para que reclamar
16/04/2020 | 01h20
Para que reclamar?
Cândida Albernaz
- Você ontem chegou tarde outra vez.
- Não percebi a hora.
- Meia-noite.
- Quis adiantar o serviço que estava atrasado.
- O escritório fecha às seis.
- Você imagina o meu cansaço.
- Tenho notado. Vive cansado para tudo.
- O que está querendo dizer?
- Não estou querendo. Estou dizendo.
- Está reclamando feito uma velha.
- Não estou velha e também não preciso de homem cansado na minha cama.
- Está insinuando que não dou conta do recado?
- Estou afirmando.
- Quer brigar, é isso?
- Não, meu querido. Quero beijar.
- Que conversa idiota. Só porque cheguei mais tarde ontem.
- Ontem, que foi segunda. Na semana passada fez serão três noites, na anterior, duas noites, e por aí vai.
- Se não coloco dinheiro em casa, reclama. Se trabalho mais, reclama. Não sabe o que quer.
-Ah! Então está recebendo hora extra? Que bom.
- Que hora extra?
- Se trabalha mais para colocar mais dinheiro dentro de casa, é porque recebe hora extra. Então vou anotar todos os dias em que ficou além do horário e faremos as contas. Quem sabe, viajamos no próximo mês?
- O dinheiro não está sobrando.
- Claro que está. Vai receber além do salário normal. E deve ser uma boa quantia.
- Não recebo nada além do que já ganho.
- Está trabalhando de graça, então?
- Na verdade estou adiantando o meu serviço. O chefe anda pensando em contratar mais contadores para o escritório.
- Para que contratar mais gente se ele tem funcionários tão eficientes como você que além de trabalhar até bem-mais- tarde, não cobra nada para isso?
- Sempre detestei sua ironia.
- Sempre detestei que me fizesse de boba.
- Já estou atrasado. Essa conversa não vai levar a nada.
- Só mais uma coisa, querido.
- O que é? E não me chame de querido nesse tom.
- Se precisar fazer serão hoje, tudo bem.
- O quê?! Depois dessa conversa toda? O que você está inventando?
- Nada. É que também estou atrasada com os boletins.
- E?
- E vou ficar até mais tarde hoje na faculdade.
- Fazendo o quê?
- Já disse. Preparando os boletins. E amanhã...
- O que tem amanhã?
- Ficarei preparando provas.
- Você acabou de aplicar provas para seus alunos este mês.
- Vou adiantar as próximas.
-Você está querendo se vingar de mim.
-Não há motivo, querido. Estou apenas me dedicando mais ao trabalho. Como você.
- Hoje vou chegar cedo.
- Uma pena, mas acho que são muitos boletins.
- Estarei esperando acordado.
- Você é quem sabe. Ah! E na quinta-feira...
- O que tem quinta-feira?
- Eu e uns colegas de trabalho nos reuniremos para prepararmos uma aula especial.
- Aula especial...
- Isso mesmo. O bom, meu querido, é que estaremos os dois tão cansados, que não teremos ânimo nem para discutir.
- Não estou gostando dessa história.
- Não é para gostar, é para aceitar. E prometo não reclamar mais do seu cansaço para tudo.
- ...
 
 
 
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o abraço que nunca soube dar
16/04/2020 | 01h18
O abraço que nunca soube dar
Cândida Albernaz
- Querido, não demore. Estamos atrasados.
- Não se preocupe, com certeza seremos os primeiros a chegar.
- Não se você continuar se olhando no espelho a toda hora. Nunca vi um homem tão vaidoso.
- Por que a pressa? Você nem mesmo gosta de Marta e Artur. Vive dizendo que ela é fútil e sem inteligência e o quanto ele é grosseiro.
- Mas se aceitamos o convite...
- Está bem, podemos ir.
Lembro de quando me viu beijando Marta na varanda estreita e escura. Mesmo assim consegui ver seus olhos brilhando com as lágrimas que se acumularam ali.
Não falou nada. Voltou para a sala onde estavam os outros.
Nunca tocou no assunto.
* * *
 
Os pés se arrastam e não consigo fazê-los obedecer minha vontade.
Em volta observo que a vida continua correndo. As pessoas parecem ter pressa. Também fui assim.
Estou com dor nas costas. Hoje mais do que ontem.
Gosto de ficar na areia olhando o mar. Ele acalma e traz lembranças que me fazem pensar sem sofrer.
Passo as mãos nos ralos fios de cabelo que ainda possuo. A doença carregou tudo com ela: meus cabelos, meus movimentos e a ansiedade de seguir em frente.
* * *
 
- Não fique assim, Isabel. Vai ser melhor para nós dois.
- Como você pode pensar que se afastar de mim pode ser bom? E nossa filha?
- Ela pode estar comigo durante as férias. Sempre tive vontade de morar na Espanha e nunca pude. Primeiro a falta de dinheiro, depois o casamento e sua gravidez. Serão apenas três anos.
- Vou com você. Da mesma forma que fechou seu consultório, fecho o meu. Conseguirei um trabalho por lá, mesmo que seja em outra área.
- Vou sozinho. Está decidido. Preciso disso e não vai me visitar.
Sempre respondi suas cartas de forma evasiva. Vivi intensamente esta época não me preocupando com o que você sentia.
Voltei um ano depois sem arrependimento algum.
Depois de muito insistir, reatamos nosso casamento. Perguntas não foram feitas ou explicações dadas. Não quis saber o que fez nesse tempo e você aparentemente também não.
* * *
 
Amanhã volto para a cidade. Faço novos exames para ver se houve alguma regressão. O tratamento que faço é agressivo, mas jamais penso em desistir.
Daqui a pouco vou entrar porque o vento está mudando e não posso arriscar em pegar uma gripe.
O mar está ficando num tom azul escuro. O entardecer me comove. Não foi sempre assim. Houve uma época em que pensar em mim era a única coisa que importava.
* * *
 
Quando voltei da Espanha, percebi em você a saudade que sentia e a insegurança em me aceitar outra vez. Por inúmeras vezes, vi tristeza e tive certeza de que para ficar comigo, deixava alguém para trás. Talvez alguém melhor do que eu. Fingi não notar estes momentos e agi como se você optar por mim, depois de tanto tempo fosse a coisa mais natural a ser feita.
Seja lá o que sentia, acabou e consegui tê-la inteira novamente.
* * *
 
Puxo o casaco no peito para que aqueça mais. Levanto da cadeira com sua ajuda e já em pé, firmo em seus ombros. Olho para você e sorrio. Gosto das rugas em volta dos olhos. A idade fez com que adquirisse uma expressão mais forte, que acho bonita.
Não havia notado no passado, mas sempre o mais forte de nós dois foi você.
Achei que por ser homem, cuidaria de sua velhice, para compensar o que fiz. Mas, continuou sendo você a buscar força dentro de si mesma para seguir em frente.
Desculpe se nunca soube demonstrar, mas a amo por tudo o que fiz.
Seus braços em minha cintura e o meu em seu ombro é quase o abraço que eu nunca soube dar.
 
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dependência
02/04/2020 | 10h19
Dependência
Cândida Albernaz
Olhando para ele na cadeira de rodas, dependendo de mim para quase tudo, quase consigo sentir amor.
Dou os remédios na hora certa, levo à fisioterapia uma vez por semana, coloco a comida do jeito que gosta: feijão com farinha, arroz quentinho e uma carne macia, pois os dentes já não são bons.
Quando meu marido está atrasado, sou eu quem lhe dá banho, às sete horas da manhã. Reclama porque acha errado que eu o veja nu, mas sabe que se não for desse jeito, vai passar o dia sem se lavar. Eu e Amâncio trabalhamos muito. Sou enfermeira e ele pintor. Costumo dar plantão duas vezes na semana e nesses dias, quem cuida do meu pai é minha filha mais velha. Gosta do avô, que tem o hábito de contar histórias engraçadas. Ela não o conheceu como eu e minha mãe. O que sabe dele é o que ele repete sempre.
- Ainda bem que soube criá-la. Trabalhei muito para que sua mãe estudasse e perdi muitas noites de sono cuidando dela. Agora que preciso, colho os frutos. Eu o olho de lado e tento sorrir.
Quando criança, por inúmeras vezes não tive muito que comer, e quando isso acontecia, era graças a minha mãe que a situação se modificava. Trazia da casa da patroa, que sabia de tudo, alguma sobra do almoço. Ela ajudava mamãe como podia.
Com dez anos, eu sabia chegar a casa dela sozinha. Saindo do colégio, passava por lá e almoçava com mamãe no canto da cozinha. Agradeço muito a esta senhora, pois inúmeras vezes essa era a única refeição que fazia. Quando passaram a dar merenda no colégio, eu tomava uma sopa quentinha lá mesmo.
Minha mãe, dona Marilda, como eu a chamava de vez em quando, não teve uma vida fácil. Protegia-me como podia.
Às vezes, muitas vezes, meu pai chegava a casa, bêbado, de madrugada e me acordava gritando.
- Venha para a sala. Quero que dance pra mim.
Colocava-me em cima da mesa de madeira e fazia com que eu pulasse enquanto batia palmas. Minha mãe, em pé ao lado, olhava assustada com medo que eu tropeçasse ou caísse, porque se isso acontecesse, ele me batia até que ela se metia entre nós, para apanhar no meu lugar.
Eu nem lembro a quantidade de vezes que a acompanhei até o hospital. Tinha sempre uma desculpa, caí da escada, uma bicicleta me pegou, fui assaltada... E sempre uma razão.
- Tenho medo, minha filha, que ele mate a gente.
A patroa dela não pagava sempre no mesmo dia para que ele não soubesse a data certa. Quando coincidia de meu pai passar na hora em que ela saía do serviço, com o dinheiro recebido pelo trabalho do mês, conseguia roubar tudo, ou quase.
Dona Marilda com o tempo passou a esconder metade do salário dentro da calcinha, o único lugar em que ele não metia a mão para procurar.
Uma vez, minha mãe falou que não ia entregar. Ele começou a bater nela na rua e quando caiu no chão, até dentro do sutiã ele futucou para ver se estava ali.
Papai também tinha a mania nos dias de bebedeira, de não querer que comêssemos. Só comíamos se fosse escondido. Até hoje não entendo o porquê. Se chegasse a casa e sentisse cheiro de comida feita, batia em minha mãe até cansar.
Dona Marilda morreu com cinquenta anos. O coração foi ficando fraquinho e ela não aguentou. Morreu nova, minha mãe, mas para ela talvez tenha sido melhor.
A última surra fora dois anos antes. Nessa época eu já havia saído de casa e acabava meu curso de enfermagem. Ia vê-la sempre e procurava levar algo gostoso que comprava na padaria. Meu pai ficou diabético e tinha a pressão alta. Não parou de beber, só de bater.
Conheci o Amâncio na minha formatura e nos casamos dois anos depois. Papai participou sóbrio do casamento, e eu agradeci com os olhos.
Hoje tomo conta dele. A falta de cuidados que a doença exigia, fez com que perdesse uma das pernas. Não vejo nele remorso ou arrependimento. Parece-me que acredita nas mentiras que conta para minha filha. Eu não o desminto. Prefiro que ela pense que seu avô foi o homem que
ele diz ter sido e algumas vezes, sento junto com os dois e fico ouvindo-o contar o quanto minha mãe era bonita e como ele a amava e cuidava dela para que nada lhe faltasse.
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perfeito
26/03/2020 | 07h57
Perfeito
Cândida Albernaz
 
Um usa o papel para mostrar o que tem a falar.
 
Estava amanhecendo, a luz do dia entrava em seu quarto com força. Esquecera mais uma vez de fechar as cortinas.
Levantou da cama com preguiça e dirigiu-se ao banheiro. Olhou o cabelo bagunçado e riu de sua própria cara. Ligou o chuveiro e esperou que a água esquentasse.
O café foi feito na hora e o pão fora torrado no pequeno aparelho que ficava em cima da bancada da pia.
 
Outro nunca sabe o que dizer.
 
Estava escurecendo. Sabia que o telefone chamaria a qualquer momento. Decidira não mais.
Era sempre da mesma forma: a cada sete dias, a voz rouca, que jurara nunca mais querer ouvir a seduzia. Encontravam-se e só.
- No mesmo lugar mais tarde.
Repetia para si: nunca mais.
 
Um traz as palavras no olhar.
 
Ouviu o barulho da bicicleta que o carteiro usava. Imaginava o que ele teria deixado em sua caixa de correio. Além de uma conta ou outra a pagar.
Não teve pressa. Terminou de tomar seu café e saboreou com a imaginação o que acharia no meio dos envelopes.
Era um método antigo, mas gostava de analisar a letra que vinha na correspondência, antes mesmo de absorver o que estava escrito nela.
 
Outro come as palavras enquanto olha.
 
Prometeu a si mesma e não estava conseguindo cumprir.
Mal sabia qualquer coisa sobre ele. Não chegara aos poucos. Veio como um vulcão tomando para si, pegando o que queria sem dar explicações. E ela se deixou ir como uma criança que não consegue resistir a uma bala.
Perdera as contas de quantas vezes saíram. Contava nos dedos quantas conversaram.
 
Um é sensível mesmo ao transmitir saber.
 
Abriu com calma. Sentou-se no sofá para isso. Os outros envelopes foram deixados em cima da mesinha. Mais tarde veria do que se tratavam.
As palavras escritas ali eram doces, falavam de vida sonhada, de pés fora do chão, de vontades não concretizadas.
Sorria enquanto engolia cada letra do alfabeto. Fazia bem aquela sensação de fora do ar. Tanto o que dizer que não sobrava tempo para sentir a falta física.
Uma vez por semana a carta chegava. Respondia, e aquilo a alimentava até que viesse a próxima.
 
Outro só sabe sentir através do toque.
 
Quando ligasse novamente, diria estar ocupada. Aliás, estaria ocupada. Sua amiga não queria ajuda para a monografia que precisava preparar? Pois acabou de resolver que a ajudaria. E seriam todas as noites daquela e da semana seguinte. Precisava desligar o telefone para não atrapalhar. Quando saísse de lá, iria direto para casa, porque acordava cedo todos os dias para o trabalho.
Não sabia se ele tinha outra pessoa. Nunca perguntou. Tão diferente dela.
 
Um escreve para chegar à alma
 
Por que esta semana acabou e não recebeu nada? O remetente das cartas era de uma caixa postal. Não o conhecia. Só sabia como era através de sua própria descrição. Mesmo o nome poderia ser falso.
Tão suave e denso: invisível.
Precisava beber suas palavras, tinha fome delas e depois... Parecia bem mais seguro. Via agora que não era.
Duas semanas. Já escrevera duas vezes e não recebera resposta. Adoecera? Morrera?
Desistiu, é isso. Cansou desse monte de baboseira.
 
Outro toca no corpo e foge da alma.
 
Ligou hoje à tarde. Tinha urgência em vê-la. Disse que não, dessa vez não poderia.
Ameaçou não deixá-la em paz. Falou sentir sua falta na pele, o corpo doía com a ausência dela.
Não, reafirmou. Não queria mais. Era ilógico, mal se conheciam.
Prometeu contar tudo sobre si mesmo, mas necessitava dela.
Não outra vez.
 
Um a envolve no sonho.
 
Na carta que chegou três semanas depois, comentou em uma frase sobre um problema que tivera, mas que resolvera. Só.
Então desfiou sensações, emoções e toques sem usar as mãos.
Sentiu-se segura mais uma vez. E assustada. Não sabia da necessidade e agora se sentia a sua mercê. Precisava parar com aquilo que podia fazer tanto bem e tanto mal a ela.
Não responderia dessa vez.
 
Outro a engole em mil mãos.
 
Avisou que não ligaria mais. Se quisesse, estaria esperando que o chamasse. Tinha certeza de que o faria. Sabia que não poderia viver sem o seu corpo.
Precisava dele tanto quanto a queria.
Quanto tempo? Veremos se aguenta. Agora seria ela quem teria que ligar, procurar, querer.
Estaria esperando.
 
Um nunca toca o corpo, mas a mente está impregnada dele.
 
Outro nunca toca a mente, mas o corpo é saciado por ele.
 
Era noite e o telefone com certeza tocaria. Esperava ansiosa. Imaginava a fala rouca em seu ouvido, o toque áspero de suas mãos, a entrega. Apenas mais uma vez.
Amanhã cedo o carteiro chegaria. Já podia sentir as palavras que lamberiam seu corpo com suavidade e saciariam seus sonhos.
 
Um e outro juntos. Perfeito .
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uma realidade só sua
20/03/2020 | 14h22
Uma realidade só sua
Cândida Albernaz
No bar, em volta das mesas, ela dançava como se jovem fosse. Nos olhos a falta de brilho era compensada por movimentos sensuais, buscando no tempo perdido e em devaneios, momentos passados de uma juventude onde soubera ser notada. Os cabelos com tons dourados e brancos pela tintura mal feita, estavam presos em um coque de onde alguns fios se soltavam. Michele se sentia importante, não se preocupando com os risos e deboche a sua volta. Naquele momento ela era a atração principal e recebia de bom grado os aplausos e assovios. Agradecendo com as mãos para o alto e soltando beijos, esquecia do quarto imundo e escuro onde sobrevivia. Dos filhos que um dia deve ter tido, nunca mais ouviu falar. Dos netos que talvez tenham sido concebidos jamais tomou conhecimento.
Sua alegria era real, tirada do imaginário, do sonho que escolhera viver. Não importava. Ela não precisava da realidade, fazia a sua. Sentia-se repleta de sedução no corpo enrugado e encurvado pelo tempo. Não havia problema não a conhecerem ou reconhecerem pelo passado, onde fora alguém em que o tido como normal era o mais importante. Não se enganassem quanto a ser feliz ou insatisfeita. Sua loucura era escolhida e a completava. Ela hoje era tudo o que precisava.
Satisfazia-se e na sua mente reinava absoluta por onde passava, isso era o maior bem que possuía.
Talvez não tivesse sido sempre assim. De vez em quando vinham imagens que não sabia distinguir entre fatos que um dia aconteceram ou apenas um exercício de criatividade.
Como quando pensa recordar da noite em que o pai entrou no quarto e pediu que o abraçasse. As mãos dele sempre foram afáveis, mas nesse dia exigiu que as apertasse entre suas coxas. Não entendeu muito bem. Talvez ele estivesse com frio, mas aquelas mãos subiram um pouco mais e fizeram com que ela sentisse um arrepio pelo corpo. Tal qual sentia agora. Sua imaginação às vezes ia longe demais.
Teria sido casada mesmo? Em alguns momentos tinha certeza que sim, quando deitada na cama de uma clínica lhe entregaram um bebê, muito feio e murchinho. De cara, gostou dele. Principalmente quando sugou seu peito com força. Pensou lembrar a emoção que sentia a cada vez que o colocava no colo com o corpo quente contra o seu.
Onde estaria aquele bebê agora? Será que um dia fora seu realmente? Quem seria aquele jovem que costumava visitá-la e a olhava com compaixão? Talvez o menino que crescera.
O hospital onde passou boa parte da vida tinha paredes encardidas, que um dia talvez tivessem sido brancas. Esse mesmo rapaz sempre estava por lá. Parece estar vendo agora o dia em que ele chegou com uma caixa de bombons. Adorava bombons. Ficou sentado na sua frente sem falar nada, vendo-a comer todo o chocolate de uma só vez.
Algumas vezes tinha certeza de que era a mesma criança que amamentara. Seu filho com Amaro. Por que esse nome agora? Não gostava de nomes. Eles davam certeza de existência e preferia não conhecer a sua. Muito menos quando o que sobrara era solidão.
Quando recebeu alta, esse filho instalou-a em um quarto com banheiro e depois de duas ou três visitas nunca mais o viu.
Ainda parece ouvir a conversa onde ele disse que se mudaria para outra cidade. Teria sido estado? País?
Recebeu uma carta... ou quem sabe alguém veio pessoalmente contar sobre o acidente onde o rapaz perdera a vida? Falou não saber de quem se tratava. Afinal nunca tivera família. Sempre fora sozinha nesse mundo tão pequeno que cabia naquele cômodo. Desistiram de tentar convencê-la sobre uma possível criança que nascera dela.
Não conhecia ninguém e queria continuar do mesmo jeito.
Enrolou o xale bordado nos ombros e recomeçou a dançar. As pessoas a olhavam, riam e faziam comentários.
Sorriu para eles.
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batismo
11/03/2020 | 22h21
Batismo
Cândida Albernaz
 
Mês passado consegui entrar. O batismo foi difícil. Quando o canivete quente entrou rasgando minha pele, pensei que fosse desistir. Não podia. Na hora da dor, só fiquei pensando que agora pertencia a um grupo e que ia crescer dentro dele. Chegar ao topo.
Lembrar de minha mãe também ajudou. Muitas foram às vezes em que dormi com os porcos nos fundos do barraco. Ela precisava do único quarto que tínhamos para levar os homens que conhecia na rua durante suas bebedeiras. A vantagem é que no dia seguinte tinha um troco em casa. Para ela beber mais. Nem era vantagem.
Meu irmão mais velho saiu de casa com onze anos. Nunca mais vi. O apelido dele era Fuinha e era tudo o que sabia. Há alguns meses, disseram que um tal de Fuinha apareceu na área, mas botaram fogo nele. Era de outra gangue. Perguntaram se queria ver se era meu irmão que estava sumido há oito anos. Eu não! Se não vi o cara vivo, morto é que não queria olhar.
Ficamos eu e o Maneco para aguentar a mãe. Ele morreu no ano passado. Criança ainda. Também pudera. Se a gente adoecia tinha que melhorar na marra porque além de Val, como ela gostava de ser chamada por nós, não nos levar ao posto de saúde ainda proibia os vizinhos de nos ajudar. Tinha um coroa bonzinho na vizinhança que quando ela saía, levava remédio escondido para a gente. Nem com a ajuda dele o Maneco ficou bom. Morreu deitado no chão de terra e Val só apareceu no dia seguinte. Tive que cuidar de enterrar meu irmão com o tal coroa, porque ela falou que filho só servia para dar trabalho.
Fiquei ainda um ano morando com ela e os porcos e arranjando dinheiro na rua para conseguir comer e botar comida dentro de casa.
Tô fora! Val agora se vira como quiser.
Os caras daqui é que são minha nova família.
Essa gente toda aí na rua vivendo no "bem bom" vai ter que dividir comigo. Fiquei na merda até hoje, mas agora trabalho na boca-de-fumo e ainda posso fazer uns extras.
Só quero ter grana no bolso e uma garota gostosa do meu lado. Topo qualquer parada. O que mandarem fazer, já tô lá. Eles sabem que não sou de brincadeira e faço qualquer coisa para ir adiante.
Combinei hoje de sair com mais dois e descolar algum. Será a primeira vez em que vou usar um berro. Pretendo estrear logo. E vai ser no couro de algum marmanjo bem vestido. Disseram que depois que a gente acerta o primeiro, vira vício.
A casa que vamos faturar, até que é legal. Melhor para eles se estiverem dormindo. Essa é a ideia. O Carreira soube que o sujeito leva para casa todas as noites, o dinheiro da loja em que é gerente. Otário. Vamos prender a mulher no banheiro enquanto o babaca entrega a grana para a gente. Que não se meta a besta.
 
* * *
Foi fácil entrar. Está tudo escuro, mas trouxemos lanternas. Que lindo, o casalzinho dormindo... Pegamos os dois antes que pudessem reagir. E a cara de espanto do coitado? Dá vontade de rir. "Anda logo, entrega a grana que vamos embora".
"Dificuldade de abrir o cofre?” O Carreira enfiou o cano da arma na cara dele. "Pô, rapaz! Agora é que vai ser difícil para ele enxergar com esse sangue escorrendo no olho. Dá um tempo, Carreira.". Entregou o que tinha dentro e ainda catou uns ouros que a dona tinha guardado.
Já estávamos saindo quando ouvimos um barulho. Antes de ver o que era, atirei. Um homem caiu em frente à porta. "Droga cara".
Minha mão tremia com o nervoso do primeiro tiro dado em alguém. O coração disparou. "Vamos embora. O barulho pode ter chamado a atenção".
Corremos na rua escura até um lugar seguro.
A cabeça fervilhava, me sentia poderoso. Não dormiria mais com os porcos na lama.
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o presente
06/03/2020 | 00h33
O presente
Cândida Albernaz
Gostaria de chegar a casa mais cedo. Sei que é impossível. O chefe não libera ninguém antes da hora.
Quero só ver a cara de Cléber quando eu der a ele a bola com o símbolo do time. Os olhos vão brilhar e vai querer que eu jogue com ele. E faço questão. O garoto leva o maior jeito e vai ser grande. Ainda vão ouvir falar do meu filho. Vai para a seleção, tenho certeza. Só tem dez anos e todo mundo que vê o menino correndo atrás da bola, diz que tem futuro. Eu vou estar lá, ao lado dele, mostrando a todos quem foi que ensinou o que ele sabe.
O presente nem foi barato. Estou juntando a grana há um tempão para comprar essa bola de couro. Profissional.
Quando Cléber nasceu, uns falavam que ele não vingava. Pesava pouco e vivia doente. Calou a boca de todo mundo, o danado. Sempre acreditei que ele ficaria bem e forte. Clotilde, minha mulher, foi embora levando os outros dois. Enjeitou o filho, porque não tinha saúde. Soube que está bem, o novo companheiro deu boa vida a ela. Nem ligo mais. Quando ela deu no pé, achei que não aguentaria, nem tanto por ela, mas não sabia como cuidaria sozinho do meu filho, tão doentinho. Ainda bem que minha mãe ajudou. Ela ficava durante o dia com ele e eu à noite. Foram muitas noites dormindo pouco, para acordar cedo no dia seguinte e ir para o trabalho. Mas valeu a pena. Meu filho não tem mais nada há anos. Só uma gripezinha boba aqui e ali.
É o meu sonho, esse garoto. O pessoal aqui na obra vivia sacaneando, mas quando foram comigo ao jogo do guri, me deram os parabéns, e não mexem mais quando falo dele.
Pronto, vou tirar o uniforme e tomar banho. Quero chegar a casa limpo para ganhar aquele abraço do meu filho.
Nossa, estou ansioso. A luz está acesa. A avó deve ter feito um bolo e chamado meu irmão com os dois filhos.
O que essa mulher está fazendo aqui? O quê? Levar meu filho por quinze dias? Conhecer melhor os irmãos? Sente saudades?
Não entende que não posso ficar sem ele. Nem um dia. E os olhos que brilhariam quando eu entregasse meu presente? Já estão brilhantes só em ver a mãe. Aqueles olhos estão pedindo para deixar que vá com ela. Nunca soube negar nada a ele. Nem reparou o embrulho na minha mão. Mostra eufórico o carro que anda para lá e para cá com controle remoto. Brinquedo mais idiota! Vai, meu filho, vai porque o que importa são esses olhos bem abertos e felizes. Mas volta logo, porque caso contrário, não sei o que vai ser de mim.
Enquanto espero, vou planejando seu futuro. Nós dois juntos e o gol que vai me dedicar. Que orgulho filho, eu tenho de você.
 
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ou melhora ou resolvo do meu jeito
19/12/2019 | 23h43
Ou melhora, ou resolvo do meu jeito
Cândida Albernaz
- Dona Alzira, já decidiu o jantar?
- Estou almoçando, deixe pelo menos terminar para que possa pensar em comida de novo.
- É que vou precisar sair mais cedo. Aproveitar que o patrão não está aí hoje.
- De novo?
- Foi só ontem e antes de ontem.
- E hoje também...
- Pois é. Tenho que levar o Juninho ao médico. Está com febre outra vez.
- Você não levou ontem?
- Não deu. Saí daqui cedo, mas acabei batendo perna na rua. Só para distrair porque as coisas em casa não andam bem.
- Você devia ter levado seu filho ao médico ontem.
- Eu sei dona Alzira. Vou levar hoje.
- O que mais não anda bem na sua casa?
- Se é que pode chamar de casa aquele “muquifo” onde moro. É o Jurandir.
- O que tem Jurandir, mulher?
- Brochou de novo.
- Como? De novo quantas vezes?
- Já é a terceira. Falei com ele que se não der conta do recado vai se haver comigo.
- Melhor procurar um médico. Ele pode estar com algum...
- Está com nada não. O problema é que anda bebendo demais e se gastando na rua.
- Gastando?!
- É, com umas vadiazinhas que tem por aí. Não sou boba dona Alzira. Só me faço e às vezes.
- Talvez não seja isso. Ele pode estar com algum problema.
- O problema dele é esse que eu falei para a senhora. Estou cansada de saber que dá umas escapadas. Só que nunca negou serviço em casa.
- Então?
- Então nada. Ele que se cuide, que não estou aqui para trabalhar o dia inteiro e chegar a casa e encontrar o homem “na maior água” e cansado. Quero essa vida não.
- Conversa com ele.
- E o Jurandir quer saber de conversa? Se começo a falar, diz que o problema sou eu e me manda calar a boca. Mas isso não vai ficar assim não.
- O que você vai fazer?
- Seu Carlos, dono do açougue que tem aqui perto, vive atrás de mim. Dou corda para ele porque acho gostoso o jeito que fala, mas nunca fiz nada de errado.
- Sei. E agora quer fazer.
- Se Jurandir não melhorar, vai ser com seu Carlos mesmo, que não sou mulher para homem dizer que o problema sou eu.
- Pensa bem. Jurandir não me parece um homem calmo. Se ele pega você...
- Pega nada. Se ele está cansado, vou deixar descansar. E depois, sabe que seu Carlos vive oferecendo umas carnes para levar para casa? Ia ser até bom; comer carne todo dia. Os meninos iam ter mais saúde, ficar mais bem alimentados.
- Se precisa de mais alguma coisa, eu ajudo, não precisa pedir a seu Carlos.
- E ia ter graça, dona Alzira? Deixa comigo. Ou Jurandir melhora, ou resolvo meu problema de outro jeito.
E então? Pensou no que a senhora quer para o jantar?
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um dia qualquer
13/12/2019 | 15h36
Um dia qualquer
Cândida Albernaz
- O que está havendo com você hoje?
- Comigo?
- É. Parece irritada.
- Eu irritada? Como assim?
- Tudo o que falo você se estressa.
- Talvez esteja falando asneiras.
- Está vendo?
- Vendo o quê?
- É melhor deixar para lá.
- Deixar para lá? Começou, agora termina.
- Hoje pela manhã pedi a você o jornal e quase me fuzilou com os olhos.
- Por acaso quebraria seu braço esticá-lo um pouco?
- Custava nada?
- Você faz de propósito. O jornal na sua frente e você pede.
- Força do hábito.
- Pois passou da hora de mudá-lo.
- Está sempre reclamando em fazer qualquer agrado para mim.
- Não, só reclamo quando abusa.
- Ontem quando pedi que passasse na lavanderia para pegar meu terno foi abuso.
- Não.
- Então, por que não pegou?
- Não lembrei.
- Mas eu precisava dele à noite.
- Tanto não precisava que foi com outro terno ao jantar da firma.
- Usei outro, mas tinha planejado ir com aquele.
- Vivo mudando meus planos em função dos seus.
- Como naquele dia em que quase implorei que fosse comigo no almoço com um cliente e a mulher dele. Disse que não poderia porque ia fazer as unhas exatamente naquela hora.
- E fiz mesmo.
- Eu sei. Mas custava desmarcar para me fazer companhia?
- A mulher do cara é uma pedante.
- E fiquei sozinho com os dois.
- É o seu trabalho e não o meu.
- Você não está ligando muito para mim ultimamente.
- Impressão sua.
- Semana passada mandou a cozinheira preparar camarão sabendo que sou alérgico.
- Ela fez uma omelete de queijo para você.
- E eu lá gosto de omelete?
- Claro que gosta. Cansou de comer omelete no início do nosso casamento.
- Porque você só sabia fazer isso e queria agradar.
- Foi para recordar os velhos tempos.
- Não podia ter mandado preparar outro tipo de carne para mim?
- Podia, mas não fiz.
- Está vendo? Até quando tenho razão empina esse nariz como se estivesse certa.
- Olha só. Quando pedi a você que me levasse ao show de Caetano, falou que não podia porque havia combinado sair com os amigos.
- Isso foi há cinco anos.
- Quando perdi o bebê e depois descobri que não poderia ter mais filhos, você estava viajando para assistir a uma corrida de carros.
- Isso foi há seis anos...
- Viajou mesmo sabendo que eu não estava bem.
- Não foi bem assim.
- Quando peço a você que pegue qualquer coisa para mim em qualquer lugar, reclama, até que desisto e pego eu mesma.
- Não seja tão radical.
- E quando precisei que levasse minha mãe ao médico, porque eu estava numa reunião, não foi de jeito nenhum.
- Você sabe que eu e ela discutimos o tempo todo.
- Porque você não consegue ficar quieto.
- Ela é uma chata.
- E você mal educado.
- Isso aconteceu há um ano.
- Dane-se. Já ouviu falar em mega sena acumulada?
- ...
- Pois então. Estou com raiva acumulada. Enquanto não colocar toda ela para fora, não sossego.
- Viu como está estressada?
- Se o que quer é que dê razão a você, tudo bem. Estou estressada, irritada e não quero conversa.
- Posso fazer apenas uma perguntinha?
- O que é?
- Você está com tpm?
- Sai da minha frente!
 
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se tiver alguma luz acesa, sento na varanda
21/11/2019 | 08h04
Se tiver alguma luz acesa, sento na varanda.
Cândida Albernaz
O lugar que escolhi para sentar está escuro. O copo à minha frente ficou cheio do líquido transparente por diversas vezes. O bar está quase vazio. Só eu e mais um casal que discute sem parar. Não vejo a graça que algumas pessoas têm de saírem juntas para olhar cada uma para um lado diferente da outra ou para brigarem. Se não têm o que dizer, deveriam ficar em casa ou ir ao cinema.
Estou aqui desde a hora em que o bar abriu. O garçom veio perguntar por três vezes se queria algo para comer: “estou sem fome. Só mais uma purinha, por favor”. Já nem vem mais à mesa, resolveu me deixar de lado. Talvez se preocupe por beber tanto e tenho que insistir para que sirva. Sou resistente, mas ele não sabe. Escolhi este lugar, num bairro distante de casa, porque aqui não sou conhecido.
Não gosto de solidão, até temo. Mas precisei: não tive escolha.
Na noite passada, eu e Sílvia discutimos pela enésima vez e ela pediu que saísse de casa. Argumentei, gritei e quase a agredi. No final, resolvemos que eu dormiria e iria embora pela manhã. Não sabia para onde, e ainda não sei.
Durante a discussão os meninos acordaram assustados e eu mandei que voltassem para a cama. Tiago, de quatro anos, começou a chorar. Sílvia olhou-me com ódio e foi com eles até o quarto. Pela porta entreaberta pude ver que ela passava a mão pelos cabelos dele enquanto cantava baixinho uma dessas canções de ninar. Esse quadro sempre me emocionou: Sílvia e nossos filhos. Os olhos dela mudam quando está com os dois. Entrega-se como nunca se entregou a mim. Costuma dizer que são crianças e precisam dela, e eu, homem crescido, já com escolhas na vida, não necessito.
Esse foi o ponto chave: escolhas. Ela afirma que tive oportunidades para fazê-las. Eu respondo que não é bem assim. O jogo e a bebida foram entrando aos poucos no meu cotidiano e com o tempo não consegui desvencilhar.
Na última semana, perdi o carro numa rodada. Só contei ontem, depois de beber muito e chegar a casa querendo saber o que ela fez, onde esteve e com quem. Durante as perguntas me olhava com pena, aliás, esta é a forma com que me olha ultimamente. Até que falei no carro, que não estava na oficina coisa nenhuma, que havia perdido no jogo, que se ela pensava que ia ter o carro de volta para ficar na vadiagem, se enganava e que eu não havia nascido para corno.
O olhar que ela mantinha fixo em mim mudou: tornou-se frio.
Arrependi na mesma hora das coisas que falava quando estava de porre, das acusações, do jogo que não conseguia largar, apesar dos inúmeros pedidos dela, da bebida que por muitas vezes fez com que dormisse nas horas mais importantes nossa e de nossos filhos.
Ela não escutava mais. Falava pausadamente: “... para que não tenha dúvidas sobre o que quero. Se você não sair, vou com as crianças para a casa de meus pais. Entro com uma separação litigiosa e provo para o juiz a sua incapacidade de estar com os meninos. Vai ter hora marcada para vê-los”.
Não entendeu que não foi pelos filhos, mas por ela, que resolvi sair hoje de manhã. Os pais moravam a mil quilômetros daqui e eu não poderia olhá-la quando necessitasse.
Enrolei para ir embora, mas quando a vi sair do quarto das crianças, tive certeza de que não havia mudado de ideia. Coloquei algumas peças de roupa numa bolsa e fui.
A essa hora, eles estão se preparando para deitar. É noite outra vez. O que será que ela disse aos meninos? Apesar de que, não seria a primeira vez que não volto para casa. Não estranhariam minha ausência ainda.
Sinto que não há retorno. Nunca havia visto tanta firmeza ao falar e nem a falta de amor que pude enxergar agora. Não me queria mais, percebi.
O bar vai fechar. Não resolvi aonde ir. Talvez caminhe até em casa e pare em frente ao portão. Se tiver alguma luz acesa, sento na varanda até que se apague. Então decido o que fazer.
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Candida Albernaz

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