dia, o cansaço
23/08/2018 | 09h19

Um dia, o cansaço

Cândida Albernaz

Mais uma noite e nada. Estava ficando esgotada. Melhor isso do que a tristeza que se tornara sua companhia.

Com cansaço era fácil lidar. Podia deitar, mudar de assunto, desistir. Palavra-chave: desistir.

Sabia que tentara tudo o que podia e sabia também que não mais teria coragem.

Conversaram muito no último domingo. Discutiram na verdade, porque é o que conseguem fazer quando estão ao lado um do outro.

Ele avisou que faria uma viagem, marcada com antecedência. Coincidiu a data ser logo após a discussão. Antes pensara que ela talvez pudesse acompanhá-lo, mas agora decidira o contrário. Voltariam ao assunto quando estivesse de volta.

Depois de sete dias, ela não sabia se ainda queria conversar. Com certeza cada um seguir seu caminho era o único bem que podiam fazer a ambos.

Os dois tão diferentes no agir. Ele costumava dar razões óbvias ao que viviam, e ela a pensar com o imaginário no que poderiam viver.

No início era interessante, divertido até. Mas o tempo mostrou ser desgastante o conviver. E o pior, a sensibilidade latente. Deles. Nisso, não havia diferença.

Sensibilidade e uma razão cortante caminhando lado a lado. Dele. O que provocava discussões bobas que beirava à raiva.

Ele entrou em sua vida como uma enorme onda ocupando todos os espaços. Não deixava a ela tempo para pensar ou decidir. Tomava decisão pelos dois. Quando deu por si, se encontrava no meio de um redemoinho. Talvez fosse uma tática para envolver, um plano usado tantas outras vezes, em tantas outras relações. Não tinha certeza, pelo menos não naquele momento.

Quase dois anos numa montanha russa, onde prazer e medo se completavam.

Avisara a ela desde o início, nada de filhos, casamento ou mesmo morar juntos.

Prezava sua privacidade, palavras mortas que saíram de sua boca tantas vezes. Achou que concordava com ele, mas apenas adiou uma exigência da qual sentia necessidade cada vez mais.

Nos três últimos meses, brigavam e brigavam sobre o que ela queria e ele não cogitava.

Nunca tivera uma família sua e ele também não. Mas era dessa forma que ele pretendia continuar. E ela não.

Mil razões foram expostas; Filhos no mundo em que vivemos? E estes gerarão mais filhos? Não aceitava a ideia de futuro tão desgraçado para um descendente seu.

Casamento, papel no cartório ou ainda viver na mesma casa, duas pessoas com hábitos tão diferentes? Havia manias, ciúme do que possuía e não conseguia dividir espaços com ninguém. Estavam tão bem, divertiam-se, tinham amor, tesão não faltava. Por que mudar? Para que inventar carências?

Ela agora sabia. Um homem que tem pés tão fincados na realidade, não deveria tentar se relacionar com uma mulher que sonha. Em algum momento, ele vai conseguir quebrar-lhe as asas e fazer com que ela despenque de muito alto. Sentia-se cair.

Estava levando a sério a promessa de não ligar enquanto viajava.

Ela sabia que era só uma questão de tempo não querer ficar mais naquela relação.

Talvez não fosse ainda dessa vez, mas quem sabe na próxima?

Fechou os olhos para dormir. O cansaço venceu.

Compartilhe
sabe que te amo
16/08/2018 | 06h14

Sabe que te amo

Cândida Albernaz

As coisas estão no lugar, do jeito que gosta. Detesta poeira, desordem ou portas abertas. Demorou para que a mulher aprendesse isso.

Acordou cedo como em todos os dias, mas permitiu que ela dormisse um pouco mais. Não é sempre que age assim. Prefere que ela acorde antes dele e deixe o café pronto. Tem um defeito, detesta esperar. Precisar falar duas vezes a mesma coisa também não aceita. Um tanto impaciente, reconhece.

Foi mimada pelos pais e não se esforça muito. Apenas cuida dele e da casa e nem assim faz o que pede direito.

Há dois dias quando chegou do trabalho mais cedo do que o costume encontrou-a no telefone com a mãe, segundo ela afirmou. Ainda conseguiu ouvir “não aguento mais, estou com medo”. Pensou continuar escutando, mas a mulher notou sua presença e se despediu dizendo que ligava depois. Ligar depois por quê? Não aguentava mais o quê? E aquela ligação quem ia pagar? Não era ele? Se falava com a mãe por que desligou quando viu que ele chegou? O que estava escondendo dele?

Ajudou a mulher a se levantar quando viu que depois do soco, caiu batendo o rosto na ponta da mesa. Sangrava na altura da sobrancelha.

Tirou a camisa e tentou estancar o sangue, mas ela afastou sua mão. Não queria auxílio. Não compreendia que se preocupava e que nunca quis machucá-la.

Só não suportava erros. Admitia que algumas vezes exigia demais, mas sabia pedir desculpas. Não era tão orgulhoso.

Na mesma noite quando sentaram para jantar, enquanto o servia, ela falou de forma suave e baixinho que ele devia procurar um médico. Disse que estava sempre nervoso e isso podia fazer mal. Olhou dentro do olho dela quando puxou seu rosto para perto do dele e explicou que o dia hoje havia sido difícil. Ela não compreendia porque não fazia nada. Nem filhos tinham porque quando engravidou há alguns anos perdeu o bebê, teve uma infecção e foi obrigada a retirar o útero. Não poderia mais dar filhos para ele que sempre sonhou ser pai de dois garotos. Não era sua a culpa daquela casa vazia, e sim, dela. Soltou o rosto que mantivera seguro entre as mãos. A mulher abaixou a cabeça e comeu quieta o frango que preparou.

Perguntou se o corte estava doendo, quer que pegue um analgésico para você? Respondeu que não, mas foi buscar e deu a ela com um copo de água que tomou o remédio e agradeceu.

Gosta quando entende que tudo o que faz é para o bem dela. Precisou ensinar, porque quando solteira, não fazia nada em casa. Tinha empregados! Hoje não necessitavam de gente estranha à volta deles, era tão pouco o que fazer. As roupas, por exemplo, lavavam fora. Ele levava e pegava na lavanderia. Para poupá-la.

Sabia que talvez estivesse mais irritado ultimamente. Os negócios não iam muito bem. Verdade que semana passada, não se aguentou quando viu a porcaria de almoço que a mulher havia feito. Quando reclamou, ela quis discutir dizendo que colocara menos sal por que ele pedira, e que por isso a comida ficou sem gosto. Colocou aquilo para comer e tentou convencê-lo de que a culpa era dele. Sua reação foi rápida e o tapa atingiu o lado direito do rosto. Levantou e começou a gritar como uma louca, que não suportava mais viver daquele jeito. Ele perdeu a cabeça e com a faca que estava sobre a mesa, avançou. Não pensou realmente em ferir, mas ela suspendeu o braço e o rasgo foi feio. O sangue não estancava e precisou ir para o hospital, onde levou alguns pontos. No carro voltando, prometeu que não a magoaria mais.

Resolveu ir até o quarto para saber se ela havia acordado. Viu que ainda mantinha os olhos fechados. No lençol que a cobria, notou que a mancha havia aumentado. Não se recordava de como a briga na noite anterior começou. Apenas lembrava-se da voz dela repetindo que ia embora, que no dia seguinte a mãe estaria ali para buscá-la, que a mala estava pronta e escondida. Tinha decidido não falar nada, mas não o suportava mais. Tinha nojo dele!, nojo dele!, nojo dele!

Aquela tesoura tão próxima...

A campainha tocou. Pensou em abrir a porta, mas não conseguia se mover. Precisava que o desculpasse, afinal, como poderia viver sem ela?

 

 

Compartilhe
Que boca!
09/08/2018 | 09h46
Que boca!
Cândida Albernaz
- Benza Deus!
- O que foi agora, Célia?
- Sabe aquele sobrinho do meu marido que falei com a senhora na semana passada?
- O que batia na mulher?
- Não, esse é outro e ainda vai ter o castigo que merece.
- Não estou lembrando.
- O Nando, que entrou lá em casa e roubou o que sobrou do salário que a senhora me pagou e ainda levou o celular.
- Ah...
- Pois é, só descobri que foi ele porque o dono de um bar que tem perto de casa veio falar comigo que ele estava vendendo um celular e o nome que aparecia era Jocélia Pereira da Silva.
- Você colocou seu nome completo na tela?
- E não foi bom? O menino é tão burro que não trocou.
- O que aconteceu com ele?
- Morreu.
- Como assim, morreu?
- E ninguém mandou matar, não. O que, aliás, com o tempo era o que aconteceria, porque esses garotos terminam assim. Com a cara enfiada numa vala qualquer.
- Morreu de quê?
- Um caminhão passou por cima. Estava numa bicicleta que não era dele, segurando uma bolsa de mulher, que também não era dele e com certeza tentando escapar de alguém.
- Coitado!
- Também fiquei com pena. Mas ao mesmo tempo foi um alívio.
- Por quê?
– O desgraçado, que Deus o guarde, me cercou na rua e quis dar na minha cara.
- ...
- Só porque falei que teria que devolver o dinheiro, já que o celular estava comigo. Ainda disse que ia dar parte dele na delegacia.
- Mas você não achou que seria melhor ter deixado isso de lado? Filho de seu cunhado e ainda por cima perigoso.
- Um moleque que ajudei a trocar a fralda.
- O moleque cresceu...
- Foi falta de coça naquele lombo dele.
- ...e virou bandido.
- Fui à casa do pai dele e falei poucas e boas. Não gostou e veio tirar satisfação. Disse que era para ficar longe da família dele.
- Talvez tivesse sido o correto. Com esses rapazes, o melhor é não se meter.
- O pior é que agora o irmão anda atrás de mim.
- E por quê, mulher?
- Fica dizendo que roguei praga e por isso o caçula morreu.
- Ele também se envolve com roubo?
- Não que eu saiba. O problema é que roguei mesmo. Um criançola daquele ameaçando bater em mim. Disse que um caminhão passaria na cabeça dele, porque ameaçou a tia. Disse que Deus ia castigar.
- Que boca, hein, Célia?
- Pois é. Agora toda a família fica me olhando de banda.
- Mas que culpa você teve?
- Aconteceu o que eu disse.
- Foi coincidência.
- Será? Estou até com medo. Semana passada avisei a meu marido que se ele não tomasse jeito e parasse de olhar para tudo que é mulher, acabaria ficando cego.
- Que bobagem, Célia.
- O homem está atrás de mim igual sarna, dizendo que começou a sentir dor nos olhos.
- Deve ser impressão dele.
- Só pode ser conjuntivite. E não foi apenas isso.
- Não?
- Falei também que de uma hora para outra, o “dito cujo” ia parar de funcionar, caso ele continuasse me traindo.
- E daí?
- O homem já broxou duas vezes seguidas.
- Benza Deus! Que boca!
Compartilhe
um mundo só seu
02/08/2018 | 13h41
solidão
solidão / google
Um mundo só seu
Cândida Albernaz
O cabelo encarapinhado tinha uma cor indefinida, entre o amarelo e o encardido. Talvez fosse uma cabeça toda branca se a vida tivesse oferecido algo melhor.
Forrou a beirada da calçada com um papel pardo e ali colocou o prato de alumínio. Pegou a colher plástica de um rosa transparente, recolheu o feijão com arroz e cheirou. Balançou a cabeça em sinal de aprovação e comeu. Os pés para fora do meio fio calçavam uma sandália marrom com tiras grossas, lembrando um calçado masculino.
Quando um carro parou a seu lado, pegou outro pedaço de papel e tentou proteger da poeira cobrindo parcialmente a refeição.
Era uma mulher de estatura baixa, com olhos apertados como se sorrisse todo o tempo. Talvez o excesso de rugas em volta dele causasse o efeito.
Um rapaz ainda jovem se aproximou e perguntou se ela gostaria de ir para casa. Casa? Estou em casa. Não quer se sentar também? Se preferir, divido meu almoço com você. Não é muito, mas está gostoso.
Ele faz uma cara de repulsa e pede mais uma vez que ela o siga.
Não escutou ou fingiu que não. Pegou o prato e jogou na lixeira que estava na esquina. Voltou demonstrando estranheza que o rapaz estivesse ali ainda.
Abaixou sem dificuldade, limpou a colher no papel que usara antes e guardou na sacola plástica que havia deixado ao lado.
Olhou para ele e disse que precisava de paz. E é na rua que vai conseguir? Como uma mendiga?
Ela sorriu de um jeito conformado e saiu andando.
Tentou segurar seu braço, mas como uma força que não parecia ter, soltou-se dele.
O rapaz desistiu e foi para o outro lado da rua. Parou, encostou o corpo no muro de uma casa e ficou olhando. Notou que ela resmungava baixinho. Sabia o que falava: muxoxos e palavrões contra ele.
Sempre que a mãe tinha essas crises, ninguém conseguia segurar. Ia para a rua odiando tudo e todos dentro de casa. Então ele ou a irmã se revezavam na vigília. Não costumava durar muito porque arranjavam um jeito de colocar, enquanto ela se distraía, um calmante na bebida que tomava.
Fora internada algumas vezes, mas voltava tão triste e abatida que resolveram não fazer mais.
Ela foi mudando aos poucos e não se deram conta, ou a importância necessária, até a primeira escapada.
Procuraram pela mãe como loucos e a encontraram com mais duas pessoas, deitada num chão sujo e dividindo o cobertor de alguém.
O pai havia morrido há alguns anos, e na mesma época perdera um irmão em um acidente. A mãe, apesar do sofrimento, continuou a levar a vida adiante. Transformou-se numa mulher triste, quieta, de poucas palavras.
Ainda na calçada oposta, observava enquanto ela conversava com um e outro que passava, rindo sozinha quando imaginava ver ou ouvir algo divertido.
Estava cansado e pensou que desta vez a manteria por um bom tempo à base de remédios. Com eles ela ficaria deitada ou dormindo mais. Não suportava quando a via com aquele aspecto de demência, mas tinha medo de perdê-la para sempre um dia.
Parece que vai parar na praça agora. Deve sentar um pouco. Talvez seja a chance para aproximar e colocar o sedativo. Poderia falar com ela novamente, pois tinha a certeza de que nem mesmo lembraria que estivera com ele há pouco.
Viu que havia uma lanchonete ali perto. Compraria um sorvete e misturaria o medicamento. Nunca vira a mãe recusar um sorvete. Sempre gostara. Com ou sem crise.
Quando chegou perto e ofereceu a ela, imaginou ver um pequeno brilho em seus olhos e a boca abriu com um enorme sorriso. Como uma criança gulosa devorou aquele creme gelado.
Não demorou muito para que ela recostasse a cabeça em seu ombro e se deixasse levar.
 
 
Compartilhe
nem sempre vale a pena recordar
26/07/2018 | 10h09

 
bem me quer mal me quer
bem me quer mal me quer / google
Nem sempre vale a pena recordar
Cândida Albernaz
Resolveu sentar na calçada para descansar um pouco. Andou o dia inteiro e nem parou para comer. Retirou do bolso da saia preta e larga demais para o corpo que possuía um pequeno embrulho. Foi abrindo o papel devagar, de onde tirou um pedaço de pão com linguiça. Mordeu com vontade. Um pouco duro para os dentes que sobraram em sua boca. A garota de olhos azuis da padaria foi quem deu a ela. De vez em quando ela preparava alguma coisa que a alimentava. Gostava de conversar também. Fazer perguntas.
Hoje contou sobre a casa bonita em que morava quando era jovem numa outra cidade com o marido e as duas filhas. Não era grande, mas o bairro onde residia tinha muitas árvores e uma praça para onde levava as meninas. Só o marido conhecia esta cidade onde estava agora vivendo. Ele tinha negócios aqui. E um apartamento também.
Tirou mais um pedaço do sanduíche. Mastigava devagar e com dificuldade.
A garota costumava pedir que contasse alguma parte de sua vida. Nem sempre podia fazer isso, porque não lembrava. A mente fugia e as ideias ficavam fora de ordem.
Suas filhas eram louras como ela e gostavam de correr entre os brinquedos da pracinha. Tinham cinco e seis anos na época. Riam tanto as duas e brigavam também, porque criança adora ter ciúme uma da outra nos desejos mais bobos.
Estava pensando em ficar por ali mesmo esta noite. Mais tarde alguém passaria e serviria uma sopa morninha.
O marido vivia viajando a trabalho. Sua família e a dele, eram do norte e desde que se casaram e se mudaram, não os vira. Falta de tempo dela, falta de dinheiro deles... Os anos passaram e não percebeu.
Vivia para as filhas e para aquele homem que escolheu. Não trabalhava, ele não permitia.
Guardou o restante que sobrou no mesmo papel, fechou direitinho e enfiou no bolso outra vez. Amanhã podia precisar. Estava com sede. Levantou-se e foi até a porta da loja que havia ali perto. Pediu um copo de água à funcionária, que depois de resmungar qualquer coisa foi pegar. “Pode levar o copo. E não fique aqui na frente.” Voltou para onde estava e sentou. Quando a loja fechasse, se acomodaria melhor sob a marquise.
Um dia, o marido chegou com um carro novo e mandou que as três se vestissem. Iam sair. Gostava quando ele as levava para passear perto da praia. O mar tinha uma beleza e uma força que a deixava deslumbrada sempre que via. Bom de verdade era quando, no domingo, pisavam na areia e podiam mergulhar na água gelada. Virava criança junto com as filhas. Ele ficava sentado sob o guarda sol olhando-as. Depois entrava sozinho no mar sem dar muita atenção às três. Notara que ele falava e ria cada vez menos.
Pronto. Fecharam a loja. Poderia se acomodar melhor nos degraus. A funcionária passou por ela e deu boa noite. Respondeu com um sorriso de dentes falhados.
Alguns dias pensava mais, como hoje. Em outros, só olhava em volta, com a cabeça oca de lembranças.
Nunca viera com o marido àquela cidade. No dia em que desembarcou de um ônibus ali, estava sozinha.
Não gostava muito quando esta parte da vida enchia sua cabeça. Ficava triste.
Na sacola com que andava para cima e para baixo pendurada no ombro, tinha uma colcha fina e uma almofada bem pequena que fazia de travesseiro. Um pente também, porque adorava pentear os cabelos. E só. Antes carregava coisas que as pessoas davam ou encontrava pela rua. Jogou tudo fora. Pesava.
Não percebeu nada antes. Confiava. Ele pediu que fosse ao supermercado enquanto ficava com as crianças. Uma lista grande. Disse que a pegaria de carro para levar as compras. Esperou por uma hora mais ou menos. Deixou tudo lá mesmo e avisou que voltaria para pegar.
Em casa, todos haviam saído. Imaginou um desencontro entre eles. Esperou. E continuou esperando. Dois dias depois, não entendia o que acontecera. Fora a polícia e prometeram procurar por eles. Naquela semana esteve várias vezes na delegacia. Sem notícias.
Num desses dias em que retornava a casa, encontrou pessoas estranhas dentro dela. Tinham a chave e anunciaram que a haviam comprado e a ocupariam. Retirasse logo tudo o que fosse pessoal porque queriam o imóvel livre no dia seguinte. O prazo dado ao antigo proprietário vencera. Tentou procurar ajuda, o dinheiro que tinha mal dava para comer. Na firma onde o marido trabalhava como representante de remédios, disseram que pedira demissão. E não, não sabiam informar o paradeiro dele.
Papéis e papéis que assinara sem ler.
Resolveu ir à rodoviária. Tentaria a cidade onde ele falara sobre o apartamento que tinham. Talvez os encontrasse. Sabia o endereço, vira em sua gaveta e gravara.
Assim que chegou, foi à rua que conhecia apenas de nome. Tocou a campainha. Uma mulher com um lenço amarrado à cabeça abriu aporta. Perguntou pelo marido, disse seu nome, ou estaria no endereço errado?
“Não, foi este o senhor que nos vendeu o apartamento. Mudamos há um mês. Pagamos uma parte com dinheiro e demos nosso carro também. Juntávamos há algum tempo.”
Quando saiu dali, ficou andando pela cidade que desconhecia. Foi a primeira vez que sentou numa calçada. Foi a primeira vez que escorregou o corpo até que com a bolsa embaixo da cabeça, dormiu sob uma marquise.
Quando a mente voltava como hoje, sentia o corpo inteiro doer. Continuaria procurando amanhã... Se ainda lembrasse.
A moça da sopa estava chegando...
 
 
 
 
Compartilhe
Longa espera
24/05/2018 | 16h33

Longa espera

Cândida Albernaz

Ficou parada olhando a parede branca. Não saía som de sua boca. Não havia por que, já que também não havia ninguém para escutar.

Estava sozinha mais uma vez. Queria poder gritar, mas sentia-se fraca para isto. Deu então um muxoxo e um balançar de ombros. Fingiria não se incomodar.

Fingir para quem? Riu de si mesma. Estranhou o som que saiu de sua garganta. Não parecia o de um riso, aquele barulho alegre que faz com que outros também queiram sorrir. Era mais semelhante a um gemido. Que jeito esquisito de dar risada! Acha que desaprendeu. Ou esqueceu. Melhor que seja assim, porque poderá lembrar a qualquer momento de novo.

Notou que a parede não estava totalmente branca. Havia um ponto preto quase chegando ao teto. Parecia uma aranha.

E era! Uma pequena aranha que acabara de se pendurar. Imaginou que se tivesse altura suficiente, passaria o dedo pela teia para ver se caía. Queria ser como ela. Esconder-se no alto, presa por um fio invisível, apenas ela vendo tudo o que acontecia a sua volta. Sem ser vista.

Pensou que era uma tonta mesmo. Ver o que se ali não havia ninguém? A cama mal forrada? Aquela mesinha sem gavetas? Ou o chão também branco?

Tiraram as gavetas para que não quisesse guardar nada. Gostaria de ter pelo menos um porta-retratos. Eles têm medo de que se machuque com ele.

Verdade que rasgara todas as fotos que estavam ali. Eram três. Não entendiam que não podia olhá-las. Não naquele dia. O peito ardera ao se ver rindo com os filhos e o marido.

Pois é, um dia soubera rir.

Quando olhou a fotografia, lembrou-se do que vivera naquela tarde: felicidade. Doeu recordar como era. Não aguentou e então rasgou em minúsculos pedaços.

Quando a enfermeira entrou estava com um deles na mão. Eram dois olhos, sem a boca e o nariz. Não sabia de quem eram aqueles olhos.

Perguntou a ela, insistiu e como a enfermeira não conseguiu identificar, agarrou em seus cabelos e puxou seu rosto para perto. Queria apenas que visse melhor. Em vez disso, mãos a agarraram com força e prenderam-na na cama. Dormiu.

Do mesmo jeito que não sabia rir, não sabia chorar.

Mas lembrava de já ter chorado muito. Quando o filho mais velho foi embora. Disse que não ficaria mais ao lado dela porque daquela vez jogara uma tesoura nele, que quase o cegara. Não se recordava.

Ele contou várias histórias ao médico. Como o dia em que ela esquentara o garfo e em seguida colocou sobre o braço do irmão. Quando percebeu muita gente gritava à sua volta enquanto trancava-se no banheiro. Queria fugir daquele alvoroço.

Um dia jogara o carro que dirigia contra uma árvore. Estava ela, o marido e os dois meninos.

- Não há mais o que fazer, disseram. Temos que interná-la.

Não perguntaram sua opinião. Enfiaram-na naquele lugar sem cor. Ela poderia ter dito que escolheria morrer. Seria tão fácil. Quantas vezes pensara nisto? Chumbinho? Cortar os pulsos? Pular de uma janela? Ligar o gás e esperar?

Este último era o seu preferido. Agora, neste lugar, não teria mais chance alguma.

Janela com grade e quarto vazio. Se fosse como a aranha, aproveitaria a própria teia e a passaria pelo pescoço.

Queria ver a cara daquela mulher chata quando a encontrasse. Ficaria horrorizada ou aliviada?

Não importa. Não é uma aranha.

Avisaram que hoje é dia de visita.

- Está calma – disseram.

Tomou banho e agora penteavam seu cabelo.

- Está bonita. Quer passar um batom?

Perguntou mas não esperou resposta. Passou um de cor rosada em sua boca.

Quanto a estar bonita, um dia fora sim. Sobrou pouco do que era.

Colocaram-na sentada em uma cadeira da sala.

- Fique bem quietinha porque estão chegando.

Tentou lembrar novamente como era sorrir. Gostariam de encontrá-la assim.

Pegou o dedo indicador e puxou o canto direito do lábio. Com o outro, puxou o esquerdo.

Acho que está bom desse jeito. Tomara não demorem, porque vai se cansar.

Para ela o que sobrou foi uma longa espera.

Compartilhe
para um vovô querido
26/04/2018 | 17h28

Para um “Vovô Querido”

Vovô Querido, com você descobri que ser honesto é ser livre. Obrigada por isso. Amo você e tudo o que vivi ao seu lado, cada lembrança, cada carinho, cada amor que você e minha avó me deram transbordava. Obrigada por ter sido quem foi e por ter me permitido vir como sua neta, com Muito orgulho. Esteja com Deus.

Paula Albernaz

Vovô Querido, ainda está sendo impossível acreditar. Um homem tão forte, íntegro, que sempre lutou e tentou proteger os seus e o próximo. Como sou grata por ter sido escolhida para ser sua neta, que orgulho sinto de você. Que esteja em paz e que Deus conforte nossos corações. Obrigada por nos mostrar que a honestidade é o caminho. Te amo muito e não sei como será daqui para frente as nossas reuniões e nosso lindo Natal sem suas palavras e seus discursos. Te amo te amo te amo e sempre te amarei. Você está com Deus e vovó já te recebeu ao lado dela. Olhe por nós.

Luana Albernaz

Mais que a dor sinto gratidão pela sua vida e por tudo o que trouxe para nossa vida. Nossa família. Meu avô foi a primeira personificação que criei da palavra vocação. Foi a partir dele que entendi o que isso significava. Uma vida dedicada à politica. A política como deveria ser, junto ao povo. Ele mostrava que não deveríamos desistir ou desacreditar. Ele mostrou que é possível fazer sem ser injusto, sem judiar. Deixou para todos nós, seus filhos e netos, a importância de ser ético, de fazer o certo para ter do que se orgulhar. Aí está o verdadeiro sentido. O dia está lindo, o céu está azul, o sol brilha quente e o coração, apesar de dolorido, segue cheio de carinho. Ele com certeza inicia uma nova jornada num lugar mais bonito, mais leve e mais justo. E sei que minha Vó Quequé está sorrindo, nosso Vovô Querido está a caminho.

Gabriela Albernaz

Quanto orgulho e admiração por você. Eu e todas as pessoas que te conheciam. Você brilhou nesta vida e nos deixou lembranças lindas de um homem honesto, generoso...um homem bom. Meu Vovô Querido, como era bom sentir seu carinho quando nos encontrávamos. Que bom ter tido a oportunidade de ouvir sua voz ontem, de te dar um beijo. Eu nem desconfiei que seria o último... teria ficado mais tempo ali.

Júlia Albernaz

Descanse em paz meu avô, que Deus o receba com tamanha misericórdia e amor. Sua passagem aqui foi repleta de vitórias. Foi marcante e admirável. Você inspirou muita gente e nos encheu de orgulho. Obrigada por ter sido tão bom. Ajudou muitos e foi um politico que há muito tempo não encontramos: justo e honrado. Nosso coração está doendo.

Marcella Albernaz

Bivô, que bom poder ter tido sua presença todos esses anos em minha vida. Agradeço sempre pela família que me deu, forte e unida. Sentirei sua falta, mas sei que está em um lugar muito melhor. Te amo muito. Sua bisneta,

Betina Albernaz

Compartilhe
Sobre o autor

Candida Albernaz

[email protected]

Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".