enxergar melhor para quê?
20/03/2019 | 23h46

Enxergar melhor para quê?

Cândida Albernaz

A senhora não falou que Jesus ia curar sua visão? Agora vá chamar ele para conversar. Cansei de falar para ir ao médico. Disse que a levaria, porque sozinha é que não pode andar por aí. Consegui de graça. De graça! Sem precisar pagar nada. Um médico bom, e nada feito. Parecia um mantra: “Jesus vai me curar. Jesus vai me curar”. O que a senhora quer é dar trabalho para Jesus sem nem mesmo dar uma ajudazinha para ele. Custava alguma coisa ir ao doutor que arranjei? Diz? Custava? Mas não, prefere ser teimosa. Tive a quem puxar. Também sou “teimosa feito uma íngua”. Não era assim que papai falava de mim? Saudade dele dizendo que “desse jeito, com esse temperamento, não vai casar nunca. Que homem vai aguentar mulher querendo mandar em tudo?”. Nenhum.

Ele tinha razão, não casei. Lembra-se do Adilson? Claro que lembra, não é mamãe? Vivia paparicando você. Sempre a defendia dos meus ataques de impaciência. Não que precisasse ser defendida com esse geniozinho danado que tem. E costumava trazer biscoitos que você não me deixava sequer provar. Mas eu não ligava. Até gostava de ver meu namorado querendo agradar minha mãe. Época boa aquela. Papai empregado, você com muitas clientes para costura e eu como vendedora de uma loja de roupas.

Nós dois falávamos sobre casamento entre um beijo e outro. Mudei tanto enquanto estivemos juntos que você mesma começou a reclamar do tanto carinhosa que eu me tornara.

- Menina chata! Para de me apertar e esfregar essa boca no meu rosto. Está me babando toda.

Esse era o jeito delicado com que recebia meus abraços e beijos. Papai ria e chamava para que fizesse com ele.

Tive a quem puxar, não é mãe? Papai aguentou um bocado sua impaciência.

Marcamos a data do casamento e eu andava com um sorrisão na cara o tempo todo. Amava aquele desgraçado.

Não peça para eu não falar assim. Desgraçado mesmo. Foi se envolver com a vizinha três meses antes de subirmos ao altar. Logo com a exibida da Regininha. Claro que ela fez questão que eu descobrisse. Flagrei os dois no maior agarramento perto de casa. Nem para longe daqui eles foram. Na hora não tive reação alguma e fui para casa chorar como uma idiota.

Adilson veio, pediu desculpas, tinha sido a primeira vez, me amava, Regininha tinha provocado tanto que ele não aguentou. Juro que nessa hora pensei em dar um soco na cara dele. Ela provocou? Não aguentou? É bicho por acaso? E eu nessa história? Pedi que fosse embora e não voltasse. Primeiro falei com calma, depois aos berros, até que joguei a jarra em cima dele. Acho que nesta hora entendeu e saiu.

Não quis saber de mais ninguém. Namorei um ou outro e só.

Mas, voltando ao nosso assunto:

- A senhora quer enxergar melhor para quê? Com essa idade?

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nem eu nem você
13/03/2019 | 20h32

Nem eu nem você

Cândida Albernaz

- Amor, pega aquele copo para mim?

- Você não vai beber vinho neste copo de vidro?!

- Por quê?

- Não me faça uma pergunta boba como essa.

- E o que tem?

- Vai conseguir estragar a bebida.

- Você trouxe uma taça? Ou duas?

- Quem ficou de trazer foi você.

- Esqueci.

- E agora quer que eu beba num copo?

- Não quero mais. Eu! quero beber desse jeito

- Me recuso.

- Então bebe outra coisa. Quem sabe leite? Ah!, não tem.

- Está rindo de mim?

- Não. Apenas tentando dizer que estou louca para tomar este vinho.

- ...

- Faz uma coisa. Feche os olhos e imagine estar com uma taça nas mãos.

- Não vou fazer isso.

- Sabe que horas são? Duas horas da manhã. Está tudo fechado. Eu só pensei em terminarmos a noite com um vinho aqui no hotel. Estava tudo tão bem até agora.

- Mas você precisava esquecer algo.

- Na próxima vez adivinha quem vai ficar incumbido das taças? E do abridor?

- Por quê? Não se lembrou do abridor também?

- Pensei em empurrar a rolha.

- Não acredito.

- Brincadeirinha. Eu trouxe.

- Acho que vou dormir. É melhor.

- Estou sem sono. Vou assistir a algum filme.

- Você não vai ligar a televisão agora.

- Tem uma ideia melhor?

- Já disse. Vou dormir.

- Poxa! Vamos tomar um vinhozinho, sentar na varanda e...

- Como é insistente! Não estou com clima para olhar estrelas.

- E quem disse que quero olhar para o céu? Sabe do que mais: chega! Enchi.

- Agora sim.

- Agora sim o c... Na próxima vez em que viajarmos ficaremos em quartos separados. Se viajarmos juntos de novo.

- O que quer dizer?

- Que podemos ir embora amanhã. Aliás, vou amanhã. Se quiser, fique.

- Como você vai?

- De ônibus, a pé, numa vassoura. Não importa.

- Ei! Sabe que quando fica assim, brava, eu fico com o maior tesão.

- Pois coloque seu tesão no.

- Epa! Não complete essa frase. Vem cá. Dá só um beijinho.

- Não quero saber de beijo nenhum. Você conseguiu.

- Não faz assim. Abrace meu pescoço. Você gosta quando te seguro desse jeito, não gosta?

- Sabe que gosto. E você, de me ver zangada.

- Para te amansar.

- Eu sei. Vai lá, abre o vinho e deita aqui no tapete.

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sua mente
13/03/2019 | 20h28

Sua mente

Cândida Albernaz

- Você, simples?

- E não sou?

- Não, não é. Pensa demais.

- Penso. Penso até não suportar tanto pensar.

- E para que isto serve? Não dificulta sua vida?

- Não tenho domínio sobre minha mente. Devia saber disso melhor que eu.

- Questão de treino.

- Você me faz rir.

- Treine não pensar, desligar-se. Ouça uma música e relaxe.

- Se ouço música quero entender a letra e por vezes ela encaixa em algum momento que vivo ou vivi.

- Mas aí você volta a pensar.

- Pois é, e muitas vezes pensar dói.

- Porque você engrandece seu pensar. Fica esticando o problema até o limite.

- Mas quando chego a este ponto, desisto dele e finjo que não existe.

- Não acredito que resolva, mas já que sabe como vai acabar, por que não faz isso desde o início? Evita perder tempo.

- Se eu conseguisse me conhecer, desvendar quem sou.

- Você gostaria?

- Nunca! Prefiro surpreender-me comigo, caso contrário perderia a graça.

- Eu é que acho graça no que diz.

- Acompanhe: já imaginou se conhecer completamente? Sem surpresas?, ou sustos em suas atitudes?

- Seria uma vida mais calma. Sem tantas decepções consigo mesma.

- E sem graça.

- ?

- Verdade que muitas vezes é doloroso não ter controle sobre as próprias reações. Machucar o outro por exemplo.

- E se não voltar para pedir desculpas, não dorme.

- Não. Não durmo nem vivo. Sofro.

- Mesmo assim não quer o controle do autoconhecimento.

- Não quero.

- Você me cansa até a exaustão. Tento ajudá-la, não consigo.

- Não se desespere. Apenas me dê um tempo.

- Mas se é só o que temos. Tempo.

- Gosto de rir também.

- Rir?

- Gargalhar gosto mais.

- Nem sempre é possível.

- Claro, eu seria boba ou louca se risse toda hora.

- Louca? Você não é?

- Um pouco. Como todos.

- Quero dormir.

- Também quero, mas você não deixa.

- Pare de pensar então.

- Se eu contar carneirinhos você me deixa pegar no sono?

- Feche os olhos.

- Está bem.

- Por que abriu?

- Eles têm vontade própria.

- Quem?

- Meus olhos.

- Por favor, preciso dormir, amanhã trabalho o dia inteiro.

- Fale com eles.

- Com quem?

- Meus pensamentos, ora.

- Não consigo.

- Claro que consegue. Você é minha mente.

- Ser sua mente me dá um trabalhão. Vamos ficar quietas. Sinto o sono chegando.

- Acho que sim.

- Quieta.

- ...

- ...

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ponto sem nó
22/11/2018 | 08h01

Ponto sem nó

Cândida Albernaz

Aquela pequena capela, com bancos de madeira resistentes ao tempo ficava em meio a árvores e o que um dia foi um gramado. Hoje mato por cortar.

A casa um pouco distante, com pedaços de reboco caindo da varanda onde tantas vezes sentara para conversar com amigos ou simplesmente se deixar ficar.

Naquela época, pensar não doía como agora. Acreditava ter a vida à sua disposição. O tempo fez questão de mostrar que ela sim, disporia dele como bem entendesse.

Os pais morreram quando tinha vinte e seis anos. Um acidente na estrada, quando um cavalo atravessou na frente deles sem que houvesse tempo para desviar.

Herdou aquela fazenda e alguns outros bens na cidade. Gostava da terra, dos bichos e hoje da solidão.

Estava noivo na época e com planos para casar. Desistiu. Resolveu fazer uma viagem que duraria um mês, mas levou um ano para voltar.

A noiva se magoou com ele que não fez questão de dar maiores explicações.

Quando voltou, ela estava de casamento marcado com um de seus amigos. Foi à cerimônia e com olhos sem amor, viu os dela fixarem nele durante todo o caminho até o altar. Resolveu que não iria à recepção.

Os imóveis que possuía na cidade, rendiam mais do que o suficiente para que pudesse tocar a fazenda com calma, levando-a a crescer e produzir. Os pastos a cada ano viam aumentar o gado.

Conheceu Liliana em uma de suas idas a cidade. Frequentava os bares e festas que haviam por lá.

Em menos de um ano estava casado e na espera do primeiro filho. Não era homem de grandes paixões, costumava dizer. Programava seu dia, semana ou ano e seguia em frente.

Os amigos continuavam a frequentar sua casa, inclusive a ex noiva com o marido. Gostava de realizar pequenas festas que duravam toda a noite. Numa delas eles chegaram com um casal de amigos. Foram ficando, ficando e já amanhecia quando se despediram. A garota era bem mais jovem do que ele, dançava de forma insinuante, provocando a maioria dos olhares masculinos.

Com a desculpa de mostrar a ela um potro que havia nascido, sumiram os dois por algum tempo. Depois desse dia, encontravam-se sempre que possível.

Quando contou que estava grávida, pediu que ele largasse a mulher e ficasse com ela. Riu de sua pretensão e questionou o fato de ser ele o pai. Como ter certeza?

Não esperava o que viria a seguir. Ela contou ao marido sobre os dois, que foi tirar satisfação com ele em sua casa. Mulher e filho presentes ouvindo o que não deviam. Ainda tentou se explicar, mas não deu em nada.

Mais tarde, ficou provado que a criança era do marido. Os dois se acertaram e criam a filha juntos.

Com ele foi diferente. Liliana saiu de casa levando o filho que passou a ver de vez em quando.

Não acreditou sentir tanta falta. Saiu da fazenda e foi morar na cidade. A casa ficou abandonada, perdeu o gosto. Continuou com o gado, mas passou a ir apenas quando necessário. Mesmo assim, levou anos sem voltar à sede.

Hoje, olhando a casa naquele estado, pensou o quanto havia se enganado sobre si mesmo. Era na verdade um homem de grandes paixões, e por isso a cada dor vivida, fugia de tudo o que o fizesse recordar.

Só não conseguia fugir de si mesmo.

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e o show continua
14/11/2018 | 23h46

E o show continua

Cândida Albernaz

O burburinho é grande. A casa está cheia. Olho o relógio e vejo que ainda sobra um tempo. Vou lá fora fumar. Acho uma sacanagem este negócio de proibir cigarro em tudo que é lugar. “Cigarro causa câncer”. E daí? O pulmão é meu e faço o que quero com ele.

Hoje não estou muito bem, amanheci com a garganta doendo. Deve ter sido o excesso de gelo no uísque de ontem. Também, o Jaime resolveu me convidar para sair e ainda por cima, pagar a conta. Aproveitei e enchi a cara. De bebida boa, e não destas porqueiras que tomo porque não posso pagar coisa melhor. Jaime é um amigo que ficou da época em que eu ganhava bem. Pode parecer mentira, para quem me vê hoje, mas já fiz sucesso e tive vários discos gravados. Discos sim, porque na época não havia cd. Era o velho vinil. Gravei música de bons compositores e dei autógrafos também. Há pelo menos vinte anos não autografo para mais ninguém.

Ganhei dinheiro. Muito. E gastei. Muito.

Tive a mulher que quis na minha cama. Não digo os nomes porque sou um cavalheiro. Acredito que o único que sobrou por esses dias. Não fazia esforço para isso. Elas ficavam a minha volta como moscas. Claro que eu era mais bonito. E tinha cabelo. Uma merda essa história de ficar careca!

Mas voltando ao Jaime, foi bom reencontrá-lo. Um dos que continua meu amigo. Ele e o Armando. Esse me procura sempre para contar como seus rendimentos estão crescendo, o carro novo que comprou, a viagem que fez. Torço por ele, porque sei que se precisar, vai ser o primeiro a querer me ajudar. Apesar do que, mesmo que necessite, não peço. Detesto dever qualquer coisa a alguém. Quanto mais a amigo.

Jaime ontem lembrava quando fiz um show para cinco mil pessoas e a maioria acompanhava cantando as músicas. E quando nós dois saímos com três garotas? Foi demais. Naquele tempo, tudo era demais. Até o meu tesão. Hoje só dá para o gasto e olhe lá.

Ontem no final da noite, de porre, comecei a lembrar das farras e de quanta coisa ingeri e injetei. Desandei a aprontar. Arranjava confusão nos hotéis, batia em fotógrafos, faltava aos espetáculos porque simplesmente não conseguia andar. Cantar então, nem imaginar. Os caras se encheram, o empresário desistiu e as portas foram lacrando suas passagens. Droga! Para que fui pensar nisso? Acabei a noite bêbado e chorando no ombro de Jaime. Ainda vomitei e sujei a calça dele. Creio que vai levar mais um ano sem me procurar.

Tenho que encarar a realidade: sou um fracassado e o responsável por isso. Não adianta ficar reclamando feito velha. Aliás, nem sou disso. O problema é que quando encontro com esses dois amigos relembro como foi minha vida e sinto saudade. Mas a fossa dura pouco. Volto a tomar todas e me preocupo apenas com o presente.

Este bar onde canto hoje é pequeno e a maioria das mesas está ocupada. Espero que pelo menos alguns me ouçam. Se um deles aplaudir então, ganho a noite. Costumam ficar tão entretidos com as conversas que nem notam que a música é ao vivo. Eu os entendo.

O que gosto mesmo de fazer, é fumar, beber e cantar. Não exatamente nesta ordem.

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frass nem tão soltas XXXVI
08/11/2018 | 07h07

Frases nem tão soltas XXXVI

Cândida Albernaz

Pegou o pedaço do coração que partira e juntou à outra metade que ainda permanecia em seu próprio peito. Sorriu quando ouviu o bater ritmado novamente. Voltara a ser inteira,

*

O tempo parece carregar sua vitalidade. Engane o tempo com um, dois, três sorrisos. Costuma dar certo.

*

Foi virando-se devagar porque tinha medo de dar as costas ao que se acostumara. Não foi tão ruim assim. Quando conseguiu, percebeu que havia uma enorme luz diante de si.

*

Em qual esquina do amor eu dobrei para não mais te encontrar?

*

Ser mulher é acreditar que o mundo cabe dentro de nós. E por que não caberia?

*

Deu o melhor de si e não bastou. O que você queria era alguém inventado.

*

Pisando forte seguiu em frente. Cada batida no assoalho fazia ressoar em seu peito a força que precisava.

*

Não venha com palavras doces se me fez provar o fel. Tenho péssima digestão.

*

Vem aqui e me dá um beijo. Sentiu o gosto de amor? É seu.

*

Transforme sua dor em escritos. Aos poucos a tinta da caneta vai sendo absorvida pelo papel. Deixe que fique lá.

*

Não tenho medo da morte. O que me assusta é o não viver. É deixar que o tempo passe sem perceber.

*

Cansou de dar explicações para quem não fazia questão de se explicar.

*

Ficou deitada de olhos fechados. Esperava que o tempo levasse com ele a dor que sentia.

*

Vem correndo me abraçar. Talvez ainda possamos acreditar que é possível.

*

Colocou um pé e depois outro. Sentiu o chão firme. A areia movediça foi sugada por si mesma.

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doença
01/11/2018 | 00h52

Doença

Cândida Albernaz

Naquela noite o medo transparecia em seus olhos. Não o medo do desconhecido, mas o temor da constatação, do fato enfim consumado. Pela primeira ele a agrediu.

Com a mão ainda no ar depois do tapa que lhe dera, olhou-a não acreditando no que acabara de fazer.

Ela não sentia dor no rosto vermelho e também não percebia que de seus olhos escorriam lágrimas. Apenas ficou parada vendo a sua frente aquele homem transfigurado e se perguntando por que estava ali, por que deixou até aquele momento. Não teve coragem de tomar uma atitude antes, mesmo reconhecendo que era naquele ponto que chegariam. Fitava o rosto masculino, desconhecido agora, e tinha pena. Dele, pois entrara por um caminho sem retorno. Dela, por ter perdido tanto tempo.

Não falavam e não se encaravam. Caminhou para a porta do quarto e saiu.

Ele permanecia na mesma posição. Deixou-se cair no chão olhando para onde a mulher acabara de passar. Colocou a cabeça entre as mãos e chorou forte. Chorava a dor do reconhecimento da perda sentindo o peito comprimir.

A que ponto chegou. Os indícios foram muitos. A princípio, discussões. Mais tarde, as mesmas vinham regadas de gritos e palavrões. Houve até um empurrão quando ela caiu sobre a cama.

Não se reconhecia. Não se continha. Um ciúme insuportável o asfixiava. Juntava provas que não existiam. Tinha certeza em cenas que criava. Sua mente e a realidade percorriam rumos diferentes. Vivia num imaginário seu e não entendia como a lógica não correspondia ao real. A dor que sentia era intensa, quase não a suportava.

Queria parar, mas suas palavras nunca obedeciam. O que vinha a mente era despejado como vômito: sem controle.

Magoava e feria.

Quantas noites, a cabeça no travesseiro e o sono a fugir. Virava-se e a mulher dormia. Parecia tranquila. Apoiava o corpo no cotovelo e a observava. Que sonho estava agora a sonhar? Com quem? Achava que ela sorria. Seria ele provocando esse sorriso ou algum outro? Como ousava? Rasgava-se por dentro.

Levantava e andava por toda casa. Os pensamentos não o deixariam dormir e os pesadelos viriam: sua mulher sorrindo para muitos enquanto ele permanecia num canto sentindo o abandono. Observando. Acabavam da mesma forma: ela o via e desdenhava dele. Encontraria com algum homem que a faria feliz como ele não conseguia fazer. Como podia traí-lo até mesmo em sonhos?

Agora chegou a bater nela.

Ouviu um barulho. Era o carro. Ela deve ter levado as crianças. Meu Deus! Como seria sem eles? Pediria perdão. Tinha tanto amor a ela. Sabia que errara e reconheceria mais uma vez. Prometeria mudar. Faria qualquer coisa.

Como pudera duvidar de sua mulher? Estava decidido: começaria um tratamento e quando estivesse curado viveriam bem novamente. Tantas vezes ela pedira isso.

Mas talvez ela agora estivesse deixando as crianças com a avó e satisfeita, fosse ao encontro do amante. Ririam dele. O idiota sentindo-se culpado enquanto os dois trocavam carinho, cumplicidade.

Foi ao armário do quarto e procurou na prateleira de cima, embaixo dos casacos. Ela estava ali.

Não zombariam dele. Os encontraria e então.

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um aperto no estômago
18/10/2018 | 10h16

Um aperto no estômago

Cândida Albernaz

Hoje quando acordei senti um aperto na barriga. Não era fome, mesmo não tendo comido muito no dia anterior. Parecia uma dor que começava no estômago e ia até o coração. Não era daquelas que doíam era uma que me deixava triste. Parecia agonia.

Levantei e chamei meu irmão:

- Vamos, temos que trabalhar. A mãe não está em casa e já viu como vai ser quando ela chegar.

Não trocamos a roupa. Também não havia roupa para trocar.

Antes de sair cobri os dois menores com o pano que usei durante a noite. Estavam encolhidos, deviam ter frio. No cômodo onde moramos não há muito espaço, mas no inverno era até bom, um acabava esquentando o outro. Chato mesmo é que na maior parte do tempo faz calor.

Dia desses encontrei um ventilador no lixo, levei para casa e tentei consertar. Quando a mãe viu, começou a rir. Não entendi. Depois ela perguntou onde ia ligar se não temos luz. Havia esquecido. Pelo menos serviu para distrair os pequenos por algum tempo.

Ainda não era totalmente claro. Fomos correndo até o mercado e pegamos os sacos de biscoito. Precisávamos aproveitar o horário em que o pessoal ia para o trabalho, porque se conseguíssemos vender tudo, além do dinheiro ganhávamos pão com café.

Não sei, mas ontem quando mãe saiu não estava com uma cara boa, estou com medo de como vai chegar hoje. Às vezes bebe um pouco e se meus irmãos choram, perde a paciência e bate neles. Uma vez, quando cheguei da rua, minha irmãzinha sacudia a mão onde mãe havia colocado uma colher quente, queimando-a. Nem chorava a coitadinha. Tinha medo. Sabia que se chorasse seria pior. Aprendemos cada coisa nessa vida!

Não desgosto da mãe, mas se bebe... ou quando algum cliente bate nela, volta para nós furiosa. Coitada, também não tem como se defender e desconta na gente. Comigo não se mete mais, porque estou crescido.

Quando estou perto ela se segura. O problema é que quase nunca estou. Tenho que arranjar dinheiro para ajudar. Sabe que agora avanço para defender meus irmãos. Tem respeito ou tem medo, sei lá. Nunca encostei a mão nela, mas por eles faço qualquer negócio.

A pequena é grudada comigo. Toda vez que chego me agarra no pescoço e pede para eu girar com ela. Então enlaça as pernas na minha cintura e eu seguro suas mãos enquanto joga a cabecinha para trás. Rodo, rodo e rodo com ela. Ri tanto que nem se lembra do que mamãe fez.

Sei lá, estou com aquele aperto no peito novamente. É uma dor de tristeza tão forte.

Vou chamar meu irmão, pois acabei de vender tudo. Ah! Pelo jeito vendeu também. Tem dia que é assim mais fácil. Fomos pegar nossa parte e tomar o café com pão. Na volta parei no caminho e comprei feijão e batata. Vai ser bom. A mãe cozinha bem, pena que nem sempre tem o que colocar na panela.

Nossa, tem tanta gente em frente ao barraco. O que foi? Ninguém respondeu pareciam nos olhar com piedade. Saí empurrando todo mundo e ao entrar vi nossa mãe sentada no chão com os olhos arregalados, a roupa suja de sangue e repetindo:

- Eles não paravam de chorar, eu queria dormir e eles chorando e falando que tinham fome. Chorando, chorando, chorando.

Ouvi um gemido e vi os dois do outro lado da cama. Eu e meu irmão agarramos cada um no colo e corremos. Vai dar tempo. Eu sei que vai.

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para casa não posso voltar
10/10/2018 | 23h44

Para casa não posso voltar

Cândida Albernaz

 

Ele está olhando de novo. Se não conseguir desta vez, estou frito.

-E aí, tio? Não tem um trocado pra me dar?

Vamos lá, abaixe esse vidro e dê a grana. Não percebe o Traíra do outro lado da rua?

Até agora o que juntei vai me garantir uma surra.

-Valeu tia.

Droga! Não chega a um real. Esses ricaços estão ficando a cada dia pior. A gente pede um dinheirinho e quando dão, é essa mixaria.

Ontem apanhei feito um puto. Não consegui ganhar o que ele queria.

Traíra disse que está precisando de uma camisa nova e que sou eu quem vai dar a ele. A gola da antiga está puída, falou.

Com o frio que fez esta noite, pensei que fosse morrer congelado. Ainda bem que o Chamuca dividiu o cobertor comigo, e deixou que eu encostasse nele. Não sei se ia aguentar. Esse brother é o único que me trata bem. Os outros têm raiva, dizem que sou mole. Não é isso, vou aprendendo aos poucos.

Lá em casa, mamãe vivia gritando que eu era demente, lerdo e não me suportava mais. Meus irmãos, sim, são inteligentes. Eu nasci meio burro.

Ela falou que bebia muito quando estava em seu bucho porque não queria que eu nascesse. Tentou de tudo para se livrar de mim. Tinha ódio.

Ficava falando que meu pai foi embora porque não suportava olhar na minha cara. Deve ser verdade mesmo. Não entendo direito as coisas e falo devagar. Minha cabeça às vezes doía tanto que começava a gritar. Foi isso! Ele largou a gente por causa dos meus gritos. Hoje em dia, quando a dor chega, fico quieto, coloco as mãos de um lado e do outro e aperto muito. Não adianta, mas não grito.

Mamãe sempre dizia que não gostava de mim, que queria que eu sumisse, ou melhor, que nem tivesse nascido. Resolvi ir embora. Andei quatro dias seguidos, até que encontrei o Traíra. Me deu comida, arrumou um canto dentro do galpão para eu dormir e me abraçou. Sabe há quanto tempo ninguém me abraçava? Nunca havia acontecido.

Só avisou que eu teria que ajudar nas despesas. Eu tento, mas sempre levo menos que os outros. Ele disse que perdeu a paciência comigo.

Já deve ter seis meses que estou com ele. Levei pelo menos dez surras. No início dizia que eu estava em treinamento, mas agora não tenho mais o que aprender, só agir.

O que posso fazer se esses manés ficam com medo de abrir o vidro do carro? Sou feio e muito alto, acho que assusto.

Outro dia fui chamado para escolher umas donas e arrancar a bolsa delas. Pensei: do jeito que sou, vão me pegar.

Chamuca é quem se preocupa. Diz que tem um irmão e que pareço com ele. Não o vê há dois anos. Se não fosse por ele, Traíra já tinha me matado de tanto bater. Como ele é sempre quem traz mais dinheiro, Traíra o respeita. Não quer perder Chamuca para ninguém.

Filho da mãe! Tá me olhando de longe. E eu aqui parado pensando na vida. Tenho que apanhar mesmo. Sei que mereço.

-Tia, um trocado?

-Aí, valeu!

Olhei para ele. Essa foi melhor e rendeu uma graninha. Sorri e ele entendeu. Virou e foi para a outra esquina. Vai pegar no pé de Andrezinho. Me deixou em paz.

Tem um bar aqui perto que vende umas balas.

Vou o mais rápido que posso e compro só uma. Se Traíra me pega...

Cara, que bala gostosa!

-E aí, tio? Uma moedinha, só pra ajudar. Tô com fome.

-Valeu!

Acho que minha sorte está mudando...

 

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imaginação
04/10/2018 | 00h39

Imaginação

 

Cândida Albernaz

 

Nos olhos inquietos percebe-se a lucidez indo embora. A dúvida o corrói e não se controla mais.

Tenta fugir de sua direção, mas a persegue como animal, as narinas abertas sentindo o cheiro do que apenas sua imaginação consegue enxergar.

 

* * *

 

Não casaram porque ela sempre achou que um pedaço de papel diante de um juiz era mera burocracia. Queria se sentir livre mesmo vivendo com ele, que dizia ser o ar de garota selvagem, que escapa entre os dedos, sua maior sedução.

Veio o primeiro filho e a mulher independente que se tornaria, nunca existiu.

Não foi o papel que a prendeu, ela se deixou encarcerar como numa teia tecida dia após dia entre diálogos ríspidos e carinhos no meio da noite.

Quando o segundo filho nasceu, fechou o consultório por pouco tempo, mas nunca mais voltou.

O marido costumava reclamar por ficar sozinha com seus pacientes durante a consulta. Afinal de contas, “você é linda e não há outra igual”.

Explicou que a secretária estava sempre presente e nunca houvera qualquer problema. Não o convenceu.

Quando surgiu a oportunidade de abrir uma clínica com colegas, ele foi contra, já que “o safado do Carlinhos só finge ser médico, porque o que ele quer mesmo é dar cantada nas pacientes. Pensa que não reparei o jeito que olha para você também? Qualquer dia quebro a cara dele”.

Tentou mostrar que isso era impossível, Carlos era um cara bem mais velho do que ela e costumava ser reservado e respeitar as pessoas. Insistiu tanto no que faria caso ele se aproximasse dela, que achou melhor desistir do projeto.

A clínica está funcionando e outra dermatologista ocupa a sala que seria sua.

Na época em que havia planejado voltar ao trabalho, o marido sofreu um acidente e exigiu sua presença. “Só você sabe cuidar de mim”. Mais um mês sem se decidir. Estavam chegando as férias e ele planejou a viagem de seus sonhos com as crianças. Ficariam por trinta dias na Europa. O irmão dele morava na Itália e os hospedaria.

Deixou-se levar como algo sem peso no meio de uma ventania. Sem que percebesse as forças foram fugindo e achou que sendo guiada por ele, as discussões diminuiriam e o ciúme doentio também.

Só havia um problema: ele passou a exigir cada vez mais. Nada o satisfazia e se não tinha mais como reclamar do trabalho, era na rua, entre uma compra e outra, entre levar um filho ao médico, entre a saída da escola das crianças, era nas horas mais corriqueiras que as supostas traições aconteciam.

Sentiu-se sufocada e perdeu o brilho. Envelhecia antes da hora. A mulher que gostaria de ter sido, só conseguia vê-la quando estava sozinha diante do espelho e imaginava ter forças para se libertar.

 

* * *

 

Não fez as malas, não retirou nada seu. Avisou que pegaria depois. Os filhos, quando saíssem do colégio, deixaria com sua mãe por algum tempo.

Os olhos dele de tiranos foram ficando débeis enquanto falava. Pedia que ficasse e desse mais uma chance para os dois.

Ela cuspiu tudo de uma só vez e enquanto ele absorvia o que dizia e implorava mudanças, saiu, entrou em seu carro e sentindo o vento pelos vidros abertos, sorriu com segurança. Ia recuperar sua vida.

A garota que fora, ardia dentro dela com tal intensidade que se sentia queimar.

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Sobre o autor

Candida Albernaz

[email protected]

Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".