tenho certeza de que será amanhã
12/09/2019 | 00h29
Tenho certeza de que será amanhã
Cândida Albernaz
Ontem não consegui me concentrar em nada. Algumas vezes fico assim, como se simplesmente deixasse o dia acabar. Quando percebo é noite e nada foi feito. Pelo menos nada de importante.
É claro que meu estado de espírito não é de graça, sem motivo. Acordei cedo e vim para o hospital. Fico muito angustiada todas às vezes. Faço isso há cinco meses, desde que tudo aconteceu.
Cinco meses! Parece mentira o tempo ter passado tão rápido. Vou falar uma coisa: é uma droga esse negócio de tempo. Se pudéssemos voltar nele, ou apenas fazê-lo parar.
Era isso o que eu queria: voltar no tempo. Então mudaria meu trajeto, minhas palavras, quem sabe trocaria de roupa, porque a que eu usava, antes não sabia, não dava sorte. As pessoas falam que isso é bobagem. “A roupa que você usa não pode influenciar em nada o desenrolar da sua vida. Está ficando louca.” E daí, se estou? Queria ficar louca. Completamente. Não precisaria colocar os pés no chão hora nenhuma. Não responderia por meus atos. Não pensaria em nada. Nada disso. O louco deve pensar muito no que o incomoda. Por isso é louco. Então não quero.
O melhor é que tiraram os fios. Incomodavam olhar. Dizem que a pessoa sedada não sente dor. Será? Duvido.
Pedem para a gente falar, conversar sozinho como se o outro fosse responder a qualquer momento. Faço isso sempre. Enquanto estou ao seu lado pratico um monólogo por horas, não é mesmo? No início falava sobre tudo o que ainda faríamos juntas, lembrava os momentos bons que vivemos, as brincadeiras e as risadas que partilhamos.
Está cada dia mais difícil. Se alguém entrar no quarto quando estou conversando com você vai zangar-se comigo. De vez em quando, como hoje, me deixo levar e começo a dissertar sobre meus problemas. Você deitada tão silenciosa, sem um movimento. Inicio com coisas boas e de repente despejo aborrecimentos e insatisfações. Desculpe, é incontrolável. Ou quase, já que quando percebo, paro e mudo de assunto.
Estacionei o carro na vaga de sempre. Parece que sabem que aquela é minha e a deixam vazia.
Quando saí do elevador senti como se meus pés se arrastassem. Tinham correntes gigantes neles.
Abro a cortina para que você sinta o sol. O dia está bonito, claro e sem nuvens. Tento sorrir, mas faz tempo não consigo. A não ser quando imagino que durante uma frase minha você vai abrir os olhos e me chamar de mãe outra vez.
Proibi que fosse àquela festa. O local era ruim. Já havia tido confusões antes e os frequentadores, eu não conhecia. Não faziam parte da turma que uma mãe escolhe para a filha conviver.
Esperou que eu deitasse e saiu. Confiei que obedeceria pelo menos daquela vez. Não foi o que aconteceu. Foi à festa e não voltou. Não para casa. Quando ligaram, já estava no hospital. Alguém disparou um tiro e foi você a escolhida para alojar a bala. Minha filhinha de quinze anos, meu bebê estava entre a vida e a morte.
Continuamos aqui, você e eu. Todos os dias recomeçamos.
Talvez seja hoje que serei surpreendida com o - mamãe! Quando a olho ainda vejo a minha menininha atrevida e revoltada com o mundo. Só um pouco mais magra.
Acabo de pensar em algo. Se você abrir os olhos agora, prometo dizer sim para as primeiras dez coisas que pedir. Ou vinte. Ou quase todas.
Só não peça para fechar os olhos enquanto você foge para uma festa desgraçada que não a trará de volta para casa.
Amanhã quando eu chegar terei a minha surpresa. Tenho certeza de que amanhã será o dia.
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que boca!
04/09/2019 | 20h44
Que boca!
Cândida Albernaz
- Benza Deus!
- O que foi agora, Célia?
- Sabe aquele sobrinho do meu marido, que falei com a senhora na semana passada?
- O que batia na mulher?
- Não, esse é outro e ainda vai ter o castigo que merece.
- Não estou me lembrando.
- O Nando, que entrou lá em casa e roubou o que sobrou do salário que a senhora pagou e ainda levou meu celular.
- Ah...
- Pois é, só descobri porque o dono de um bar que tem lá perto de casa veio falar comigo que ele estava vendendo um celular e o nome que aparecia era o meu: Jocélia Pereira Silva.
- Você colocou seu nome completo na tela do celular?
- E não foi bom? O menino é tão burro que não trocou a tela.
- O que aconteceu com ele?
- Morreu.
- Como assim, morreu?
- E ninguém mandou matar, não. O que, aliás, com o tempo era o que ia acontecer, porque esses garotos terminam assim. Com a cara enfiada numa vala qualquer.
- Morreu de quê?
- Um caminhão passou por cima. Estava numa bicicleta que não era dele, segurando uma bolsa de mulher, que também não era dele e com certeza tentando escapar de alguém.
- Coitado!
- Também fiquei com pena. Mas ao mesmo tempo, foi um alívio.
- Por quê?
- O desgraçado, que Deus o guarde, me cercou na rua e quis dar na minha cara.
- ..
- Só porque falei que ia ter que devolver o dinheiro, já que o celular estava comigo. Ainda disse que ia dar parte dele na delegacia.
- Mas você não achou que era melhor ter deixado para lá? Filho de seu cunhado, e ainda por cima perigoso.
- Um moleque que ajudei a trocar fralda.
- O moleque cresceu...
- Foi falta de coça naquele lombo dele.
- ... e virou bandido.
- Fui na casa do irmão do meu marido e falei poucas e boas. Ele não gostou e veio tirar satisfações. Ainda mandou que eu ficasse longe dos pais dele.
- Talvez tivesse sido melhor. Com esses rapazes, o melhor é não se meter.
- O pior é que agora o irmão dele está atrás de mim.
- E por que, mulher?
- Fica dizendo que roguei praga e por isso o irmão morreu.
- Ele também se mete com roubo?
- Não que eu saiba. O problema é que roguei mesmo. Um criançola daquele ameaçando bater em mim. Falei que um caminhão ia passar na cabeça dele, porque ficava ameaçando a tia. Disse que Deus ia castigar.
- Que boca, heim, Célia!
- Pois, é. O pior é que a família toda fica me olhando de banda.
- Mas que culpa você teve?
- Aconteceu o que eu disse para ele.
- Foi coincidência.
- Será? Estou até com medo. Semana passada falei para meu marido que se ele não tomasse jeito e parasse de olhar para tudo o que é mulher, ia acabar ficando cego.
- Que bobagem, Célia.
- O homem está atrás de mim igual sarna, dizendo que começou a sentir dor nos olhos.
- Deve ser impressão dele.
- Só pode ser conjuntivite. Mas não foi só isso.
- Não?
- Disse para ele que de uma hora para outra, o “dito cujo” ia parar de funcionar, se ele continuasse me traindo.
- E daí?
- O homem já brochou duas vezes seguidas.
- Benza Deus! Que boca!
 
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conversa vai conversa vem
29/08/2019 | 12h42
Conversa vai, conversa vem.
Cândida Albernaz
 
Dona Marta, a senhora não imagina o que aconteceu hoje antes de vir para cá. Sabe o meu caçula? O Claudinho, aquele que falei que ia dar para a senhora batizar, mas depois teve que ser a irmã do meu marido, porque ela se zangou. Então, o danado do menino viu o botão da camisa do pai, que deixei em cima da mesa. Pegou e enfiou no nariz. Fiz de tudo e nada de sair. Levei para o posto de saúde e lá colocaram um troço no nariz dele e conseguiram tirar. O pior a senhora não sabe. Meu marido estava se arrumando para tentar um trabalho. Teve que sair com a camisa sem botão, bem na barriga. E a senhora conhece ele, não é? Lembra do tamanho daquela pança. Pois é, o umbigo enorme que mais parece uma vala ficou aparecendo. Ridículo, claro. Quando voltou, estava zangado porque não conseguiu o serviço e quis botar a culpa em mim. Veio dizer que estava mal vestido e os homens da fábrica não deram o emprego por isso. Agora a senhora veja só! Ele bebe até cair, come feito um boi, engordou nesses últimos anos como uma porca e vem reclamar que a aparência dele está ruim por minha causa. O que a gente tem que ouvir de homem, né? Já estou ficando enjoada dessa vida. E o pior é que não posso fazer nada. Mudar como? Ganho mal, não é sua culpa dona Marta, mas o salário mínimo não dá para nada. A casa onde moro é da família dele, estou com quatro filhos. Vou fazer o quê? Aguentar firme, eu sei. Mas é que às vezes tenho uns sonhos bobos. Fico imaginando que se eu tivesse estudado poderia ser alguém nessa vida. Assim como a senhora, que sabe falar direito, se veste com cada roupa... e o cabelo? Macio feito algodão. Às vezes sonho que estou num salão de beleza e aquelas meninas cuidando de mim feito uma rainha. Acho que ia dormir se tivesse alguém mexendo no meu cabelo e nos meus pés ao mesmo tempo. Quando posso faço minhas unhas. Então lembro que tenho tanta roupa para lavar e desisto de passar o esmalte. Não adiantaria nada mesmo porque vai borrar e ficar horrível. Se eu fosse bonitona assim como a senhora, queria ver se meu marido ficaria de olho na vagabunda da nossa vizinha. Desculpe o jeito de falar, mas é que aquela me tira do sério. Só quebrando a cara dela. E eu sei que nem se interessa por ele de verdade. O que a sem-vergonha gosta, é de dinheiro e isso ele não tem. Bonito também está longe de ser. O que ela quer mesmo é me provocar, rebolando daquele jeito e jogando o cabelo de um lado para o outro o tempo todo. O marido da tal se mandou com a cunhada e ela ficou trau-ma-ti-za-da. É assim que se fala, não é? Eu não tenho nada com isso. Se a irmã era uma piranha, ela que botasse para correr. Não dá nem para sentir pena, porque depois que foi abandonada, começou a dar para todo mundo. Deixe chegar perto. Que fique rebolando de longe, porque se pego os dois juntos, aquela cabeleira dela vai sumir. Arranco fio por fio. Dona Marta, a senhora está me olhando desse jeito... Já sei, estou falando muito outra vez, não é? Estava só explicando porque cheguei atrasada. Mas diga, o que faço para o almoço? Só não manda preparar frango de novo. Nem eu que não tenho luxo estou aguentando, quanto mais, seu Artur. Aliás, a senhora sabia que seu Artur ficou de arrumar emprego para meu marido? Dá uma forcinha, fala com ele, porque a senhora ele escuta. Escuta não, obedece! Meu marido sabe fazer de tudo. Ele ontem... Desculpe dona Marta, já estou indo para a cozinha. Depois a gente termina a conversa.
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você é boba mesmo
22/08/2019 | 09h10
Você é boba mesmo.
CândidaAlbernaz
- Sabe o que eu queria?
- Não faço ideia.
- Claro que não. Você não é adivinha.
- Tá, mas fala logo.
- Queria um carro novinho, igual ao de “seu” Adalberto.
- Sonha querida.
- Sonha nada. Seu Adalberto vive atrás de mim. É só eu dar corda, que ele puxa.
- Falta de gosto, menina. Já viu quantas dobras ele tem sob o queixo?
- E o apartamento em que mora?
- E aqueles olhos esbugalhados?
- O relógio dele é caríssimo, porque já me informei.
- E aquele cabelo pintado de preto com a sobrancelha branca?
- Me ofereceu um anel outro dia.
- A troco de quê?
- De nada.
- Sei. Você vai acabar embaixo daquela barriga de cem quilos.
- Nem é tanto assim.
- Cuidado porque ele esmaga seu silicone e pluft!, já era.
- Exagerada.
- Ele podia pelo menos cortar aqueles pelos que saem do nariz.
- Você está inventando.
- Ah, é?
- E depois, ele é cheiroso. Igual ao carro dele, que tem cheiro de novo.
- Como você sabe? Passeou de carro com ele?
- Não, o que é isso?
- Hã, hã.
- Está morrendo de inveja porque “seu” Adalberto nem olha pra você.
- Deus me livre!
- Então tá.
- Ele é nojento!
- Nojento coisa nenhuma. Você não viu, mas me deu de presente um vestido lindo.
- Aposto que bem justo e decotado.
- E é mesmo. Ele disse que o que é bonito é para se mostrar.
- De preferência mostrar a ele num quartinho qualquer.
- Você não devia falar assim. Ele é gente boa. Quem sabe casa comigo?
- Garota, não viaje. Ele nunca vai se casar com alguém como você.
- Por quê? Sou bonita e só tenho vinte e três anos.
- Você é uma tonta. Ouvi dizer que ele está voltando com a mulher.
- Não pode. “Seu” Adalberto disse que me ama.
- E você acreditou?
- Ele vai casar comigo. Não digo que seja de papel passado, mas vamos viver juntos.
- Não seja boba. Você conhece a Lucinha, não conhece? Foi ela quem me contou. A ex dele esteve lá no salão e gastou uma nota. Falou alto para quem quisesse ouvir que o marido pediu “arrego” e estava implorando para voltar.
- Não acredito.
- Ainda contou detalhes. Disse que desde que o advogado avisou que todos os bens seriam divididos, ele parece um cachorrinho atrás dela.
- Estive com ele ontem e não falou nada.
- Pronto. Conseguiu o que queria e aposto que muito mais.
- Saímos umas cinco vezes.
- Não falei? Você é burra mesmo, nem sabe como tirar proveito. Vestidinhos?
- Me deu um anel também.
- De brilhantes?
- Não... mas é de ouro.
- Merreca, sua idiota.
- Falou que vai passar um tempo fora, trabalhando.
- Quanto tempo?
- Um mês.
- Bingo! Foi exatamente o que a ex disse. Vão para a Europa por trinta dias.
- ...
- Quem sabe ele traz uma camiseta para você como lembrança?
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Foi na virada do ano
14/08/2019 | 22h49
Foi na virada do ano
Cândida Albernaz
Ontem pensei em desistir.
Carolina segurava com as duas mãos a rede em que eu estava e puxava para bem perto dela, até que soltava. O balanço me fazia rir e pedia que ela empurrasse mais e mais rápido.
Quando cansava, fixava em mim seus olhos imensos como duas jabuticabas brilhantes. Eu tentava apertar sua mão com um olhar sério e diferente do garoto brincalhão. Ela se encolhia e puxando a mão, corria gritando para que a pegasse. Voltava à criança que realmente era até que, se tivesse sorte, conseguia jogá-la no chão e cobrir seu corpo com o meu. Carolina então parava de rir e dizia que a brincadeira havia terminado. Obediente, me levantava e deixava que fosse para casa. No dia seguinte, sabia que esqueceria e voltaria a me procurar.
 
Ontem pensei em desistir.
O tempo das brincadeiras infantis havia passado. Às voltas com livros e cadernos, sempre que podia pedia que Carolina me ajudasse. Tinha dificuldade em algumas matérias e ela era ótima em todas.
Às vezes sua mãe entrava na sala trazendo uns sanduíches para comermos. Então rapidamente eu retirava minha perna que fazia pressão na de Carolina. Quando dona Cecília saía, mexia na cadeira, até que encontrava o melhor jeito de voltar à posição anterior. Carolina fingia não perceber, mas quando pressionava mais forte, a caneta tremia em suas mãos. Eu abaixava a cabeça e sorria.
 
Ontem pensei em desistir.
Durante o período da faculdade, saí com algumas garotas e Carolina namorava firme um amigo. Eu os apresentei e dei força para que ficassem juntos. Todos diziam que os dois haviam sido feitos um para o outro. Dona Cecília mimava o rapaz e o tratava como filho.
Ninguém entendeu quando durante as festas de fim de ano, Carolina acabou com aquele namoro. Meu amigo chorava como criança perguntando o que poderia ter acontecido para que ela mudasse de ideia de repente.
Eu o consolei como pude.
Na mesma noite procurei Carolina e antes que falasse qualquer coisa, num canto da varanda, a beijei da mesma forma que fizera dois dias atrás, cinco minutos antes da virada do ano, sem que ninguém, menos ainda meu amigo, pudesse ver.
 
Ontem pensei em desistir.
Do carro, não sobrou nada. Disseram que tive sorte por escapar vivo. Não sei bem o sentido da palavra sorte. Fiquei em coma por muitos dias e quando me deram alta, voltei para casa numa cadeira de rodas. Não sabem quando volto a andar. Não sabem se volto a andar. Passou um ano desde o dia do acidente. Ainda sinto fortes dores e uso a cadeira. “Não houve muito progresso no seu quadro, tem que ser esforçar mais”.
Carolina entra na sala e pergunta se preciso de alguma coisa. Digo que preciso dela. Aproxima-se e senta sobre minhas pernas. Pena não sentir seu corpo. Passa as mãos em meus cabelos e brinca que estou ficando careca. Olho aqueles olhos negros e vejo que ainda me ama. Começa a falar de nossos filhos e da dificuldade do mais novo com seus relacionamentos com as garotas. Damos risada e antes de se levantar, me beija. Sinto o gosto daquele réveillon de trinta anos atrás.
Pede que faça os exercícios de que preciso e deixe de ser malandro, porque a recuperação depende de mim.
Mais um beijo e se levanta. Vai verificar se o almoço está pronto para ser servido.
 
Não vou desistir nunca.
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que falta me faz
08/08/2019 | 10h45
Que falta me faz
Cândida Albernaz
Nossa!, como a barriga está pesando. Estou com oito meses. Sinto um cansaço carregar para lá e para cá essa criança dentro de mim.
Prenha aos dezesseis anos. Droga! Minha mãe já falou que não ajuda.
- Se soube arrumar filho, que cuide dele sozinha.
E é sozinha mesmo, porque Daniel sumiu. Tão carinhoso e tão cheio de dengos. Soube da gravidez e botou o pé no mundo.
Como meu pai. Ela conta que os dois se amaram muito. Ele vivia atrás dela, fazendo todas as vontades.
Trabalhava no armazém de seu Zé e ela costumava ir até lá fazer compras: para o almoço, para o jantar, para o café. Quando vovó dizia que precisava de alguém que fosse comprar qualquer coisa, ela era a primeira a se oferecer. Se ofereceu tanto, que deu no que deu.
 
* *
Descer a ladeira não é moleza. Não vejo a hora de ter esse moleque logo. Quero voltar para a vida normal. Mãe é que fala:
- Vida normal, você vai ver o que é. Nem os estudos vai conseguir terminar.
Acho estudar uma chatice. Vivo arrumando confusão na escola. Quando namorava o Daniel então, era pior. Tinha uma putinha por lá que vivia no pé dele. Até quando estávamos juntos ela não respeitava. Um dia me enchi e chamei para rolar comigo na areia. Acabei com ela. Saiu toda arranhada e um punhado daquele cabelo oxigenado veio parar na minha mão. Nunca mais se engraçou.
Na verdade, depois que Daniel se mandou ela passa por mim e dá um risinho cínico. Agora não posso fazer nada mesmo, mas deixa meu filho nascer!
 
* *
Papai e mamãe não se casaram com papel passado. Na época, uns amigos contaram que ele tinha mulher e filhos numa cidade não muito perto dali. De qualquer forma, foram morar juntos porque meu avô obrigou.
Mãe falou que estava tão feliz que nem se importou com isso.
Quinze anos ela tinha.
Depois que nasci meu pai ficou com ela por dois anos.
A coitada sempre fala que ele foi o melhor homem que conheceu. Fazia todas as suas vontades.
Eu penso comigo: “De que adiantou? Um merda igual aos outros”.
 
* *
Acabo chegando atrasada no posto de saúde. Vou sozinha porque mamãe não tem tempo e minhas irmãs trabalham. Sempre fui acostumada a me virar quando preciso de algo.
Acho que desconta em mim o que papai fez com ela. Diz que sou a cara dele e é como se o tempo voltasse.
- Ele era bom, mas adorava arrumar confusão na rua, assim como você.
Eu não arrumo confusão, as pessoas me provocam.
Outro dia, estava indo para a escola e a idiota da Marluce veio perguntar quando Daniel voltaria para assumir o filho. Não respondi e continuei andando. Ela então comenta com a amiguinha do lado:
- Agora vai ter que abrir as pernas para qualquer um se quiser alimentar esse aí.
Nem foi tanto pelo “abrir as pernas”, mas chamar meu filho de “esse aí”, não deu para aguentar. Bati tanto na cara dela que até a polícia apareceu.
O namoradinho tomou as dores, e agora quer me pegar. Covarde! Homem contra mulher. E grávida!
 
* *
Um dia, meu pai falou que ia levar uns produtos para vender na cidade vizinha. Seu Zé foi quem mandou. Está vendendo até hoje. Vovô ainda tentou ir ao rastro dele, não adiantou. Sumiu e ninguém mais soube nada. Mãe demorou a acreditar. Chorou muito tempo até que cansou.
Três anos depois casou com seu Artur, um amigo do meu avô que queria cuidar dela. Teve mais cinco filhos com ele. Homem bom, só é um pouco velho.
 
* *
Estou chegando perto do ponto de ônibus, mais cansada que o normal. As pernas estão inchadas.
-Oi!
Marluce está na minha frente com o sorrisinho sem vergonha dela.
- Vamos resolver a cara marcada de Marluce agora. Comigo!
Nem tive tempo de falar nada. O namorado dela, que estava junto, me deu um soco e senti o nariz quebrando. Covarde, covarde!
Chutou minha barriga. “Aí não, meu bebê!”.
Chegou gente e o segurou. Um filete de sangue descia das minhas pernas, manchando rapidamente a terra. Senti uma dor forte e não pude levantar.
Alguém me segurou no colo, tentando arrumar um carro.
- Rápido, está perdendo muito sangue.
Onde está papai?, ah, se você estivesse aqui, se eu não te perdesse com dois anos, se mãe conseguisse me amar, se meu filho conseguir nascer...
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pobre quando não tá apanhando tá jurado
08/08/2019 | 10h36
Pobre quando não tá apanhando, tá jurado.
Cândida Albernaz
Papai costumava falar que pobre quando não tá apanhando, tá jurado. Criança, ria da frase que não entendia e mais tarde passei a achar um exagero. Hoje, penso que ele tinha razão.
Era um homem humilde que se orgulhava de sempre ter conseguido sustentar sua família, é verdade que com muita dificuldade, com o seu trabalho.
Depois que Dalviana nasceu, nome escolhido por ele que quis homenagear sua avó e a de minha mãe, as coisas lá em casa ficaram difíceis. Foi um período em que mamãe havia perdido o emprego de arrumadeira e na fábrica de vassouras em que ele trabalhava, muitos estavam sendo demitidos. Passamos semanas fazendo uma só refeição por dia. Mamãe chorava toda hora e eles discutiam constantemente.
Ele que sempre foi um homem calmo, começou a se irritar com facilidade e foi nessa época que levei a primeira surra. Nunca antes havia encostado a mão em qualquer dos cinco filhos.
Contava que apanhara muito do pai, que fazia questão de usar o cinto com o lado da fivela para bater. Dizia que por diversas vezes não sabia o motivo do castigo recebido. Jurara a si próprio não fazer o mesmo com os filhos.
Quando houve um assalto na fábrica, todos comentavam que deveria ter sido alguém que trabalhava ali. Não havia arrombamento e quem entrou conhecia o lugar. Funcionários foram interrogados e meu pai se exaltou, dizendo não admitir que duvidassem dele. O problema é que naquela semana ele era o responsável pela chave do setor onde o dinheiro arrecadado sexta e sábado ficava guardado até segunda-feira.
Numa noite, logo após este depoimento, não apareceu em casa. Fomos eu e meu irmão mais velho procurar por ele. Nossa mãe estava nervosa e com mau pressentimento. Quando passamos num terreno baldio ali por perto, ouvimos um gemido. Corremos para lá e encontramos papai com a cara desfigurada. Não conseguia andar e tivemos que levá-lo no colo. Um vizinho que saía para o trabalho na feira àquela hora da madrugada foi quem ajudou.
Nunca mais foi o mesmo. O fígado e os rins foram atingidos com repetição e ele se tornou um homem de saúde frágil. Não pôde mais trabalhar, e a aposentadoria que recebia não dava para nada.
Tivemos que arranjar emprego, apesar da pouca idade e não ganhávamos bem pelo mesmo motivo. Vi aquele homem forte envelhecer da noite para o dia e seus olhos passaram a fitar o chão com insistência. As histórias que nos contava perderam o sentido e quase não falava. Pelo que conheci dele, sentia vergonha das pessoas, não tanto pela surra, mas pela dúvida que nunca ficou esclarecida. Não se envolvera naquele assalto, mas não pôde provar.
Jurei vingança e numa tarde eu e meus amigos, cercamos o filho do dono da fábrica e batemos muito nele. Dias depois o garoto reconheceu um de nós, que quando foi pego, soltou a língua. Sem que meus pais soubessem o motivo, fui para a casa de uma tia em outra cidade e fiquei lá por uns meses. Quando pensei voltar, soube que dois amigos apareceram mortos. Ninguém descobriu quem matou.
Minha mãe, que não era boba nem nada, mandou que ficasse na casa de sua irmã por mais tempo. Dizia que orava por mim, mas era só o que podia fazer.
Algum tempo passado, papai piorou, e talvez não durasse muito mais. Voltei para casa. Eles precisavam de ajuda, e eu, vê-lo.
Quando me viu a sua frente, as lágrimas escorreram. Disse sentir saudades, mas que não deveria ter retornado.
Foi enterrado uma semana depois.
Na saída do cemitério, atrasei um pouco mais fazendo uma oração. Todos iam à frente.
Senti um golpe na cabeça, e a última coisa de que lembro, era dos olhos de meu pai, puros e crentes nas pessoas.
 
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dizem que dou risada de tudo
11/07/2019 | 09h55
Dizem que dou risada de tudo
Cândida Albernaz
Hoje podia ser domingo outra vez. Dois domingos: um para descansar e outro para fazer tudo o que preciso.
O que lavei de roupa ontem, não foi brincadeira. Preparei o almoço e ainda por cima meu cunhado resolveu aparecer com a mulher e dois filhos. Não é que não goste de visita, mas esses são folgados. Ela chega, senta numa das poucas cadeiras que temos e fica olhando as unhas longas e pintadas de vermelho. As minhas são bem curtas, porque rôo todas.
Ficaram para almoçar e o irmão do meu marido mandou comprar um refrigerante. Quando o filho voltou da venda, ele encheu os quatro copos e nem às minhas filhas perguntou se queriam um gole. Tanto sacrifício para comprar aquele frango e nem pudemos comer com vontade.
Qualquer dia desses vou dizer poucas e boas para esses dois. Não fiz ainda porque Jailton, meu marido, não deixou.
- Eles moram longe, só aparecem aqui poucas vezes, deixa para lá.
Não sou mulher de deixar para lá, sou de explodir.
Desta vez estava terminando de lavar um lençol quando ela chegou com o cabelo arrumado, o vestido passado e bem curto e as pernas brilhando do creme que usou. Eu no tanque, com uma blusa velha e a cabeça cheia de tinta, porque resolvi pintar o cabelo assim que acordei. Senti ainda mais raiva quando fez o comentário:
-Você precisa se cuidar, Jailton está novo e inteiro. Não dá bobeira, porque está cheio de mulher querendo um igual a ele.
Tive vontade de jogar o lençol encharcado no meio da cara dela. Vem até minha casa sem ser convidada e ainda enche o saco. É fácil ficar arrumadinha no domingo, filando almoço na casa de um ou de outro. Só sai quando escurece, impedindo a gente de descansar um pouco. O marido depois que fica com a pança cheia, diz que precisa dormir e deita na minha cama.
A desgraçada aqui tem que arrumar a cozinha e lavar tudo porque o máximo que a dondoca faz é um cafezinho, usando o meu pó, para ela. Sempre pergunta:
- Quer que faça pra você também?
Odeio café.
Mais tarde quando foram embora, eu e Jailton discutimos porque ele não gosta que fale do irmão. Não quero nem saber e jogo a raiva em cima dele.
Sou alegre e as pessoas que me conhecem dizem que dou risada demais. Prefiro levar a vida assim. Mas também tem uma coisa; se abusarem da minha boa vontade, não conto até dez. Os únicos que até hoje não me viram zangada de verdade foram esses. Não perdem por esperar. Avisei que foi a última vez. Saio de casa assim que os dois chegarem, e ele se vira.
A gente se dá bem. Sempre foi responsável e tem adoração pelas filhas. Homem trabalhador e ainda por cima, cheiroso.
Só tivemos problema sério uma vez há três anos, quando ele se assanhou com a vizinha. Descobri porque minha filha veio com uma história de que a fulana sempre levava um pedaço de bolo ou um doce gostoso para ela e o pai quando eu saía para o serviço. Não entendi a generosidade dela. Na mesma noite bati em sua porta, e com um pedaço de pão na mão disse que precisava retribuir os agrados que ela tinha com meu marido. Assim que abriu a boca para falar não sei o quê, enfiei o pão mandando que engolisse bem rápido. Arregalou uns olhos enquanto eu segurava sua cabeça e empurrava aquela massa para dentro de sua boca. Quando conseguiu se safar, me chamou de louca.
Jailton do portão assistiu tudo e ficou quieto.
Entrei em casa como se nada tivesse acontecido.
Não consigo dar risada o tempo todo, mas acho que as pessoas entendem. Nem sempre é possível.
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embaixo da mangueira
04/07/2019 | 09h57

Embaixo da mangueira

Cândida Albernaz

 

A casa amarela na esquina com as paredes cheias de rachaduras e o portão que um dia fora branco, levou-a de volta a um tempo que julgava esquecido.

Não precisava entrar para saber que no canto esquerdo da sala, o rodapé havia se soltado. Tinha certeza de que continuava assim, mesmo sem ter estado lá por tantos anos. No dia em que decidiu ir embora a mãe preparava para o almoço uma carne assada recheada com farofa e linguiça, seu prato predileto. Dizia que gostava de fazer o serviço da casa: cozinhar, cuidar do seu pai, arrumar a casa, agradar a seu pai, fazer faxina, obedecer a seu pai e chorar, graças a seu pai.

Apenas a roupa suja era permitida que fosse lavada e passada fora de casa. Ele não gostava de estranhos onde vivia. Claro, nem de pessoas que pudessem testemunhar como agia.

Quando voltavam da escola, ela e o irmão mais velho sabiam que encontrariam a mãe à espera deles. Sentavam-se embaixo da mangueira. Ali ela sorria, conversavam e sempre entregava uma bala, bombom, ou algum doce que comiam com prazer antes do jantar, o que era expressamente proibido fazer. Se às vezes os olhos da mãe estavam inchados de chorar, os braços com marcas vermelhas, ou o lábio machucado, eles ignoravam, o que foi previamente combinado, e só falavam de coisas boas. Riam alto e escondiam de si mesmos durante àquela hora e meia que não havia tanta graça o jeito que viviam.

Às sete horas em ponto, todos se reuniam à mesa e jantavam com o pai fazendo perguntas sem esperar as respostas. Ele já as tinha, o que na realidade eram ordens.

Seu irmão costumava adoecer com frequência. Sofria com alergia, na sua opinião a tudo ou quase. Eram unidos e quando o barulho dentro de casa começava, costumavam se abraçar e ficar embaixo da coberta. A mãe tentava não gritar e só depois que tudo se acalmava, ouviam um choro baixinho. Mais tarde ela entrava no quarto deles e os beijava pedindo desculpas.

A única vez em que tentaram chegar perto, durante o que acontecia, o pai se virou para eles e esbofeteando cada um, mandou que voltassem para o quarto. Nessa noite, além de cuidar de si mesma, a mãe teve que tratar deles, pois havia também um corte em suas bocas. No dia seguinte não puderam ir à aula, pois parte do rosto inchara. Prometeram a ela nunca mais sair do quarto quando ouvissem qualquer ruído.

O irmão aos doze anos se foi. O pai num dos dias de demonstração de ignorância, obrigou o filho a passar a noite sentado embaixo da mangueira. Era inverno. No dia seguinte de manhã, ele tremia e parecia ter convulsões. O pai pegou um remédio no banheiro, onde ficavam guardados, e o fez tomar. Chamando-o de maricas e estúpido mandou que fosse dormir

Mais tarde, quando foi permitido à mãe que entrasse ali já não havia muito que fazer.

Correram para o hospital: pneumonia aguda e uma forte reação alérgica, provavelmente medicamentosa, o levaram para sempre.

Continuou em casa até que aos dezoito anos foi para uma faculdade fora da cidade e nunca mais voltou. Sentiu culpa por deixar sua mãe sozinha com ele, mas se ficasse, não sobreviveria.

Escreviam uma para a outra e foi assim que soube que seu pai teve demência. Um dia, com a doença em estágio avançado encontrou o portão aberto e saiu. A mãe escreveu dizendo que o procurou, mas nada.

Depois de meses sem que ele aparecesse foi até lá e a trouxe para que morasse com ela. Foi assim até o ano passado quando ela morreu.

Tem certeza de que nesses últimos cinco anos conseguiu fazer com que sentisse paz não apenas em poucos momentos escondidos entre a chegada da escola e a volta do pai do trabalho.

O mais importante naquele período era o riso dela, enfim aberto, alto e sem medo a qualquer hora do dia e da noite.

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rosas vermelhas porque sou um eterno apaixonado
16/05/2019 | 00h26

Rosas vermelhas porque sou um eterno apaixonado

CândidaAlbernaz

 

Viu como as rosas estão bonitas? Sei que não gosta que tire as flores, mas vou fazer um arranjo para colocar no nosso quarto. Rosas vermelhas porque sou um eterno apaixonado. Não ria de mim. Sempre que falo desse jeito, você ri, mas no fundo sente o mesmo. Ou não estaria me aguentando até hoje. Tenho pavio curto e por muitas vezes faço você chorar.

Lembro quando disse que resolveu trabalhar com uma amiga e abririam um comércio para vender os produtos que faziam. Olhei para você e ri alto, debochado, dizendo que ninguém compraria seus bolos ou geleias porque por mais que elogiasse quando os fazia, não eram tão bons assim.

Ainda voltou ao assunto outras vezes, até que por fim, fui claro dizendo que não ajudaria em nada, e sozinha, não tinha dinheiro para começar. Ficou um mês sem falar comigo, porque é tinhosa também. Não disse nada, mas fiquei louco com aquilo. Se há uma coisa que gosto em você, é sua voz macia e calma. Ficar sem ouvi-la por tanto tempo foi o pior, só respondia com monossílabos ou atos. Quase voltei atrás. Mais uma semana e eu faria qualquer coisa que quisesse.

Ainda bem, me perdoe, que nosso filho adoeceu e precisamos sair durante a madrugada para um hospital. Ficou internado por três dias: pneumonia.

Aproveitei-me e sentindo sua fragilidade, abracei-a e a retive nesse abraço por muito tempo. Voltamos a nos falar.

Não pedi desculpas e nem retornamos ao assunto. Peço agora. Estou velho e me arrependo de várias coisas que falei e fiz, mas nunca de ter impedido que trabalhasse. Sempre a quis só para mim e não abro mão disso até hoje.

Você não tentou de novo e poderia dizer agora o quanto a decepcionei. Não, não diga, sabe que não suporto ser magoado. Não quero saber o que sentiu ou a frustração que carrega. Desculpe continuar tão egoísta.

Dia desses, ouvi nossas filhas conversando com você sobre casos mal resolvidos. Falavam que quase toda mulher e alguns homens carregam pela vida um amor que não se completou. Comigo não é assim, o único amor que tenho e tive foi você e nunca senti falta de nada.

Preciso confessar que enquanto as meninas falavam e você calada, ouvia, fiquei observando-a e percebi, para agonia minha, que seus olhos brilharam diferentes por segundos.

Mesmo agora depois de tanto tempo, tocar nesse assunto é difícil para mim. Não pode imaginar o desespero que senti. E em todas as vezes que tive oportunidade, mexia em suas coisas.

Desculpe, mas no meio de suas cartas guardadas, achei a foto de um rapaz de quem nunca ouvi falar: “Para sempre Alberto”.

O brilho que vi nos seus olhos naquele dia agora tinha nome e rosto. Se você nunca conseguiu esquecê-lo, ele passou a fazer parte também de meus pesadelos. Nem sei por que resolvi falar sobre isso. Prometi a mim mesmo não fazê-lo. Se ele existe em seu pensamento, de sua boca não quero ouvir nada.

Está ficando frio aqui fora. É melhor entrarmos. Não temos mais idade para facilitar com a temperatura quando cai.

O enfermeiro está na porta nos olhando com o eterno ar de recriminação. Proibi que venha aqui no jardim enquanto estivermos conversando. Conhece toda a minha intimidade, já que dependo dele para tomar banho, comer,... Mas, na nossa, minha e sua, ele não entra.

A cadeira de rodas parece mais pesada hoje. Não, querida, não precisa me ajudar. Sei que não tem forças.

- E então, senhor Miguel, falando com dona Marina de novo?

Não respondo. A porta agora está fechada e ele me empurra até o quarto. Pena não poder ficar mais com você. Acho que não entra porque ele está aqui.

Qualquer dia desses, vamos poder estar juntos o tempo todo. Não vai demorar.

- Está chorando outra vez, seu Miguel?

Idiota! Então não sabe que não choro nunca?

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Sobre o autor

Candida Albernaz

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Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".