dizem que dou risada de tudo
11/07/2019 | 09h55
Dizem que dou risada de tudo
Cândida Albernaz
Hoje podia ser domingo outra vez. Dois domingos: um para descansar e outro para fazer tudo o que preciso.
O que lavei de roupa ontem, não foi brincadeira. Preparei o almoço e ainda por cima meu cunhado resolveu aparecer com a mulher e dois filhos. Não é que não goste de visita, mas esses são folgados. Ela chega, senta numa das poucas cadeiras que temos e fica olhando as unhas longas e pintadas de vermelho. As minhas são bem curtas, porque rôo todas.
Ficaram para almoçar e o irmão do meu marido mandou comprar um refrigerante. Quando o filho voltou da venda, ele encheu os quatro copos e nem às minhas filhas perguntou se queriam um gole. Tanto sacrifício para comprar aquele frango e nem pudemos comer com vontade.
Qualquer dia desses vou dizer poucas e boas para esses dois. Não fiz ainda porque Jailton, meu marido, não deixou.
- Eles moram longe, só aparecem aqui poucas vezes, deixa para lá.
Não sou mulher de deixar para lá, sou de explodir.
Desta vez estava terminando de lavar um lençol quando ela chegou com o cabelo arrumado, o vestido passado e bem curto e as pernas brilhando do creme que usou. Eu no tanque, com uma blusa velha e a cabeça cheia de tinta, porque resolvi pintar o cabelo assim que acordei. Senti ainda mais raiva quando fez o comentário:
-Você precisa se cuidar, Jailton está novo e inteiro. Não dá bobeira, porque está cheio de mulher querendo um igual a ele.
Tive vontade de jogar o lençol encharcado no meio da cara dela. Vem até minha casa sem ser convidada e ainda enche o saco. É fácil ficar arrumadinha no domingo, filando almoço na casa de um ou de outro. Só sai quando escurece, impedindo a gente de descansar um pouco. O marido depois que fica com a pança cheia, diz que precisa dormir e deita na minha cama.
A desgraçada aqui tem que arrumar a cozinha e lavar tudo porque o máximo que a dondoca faz é um cafezinho, usando o meu pó, para ela. Sempre pergunta:
- Quer que faça pra você também?
Odeio café.
Mais tarde quando foram embora, eu e Jailton discutimos porque ele não gosta que fale do irmão. Não quero nem saber e jogo a raiva em cima dele.
Sou alegre e as pessoas que me conhecem dizem que dou risada demais. Prefiro levar a vida assim. Mas também tem uma coisa; se abusarem da minha boa vontade, não conto até dez. Os únicos que até hoje não me viram zangada de verdade foram esses. Não perdem por esperar. Avisei que foi a última vez. Saio de casa assim que os dois chegarem, e ele se vira.
A gente se dá bem. Sempre foi responsável e tem adoração pelas filhas. Homem trabalhador e ainda por cima, cheiroso.
Só tivemos problema sério uma vez há três anos, quando ele se assanhou com a vizinha. Descobri porque minha filha veio com uma história de que a fulana sempre levava um pedaço de bolo ou um doce gostoso para ela e o pai quando eu saía para o serviço. Não entendi a generosidade dela. Na mesma noite bati em sua porta, e com um pedaço de pão na mão disse que precisava retribuir os agrados que ela tinha com meu marido. Assim que abriu a boca para falar não sei o quê, enfiei o pão mandando que engolisse bem rápido. Arregalou uns olhos enquanto eu segurava sua cabeça e empurrava aquela massa para dentro de sua boca. Quando conseguiu se safar, me chamou de louca.
Jailton do portão assistiu tudo e ficou quieto.
Entrei em casa como se nada tivesse acontecido.
Não consigo dar risada o tempo todo, mas acho que as pessoas entendem. Nem sempre é possível.
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embaixo da mangueira
04/07/2019 | 09h57

Embaixo da mangueira

Cândida Albernaz

 

A casa amarela na esquina com as paredes cheias de rachaduras e o portão que um dia fora branco, levou-a de volta a um tempo que julgava esquecido.

Não precisava entrar para saber que no canto esquerdo da sala, o rodapé havia se soltado. Tinha certeza de que continuava assim, mesmo sem ter estado lá por tantos anos. No dia em que decidiu ir embora a mãe preparava para o almoço uma carne assada recheada com farofa e linguiça, seu prato predileto. Dizia que gostava de fazer o serviço da casa: cozinhar, cuidar do seu pai, arrumar a casa, agradar a seu pai, fazer faxina, obedecer a seu pai e chorar, graças a seu pai.

Apenas a roupa suja era permitida que fosse lavada e passada fora de casa. Ele não gostava de estranhos onde vivia. Claro, nem de pessoas que pudessem testemunhar como agia.

Quando voltavam da escola, ela e o irmão mais velho sabiam que encontrariam a mãe à espera deles. Sentavam-se embaixo da mangueira. Ali ela sorria, conversavam e sempre entregava uma bala, bombom, ou algum doce que comiam com prazer antes do jantar, o que era expressamente proibido fazer. Se às vezes os olhos da mãe estavam inchados de chorar, os braços com marcas vermelhas, ou o lábio machucado, eles ignoravam, o que foi previamente combinado, e só falavam de coisas boas. Riam alto e escondiam de si mesmos durante àquela hora e meia que não havia tanta graça o jeito que viviam.

Às sete horas em ponto, todos se reuniam à mesa e jantavam com o pai fazendo perguntas sem esperar as respostas. Ele já as tinha, o que na realidade eram ordens.

Seu irmão costumava adoecer com frequência. Sofria com alergia, na sua opinião a tudo ou quase. Eram unidos e quando o barulho dentro de casa começava, costumavam se abraçar e ficar embaixo da coberta. A mãe tentava não gritar e só depois que tudo se acalmava, ouviam um choro baixinho. Mais tarde ela entrava no quarto deles e os beijava pedindo desculpas.

A única vez em que tentaram chegar perto, durante o que acontecia, o pai se virou para eles e esbofeteando cada um, mandou que voltassem para o quarto. Nessa noite, além de cuidar de si mesma, a mãe teve que tratar deles, pois havia também um corte em suas bocas. No dia seguinte não puderam ir à aula, pois parte do rosto inchara. Prometeram a ela nunca mais sair do quarto quando ouvissem qualquer ruído.

O irmão aos doze anos se foi. O pai num dos dias de demonstração de ignorância, obrigou o filho a passar a noite sentado embaixo da mangueira. Era inverno. No dia seguinte de manhã, ele tremia e parecia ter convulsões. O pai pegou um remédio no banheiro, onde ficavam guardados, e o fez tomar. Chamando-o de maricas e estúpido mandou que fosse dormir

Mais tarde, quando foi permitido à mãe que entrasse ali já não havia muito que fazer.

Correram para o hospital: pneumonia aguda e uma forte reação alérgica, provavelmente medicamentosa, o levaram para sempre.

Continuou em casa até que aos dezoito anos foi para uma faculdade fora da cidade e nunca mais voltou. Sentiu culpa por deixar sua mãe sozinha com ele, mas se ficasse, não sobreviveria.

Escreviam uma para a outra e foi assim que soube que seu pai teve demência. Um dia, com a doença em estágio avançado encontrou o portão aberto e saiu. A mãe escreveu dizendo que o procurou, mas nada.

Depois de meses sem que ele aparecesse foi até lá e a trouxe para que morasse com ela. Foi assim até o ano passado quando ela morreu.

Tem certeza de que nesses últimos cinco anos conseguiu fazer com que sentisse paz não apenas em poucos momentos escondidos entre a chegada da escola e a volta do pai do trabalho.

O mais importante naquele período era o riso dela, enfim aberto, alto e sem medo a qualquer hora do dia e da noite.

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rosas vermelhas porque sou um eterno apaixonado
16/05/2019 | 00h26

Rosas vermelhas porque sou um eterno apaixonado

CândidaAlbernaz

 

Viu como as rosas estão bonitas? Sei que não gosta que tire as flores, mas vou fazer um arranjo para colocar no nosso quarto. Rosas vermelhas porque sou um eterno apaixonado. Não ria de mim. Sempre que falo desse jeito, você ri, mas no fundo sente o mesmo. Ou não estaria me aguentando até hoje. Tenho pavio curto e por muitas vezes faço você chorar.

Lembro quando disse que resolveu trabalhar com uma amiga e abririam um comércio para vender os produtos que faziam. Olhei para você e ri alto, debochado, dizendo que ninguém compraria seus bolos ou geleias porque por mais que elogiasse quando os fazia, não eram tão bons assim.

Ainda voltou ao assunto outras vezes, até que por fim, fui claro dizendo que não ajudaria em nada, e sozinha, não tinha dinheiro para começar. Ficou um mês sem falar comigo, porque é tinhosa também. Não disse nada, mas fiquei louco com aquilo. Se há uma coisa que gosto em você, é sua voz macia e calma. Ficar sem ouvi-la por tanto tempo foi o pior, só respondia com monossílabos ou atos. Quase voltei atrás. Mais uma semana e eu faria qualquer coisa que quisesse.

Ainda bem, me perdoe, que nosso filho adoeceu e precisamos sair durante a madrugada para um hospital. Ficou internado por três dias: pneumonia.

Aproveitei-me e sentindo sua fragilidade, abracei-a e a retive nesse abraço por muito tempo. Voltamos a nos falar.

Não pedi desculpas e nem retornamos ao assunto. Peço agora. Estou velho e me arrependo de várias coisas que falei e fiz, mas nunca de ter impedido que trabalhasse. Sempre a quis só para mim e não abro mão disso até hoje.

Você não tentou de novo e poderia dizer agora o quanto a decepcionei. Não, não diga, sabe que não suporto ser magoado. Não quero saber o que sentiu ou a frustração que carrega. Desculpe continuar tão egoísta.

Dia desses, ouvi nossas filhas conversando com você sobre casos mal resolvidos. Falavam que quase toda mulher e alguns homens carregam pela vida um amor que não se completou. Comigo não é assim, o único amor que tenho e tive foi você e nunca senti falta de nada.

Preciso confessar que enquanto as meninas falavam e você calada, ouvia, fiquei observando-a e percebi, para agonia minha, que seus olhos brilharam diferentes por segundos.

Mesmo agora depois de tanto tempo, tocar nesse assunto é difícil para mim. Não pode imaginar o desespero que senti. E em todas as vezes que tive oportunidade, mexia em suas coisas.

Desculpe, mas no meio de suas cartas guardadas, achei a foto de um rapaz de quem nunca ouvi falar: “Para sempre Alberto”.

O brilho que vi nos seus olhos naquele dia agora tinha nome e rosto. Se você nunca conseguiu esquecê-lo, ele passou a fazer parte também de meus pesadelos. Nem sei por que resolvi falar sobre isso. Prometi a mim mesmo não fazê-lo. Se ele existe em seu pensamento, de sua boca não quero ouvir nada.

Está ficando frio aqui fora. É melhor entrarmos. Não temos mais idade para facilitar com a temperatura quando cai.

O enfermeiro está na porta nos olhando com o eterno ar de recriminação. Proibi que venha aqui no jardim enquanto estivermos conversando. Conhece toda a minha intimidade, já que dependo dele para tomar banho, comer,... Mas, na nossa, minha e sua, ele não entra.

A cadeira de rodas parece mais pesada hoje. Não, querida, não precisa me ajudar. Sei que não tem forças.

- E então, senhor Miguel, falando com dona Marina de novo?

Não respondo. A porta agora está fechada e ele me empurra até o quarto. Pena não poder ficar mais com você. Acho que não entra porque ele está aqui.

Qualquer dia desses, vamos poder estar juntos o tempo todo. Não vai demorar.

- Está chorando outra vez, seu Miguel?

Idiota! Então não sabe que não choro nunca?

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são as horas que precisam passar
02/05/2019 | 23h45

São as horas que precisam passar

Cândida Albernaz

 

São as horas. Elas me consomem, correm atrás de mim enquanto tento buscá-las.

Hoje durmo mais apesar dos ruídos noturnos. Não me acostumei a eles, ainda os temo, mas como não param, durmo apesar deles. Não tenho sonhos: pesadelos.

Disseram que com o tempo volto a sonhar, o que me parece impossível. Sonhos têm a ver com o que fazemos ou gostaríamos de fazer, muitas vezes com a esperança.

Não há ontem ou amanhã, espero que o hoje passe. Mentira, o ontem existe e é por ele que estou aqui. Apenas tento não pensar.

O relógio exige que obedeça as horas com as quais meu corpo não concorda. Onde estou os horários são rígidos, mas as regras, estas são implacáveis: nunca antes obedeci a alguma.

Daquele dia em especial, só me arrependo de uma coisa: você meu irmão, confiou no que prometi. Hoje quando olho em seus olhos quase infantis, abaixo os meus e você os mantêm firmes e opacos. Jamais havia se envolvido com atitudes erradas, gostava das normas, seguindo-as com prazer: aqui dentro não há o prazer.

Pensei em tudo, foi o que imaginei, e pedi que apenas me esperasse com o carro ligado: como insisti para que participasse! Tive que garantir que não tiraria nada de ninguém que necessitava. Os bancos, que “sugam o povo”, têm seguro e o que levássemos, só eles perderiam. Ninguém seria ferido ou morto: foram quatro. Inclusive a menina morena que dava a mão à sua mãe, confiante que assim estaria protegida.

Depois de dias programando tudo com os rapazes, resolvi chamá-lo. Você disse de cara que preferia nem mesmo saber do que se tratava.

- Não quero e não vou.

Mas o convenci do contrário: irmãos unidos, irmão que precisa do outro, irmão que leva o caçula para aquele lugar.

Soube do que fizeram com você e ainda fazem. As malditas horas que não passam e arrastam meus pensamentos com elas.

Não tenho como defendê-lo, porque neste lugar miserável a lei é outra.

Tenho medo que enlouqueça: você e sua bondade na forma de ver as pessoas. Não conversamos, mas acredito que não veja mais nada desse jeito.

Quando os homens chegaram eu estava lá dentro e enquanto as pessoas se esgueiravam pelos cantos, os tiros fizeram com que dois dos nossos fossem alvos certeiros.

Eu não sabia ainda, mas você já estava nas mãos deles do lado de fora.

No banco um rapaz que tentou proteger seu irmão menor com um abraço, acabava de levar um tiro. Soube depois que também não resistiu.

Eu não pude protegê-lo e você tem dezoito anos e você acreditou em mim e você queria continuar estudando para “vou ser alguém na vida” e você cuidou de nossa mãe até que ela se foi. E eu o tirei de suas crenças, com o poder do irmão mais velho que se aproveitando de sua admiração por ele, o convenceu a entrar neste mundo do qual só ouvíamos falar.

Vai cumprir menos tempo do que eu, e peço que aguente firme. O pesadelo que vive acordado vai acabar. São apenas as horas que precisam passar.

 

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ô vida danada
25/04/2019 | 00h26

Ô vida danada!

Cândida Albernaz

Estou ficando cansada dessa vida. É calor demais, é frio demais. Não tem meio termo.

Em casa, as coisas não andam bem.

Outro dia minhas filhas discutiam sobre o único ventilador que temos funcionando. Porque o que estava no meu quarto parou e a caçula, que dorme comigo, queria o da irmã.

- Meu ventilador, ninguém pega.

Levantei e tentei consertar o nosso. Nada! Dei uns socos nele e também não adiantou. A que ponto cheguei.

Meu marido já sendo devorado pelos mosquitos, não sentia nada, muito menos calor. Apagou depois de ter bebido toda a cachaça que o corpo não aguentava. Parecia um traste deitado do meu lado. No canto esquerdo da boca descia um fio de baba.

Quando casei, não era para ser assim. Homem trabalhador, dedicado, podia contar com ele para tudo. Agora passa mais tempo no bar do que em qualquer outro lugar.

Trabalho como uma condenada. Além do serviço de doméstica, vendo produtos de beleza e calcinhas: daquelas bem pequenas, com pompom, rendinha, pedrinha, fitinha, tudo de inha que existir. Não sei como cabem na bunda de alguém. Aliás, foram feitas para tirar e não para usar, penso eu.

Nunca tive uma dessas. A única vez em que coloquei algo diferente lembro que foi uma camisola vermelha, muito curta e decotada. Antônio me olhou com a eterna cara cheia, e disse que eu parecia uma puta. Chorei o que podia, e quando voltei para o quarto ele dormia. Rasguei em pedacinhos e nunca mais usei nada parecido. Qualquer blusa de malha que encontre pela frente serve para dormir.

Vejo minhas duas meninas sonhando com um futuro que faço de tudo para que aconteça, e me preocupo. A vida se mostra o oposto do que a gente imagina.

Fiz até a oitava série e larguei o estudo para casar. Fiquei grávida oito meses depois de conhecer Antônio. Casamos e fomos morar nos fundos da casa de meus pais. No princípio nem foi ruim, mas depois que papai morreu, Antônio se deu ares de dono e resolveu tomar conta de mamãe também.

Não tenho irmãos e os parentes são do interior de Minas. Ficamos eu e ela a mercê das vontades dele. Não parava em emprego nenhum, como é até hoje. Bebe demais, e só não me bate, porque na primeira vez que tentou, peguei um pedaço de pau e meti na cabeça dele com tanta força, que não sei como ainda está vivo. Sangrou um bocado. Fiquei com medo, mas não cheguei perto para ajudar. Ele grita, xinga, ameaça, mas não encosta a mão em mim.

Hoje estou com um pressentimento ruim.

E esse ônibus que não chega nunca?

As aulas já acabaram e as meninas devem estar em casa esperando. De manhã saí cedo e Antônio não havia voltado da farra. Quando acontece isso, de passar a noite fora, dorme o dia inteiro.

Vou chegar tarde de novo. Quase sempre é assim. Fico no ponto de ônibus esperando por um tempão.

Enfim, o bendito! Lugar para sentar, nem pensar. Desço perto de casa e noto um tumulto. O povo está correndo para a rua onde moro. Corro também.

No lugar onde era minha casa, o fogo consumiu quase tudo.

“Foi rápido! Não deu tempo de fazer nada”.

“Coitada da Arlinda, tão trabalhadeira”.

“Isso que dá ter um homem como esse dentro de casa. Vagabundo!”.

- Minhas filhas. Não estou vendo minhas filhas.

“Bebe até cair e vai dormir fumando. Irresponsável!”.

- Alguém viu minhas meninas?

“Se eu fosse Arlinda, tinha colocado ele para fora há muito!”.

Enquanto abria caminho entre as pessoas, imaginava quem poderia ter ajudado minhas garotinhas. Alguém deve ter tirado as duas daquele inferno.

Antônio está sentado no meio fio com a cabeça entre os joelhos. Bêbado como sempre.

Chego perto e quando começo a sacudi-lo pelos ombros, sinto uma mão me puxando.

- Deixa mãe. Papai nem sabe direito o que está acontecendo. Nós conseguimos tirar ele de lá.

Olhei as duas, com as roupas e o rosto sujos de cinzas. Os cabelos que sempre mantenho penteados e presos estavam chamuscados e desgrenhados.

Nunca vi crianças tão lindas!

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suas mãos sempre foram meu escudo
17/04/2019 | 23h42

Suas mãos sempre foram meu escudo

Cândida Albernaz

Ele não foi embora aos poucos, demonstrando que assim o queria, com cansaço de lutar.

Ele bateu a porta e saiu. Ainda esperei por algum tempo do outro lado, na sala, seu retorno quando rindo diria que estava brincando. Apenas uma piada de mau gosto, como um dia em que me olhando sério dizia que meu cabelo estava diminuindo e precisava tratar disso:

- Seu cabelo está horrível. Vai acabar sem nada. Está ralo demais.

Eu rebatia com:

- Não esqueça que o careca da família é você, e para isso não tem mais solução.

Via seus olhos se apertarem rapidamente como se fosse rir. Então reconhecíamos, eu e ele, que era mais uma provocação para receber uma resposta malcriada. Esta era uma de nossas brincadeiras. Algumas vezes as repostas que dava o chocavam, mas transcorridas algumas semanas invocava outra.

Como no dia em que:

- Por que não vai lá dentro e passa uma “coisinha” no rosto?

- Melhor me deixar quieta.

- Um batom, quem sabe. Está precisando.

- Mas para que, pai? Se vou beijar muito!, daqui a pouco. Vai borrar tudo.

Entre divertido e zangado voltou-se para as netas:

- Que é isso? Sua mãe não tem juízo. Ouve só a resposta dela.

E elas abaixavam a cabeça sem coragem de olhar para mim ou para o avô.

Foi um homem bonito, desses que chamam a atenção. Alto, forte e vigoroso. Mesmo mais velho. Aliás, eu acreditava que não envelheceria nunca. Ele também, tenho certeza. E as mãos? Sempre gostei de observar seu tamanho, eram grandes, e o tanto que transmitiam segurança.

Não foi um “doce de pessoa”. Ninguém é. Até porque, “doces de pessoas” são enjoativas.

Ao contrário, foi ríspido inúmeras vezes, mas em infinitas foi amoroso. Quanto carinho ele continha.

Lembro quando um dia, estudando no Rio, cheguei à rodoviária e esperei que fosse me apanhar. Era o combinado. Achei que em quinze minutos no máximo deveria estar chegando. Meia hora, uma, duas, três horas e quarenta minutos de atraso. Ainda não havia celular e nem para onde ligar, porque tentei. Entrei no carro muda e então o ouvi:

- Passaremos rapidamente num lugar e a deixo no apartamento.

O choro veio imediato, com soluços que não controlava. Sentia fome e angústia pelo tempo que esperei imaginando que a cada cinco minutos chegaria. Só mais cinco, mais cinco, mais cinco, mais cinco...

Ele virou-se para trás e vendo como estava, pediu ao motorista que parasse o carro. Desceu e sentado no banco traseiro, abraçou-me:

- Vamos para casa.

Recebi beijo, aconchego e resolveu ficar ali, ainda sentindo-se o pior dos pais.

Por conta desse dia, nunca suportei deixar minhas filhas esperando. Nem mesmo cinco minutos. Também não funcionou. Acostumei-as mal e tornaram-se exigentes comigo em relação a isso. E quem disse que hoje consigo não atrasar?

Ele gostava de nos contar que havia começado a trabalhar aos doze anos. E nunca mais parou.

Há uma história que um dia, ainda menino, brincava na rua e chamou o companheiro para almoçar. Quando todos estavam à mesa e sua mãe os servia, pulou seu prato quando colocaria o pedaço de carne destinado a cada um dos oito filhos. Ele questionou:

- E o meu?

- O seu vai para seu amigo, já que o convidou e não avisou.

Era um tempo difícil, com pouco para dividir.

Talvez por isso, comida havia com fartura em casa de meus pais. Mesmo nas fases em que não se tinha muito. Poderia aparecer quem quisesse e ele chamava para sentar e almoçar conosco.

Herdei essa coisa de geladeira cheia. Em minha casa sempre há verduras, frutas, biscoitos e mais.

Recordo o último dia que o vi e agradeço termos ficado só eu e ele por algum tempo no CTI, Centro de Tratamento Intensivo.

Fiquei vendo-o deitado e dormindo. Aquele homem enorme que sempre me guiou e protegeu. Simulei passar meus dedos por sua testa, boca, ao redor dos olhos, sobrancelha, nariz, orelha, como se o desenhasse. Cada ponto, cada ruga, bem devagar. Não queria perder nada daquele amor que estava sentindo. Descobri seu pé direito que estava sob o lençol. Não deixaria que acordasse, porque aquele lugar devia ser muito chato. Melhor dormir. De qualquer forma o veria dali a dois, três dias.

Não aconteceu. Não o vi mais. Mas desde esta tarde sonho com ele toda semana. Assim mato a saudade.

 

 

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a vida que a gente não escolhe
28/03/2019 | 02h13

A vida que a gente não escolhe

Cândida Albernaz

A barriga ocultava parte da bermuda preta. O chão estava coberto de lama a sua volta, mas isso não parecia incomodar.

Segurando a mangueira verde, direcionava o jato no menino que corria fingindo fugir da água fria. Riam pai e filho naquele domingo em que o sol tentava fazer derreter tudo o que estivesse abaixo dele.

Gostava desses dias em que o pai tinha o riso arreganhado no rosto e costumava observar como sua barriga subia e descia nesses momentos.

Ele era um homem alto, gordo, com mãos que considerava imensas e um bom humor que só se abalava quando discutia com a mãe. Nunca vira o pai batendo boca com qualquer outra pessoa. Amável e educado, apesar de sua aparência mostrar o contrário.

A mãe, o oposto. Vivia zangada, reclamava de tudo, dizia que não havia sonhado com essa vida para ela. Queria ter saído daquela cidadezinha pobre e principalmente daquele bairro imundo. Tinha o hábito de culpar o marido por não conseguir nada melhor do que ser mecânico.

- Que mulher sonha em ter um marido sujo de graxa? E ainda por cima que não podia levá-la a nenhum lugar decente?

- Não nascera para aquela vida, - vivia resmungando.

Tinha pena e raiva da mãe. Perdia todo o seu tempo querendo o que jamais poderia ter. Quer dizer, parte do tempo, porque no resto dele, bebia.

Quando os dois brigavam, quase sempre era porque ela havia enchido a cara. O pai então vasculhava a casa e encontrava garrafas escondidas em todo canto. Ultimamente desenterrara algumas no quintal.

Apesar de o problema ser sério, ria quando o pai bancava o cão farejador procurando as bebidas. Cachaça, a maioria, porque ela não tinha dinheiro para comprar coisa melhor.

Quando encontrava, retirava a tampa da garrafa e despejava o líquido no vaso sanitário. A mãe enlouquecia e gritava todos os palavrões que conhecia. O marido nem ligava e continuava jogando tudo fora.

Numa das bebedeiras ela deu um tapa nele. Para nunca mais. Quando viu os olhos do pai, teve medo. E ela também.

Segurou firme a mão da mulher e aproximou-a do rosto, fazendo com que batesse em si mesma com força. Em seguida, soltou e ela saiu correndo até o quarto. Da sala dava para ouvir seus soluços. Não se recordava da mãe ter agredido o pai de novo.

Os períodos em que ela desistia de beber eram quase perfeitos. Servia o almoço e o jantar sempre na hora e acompanhava as festas e reuniões da escola. Afirmava que o marido era o melhor homem do mundo e que não havia menino que pudesse dar mais orgulho a sua mãe do que ele. Essa abstinência durava no máximo dois ou três meses.

Houve uma vez em que ficou um ano sem colocar álcool na boca. Foi logo depois do tal tapa. Tiveram paz e achou que seria para sempre.

Então um dia ela demorou mais do que normal. Ele já havia feito o dever da escola, o pai colocou o jantar para os dois, que comeram em silêncio. Em seguida sentou na cadeira da sala e ficou olhando para-o-relógio-para-a-porta-para-o-relógio-para-a-porta-para-o-relógio-para-a-porta e nada da mulher chegar.

Sabiam o que provavelmente acontecera, mas mesmo assim ele rezava baixinho para que ela tivesse se machucado no caminho, ou quem sabe poderia estar num hospital sem poder avisar, ou fora assaltada...

Não foi o que aconteceu. Às dez horas da noite, ela irrompeu pela porta, cambaleando e rindo da cara dos “dois otários”. O marido foi para fora, abriu o portão e saiu. O filho continuou parado, com medo de se mexer e ela se virar contra ele. Quando estava assim, qualquer ação poderia ser interpretada do jeito dela. E na maioria esse jeito era agressivo para o lado dele.

Mas não encostou no garoto. Foi direto para o quarto, deitou na cama com a roupa que estava e apagou.

Ouviu quando ela e o pai conversaram no dia seguinte. Jurou que não repetiria e que fraquejara porque a patroa reclamou com ela sobre uma jarra que quebrara sem querer e avisou que descontaria o valor de seu salário.

Claro que ela bebeu no outro dia, e no outro e no outro.

* **

Durante o banho de mangueira eles pareciam ser únicos no mundo. Almoçariam mais tarde a comida que a mulher deixou pronta antes de sair. Avisou que ia visitar a mãe dela.

Eles sabiam que a casa da avó ficava do lado oposto para o qual ela se dirigiu.

Sabiam também que quando retornasse, ficaria olhando para eles com aquele olhar embaçado e um sorriso demente na boca. Não xingava mais ou gritava, o que era um alivio.

Na manhã seguinte, ficaria trancada no quarto por muito tempo e ao entrar na sala notariam que a cara estava inchada de chorar.

Tinha pena do pai, pena dele mesmo. Da mãe, sentia uma raiva triste que apertava o peito e fazia com que baixasse os olhos quando ela estava por perto.

 

 

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enxergar melhor para quê?
20/03/2019 | 23h46

Enxergar melhor para quê?

Cândida Albernaz

A senhora não falou que Jesus ia curar sua visão? Agora vá chamar ele para conversar. Cansei de falar para ir ao médico. Disse que a levaria, porque sozinha é que não pode andar por aí. Consegui de graça. De graça! Sem precisar pagar nada. Um médico bom, e nada feito. Parecia um mantra: “Jesus vai me curar. Jesus vai me curar”. O que a senhora quer é dar trabalho para Jesus sem nem mesmo dar uma ajudazinha para ele. Custava alguma coisa ir ao doutor que arranjei? Diz? Custava? Mas não, prefere ser teimosa. Tive a quem puxar. Também sou “teimosa feito uma íngua”. Não era assim que papai falava de mim? Saudade dele dizendo que “desse jeito, com esse temperamento, não vai casar nunca. Que homem vai aguentar mulher querendo mandar em tudo?”. Nenhum.

Ele tinha razão, não casei. Lembra-se do Adilson? Claro que lembra, não é mamãe? Vivia paparicando você. Sempre a defendia dos meus ataques de impaciência. Não que precisasse ser defendida com esse geniozinho danado que tem. E costumava trazer biscoitos que você não me deixava sequer provar. Mas eu não ligava. Até gostava de ver meu namorado querendo agradar minha mãe. Época boa aquela. Papai empregado, você com muitas clientes para costura e eu como vendedora de uma loja de roupas.

Nós dois falávamos sobre casamento entre um beijo e outro. Mudei tanto enquanto estivemos juntos que você mesma começou a reclamar do tanto carinhosa que eu me tornara.

- Menina chata! Para de me apertar e esfregar essa boca no meu rosto. Está me babando toda.

Esse era o jeito delicado com que recebia meus abraços e beijos. Papai ria e chamava para que fizesse com ele.

Tive a quem puxar, não é mãe? Papai aguentou um bocado sua impaciência.

Marcamos a data do casamento e eu andava com um sorrisão na cara o tempo todo. Amava aquele desgraçado.

Não peça para eu não falar assim. Desgraçado mesmo. Foi se envolver com a vizinha três meses antes de subirmos ao altar. Logo com a exibida da Regininha. Claro que ela fez questão que eu descobrisse. Flagrei os dois no maior agarramento perto de casa. Nem para longe daqui eles foram. Na hora não tive reação alguma e fui para casa chorar como uma idiota.

Adilson veio, pediu desculpas, tinha sido a primeira vez, me amava, Regininha tinha provocado tanto que ele não aguentou. Juro que nessa hora pensei em dar um soco na cara dele. Ela provocou? Não aguentou? É bicho por acaso? E eu nessa história? Pedi que fosse embora e não voltasse. Primeiro falei com calma, depois aos berros, até que joguei a jarra em cima dele. Acho que nesta hora entendeu e saiu.

Não quis saber de mais ninguém. Namorei um ou outro e só.

Mas, voltando ao nosso assunto:

- A senhora quer enxergar melhor para quê? Com essa idade?

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nem eu nem você
13/03/2019 | 20h32

Nem eu nem você

Cândida Albernaz

- Amor, pega aquele copo para mim?

- Você não vai beber vinho neste copo de vidro?!

- Por quê?

- Não me faça uma pergunta boba como essa.

- E o que tem?

- Vai conseguir estragar a bebida.

- Você trouxe uma taça? Ou duas?

- Quem ficou de trazer foi você.

- Esqueci.

- E agora quer que eu beba num copo?

- Não quero mais. Eu! quero beber desse jeito

- Me recuso.

- Então bebe outra coisa. Quem sabe leite? Ah!, não tem.

- Está rindo de mim?

- Não. Apenas tentando dizer que estou louca para tomar este vinho.

- ...

- Faz uma coisa. Feche os olhos e imagine estar com uma taça nas mãos.

- Não vou fazer isso.

- Sabe que horas são? Duas horas da manhã. Está tudo fechado. Eu só pensei em terminarmos a noite com um vinho aqui no hotel. Estava tudo tão bem até agora.

- Mas você precisava esquecer algo.

- Na próxima vez adivinha quem vai ficar incumbido das taças? E do abridor?

- Por quê? Não se lembrou do abridor também?

- Pensei em empurrar a rolha.

- Não acredito.

- Brincadeirinha. Eu trouxe.

- Acho que vou dormir. É melhor.

- Estou sem sono. Vou assistir a algum filme.

- Você não vai ligar a televisão agora.

- Tem uma ideia melhor?

- Já disse. Vou dormir.

- Poxa! Vamos tomar um vinhozinho, sentar na varanda e...

- Como é insistente! Não estou com clima para olhar estrelas.

- E quem disse que quero olhar para o céu? Sabe do que mais: chega! Enchi.

- Agora sim.

- Agora sim o c... Na próxima vez em que viajarmos ficaremos em quartos separados. Se viajarmos juntos de novo.

- O que quer dizer?

- Que podemos ir embora amanhã. Aliás, vou amanhã. Se quiser, fique.

- Como você vai?

- De ônibus, a pé, numa vassoura. Não importa.

- Ei! Sabe que quando fica assim, brava, eu fico com o maior tesão.

- Pois coloque seu tesão no.

- Epa! Não complete essa frase. Vem cá. Dá só um beijinho.

- Não quero saber de beijo nenhum. Você conseguiu.

- Não faz assim. Abrace meu pescoço. Você gosta quando te seguro desse jeito, não gosta?

- Sabe que gosto. E você, de me ver zangada.

- Para te amansar.

- Eu sei. Vai lá, abre o vinho e deita aqui no tapete.

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sua mente
13/03/2019 | 20h28

Sua mente

Cândida Albernaz

- Você, simples?

- E não sou?

- Não, não é. Pensa demais.

- Penso. Penso até não suportar tanto pensar.

- E para que isto serve? Não dificulta sua vida?

- Não tenho domínio sobre minha mente. Devia saber disso melhor que eu.

- Questão de treino.

- Você me faz rir.

- Treine não pensar, desligar-se. Ouça uma música e relaxe.

- Se ouço música quero entender a letra e por vezes ela encaixa em algum momento que vivo ou vivi.

- Mas aí você volta a pensar.

- Pois é, e muitas vezes pensar dói.

- Porque você engrandece seu pensar. Fica esticando o problema até o limite.

- Mas quando chego a este ponto, desisto dele e finjo que não existe.

- Não acredito que resolva, mas já que sabe como vai acabar, por que não faz isso desde o início? Evita perder tempo.

- Se eu conseguisse me conhecer, desvendar quem sou.

- Você gostaria?

- Nunca! Prefiro surpreender-me comigo, caso contrário perderia a graça.

- Eu é que acho graça no que diz.

- Acompanhe: já imaginou se conhecer completamente? Sem surpresas?, ou sustos em suas atitudes?

- Seria uma vida mais calma. Sem tantas decepções consigo mesma.

- E sem graça.

- ?

- Verdade que muitas vezes é doloroso não ter controle sobre as próprias reações. Machucar o outro por exemplo.

- E se não voltar para pedir desculpas, não dorme.

- Não. Não durmo nem vivo. Sofro.

- Mesmo assim não quer o controle do autoconhecimento.

- Não quero.

- Você me cansa até a exaustão. Tento ajudá-la, não consigo.

- Não se desespere. Apenas me dê um tempo.

- Mas se é só o que temos. Tempo.

- Gosto de rir também.

- Rir?

- Gargalhar gosto mais.

- Nem sempre é possível.

- Claro, eu seria boba ou louca se risse toda hora.

- Louca? Você não é?

- Um pouco. Como todos.

- Quero dormir.

- Também quero, mas você não deixa.

- Pare de pensar então.

- Se eu contar carneirinhos você me deixa pegar no sono?

- Feche os olhos.

- Está bem.

- Por que abriu?

- Eles têm vontade própria.

- Quem?

- Meus olhos.

- Por favor, preciso dormir, amanhã trabalho o dia inteiro.

- Fale com eles.

- Com quem?

- Meus pensamentos, ora.

- Não consigo.

- Claro que consegue. Você é minha mente.

- Ser sua mente me dá um trabalhão. Vamos ficar quietas. Sinto o sono chegando.

- Acho que sim.

- Quieta.

- ...

- ...

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Sobre o autor

Candida Albernaz

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Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".