Longa espera
24/05/2018 | 16h33

Longa espera

Cândida Albernaz

Ficou parada olhando a parede branca. Não saía som de sua boca. Não havia por que, já que também não havia ninguém para escutar.

Estava sozinha mais uma vez. Queria poder gritar, mas sentia-se fraca para isto. Deu então um muxoxo e um balançar de ombros. Fingiria não se incomodar.

Fingir para quem? Riu de si mesma. Estranhou o som que saiu de sua garganta. Não parecia o de um riso, aquele barulho alegre que faz com que outros também queiram sorrir. Era mais semelhante a um gemido. Que jeito esquisito de dar risada! Acha que desaprendeu. Ou esqueceu. Melhor que seja assim, porque poderá lembrar a qualquer momento de novo.

Notou que a parede não estava totalmente branca. Havia um ponto preto quase chegando ao teto. Parecia uma aranha.

E era! Uma pequena aranha que acabara de se pendurar. Imaginou que se tivesse altura suficiente, passaria o dedo pela teia para ver se caía. Queria ser como ela. Esconder-se no alto, presa por um fio invisível, apenas ela vendo tudo o que acontecia a sua volta. Sem ser vista.

Pensou que era uma tonta mesmo. Ver o que se ali não havia ninguém? A cama mal forrada? Aquela mesinha sem gavetas? Ou o chão também branco?

Tiraram as gavetas para que não quisesse guardar nada. Gostaria de ter pelo menos um porta-retratos. Eles têm medo de que se machuque com ele.

Verdade que rasgara todas as fotos que estavam ali. Eram três. Não entendiam que não podia olhá-las. Não naquele dia. O peito ardera ao se ver rindo com os filhos e o marido.

Pois é, um dia soubera rir.

Quando olhou a fotografia, lembrou-se do que vivera naquela tarde: felicidade. Doeu recordar como era. Não aguentou e então rasgou em minúsculos pedaços.

Quando a enfermeira entrou estava com um deles na mão. Eram dois olhos, sem a boca e o nariz. Não sabia de quem eram aqueles olhos.

Perguntou a ela, insistiu e como a enfermeira não conseguiu identificar, agarrou em seus cabelos e puxou seu rosto para perto. Queria apenas que visse melhor. Em vez disso, mãos a agarraram com força e prenderam-na na cama. Dormiu.

Do mesmo jeito que não sabia rir, não sabia chorar.

Mas lembrava de já ter chorado muito. Quando o filho mais velho foi embora. Disse que não ficaria mais ao lado dela porque daquela vez jogara uma tesoura nele, que quase o cegara. Não se recordava.

Ele contou várias histórias ao médico. Como o dia em que ela esquentara o garfo e em seguida colocou sobre o braço do irmão. Quando percebeu muita gente gritava à sua volta enquanto trancava-se no banheiro. Queria fugir daquele alvoroço.

Um dia jogara o carro que dirigia contra uma árvore. Estava ela, o marido e os dois meninos.

- Não há mais o que fazer, disseram. Temos que interná-la.

Não perguntaram sua opinião. Enfiaram-na naquele lugar sem cor. Ela poderia ter dito que escolheria morrer. Seria tão fácil. Quantas vezes pensara nisto? Chumbinho? Cortar os pulsos? Pular de uma janela? Ligar o gás e esperar?

Este último era o seu preferido. Agora, neste lugar, não teria mais chance alguma.

Janela com grade e quarto vazio. Se fosse como a aranha, aproveitaria a própria teia e a passaria pelo pescoço.

Queria ver a cara daquela mulher chata quando a encontrasse. Ficaria horrorizada ou aliviada?

Não importa. Não é uma aranha.

Avisaram que hoje é dia de visita.

- Está calma – disseram.

Tomou banho e agora penteavam seu cabelo.

- Está bonita. Quer passar um batom?

Perguntou mas não esperou resposta. Passou um de cor rosada em sua boca.

Quanto a estar bonita, um dia fora sim. Sobrou pouco do que era.

Colocaram-na sentada em uma cadeira da sala.

- Fique bem quietinha porque estão chegando.

Tentou lembrar novamente como era sorrir. Gostariam de encontrá-la assim.

Pegou o dedo indicador e puxou o canto direito do lábio. Com o outro, puxou o esquerdo.

Acho que está bom desse jeito. Tomara não demorem, porque vai se cansar.

Para ela o que sobrou foi uma longa espera.

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para um vovô querido
26/04/2018 | 17h28

Para um “Vovô Querido”

Vovô Querido, com você descobri que ser honesto é ser livre. Obrigada por isso. Amo você e tudo o que vivi ao seu lado, cada lembrança, cada carinho, cada amor que você e minha avó me deram transbordava. Obrigada por ter sido quem foi e por ter me permitido vir como sua neta, com Muito orgulho. Esteja com Deus.

Paula Albernaz

Vovô Querido, ainda está sendo impossível acreditar. Um homem tão forte, íntegro, que sempre lutou e tentou proteger os seus e o próximo. Como sou grata por ter sido escolhida para ser sua neta, que orgulho sinto de você. Que esteja em paz e que Deus conforte nossos corações. Obrigada por nos mostrar que a honestidade é o caminho. Te amo muito e não sei como será daqui para frente as nossas reuniões e nosso lindo Natal sem suas palavras e seus discursos. Te amo te amo te amo e sempre te amarei. Você está com Deus e vovó já te recebeu ao lado dela. Olhe por nós.

Luana Albernaz

Mais que a dor sinto gratidão pela sua vida e por tudo o que trouxe para nossa vida. Nossa família. Meu avô foi a primeira personificação que criei da palavra vocação. Foi a partir dele que entendi o que isso significava. Uma vida dedicada à politica. A política como deveria ser, junto ao povo. Ele mostrava que não deveríamos desistir ou desacreditar. Ele mostrou que é possível fazer sem ser injusto, sem judiar. Deixou para todos nós, seus filhos e netos, a importância de ser ético, de fazer o certo para ter do que se orgulhar. Aí está o verdadeiro sentido. O dia está lindo, o céu está azul, o sol brilha quente e o coração, apesar de dolorido, segue cheio de carinho. Ele com certeza inicia uma nova jornada num lugar mais bonito, mais leve e mais justo. E sei que minha Vó Quequé está sorrindo, nosso Vovô Querido está a caminho.

Gabriela Albernaz

Quanto orgulho e admiração por você. Eu e todas as pessoas que te conheciam. Você brilhou nesta vida e nos deixou lembranças lindas de um homem honesto, generoso...um homem bom. Meu Vovô Querido, como era bom sentir seu carinho quando nos encontrávamos. Que bom ter tido a oportunidade de ouvir sua voz ontem, de te dar um beijo. Eu nem desconfiei que seria o último... teria ficado mais tempo ali.

Júlia Albernaz

Descanse em paz meu avô, que Deus o receba com tamanha misericórdia e amor. Sua passagem aqui foi repleta de vitórias. Foi marcante e admirável. Você inspirou muita gente e nos encheu de orgulho. Obrigada por ter sido tão bom. Ajudou muitos e foi um politico que há muito tempo não encontramos: justo e honrado. Nosso coração está doendo.

Marcella Albernaz

Bivô, que bom poder ter tido sua presença todos esses anos em minha vida. Agradeço sempre pela família que me deu, forte e unida. Sentirei sua falta, mas sei que está em um lugar muito melhor. Te amo muito. Sua bisneta,

Betina Albernaz

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com ela seria diferente
27/03/2018 | 08h07
 
esperança a encontrar
esperança a encontrar / google
Com ela seria diferente
Cândida Albernaz
O casaco rosa em tom forte contrastava com a pele negra. Os olhos levemente puxados tinham uma vivacidade que pareciam trazer brilho a todo o resto. Na mão direita, empurrava uma bicicleta vermelha com a pintura gasta. Caminhando à beira do asfalto, ignorava os olhares que provocava e o perigo dos carros que transitavam.
A amiga devia estar impaciente. Combinara com Gislane ficar com o filho dela por algumas horas. Adorava criança e esperava ter os seus um dia. Dois. Queria um casal, mas Deus é quem sabe, é claro. Tivessem saúde, o principal.
Mal pegou o menino, ela saiu correndo dizendo estar atrasada.
As duas têm dezessete anos e se conhecem desde criança. São como irmãs. Sua mãe tinha fartura de leite naqueles peitos tão grandes que pareciam dois travesseiros, e amamentou a amiga. Tia Dalva era fraca e quando a primeira filha nasceu, bateu uma tristeza nela e o leite secou. Não conseguiu tomar conta da menina. Sua mãe, que nunca viu chorar nem umaveizinha, cuidou das duas.
Agora é ela quem ajuda com o filho da amiga. Gosta daquele garoto de três anos que é seu afilhado. Ele é tranquilo e não dá trabalho. A amiga sim, é meio maluca e avoada. Quando começou a namorar o pai dele, não faltou quem avisasse como era: mulherengo, gostava de emprenhar garotas novas, vendia bagulhos para os caras lá de cima, etc, etc. Não ouviu ninguém, com ela seria diferente. Não foi. Depois de anos de coças esporádicas e uma criança na barriga, o cara se mandou porque se encantou com outra.
Ficou triste a boba, sem conseguir enxergar que agora talvez tivesse chance de consertar a vida. É evidente que com um filho aos catorze anos, seria muito mais complicado. Sabia também que podia contar com ela, mesmo que não fosse grande coisa, estariam juntas.
De tia Dalva, nunca pôde esperar nada. Depois que Gislane nasceu, vieram mais dois e a cada vez ela tinha nova crise e permanecia sem saúde o suficiente para cuidar deles.
Em suas conversas, a amiga fala que não entende como o pai permitiu que sua mãe engravidasse tantas vezes se não podia dar atenção aos filhos. Não ouvira falar sobre preservativo? Aliás, ela pensa que Gislane também não ouviu a respeito.
Hoje em dia, Dalva endoidou de vez e vive zanzando para lá e para cá, sem falar coisa com coisa. O marido é um santo, tem a maior paciência com ela. Apesar de parecer que a convivência é horrível, nunca o ouviu falar mais alto.
Como no dia em que ele estava lavando o carro na frente de casa e ela resolveu ajudar. Entrou, pegou um balde, e antes que alguém percebesse, virou o que tinha dentro em cima do carro. Na mesma hora um líquido branco escorreu até cobrir o farol do lado esquerdo. Não!!! Todos gritaram na hora, mas o estrago estava feito.
Ela explicou que jogara a tinta que estava em cima do armário, para o carro ficar clarinho. Por quê? Não gostava de branco? Que pena, se soubesse teria tentado com outra cor.
Ele segurou em seu braço e quando notou que chorava, pediu que ficasse calma. Daria um jeito. Ela sentou na varanda e ficou parada olhando para eles.
O melhor era levar para a oficina no dia seguinte.
Se fosse o pai dela..., mas também sua mãe não era doida como tia Dalva.
Gislane está demorando. Foi fazer uma entrevista, pois precisa trabalhar.
Pegou o afilhado no colo e foi até o portão. Nem sinal.
Ver o que a amiga tem passado serviu para decidir que não deixaria que acontecesse nada semelhante com ela. Não queria saber de namorado por enquanto. Faria faculdade no próximo ano e além de estudar, trabalhava para isso. Era vendedora numa loja de perfumes. Sabia que o pai não podia pagar. Seu sonho sempre foi ser professora, ensinar, e tinha certeza de que realizaria.
O menino dormiu. Voltou ao portão e viu a amiga descendo do ônibus.
- E então, conseguiu?
Gislane começou a chorar.
- O que houve?
E ela despejou que não era entrevista para trabalho nenhum. Queria tirar a criança que esperava, mas não teve coragem.
- Grávida de novo? De quem?
E o que isso importa? Sua vida tinha acabado de vez.
- Por que não contou antes? Sabia que não deixaria que tirasse. E agora?
Choraram as duas. Não sabia o que dizer, só apertou mais forte os braços em torno da amiga. Sentiu um gosto ruim na boca.
Com ela ia ser diferente, prometeu a si mesma.
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frases nem tão soltas XXXIV
27/03/2018 | 07h46
ballet no ar
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Frases nem tão soltas XXXIV
Cândida Albernaz
A saudade do amor está em cada gesto que repetimos com o outro, como um ritual que sem querer inventamos para nos tornar inesquecíveis.
*
Quando penso em fugir, seus olhos cruzam os meus e qualquer desejo que não seja estar em seu corpo deixa de existir.
*
Seremos para sempre meninos ou meninas, porque o tempo nos desenha por fora e a alma nos desenha por dentro.
*
Um brinde ao amor quando deixa de ser teoria!
*
E no dormir a noite trará com ela luzes que me cobrem enquanto giro suavemente sonhando sonhos que encantam.
*
Busque-me com seus braços de apertar. E sem folga entre um abraço e outro, faça com que tema muito mais ir embora do que me deixar ficar.
*
Nunca valerá a pena estarmos sós ao lado de alguém.
*
Tenho angústias que nem mesmo sei de onde vêm. Chegam como ondas me cobrindo o corpo e impedindo de respirar.
*
Que tonto é em não saber ouvir o que grito com os olhos e escondo com os lábios.
*
Não fique ao lado de alguém apenas porque te faz bem. Permaneça porque não pode viver sem o outro.
*
O perigo de jogar para o alto o que acredita não querer mais, é ter que se agachar mais tarde para catar migalhas.
*
Desligo o mundo quando estou com você.
*
Pensei seguir a lua para que ela me mostrasse o infinito. No meio do caminho, mudei de ideia e dei a volta. De costas para ela encontrei a escuridão que aquela noite me esperava.
*
Não sei ser doce por muito tempo. Ficaria enjoada de mim.
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Nossas músicas
30/11/2017 | 08h27
quando ainda era assim
quando ainda era assim / google
Nossas músicas
Cãndida Albernaz
Está ouvindo a música?
“... Ouça, vá viver a sua vida com outro bem. Hoje, eu já cansei de pra você, não ser ninguém...” Há quantos anos não a escutava? Lembra-me um dos verões que passamos juntos. Que ano era aquele? Você também não sabe, não é? Tanto tempo... A gente conseguia rir de tudo. Era isso mesmo, naquela época não tínhamos motivo para não aproveitar.
“... Nunca mais vou fazer o que meu coração pedir. Nunca mais vou ouvir o que meu coração mandar...” Essa música me recorda cada coisa... o Antenor atrás da Vilminha e ela nem ligando para ele. O sujeito tomava um porre atrás do outro! E todos nós achando engraçado o sofrimento dele. Ninguém conseguia levar aquilo a sério. Dizia que sem ela ia acabar se matando. Vivia nos extremos, o Antenor. Até que uma noite você chegou com uma amiga e ele com o dia quase amanhecendo, veio falar que agora sim, conhecia o que era amar. O que sentira no passado pela Vilminha fora um engano. - Amor à primeira vista, meu irmão. Isso é que é amor real.
E olhávamos para ele, ríamos da cara de bobo que fazia e continuávamos rindo imaginando o quanto sua amiga ia penar com esse amor de perseguição que ele entornaria com vontade em cima dela.
Estou vendo nos seus olhos que está rindo também. Gosto quando a vejo mais animada. Não está com frio? Se preferir, podemos entrar. Mas acho que você também quer ficar mais um pouco. A noite está bonita e amanhã fará sol. Céu estrelado. Será que nossa estrela ainda está lá? Todo jovem de nossa época tinha uma.
Ouve essa que está tocando agora? Alguém que viveu nossa juventude relembra. Assim como nós.
“... Ainda é cedo, amor. Mal começaste a conhecer a vida. Já anuncias a hora da partida...” linda, não é mesmo? Lembro-me de ouvir você cantando algumas vezes. Voz rouca e suave. Nunca falei, mas quando a ouvia sentia um desejo enorme de você. É isso mesmo. Sua voz cantando me deixava louco. Rindo de novo? Acho que fazia de propósito. Sabia que mexia comigo. Às vezes, tínhamos brigado e daqui a pouco você passava por mim interpretando alguma música. Baixinho. Mal me aguentava de vontade de fazer as pazes. Fale a verdade. Quantas vezes usou isso para me seduzir?
Ei! Que olhar triste é esse agora? Só porque não pode mais cantar? E daí? Também já não posso fazer tanta coisa... E você sempre me atraiu. Corpo, olhos, boca, voz. Sabe disso, não sabe?
Ouve “... Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar...”
Você se entusiasmava quando me vendo remando. Eu era um bocado forte. Sei do que você mais sentia atração em mim: o peito!, que era largo, musculoso, costumava passar os dedos nele e quando me abraçava, apertava seu rosto ali. Gostava de remar por nosso clube. Depois a vida, o trabalho, fez com que eu parasse.
Sabe quem vi no outro dia? Romualdo. Lembra-se dele? Está velho, encurvado. Acho que pensou o mesmo de mim. Mas não estou tão velho assim. Claro que ando evitando os espelhos. Essa porcaria não mostra como me sinto. E aquele que vejo ali refletido não tem nada a ver comigo. É apenas a casca. Fala para mim: sou bonitão apesar da idade, e esse cabelo branco dá charme, não acha? Você dizia isso quando eles começaram a aparecer. Falava que me deixava ainda mais interessante e que ia precisar vigiar em dobro, porque mulher adora homem começando a ficar grisalho.
Está esfriando, melhor entrarmos. A música também parou. Acho que quem ouvia resolveu dormir.
Deixe ajeitar a manta em seus joelhos. Pronto. Essa cadeira que comprei é melhor do que a antiga. Mais leve para empurrar.
Sabe qual a parte que mais gosto do dia? Quando tiro você daí, a hora de deitá-la na cama. Coloco-a no meu colo e sinto seu corpo. Vejo o rosto tão próximo do meu e sinto saudades. Uma saudade boa.
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frases nem tão soltas
21/11/2017 | 21h08
caminhos a escolher
caminhos a escolher / google
Frases nem tão soltas XXXIII
Cândida Albernaz
Amor quando espalha provoca sorriso que encanta.
*
Ouviu o coração bater sem compasso. Era o medo de ter que desistir. Decidir pelo não agitava seu peito.
*
Viu o brilho daquela estrela? Não conseguiu porque olhava o chão. Perdesse menos tempo sendo sensato.
*
Tantos eram os medos que enfrentava. Logo ela, que se pensou covarde, criou armas e armaduras e agora lutava como se corajosa fosse.
*
Pegou a mala, colocou suas dores ali dentro e fechou com um cadeado. Poderia levá-la para onde quisesse, mas usar a chave para abri-la era escolha sua.
*
Entardeceres me comovem. Esta é a hora em que o dia começa a adormecer e muitas vezes você percebe que o sonho daquele mesmo dia ainda não foi realizado.
*
Há dias que o dia foge. Melhor não ir buscá-los. Melhor deixar para lá.
*
Na cumplicidade do confiar o amor não mede dor, ele se contorce para cativar.
*
Por mais que o tempo passe, que a pele enrugue, nossa alma será sempre criança nos esperando.
*
Passo a passo vai seguindo o caminho que nunca foi traçado. Devagar, para que havendo tropeços, não se machuque demais.
*
O amor é bonito, quando apesar do tempo ou por causa dele se consegue rir junto.
*
Ansiava descansar a cabeça no colo daquela que a acalentara tantas vezes quando criança. Era macio de carinho e acalmava todos os seus medos.
*
Olhou firme em seus olhos e decidiu perdoar. Apenas para que pudesse esquecer.
*
O corredor era longo e frio, mas precisava chegar até a porta. Tinha certeza de que depois dela havia uma luz de aquecer. Só deveria prosseguir.
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alguém vai ajudar
24/08/2017 | 11h08
chuva e esperança
chuva e esperança / google
Alguém vai ajudar
Cândida Albernaz
Minha filha olha este aguaceiro entrando por baixo da porta. Pega logo o saco de areia. Ai meu Deus, não quero morrer afogada.
Nem posso ajudar. Entrevada nessa cama há tantos anos. Por que as pernas não me obedecem mais?
A bacia aqui no quarto está cheia e vai transbordar. Joga fora essa água. Tantas vezes ficamos sem uma gota em casa para preparar a comida ou lavar a roupa. E agora esse esbanjamento. Quando foi que pensei que ia mandar jogar água fora?
Lembra-se daquela semana em que você andava até o poço na outra rua e enfrentava uma fila danada, só para conseguir um balde? E era preciso que durasse bastante. Sempre gostei de ser limpinha e, no entanto tive que ficar sem banho por três dias, só lavando as “partes”.
A goteira está em cima do rádio. Tenho pena de você, agindo tudo sozinha e eu aqui sem prestar para nada.
E essa chuva que não para? Vou rezar mais uma vez porque é só o que posso fazer.
Pede ajuda ao vizinho. Ele é forte, empurra o fogão e a geladeira para um lugar mais seguro. Do jeito que está entrando água vamos perder tudo. Tanto sacrifício.
Não fica aí parada me olhando. Ele não está mais em casa? E os outros? Será que se esqueceram de nós?
Está chegando à altura do colchão. Não tem jeito. Sai e pede ajuda. Vai logo, porque eu não queria falar, mas estou com um medo danado. Chora não, filha. Anda logo e volta com alguém.
Necessito que me carreguem. Nunca odiei tanto as minhas pernas. Sabia que já foram bonitas? Seu pai se encantou por elas. Dizia que na nossa região não existiam mais perfeitas. E não é para me gabar, mas ele tinha razão. Usava uns vestidos curtos, não como os de hoje, que são uma indecência, mas o suficiente para que de vez em quando aparecessem os joelhos. Agora estão mortas, arriadas nessa cama, finas e sem forma.
Desculpe filha. Você precisando ir e eu falando do passado.
Não, nem pense em tentar me levar sem ajuda porque não aguenta.
Vai logo, estou sentindo o colchão molhado. Não se preocupe em que eu fique sozinha porque não vai adiantar. Corre o mais rápido que puder e volte logo.
Ajude minha menina, Senhor, que nós não merecemos passar por isso. Nunca fiz mal a ninguém, e nem ela, coitada. Nem casar, casou, para ficar cuidando dessa velha aqui. Coração bom está ali. Ela está com medo que não dê tempo para me tirarem daqui. Eu também, Senhor, mas vou encontrar forças, se for preciso.
Já me arrastei para a cabeceira da cama, mas não adianta. A água subiu ainda mais. Essas pernas imprestáveis estão cobertas. Estão geladas e começo a sentir frio. Vou fechar os olhos porque não quero nem ver.
O que é isso? Soltem. É muita mão me puxando.
Filha, você conseguiu. Obrigada por estar comigo.
Perdemos tudo, meu Deus.
Não chora meu amor. Deus vai ajudar a gente. Não sei como, mas vai.
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o colecionador
16/08/2017 | 23h48
solidão
solidão / google
O colecionador
Cândida Albernaz
Costumava chegar a casa no mesmo horário todos os dias. Almoçava com os filhos e a mulher uma comida “saudável”, como gostava de afirmar.
No escritório, um café bem forte e um copo de água gelada eram depositados em sua mesa, cinco minutos depois que entrava. A secretária desde o dia em que começara a trabalhar com ele, fora orientada sobre seus hábitos e horários. Não gostava de mudá-los nem admitia que alguém o fizesse.
Com a pasta, onde guardava tesouros que imaginava possuir, caminhava pelo corredor da empresa cumprimentando um e outro com um movimento de cabeça.
Todos o respeitavam e estranhavam. Com uma estatura alta e corpo magro, mantinha os ombros encurvados, como se o peso da pasta que carregava fosse muito grande. Não era de conversa e quando vinham com um assunto que não o interessava, olhava com tamanho desdém que o outro se sentia constrangido, desistindo de levar a conversa adiante.
Em casa não era muito diferente disso. Quando a mulher levantava, a mesa do café estava arrumada, o jornal ao lado da xícara e a televisão ligada, pois gostava de saber sobre o tempo antes de sair. Acordava-a vinte minutos antes de ir para o trabalho para que tomassem o café juntos. Mal tirava os olhos do jornal que lia rapidamente. Ao sair, beijava-a e dizia que estaria de volta para o almoço que era servido invariavelmente às treze horas.
Sentado à mesa, separava o que julgava ser importante resolver pela manhã. Era arquiteto em uma construtora bem sucedida. Apesar de reservado e ter dificuldade em se comunicar, sua mente e mãos criavam prédios de fácil aceitação para venda.
O que mais chamava atenção em sua figura, era a pasta da qual não se desgrudava por nada. Os comentários eram diversos, desde que ali havia joias, dinheiro, documentos ou fotos comprometedoras.
Depois do jantar servido às dezenove horas, tinha o hábito de sair para uma volta. Sua mulher desfazia a mesa onde jantavam e olhava-o pegar a pasta ao lado da cadeira e ir para a rua. Geralmente voltava em meia hora e assistiam algum programa na tv. Pelo menos uma vez no mês, ele se demorava mais no passeio.
Nesses dias, após pegar a pasta, ele caminhava ao longo da avenida, entrava em um ônibus, descia em algum ponto onde pegava outro.
Fazia sempre percursos diferentes. Pensava que era sorte morar numa cidade grande onde podia variar os lugares que frequentava.
Entrou em uma porta estreita, de onde se podia ver a escada, em que a lâmpada pendurada no teto, mal iluminava.
Enquanto subia, reparava na sujeira à volta. As paredes marcadas por mãos e o chão, todo arranhado. Diante de uma nova porta, bateu com os nós dos dedos, retirando em seguida um lenço do bolso onde limpou as mãos. A mulher que surgiu à sua frente não era tão jovem como anunciara no jornal, nem tão morena também. Alguns fios brancos podiam ser vistos através da tintura mal feita.
Entrou e observou-a. Vestia uma camisola já gasta, e segurando sua mão, levou-o para a cama. Morava sozinha naquele quarto e sala. Verificara antes. Pediu para ir ao banheiro, e ela o indicou sorrindo. Com um movimento deixou um dos seios à mostra.
Ali dentro, depositou a pasta em cima da tampa do vaso sanitário, não sem antes limpar o mesmo com uma enorme quantidade de papel higiênico. Retirou um pote de vidro que continha um líquido transparente e um pequeno nécessaire. Abriu e despejou parte do conteúdo no bolso da calça, deixando todo o resto ali mesmo e foi para o quarto.
A mulher aproximou-se tentando lamber sua orelha. O contato da língua gelada provocou nele uma sensação de nojo.
Virou-a com rapidez, fazendo com que seu corpo, de costas para ele, não visse o que fazia. Ela resmungou estar sentindo um cheiro esquisito, mas, sem que houvesse tempo para qualquer reação sentiu o lenço obstruindo nariz e boca até que perdesse os sentidos.
Ele jogou o corpo agora inerte sobre a cama e tirou do bolso uma lâmina fina. O corte no pescoço fez com que jorrasse sangue encharcando a colcha rapidamente. Pegou a mão da mulher e levantando o dedo anular, colocou um anel que trazia consigo, para em seguida decepá-lo. Voltando ao banheiro, guardou o dedo enfeitado dentro do pote.
Arrumou suas coisas e limpou o que podia para não deixar rastros. Saiu do prédio sem que ninguém o visse. Andou três quadras e de um ponto de ônibus seguiu para casa.
Ao chegar, sua mulher o esperava. Ele sorriu, deu-lhe um longo beijo e chamou para que subissem. Ela o olhou maliciosamente. Sabia que quando a beijava dessa forma, faziam amor.
Dirigiu-se a ela, enlaçou seu corpo apertando levemente o pescoço como se a sufocasse e mordeu sua nuca. Ela fingia sentir dor. Enquanto a beijava, seu olhar procurava a pasta. Tranquilizando-se viu que estava sobre a cadeira onde a colocara. Fechou os olhos sentindo o gozo que o dominava.
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mudei e pronto
22/06/2017 | 22h12
vamos trocar de lugar?
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Mudei e pronto
Cândida Albernaz
- Não estou entendendo.
- Como assim não está entendendo?
- Você não é deste jeito.
- Mudei.
- De uma hora para outra.
- Não, de um homem para outro.
- Isso não deveria influenciar sua maneira de ser. Pode ter mudado de companheiro, mas você é a mesma.
- Quem disse?
- Logo você que sempre teve um caráter forte.
- E ainda tenho. Por isso essa decisão.
- Não é assim que funciona. As pessoas não decidem ter uma nova personalidade de repente.
- E por que acha que foi dessa forma? Sempre fui certinha, compreensiva, amiga. De que adiantou? Tomei na cabeça.
- Você não tem certeza.
- Claro que tenho. Ele só chegava a casa as tantas, saía todo perfumado, trocou todas as cuecas por novas e ainda por cima começou a pintar o cabelo...
- Não significa nada.
- ... e isso eu não perdoo. Adorava os fios brancos, dava um ar mais sério para ele, de maturidade. Agora essa cor indefinida. Odiei.
- São muitos anos juntos. Sabe que ele quer voltar.
- Mas eu não. Agora que conheci o Tadeu, vou aproveitar.
- Tadeu. E de onde surgiu esse?
- Ele é feliz, para cima e depois tem outra coisa...
- O que?
- Não ronca.
- E desde quando se incomoda? Aposto que você também ronca.
- Não importa, não posso me escutar mesmo. E ele não reclamou de nada.
- Isso é só o começo.
- Pois vou aproveitar o começo, o meio e o fim. Quando acontecer, arranjo outro. Resolvi que quero viver relações sempre no início. Quando mudar para aquela pasmaceira, troco mais uma vez.
- Não podemos levar a vida dessa forma.
- Pelo menos não corro o risco de ser traída. No princípio é tanta paixão que ninguém tem olhos para o lado.
- Virou criança novamente.
- Virei sim e vou tirar proveito disso. Se não der certo, choro muito como sempre e quando cansar de chorar vou à luta.
- Desse jeito vai sofrer mais ainda.
- Mais ainda? Deus me livre! Acho que é impossível. Sabe com quem estava me traindo?
- Não...
- Com uma daquelas meninas que “recebem ajuda” para terminar o estudo. Em casa a maior dificuldade para soltar a grana.
- Isso foi diversão, coisa passageira.
- E daí? Se me pagasse, podia fazer igual, ou melhor do que ela. Por que não tentou? Quem sabe o dinheiro me dava um estímulo extra?
- Que louca. Você não pensa assim.
- E você acha que me conhece.
- Não acredito. O Tadeu paga a você?
- Nem precisa. Viu o corpo dele? O jeito que ele anda? E a pegada? Nossa! Só em lembrar...
- Já vi que esse papo não vai levar a nada mesmo. Seu ex quer conversar, está arrependido. Falou que não deveriam jogar fora o tempo que viveram juntos.
- Olha, em primeiro lugar, quem jogou fora não fui eu. Em segundo, detesto aquele cabelo pintado. Em terceiro, só volto para a cama com ele se me pagar. Em quarto, isso não vai acontecer tão cedo, porque minha cabeça e meu corpo pensam em aproveitar. Em quinto... veja quem chegou!
- Você vai mesmo continuar com esse cara?
- Olhe bem para ele e me diga você. Oi, estava te esperando. Conhece minha amiga?
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quero voltar!
14/06/2017 | 21h29
do céu se vê
do céu se vê
Quero voltar!
Cândida Albernaz
Hoje eu morri. Não posso dizer ainda se é bom como alguns esperam que seja ou se é tão ruim quanto outros dizem. Por enquanto estou achando um saco. Não vejo nada além do que via antes e também não encontrei nenhum parente ou amigo que se foi. Na verdade o que mais incomoda é o desespero de minha filha, Carolzinha. Tenho um casal, ou melhor, tinha. Esse negócio de falar no passado vai levar um tempo para eu acostumar.
Queria saber como está minha mulher, mas ela sumiu daqui. Acho que vou dar uma volta pela casa.
O que é isso? Chorando abraçada com o Alfredo?! Sempre disse que não gostava dele, que era folgado, mulherengo e não servia para meu amigo, que bebia demais, que... Será? Nunca percebi nada. Acho que não... Ele beijou o rosto dela muito próximo à boca e estão se olhando mais tempo do que deveriam.
Carol acabou de entrar. Bem feito! Se ia rolar alguma coisa, estreparam-se. Isso mesmo, filhinha, não saia daí não, porque estes dois querem me fazer de corno depois de morto. Dizem que quando a gente morre, não tem problema, não somos mais denominados corno, afinal a mulher é viúva e viúva pode. Comigo não!
Veja só você, em vez de estar preocupado porque morri, estou pensando em como evitar que minha mulher me traia, mesmo já morto.
Sempre tive alguns casos pela rua, no trabalho, nos dias em que dizia que ia jogar... E as reuniões marcadas com fulano ou sicrano? Casa de massagem era do que mais gostava. Tempo bom. Mas espera aí! Sou homem, é diferente, não posso evitar. Ou não podia. Ai, ai.
Será que agora vou descobrir que ela fazia o mesmo? Ah, danada. Só por imaginar sinto o coração acelerar. Engraçado, como acelera se não bate mais? Esquisito isso.
Olhe quem acaba de chegar. Falei que não queria este rapaz em nossa casa. Foi só eu morrer e o sujeitinho está aqui de novo. O que é isso? Minha filhinha e ele se beijando! Como se atrevem? Preciso ir lá fora pegar um ar ou vou explodir.
Eu e esse moleque trabalhamos juntos. Há uns seis meses engraçou-se para o lado da Carolzinha, e fiquei de olho nele. Minha menina tem apenas dezessete aninhos e o safado vinte e cinco. Vinte e cinco! O pior é que tem um bebê de dois anos e nem cumpriu com a obrigação de se casar com a coitada da mãe da menina. Quer dizer, desgraçou a vida de uma e queria vir se esbaldar com minha garotinha. Mandei embora, porque nem era tão bom de serviço assim. Proibi Carolzinha de falar com ele e avisei que tiraria a mesada. No início, ela quis reclamar, mas sou durão e teve que obedecer.
Mal acabo de morrer e o indivíduo está enfiado em casa. Não sei como, mas lá de cima (ou para onde quer que eu vá), arranjarei um jeito de colocá-lo para correr.
Espera aí, outra vez! Que conversa é essa desses dois? Carol está grávida e ele quer casar com ela? Claro, vai botar a mão no dinheiro da herança. Não vou suportar estar morto por muito tempo.
Quem está entrando é a Zilda e continua linda. Nossa vizinha há uns dez anos. Desde que coloquei os olhos nela, fiquei doido. Agora posso contar: a Zilda e eu temos um caso (ou tivemos. O maldito verbo no passado). Esse mulherão me deu a maior bola e mal acreditei. Vive aqui em casa. Amiga da minha esposa e dos filhos. Essa mulher na cama... até eu pedia arrego. Para ela era sempre pouco. Vou sentir saudades da vizinha.
O meu caçula está com quinze anos, gosta de conversar com a Zilda. Os dois perdem horas conversando. Minha mulher costumava pedir que ela desse conselhos ao Júnior, então ele ia à sua casa com frequência. Zilda tem um jeito de se comunicar com os jovens, como se falasse a língua deles.
Mas o que é isso agora? Zilda e meu filho trancados no banheiro. E a mão dela? Que mão boba é essa aí? Não pode ser. Desisto de morrer. Não quero mais. Por favor, quero voltar. Quero voltar!
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Sobre o autor

Candida Albernaz

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Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".