talvez não seja tão ruim
06/11/2019 | 23h52
Talvez não seja tão ruim
Cândida Albernaz
O ônibus fazia seu percurso de forma mais lenta do que o normal. O trânsito estava horrível, como sempre. As pessoas encostavam os corpos suados uns nos outros e os mais tarados, tiravam proveito disso.
A mulher de vestido azul bem curto passava um sufoco. Um sujeito alto, de cabelos negros e crespos, olhava para a janela como se prestasse atenção nas ruas pelas quais o ônibus passava. Na verdade, colou seu quadril na garota e ela, por mais que fizesse, não conseguia se livrar dele. Acabou de dar uma cotovelada na barriga do cara, pedindo que se afastasse. Ele desculpou-se e segundos depois, arrumou um jeito de voltar à posição anterior. Ela resolveu descer no próximo ponto. A expressão dele era sacana, enquanto a dela, furiosa.
Não me meto, caso contrário arrumaria confusão todos os dias. Pior do que ônibus lotado é quando somos assaltados, e o pouco que temos na carteira vai parar nas mãos de um filho da puta qualquer.
Por falar nisso, não adianta que eu fique puto também. As coisas se resolverão por si mesmas.
Para casa não posso voltar tão cedo. Judite vai ter que se virar sozinha por uns tempos. Já combinamos tudo. A irmã dela, Jacira, vai passar uma vez por semana no buraco onde vou ficar escondido – porque aquilo não é casa – para me levar mantimentos e notícias da família.
O boné e os óculos que estou usando, escondem parte do meu rosto, mas ao mesmo tempo chamam a atenção de qualquer um que esteja à procura de outro. Não houve jeito, tive que entrar nesse ônibus para chegar onde preciso. Depois pegarei outro e mais outro.
Só dou banho em quem tem algum. Costumo livrar os caras de seus carrões e depois faço a revenda para uns companheiros que sabem o que fazer com eles. Os donos dos carros nem saem tanto no prejuízo, porque esse pessoal tem seguro de tudo, mas eles gostam de reclamar assim mesmo. Não querem perder tempo com burocracia, papelada para preencher, é o que dizem. Que se danem! Tenho que sustentar os meus. Quem se dá mal mesmo é a seguradora.
O problema dessa vez é que um dos últimos carros que travei, era do filho de um delegado, e não deixaram barato. Estão no meu pé e, ou eu sumo, ou eu sumo na mão deles. Preciso passar um tempo longe e torcer para não ser pego. Até já encontraram o carro, mas mesmo assim, querem a minha carcaça.
Chegou minha vez de descer. Eita lugarzinho feio, este aqui! Foi o que consegui arrumar com o cara do desmanche. Depois de muita conversa, convenci para que me ajudasse. Só ele e Judite sabem onde estou. E Jacira.
* * *
Até que o quartinho não é do piores. O colchão num canto e o ventilador no teto é um luxo que eu nem esperava. O problema é não poder sair daqui.
Judite vai tentar arranjar emprego em outro lugar. Vamos para uma cidade longe desta. Minha mulher tem uma amiga que ficou de conseguir trabalho na casa de uma senhora. Ela mora sozinha e possui um quarto nos fundos onde nós e nosso filho vamos morar. Judite vai cuidar da casa e eu do jardim. Só quero ver. Não entendo porra nenhuma de planta.
Com o tempo, recomeço meu negócio por lá mesmo.
Jacira deve vir daqui a uns dez dias. Acho que antes de seis meses não saio daqui.
Judite já foi avisada que é para fingir que dei o fora e sumi no mundo, portanto vamos ficar esse tempo todo sem nos ver.
Fico pensando em como faço para aguentar estes seis meses sem minha mulher.
Acho que Jacira vai ter que ajudar nisso também. Até que a irmã de Judite é bem gostosinha.
Ela ainda não sabe, mas um dia traz a comida... a gente conversa... eu carente e ela também, que eu sei... um abraço aqui, uma cara de tristeza ali, uma mão esperta no lugar certo.
É... Talvez não venha a ser tão ruim o tempo neste cubículo
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antes tarde do que nunca
30/10/2019 | 22h48
Antes tarde do que nunca
Cândida Albernaz
Sabe aqueles dias em que você pensa que não vai aguentar? Parece que o mundo resolveu cair sobre suas costas e o peso é tanto que dá vontade de desistir.
Pois é, hoje minha sensação é de desespero. Vai passar, eu sei.
Desde que Gustavo entrou no meu caminho, sinto cada vez mais num emaranhado e com dificuldade de encontrar a saída. Até sei qual é, mas não tive coragem de tentar. Parece que ele suga minhas forças e quando se vai, leva toda energia junto.
Quando me meti com ele, achei que tiraria de letra e safaria assim que tivesse vontade. Não consegui que fosse desse jeito. Ele me esgota com suas manias e ideias.
Conheci Gustavo numa dessas noites que a gente sai com as amigas para falar mal dos homens e rir de nós mesmas. Ele chegou com dois amigos e como conhecia Sílvia, pediu para sentar com a gente.
A princípio achei que era um chato metido a gostoso (hoje sei que é só um chato), mas conversa vai, conversa vem, dei meu telefone a ele.
Quando saímos dali, Sílvia avisou que era casado há alguns anos e a mulher, muito ciumenta. Argumentei que ele não ligaria e que se isso acontecesse dificilmente teríamos alguma coisa. Ficou claro que tínhamos temperamentos totalmente diferentes.
Eu sou da noite, gosto de sair, dançar, ir ao teatro e detesto o sol. Ele é do dia, dos amigos, do futebol e da cerveja. Não disse, mas hoje sei que é das mulheres também. Menos a dele, claro.
Ligou-me dois dias depois e combinamos de tomar algo na saída do trabalho. Conversamos muito e ele falou sobre sua insatisfação na vida. Não caio nessa! Caí dessa vez, acho que estava mais carente do que o normal.
Envolvemo-nos e ele passou a frequentar meu apartamento todas as semanas. Sempre às quartas e segundas. Algumas vezes dá uma escapulida nos sábados. Na cama me satisfazia, apesar de ser metódico e costumar seguir rituais no antes e depois quando sempre pergunta: “foi bom, não foi?”. Odeio.
Quando percebi, saía pouquíssimo com as amigas, porque ele gosta de me ligar à noite. Não danço, porque ele não sabe dançar. Não vamos ao teatro porque alguém conhecido pode nos ver. Passei a esperar por ele para noites ou tardes nem tão boas assim.
Acho que viciei em Gustavo, só isso explica o fato de eu ainda estar com ele.
Outro dia, tentei conversar, dizendo que seria melhor nos separarmos. Chorou feito criança e acabamos na cama. Engraçado como nas vezes em que tentei largá-lo, o sexo feito depois ficou melhor.
Costumamos discutir sobre qualquer coisa. Na verdade, ele procura confusão com tudo o que falo ou faço. Minhas amigas reclamam que mudei e não tenho tempo para elas. É verdade, mudei para pior.
Gustavo gosta de chegar, encontrar a cerveja gelada e se tiver jogo naquela noite, só conversamos depois que acaba. Ainda tenho que ficar sentada ao lado dele vibrando falsamente com os gols que acontecem. Se o time pelo qual ele torce, perde, ouço uma série de palavrões e comentários que não me interessam. O sexo nesse dia é uma merda.
Até no meu trabalho, essa relação está influenciando. Sou corretora e toda vez que saio para ver um apartamento, casa ou qualquer ambiente, ele quer saber se vou sozinha e se o cliente é homem ou mulher. Caso seja homem, ele me enche com seu machismo fora de moda.
Não sei como acabei vivendo uma relação de casada, com um homem que deveria ser apenas um caso.
Hoje tomei uma decisão.
Ele chorando ou não, xingando ou não, vou pedir que não volte mais. Preciso cuidar de mim, até meu peso aumentou.
Tenho saudades de quem eu era.
Já liguei para Sílvia e combinei de sairmos. Quero rir com vontade e tomar um porre. Só não vou falar mal dos homens, porque dessa vez posso acabar a noite chorando.
Na verdade, nem quero lembrar que existem.
 
 
 
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nossas músicas
24/10/2019 | 12h11
Nossas músicas
Cãndida Albernaz
 
Está ouvindo a música?
“... Ouça, vá viver a sua vida com outro bem. Hoje, eu já cansei de pra você, não ser ninguém...”
Há quantos anos não a escutava? Lembra-me um dos verões que passamos juntos. Que ano era aquele? Você também não sabe, não é? Tanto tempo. A gente conseguia rir de tudo. Era isso mesmo, naquela época não tínhamos motivo para não aproveitar.
“... Nunca mais vou fazer o que meu coração pedir. Nunca mais vou ouvir o que meu coração mandar...”
Essa música me recorda cada coisa. O Antenor atrás da Vilminha e ela nem ligando para ele. O sujeito tomava um porre atrás do outro! E todos nós achando engraçado o sofrimento dele. Ninguém conseguia levar aquilo a sério. Dizia que sem ela ia acabar se matando. Vivia nos extremos, o Antenor. Até que uma noite você chegou com uma amiga e ele com o dia quase amanhecendo, veio falar que agora sim, conhecia o que era amar. O que sentira no passado pela Vilminha fora um engano.
- Amor à primeira vista, meu irmão. Isso é que é amor real.
E olhávamos para ele, ríamos da cara de bobo que fazia e continuávamos rindo imaginando o quanto sua amiga ia penar com esse amor de perseguição que ele entornaria com vontade em cima dela.
Vejo nos seus olhos que está rindo também. Gosto quando a percebo animada. Não está com frio? Se preferir, podemos entrar. Mas acho que você também quer ficar mais um pouco. A noite está bonita e amanhã fará sol. Céu estrelado. Será que nossa estrela ainda está lá? Todo jovem de nossa época tinha uma.
Ouve essa que está tocando agora? Alguém que viveu nossa juventude relembra. Como nós.
“... Ainda é cedo, amor. Mal começaste a conhecer a vida, já anuncias a hora da partida...”.
Adorava, não é mesmo? Lembro de você cantando algumas vezes. Voz linda. Nunca falei, mas quando a escutava sentia um desejo enorme. É isto mesmo. Sua voz cantando me deixava louco. Rindo de novo? Acho que fazia de propósito. Sabia que mexia comigo. Às vezes, tínhamos brigado e daqui a pouco você passava por mim interpretando alguma música. Baixinho. Mal me aguentava de vontade de fazer as pazes. Fale a verdade. Quantas vezes usou isso para me seduzir?
Ei! Que olhar triste é esse agora? Só porque não pode mais cantar? E daí? Também já não posso fazer tanta coisa... E você sempre me atraiu. Corpo, olhos, boca, voz. Sabe disso, não sabe?
Escuta:
“... Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar...”
Sempre adorou quando eu remava. Era um bocado forte. Sei do que você mais sentia atração em mim: o peito!, que era largo, musculoso, costumava passar os dedos nele e quando me abraçava, apertava seu rosto ali. Gostava de remar pelo clube. Depois a vida e o trabalho fez com que parasse.
Sabe quem vi no outro dia? Romualdo. Lembra dele? Está velho, encurvado. Acho que pensou o mesmo de mim. Mas não estou tão velho assim. Claro que ando evitando os espelhos. Essa porcaria não mostra como sinto. E aquele que vejo ali não tem nada a ver comigo. É apenas a casca, porque ainda tenho um fôlego danado. Fala para mim: sou bonitão apesar da idade, e esse cabelo branco é puro charme. Você dizia isso quando eles começaram a aparecer. Falava que ficava ainda mais interessante e que precisaria me vigiar em dobro, porque mulher adora homem começando a ficar grisalho.
Está esfriando, melhor entrarmos. A música também parou. Acho que quem ouvia resolveu dormir.
Deixe ajeitar a manta em seus joelhos. Pronto. Essa cadeira que comprei é melhor do que a antiga. Mais leve para empurrar,
Sabe qual a parte do dia que mais gosto? Quando tiro você daí. A hora de deitá-la na cama. Coloco-a no meu colo e sinto seu corpo. Vejo o rosto tão próximo do meu e sinto saudades. Mas hoje é uma saudade boa. Deixou de ser doída.
 
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ainda presa num retrato
17/10/2019 | 00h11
Ainda presa num retrato
Cândida Albernaz
Estou presa neste retrato em preto e branco já amarelado pelo tempo.
Daqui vejo você e o mundo acontecendo. Não lembro mais como foi que me aprisionei. Essa pessoa que não emite som ou demonstra sentimento.
Talvez tenha sido por você que vim parar aqui. Talvez tenha sido você quem me escravizou.
O tempo esfarela enquanto eu prisioneira de uma vontade não envelheço, mas também não vivo.
Ainda lembro o dia em que a foto foi tirada e também de quando a colocou numa gaveta para não mais olhar.
Até entendo o motivo por não querer me ver, mas através de um retrato não posso fazer-lhe mal. Ou são as recordações que ainda o afetam?
A vida quis assim, poderia dizer, mas não seria verdade. Foi minha opção o que aconteceu.
Quando tivemos Carlinhos, achei que o mundo era nosso e que nada poderia estragar o que vivíamos. Sempre foi um ótimo pai e por várias vezes mais completo do que eu como mãe.
Nos pesadelos de nosso filho, antes que eu pensasse em levantar, você estava ao lado dele, acalentando e fazendo com que dormisse outra vez.
Na vacinas ou doenças infantis era você quem o acompanhava e mesmo que insistisse em estar junto, me sentia excluída e desnecessária. No fundo, penso hoje, acomodei deixando que fosse mãe e pai ao mesmo tempo, enquanto eu mera espectadora.
Paguei pela minha imaturidade. Quando nos separamos, ele não titubeou: quis ficar com você. Também não briguei pelo contrário, achava justo que fosse assim. Injusto só para mim.
Nunca me perdoou quando avisei que ia embora e pensei que com isso, você fosse me perceber. Ao inverso, olhou-me com sua frieza habitual e disse que estaria no escritório. Só exigiu que fosse sem ele: Carlinhos fica! Obedeci, é claro.
Não saí de casa para viver sozinha. Em pouco tempo eu e Marcos morávamos juntos. Quando soube, tenho a impressão de que não sentiu nada, não é de seu feitio.
Jamais fui impedida de ver nosso filho quando quisesse, mas foram poucas as vezes em que esteve por perto.
Até hoje, não sei de verdade se sentiu minha perda ou se teve ódio por estar vivendo com seu melhor amigo. Sem demonstrações do que sente.
Poderia dizer que sofri com minha decisão, que jamais quis ir embora de verdade, que esperei muito tempo que me chamasse de volta, que não amei outro que não fosse você.
Depois de alguns anos, refez sua vida com outra mulher que eu não conhecia. Não sei se foi feliz com ela, porque não sei se é capaz de ter esse sentimento por qualquer pessoa que não seja Carlinhos.
Nosso filho se tornou homem.
Marcos morreu num acidente de carro, quando vinha me trazer um presente e um cartão com flores, como sempre fez durante todos os anos em que comemorávamos estar juntos.
Fui feliz com ele, só não consegui amá-lo porque nunca esqueci você.
Quando adoeceu, Carlinhos me avisou e disse a ele ter vontade de vê-lo mais uma vez.
Numa hora em que sua mulher saiu e você ficou entregue aos cuidados dele, ligou e eu fui até sua casa.
Dormia. Da porta do quarto fiquei olhando-o. Carlinhos saiu e me deixou sozinha. Aproximei-me e abaixando ao lado da cama, segurei sua mão. Abriu os olhos e encontrou os meus. Fechou-os rapidamente.
Abri a gaveta da mesinha ao lado da cama e vi a foto antiga debaixo de alguns papéis. Coloquei no mesmo lugar.
Você apertava os olhos com força para que não abrissem. Beijei seu rosto e a palma de sua mão.
Espero que não se vá sem me perdoar. Eu já o perdoei.
Saio do quarto e me volto apenas uma vez. Permanece com os olhos fechados. Não mudou nada. Nem eu mudei.
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frases nem tão soltas XVIII
09/10/2019 | 22h04
Frases nem tão soltas XVIII
Cândida Albernaz
Coloquei-me à disposição da vida. Ela pareceu não saber o que fazer comigo. Então peguei o laço, girei no ar e joguei. Ao conseguir prendê-la, depois de lutar e lutar obriguei-a a seguir na direção escolhida.
*
Quando faço perguntas que nãos sei responder, procuro na mente as anotações um dia feitas com o sangue retirado dos profundos cortes provocados na alma.
*
Vi olhos sorrindo esperança, o que me provocou enorme dor por não conseguir acreditar também.
*
Se pudesse a levaria em meu colo até onde seu sorrir encontrasse um lugar de paz. Eu a depositaria na grama a olhar o céu para que não apenas sonhasse, mas tivesse a chance de viver o seu desejo de menina, agora mulher.
*
Quando a dor é grande demais, anestesio uma parte de mim para que de vez em quando possa ficar no não sentir.
*
Na renda do tempo bordei a vida. Pedaço por pedaço com a dedicação que a paciência do construir exige.
*
Colocou perspectivas em mãos alheias. Que estúpido não perceber que só suas mãos tinham o poder de realizar desejos contidos.
*
No tecido branco usei linhas coloridas para alinhavar onde a costura rompera. Não precisava que ficassem imperceptíveis. O que queria mesmo era poder enxergá-las para sempre lembrar de que era capaz.
*
Quando foi ao jardim colher flores não esperou encontrar um espinho tão grande entre elas. Vendo o sangue que pingava imaginou ter furado o dedo, mas enganou-se. Foi no peito onde ele se alojou perfurando-o de um lado a outro.
*
A noite chega mansa entre sombras e penumbras com o som surdo dos passos em beco escuro. E quando o sono enfim faz seu fechar de olhos já cansados de não ver, a mente foge para o lugar onde sonhos de cantar embalam o dormir. A melodia que escuta vai aprisionando sua dor e transformando-a em doce ninar. Já não há becos escuros ou sombras. O que permanece agora é o ressonar na espera do dia que logo vai nascer.
*
Não é preciso ser feliz o tempo todo. Pequenas felicidades nos completam.
*
Gosto quando meus anjos descansam suas asas e sorrindo brincam de me fazer feliz
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gosto de olhos
09/10/2019 | 22h02
Gosto de olhos
Cândida Albernaz
 
Gosto de olhos moleques, que encaram, firmam e não fogem.
 
Quando o conheci, era um garoto ainda e buscava o mundo para si, como se este estivesse à disposição.
Seus pais, que se mudaram para perto de minha casa há pouco, encaravam nossa amizade com certa restrição.
O problema era mamãe. Depois de ter o terceiro filho, ela modificou. Conseguia num mesmo dia arrumar toda a casa, enfeitá-la com flores, levar-nos ao parque, mas sem que esperássemos, trancava-se no quarto, onde nenhuma luz podia entrar. Do lado de fora, onde éramos obrigados a ficar, ouvíamos seus soluços. Isso podia durar muitos dias. Só papai, por diversas vezes através da força, a convencia tomar banho ou comer.
As crianças chamavam-na de “louca”.
Você de longe, me olhava e saía a defendê-la. Por mim.
Seus olhos acalmavam.
 
Olhos que sorriem de forma safada, que buscam outros olhos sem medo.
 
Nos últimos três anos, seus pais o matricularam numa escola fora de nossa cidade. Eles acharam melhor que fosse assim. Diziam que “será alguém na vida”, e se continuasse aqui, não poderia crescer.
Isolei-me de todos nessa época. Costumava ficar sozinha e quase não ia a lugar algum.
Fazia o segundo grau. Estava na frente de casa, chegando da escola, quando do outro lado da rua vi você parado. Olhava-me: de outra forma.
Veio até onde estava e conversamos por muito tempo. Quis saber tudo a seu respeito e você contou sobre uma vida cheia do que fazer, tão diferente da minha.
Passamos a nos encontrar todos os dias daquele minúsculo mês em que ficou na cidade.
Sua mãe quando nos via, olhava esquisito, como se eu a incomodasse. Fingia não perceber. Sempre que chegava a casa, deixava minhas coisas no quarto e atravessava a rua para chamá-lo.
Dois dias antes de você ir embora novamente, não fui à aula e fiquei em casa com mamãe, que já estava trancada no quarto havia uma semana.
Você veio naquela noite e na minha cama, enquanto não tirava meus olhos dos seus, buscou em meu corpo o prazer que eu só conhecia sozinha até então.
No dia seguinte, sem que ninguém soubesse, o esperei no mesmo lugar. Você voltou.
 
 
Olhos que tentam dizer tudo, mas você não adivinha o que falam.
 
Nos próximos cinco anos, passei sem vê-lo. Seus pais costumavam viajar para encontrá-lo e nas poucas vezes em que me deram atenção, disseram que talvez não voltasse mais. Já estava até mesmo trabalhando por lá.
Escrevi várias cartas e pedi que eles as entregassem. Diziam que sua vida era cheia do que fazer e o tempo, curto. Devia ser assim mesmo. Nunca houve resposta.
Minha mãe, nesse período, foi internada. Tentara contra a vida algumas vezes e disseram ser melhor para ela. Não havia mais momentos de euforia, só depressão.
Estava saindo de casa para visitá-la quando o vi atravessando. Chegou perto de mim e apresentou-me a garota: sua noiva e se casariam no início do próximo ano.
Busquei seus olhos, mas não consegui entender o que diziam. Pela primeira vez.
“Quem é essa menina linda ao seu lado?”.
“Minha filha”.
“Disseram que teve uma filha. Casou-se?”.
“Não, o pai foi embora”.
“Desculpe a intromissão”.
“Não tem problema. Melhor assim, sei como criá-la”.
A garota que estava com ele, como era mesmo o nome dela? , chamou-o. Despediu-se e se foi. Olhou ainda uma vez para trás. Nossos olhos se encontraram. Entendi, como sempre.
Abraçou a noiva com mais força e não se voltou mais.
Fui ver mamãe junto com Carolina. Ela costuma ir comigo a todo lugar.
Tem cinco anos, minha filha.
Ele não perguntou.
 
Gosto de olhos, não importa a cor ou o formato.
 
 
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tranque bem a porta
18/09/2019 | 23h52
Tranque bem a porta
Cândida Albernaz
- Dona Belinha, tranque bem a porta. Não se esqueça do que aconteceu com dona Guiomar no mês passado. E depois, seu Getúlio gosta de tomar o vinhozinho dele e dorme feito uma pedra.
-Não se preocupe Berenice. Sou velha, mas não sou burra. Assim que você sair, fecho tudo.
-Então até amanhã.
-Até. Vai com Deus.
Lembrava bem do que aconteceu com Guiomar, sua vizinha. Havia pedido um remédio na farmácia. Quando a campainha tocou, achou que fosse o rapaz da entrega. Entraram dois homens fortes, segundo ela que era tão magrinha, e empurraram-na fazendo com que caísse no chão.
Pegaram a pobre e fizeram com que entregasse o que tinha em casa. Até as economias que escondia numa caixinha de costura, os danados levaram. O pior é que na queda quebrou o braço. Chora todo dia, Guiomar.
Berenice se preocupa comigo, mas às vezes é muito chata, repetindo sempre a mesma coisa: Tranque a porta, vê se desligou o gás, deixe que passo a roupa, não vá ligar o ferro... Pensa que não consigo tomar conta de mim. É verdade que às vezes esqueço de algumas coisas, mas quem não esquece? Até minha filha que ainda é jovem deixa de fazer coisas porque não se lembra.
Outro dia mesmo, era aniversário do pai e ele ficou esperando que ela ligasse o dia inteiro. Getúlio tem uma paixão por essa menina... À noite, consegui disfarçar e liguei para ela. Pediu mil desculpas e mandou chamá-lo. Ficou todo bobo e só no dia seguinte quis cortar o bolo que fiz para ele. Vamos comer com nossa filha amanhã. Coitada, trabalhou tanto que só pôde me ligar a essa hora. Não vem mais. Eu aconselhei, é tarde e pode ser assaltada.
Disfarçou bem o meu velho, mas na hora de dormir percebi que enxugava os olhos e fungava o nariz. Nem perguntei se estava gripado, sabia que não era isso.
Ás vezes fico preocupada com Berenice. Sai daqui de casa cedo, mas até chegar onde mora tem que pegar dois ônibus.
É uma mulher robusta, alta e tem força nos braços. Quando Getúlio esteve doente, era ela quem conseguia mover com ele. Até banho me ajudava a dar. Luta muito, não é casada e tem um filho que vive dando aborrecimento.
Peguei Berenice chorando na cozinha e fiz com que desabafasse comigo. Falou que o garoto está andando em má companhia. Outro dia apareceu com dinheiro grande, quis saber como conseguiu e ele só faltou bater nela. Esse menino não vai acabar bem. Tem dezenove anos e não quer saber de trabalho.
Ela não mede esforços para colocar em casa o que precisa. Trabalha muito e eu a ajudo de vez em quando. Conseguiu comprar TV, geladeira e deu ao filho um aparelho de som o qual paguei uma parte. Três dias depois o rapaz disse que entraram na casa e roubaram o som. Que nada, deve ter vendido porque depois ela me contou que ele apareceu com um tênis novo e um casaco que parecia ser caro. É muito triste ter filho assim, que só dá desgosto.
Minha filha hoje esteve aqui para almoçar conosco. Eu mesma fiz uma comidinha gostosa, porque Berenice não apareceu. Deve ter acontecido alguma coisa, que ela não é de faltar.
O Getúlio ficou feliz e eu também, claro. Só temos essa filha. Não se casou, portanto não temos neto. Era o meu sonho e o dele. Ter um netinho para podermos mimar, mas Deus não quis que ela arranjasse um marido e tivesse filhos. Agora com a idade que tem, não tenho mais esperança.
Pena não poder vir sempre. Esforçada minha menina e carinhosa também. Só é esquecida.
O telefone está tocando.
Vou atender enquanto os dois riem das recordações de Getúlio.
-Alô? O quê? Sei, sei...
Senti o coração apertado. Voltei para a sala e os dois me olharam.
-Falaram que ontem à noite entraram na casa da Berê atrás do filho dela. O menino se escondeu, mas os homens conseguiram achá-lo. Na hora do disparo, Berenice se colocou na frente. Não adiantou muito. Morreu ela e depois o mataram também.
Coitada, estava tão preocupada que entrassem aqui em casa para assaltar.
Na casa dela nem campainha tem.
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tenho certeza de que será amanhã
12/09/2019 | 00h29
Tenho certeza de que será amanhã
Cândida Albernaz
Ontem não consegui me concentrar em nada. Algumas vezes fico assim, como se simplesmente deixasse o dia acabar. Quando percebo é noite e nada foi feito. Pelo menos nada de importante.
É claro que meu estado de espírito não é de graça, sem motivo. Acordei cedo e vim para o hospital. Fico muito angustiada todas às vezes. Faço isso há cinco meses, desde que tudo aconteceu.
Cinco meses! Parece mentira o tempo ter passado tão rápido. Vou falar uma coisa: é uma droga esse negócio de tempo. Se pudéssemos voltar nele, ou apenas fazê-lo parar.
Era isso o que eu queria: voltar no tempo. Então mudaria meu trajeto, minhas palavras, quem sabe trocaria de roupa, porque a que eu usava, antes não sabia, não dava sorte. As pessoas falam que isso é bobagem. “A roupa que você usa não pode influenciar em nada o desenrolar da sua vida. Está ficando louca.” E daí, se estou? Queria ficar louca. Completamente. Não precisaria colocar os pés no chão hora nenhuma. Não responderia por meus atos. Não pensaria em nada. Nada disso. O louco deve pensar muito no que o incomoda. Por isso é louco. Então não quero.
O melhor é que tiraram os fios. Incomodavam olhar. Dizem que a pessoa sedada não sente dor. Será? Duvido.
Pedem para a gente falar, conversar sozinho como se o outro fosse responder a qualquer momento. Faço isso sempre. Enquanto estou ao seu lado pratico um monólogo por horas, não é mesmo? No início falava sobre tudo o que ainda faríamos juntas, lembrava os momentos bons que vivemos, as brincadeiras e as risadas que partilhamos.
Está cada dia mais difícil. Se alguém entrar no quarto quando estou conversando com você vai zangar-se comigo. De vez em quando, como hoje, me deixo levar e começo a dissertar sobre meus problemas. Você deitada tão silenciosa, sem um movimento. Inicio com coisas boas e de repente despejo aborrecimentos e insatisfações. Desculpe, é incontrolável. Ou quase, já que quando percebo, paro e mudo de assunto.
Estacionei o carro na vaga de sempre. Parece que sabem que aquela é minha e a deixam vazia.
Quando saí do elevador senti como se meus pés se arrastassem. Tinham correntes gigantes neles.
Abro a cortina para que você sinta o sol. O dia está bonito, claro e sem nuvens. Tento sorrir, mas faz tempo não consigo. A não ser quando imagino que durante uma frase minha você vai abrir os olhos e me chamar de mãe outra vez.
Proibi que fosse àquela festa. O local era ruim. Já havia tido confusões antes e os frequentadores, eu não conhecia. Não faziam parte da turma que uma mãe escolhe para a filha conviver.
Esperou que eu deitasse e saiu. Confiei que obedeceria pelo menos daquela vez. Não foi o que aconteceu. Foi à festa e não voltou. Não para casa. Quando ligaram, já estava no hospital. Alguém disparou um tiro e foi você a escolhida para alojar a bala. Minha filhinha de quinze anos, meu bebê estava entre a vida e a morte.
Continuamos aqui, você e eu. Todos os dias recomeçamos.
Talvez seja hoje que serei surpreendida com o - mamãe! Quando a olho ainda vejo a minha menininha atrevida e revoltada com o mundo. Só um pouco mais magra.
Acabo de pensar em algo. Se você abrir os olhos agora, prometo dizer sim para as primeiras dez coisas que pedir. Ou vinte. Ou quase todas.
Só não peça para fechar os olhos enquanto você foge para uma festa desgraçada que não a trará de volta para casa.
Amanhã quando eu chegar terei a minha surpresa. Tenho certeza de que amanhã será o dia.
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que boca!
04/09/2019 | 20h44
Que boca!
Cândida Albernaz
- Benza Deus!
- O que foi agora, Célia?
- Sabe aquele sobrinho do meu marido, que falei com a senhora na semana passada?
- O que batia na mulher?
- Não, esse é outro e ainda vai ter o castigo que merece.
- Não estou me lembrando.
- O Nando, que entrou lá em casa e roubou o que sobrou do salário que a senhora pagou e ainda levou meu celular.
- Ah...
- Pois é, só descobri porque o dono de um bar que tem lá perto de casa veio falar comigo que ele estava vendendo um celular e o nome que aparecia era o meu: Jocélia Pereira Silva.
- Você colocou seu nome completo na tela do celular?
- E não foi bom? O menino é tão burro que não trocou a tela.
- O que aconteceu com ele?
- Morreu.
- Como assim, morreu?
- E ninguém mandou matar, não. O que, aliás, com o tempo era o que ia acontecer, porque esses garotos terminam assim. Com a cara enfiada numa vala qualquer.
- Morreu de quê?
- Um caminhão passou por cima. Estava numa bicicleta que não era dele, segurando uma bolsa de mulher, que também não era dele e com certeza tentando escapar de alguém.
- Coitado!
- Também fiquei com pena. Mas ao mesmo tempo, foi um alívio.
- Por quê?
- O desgraçado, que Deus o guarde, me cercou na rua e quis dar na minha cara.
- ..
- Só porque falei que ia ter que devolver o dinheiro, já que o celular estava comigo. Ainda disse que ia dar parte dele na delegacia.
- Mas você não achou que era melhor ter deixado para lá? Filho de seu cunhado, e ainda por cima perigoso.
- Um moleque que ajudei a trocar fralda.
- O moleque cresceu...
- Foi falta de coça naquele lombo dele.
- ... e virou bandido.
- Fui na casa do irmão do meu marido e falei poucas e boas. Ele não gostou e veio tirar satisfações. Ainda mandou que eu ficasse longe dos pais dele.
- Talvez tivesse sido melhor. Com esses rapazes, o melhor é não se meter.
- O pior é que agora o irmão dele está atrás de mim.
- E por que, mulher?
- Fica dizendo que roguei praga e por isso o irmão morreu.
- Ele também se mete com roubo?
- Não que eu saiba. O problema é que roguei mesmo. Um criançola daquele ameaçando bater em mim. Falei que um caminhão ia passar na cabeça dele, porque ficava ameaçando a tia. Disse que Deus ia castigar.
- Que boca, heim, Célia!
- Pois, é. O pior é que a família toda fica me olhando de banda.
- Mas que culpa você teve?
- Aconteceu o que eu disse para ele.
- Foi coincidência.
- Será? Estou até com medo. Semana passada falei para meu marido que se ele não tomasse jeito e parasse de olhar para tudo o que é mulher, ia acabar ficando cego.
- Que bobagem, Célia.
- O homem está atrás de mim igual sarna, dizendo que começou a sentir dor nos olhos.
- Deve ser impressão dele.
- Só pode ser conjuntivite. Mas não foi só isso.
- Não?
- Disse para ele que de uma hora para outra, o “dito cujo” ia parar de funcionar, se ele continuasse me traindo.
- E daí?
- O homem já brochou duas vezes seguidas.
- Benza Deus! Que boca!
 
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conversa vai conversa vem
29/08/2019 | 12h42
Conversa vai, conversa vem.
Cândida Albernaz
 
Dona Marta, a senhora não imagina o que aconteceu hoje antes de vir para cá. Sabe o meu caçula? O Claudinho, aquele que falei que ia dar para a senhora batizar, mas depois teve que ser a irmã do meu marido, porque ela se zangou. Então, o danado do menino viu o botão da camisa do pai, que deixei em cima da mesa. Pegou e enfiou no nariz. Fiz de tudo e nada de sair. Levei para o posto de saúde e lá colocaram um troço no nariz dele e conseguiram tirar. O pior a senhora não sabe. Meu marido estava se arrumando para tentar um trabalho. Teve que sair com a camisa sem botão, bem na barriga. E a senhora conhece ele, não é? Lembra do tamanho daquela pança. Pois é, o umbigo enorme que mais parece uma vala ficou aparecendo. Ridículo, claro. Quando voltou, estava zangado porque não conseguiu o serviço e quis botar a culpa em mim. Veio dizer que estava mal vestido e os homens da fábrica não deram o emprego por isso. Agora a senhora veja só! Ele bebe até cair, come feito um boi, engordou nesses últimos anos como uma porca e vem reclamar que a aparência dele está ruim por minha causa. O que a gente tem que ouvir de homem, né? Já estou ficando enjoada dessa vida. E o pior é que não posso fazer nada. Mudar como? Ganho mal, não é sua culpa dona Marta, mas o salário mínimo não dá para nada. A casa onde moro é da família dele, estou com quatro filhos. Vou fazer o quê? Aguentar firme, eu sei. Mas é que às vezes tenho uns sonhos bobos. Fico imaginando que se eu tivesse estudado poderia ser alguém nessa vida. Assim como a senhora, que sabe falar direito, se veste com cada roupa... e o cabelo? Macio feito algodão. Às vezes sonho que estou num salão de beleza e aquelas meninas cuidando de mim feito uma rainha. Acho que ia dormir se tivesse alguém mexendo no meu cabelo e nos meus pés ao mesmo tempo. Quando posso faço minhas unhas. Então lembro que tenho tanta roupa para lavar e desisto de passar o esmalte. Não adiantaria nada mesmo porque vai borrar e ficar horrível. Se eu fosse bonitona assim como a senhora, queria ver se meu marido ficaria de olho na vagabunda da nossa vizinha. Desculpe o jeito de falar, mas é que aquela me tira do sério. Só quebrando a cara dela. E eu sei que nem se interessa por ele de verdade. O que a sem-vergonha gosta, é de dinheiro e isso ele não tem. Bonito também está longe de ser. O que ela quer mesmo é me provocar, rebolando daquele jeito e jogando o cabelo de um lado para o outro o tempo todo. O marido da tal se mandou com a cunhada e ela ficou trau-ma-ti-za-da. É assim que se fala, não é? Eu não tenho nada com isso. Se a irmã era uma piranha, ela que botasse para correr. Não dá nem para sentir pena, porque depois que foi abandonada, começou a dar para todo mundo. Deixe chegar perto. Que fique rebolando de longe, porque se pego os dois juntos, aquela cabeleira dela vai sumir. Arranco fio por fio. Dona Marta, a senhora está me olhando desse jeito... Já sei, estou falando muito outra vez, não é? Estava só explicando porque cheguei atrasada. Mas diga, o que faço para o almoço? Só não manda preparar frango de novo. Nem eu que não tenho luxo estou aguentando, quanto mais, seu Artur. Aliás, a senhora sabia que seu Artur ficou de arrumar emprego para meu marido? Dá uma forcinha, fala com ele, porque a senhora ele escuta. Escuta não, obedece! Meu marido sabe fazer de tudo. Ele ontem... Desculpe dona Marta, já estou indo para a cozinha. Depois a gente termina a conversa.
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Sobre o autor

Candida Albernaz

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Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".