mudei e pronto
22/06/2017 | 22h12
vamos trocar de lugar?
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Mudei e pronto
Cândida Albernaz
- Não estou entendendo.
- Como assim não está entendendo?
- Você não é deste jeito.
- Mudei.
- De uma hora para outra.
- Não, de um homem para outro.
- Isso não deveria influenciar sua maneira de ser. Pode ter mudado de companheiro, mas você é a mesma.
- Quem disse?
- Logo você que sempre teve um caráter forte.
- E ainda tenho. Por isso essa decisão.
- Não é assim que funciona. As pessoas não decidem ter uma nova personalidade de repente.
- E por que acha que foi dessa forma? Sempre fui certinha, compreensiva, amiga. De que adiantou? Tomei na cabeça.
- Você não tem certeza.
- Claro que tenho. Ele só chegava a casa as tantas, saía todo perfumado, trocou todas as cuecas por novas e ainda por cima começou a pintar o cabelo...
- Não significa nada.
- ... e isso eu não perdoo. Adorava os fios brancos, dava um ar mais sério para ele, de maturidade. Agora essa cor indefinida. Odiei.
- São muitos anos juntos. Sabe que ele quer voltar.
- Mas eu não. Agora que conheci o Tadeu, vou aproveitar.
- Tadeu. E de onde surgiu esse?
- Ele é feliz, para cima e depois tem outra coisa...
- O que?
- Não ronca.
- E desde quando se incomoda? Aposto que você também ronca.
- Não importa, não posso me escutar mesmo. E ele não reclamou de nada.
- Isso é só o começo.
- Pois vou aproveitar o começo, o meio e o fim. Quando acontecer, arranjo outro. Resolvi que quero viver relações sempre no início. Quando mudar para aquela pasmaceira, troco mais uma vez.
- Não podemos levar a vida dessa forma.
- Pelo menos não corro o risco de ser traída. No princípio é tanta paixão que ninguém tem olhos para o lado.
- Virou criança novamente.
- Virei sim e vou tirar proveito disso. Se não der certo, choro muito como sempre e quando cansar de chorar vou à luta.
- Desse jeito vai sofrer mais ainda.
- Mais ainda? Deus me livre! Acho que é impossível. Sabe com quem estava me traindo?
- Não...
- Com uma daquelas meninas que “recebem ajuda” para terminar o estudo. Em casa a maior dificuldade para soltar a grana.
- Isso foi diversão, coisa passageira.
- E daí? Se me pagasse, podia fazer igual, ou melhor do que ela. Por que não tentou? Quem sabe o dinheiro me dava um estímulo extra?
- Que louca. Você não pensa assim.
- E você acha que me conhece.
- Não acredito. O Tadeu paga a você?
- Nem precisa. Viu o corpo dele? O jeito que ele anda? E a pegada? Nossa! Só em lembrar...
- Já vi que esse papo não vai levar a nada mesmo. Seu ex quer conversar, está arrependido. Falou que não deveriam jogar fora o tempo que viveram juntos.
- Olha, em primeiro lugar, quem jogou fora não fui eu. Em segundo, detesto aquele cabelo pintado. Em terceiro, só volto para a cama com ele se me pagar. Em quarto, isso não vai acontecer tão cedo, porque minha cabeça e meu corpo pensam em aproveitar. Em quinto... veja quem chegou!
- Você vai mesmo continuar com esse cara?
- Olhe bem para ele e me diga você. Oi, estava te esperando. Conhece minha amiga?
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quero voltar!
14/06/2017 | 21h29
do céu se vê
do céu se vê
Quero voltar!
Cândida Albernaz
Hoje eu morri. Não posso dizer ainda se é bom como alguns esperam que seja ou se é tão ruim quanto outros dizem. Por enquanto estou achando um saco. Não vejo nada além do que via antes e também não encontrei nenhum parente ou amigo que se foi. Na verdade o que mais incomoda é o desespero de minha filha, Carolzinha. Tenho um casal, ou melhor, tinha. Esse negócio de falar no passado vai levar um tempo para eu acostumar.
Queria saber como está minha mulher, mas ela sumiu daqui. Acho que vou dar uma volta pela casa.
O que é isso? Chorando abraçada com o Alfredo?! Sempre disse que não gostava dele, que era folgado, mulherengo e não servia para meu amigo, que bebia demais, que... Será? Nunca percebi nada. Acho que não... Ele beijou o rosto dela muito próximo à boca e estão se olhando mais tempo do que deveriam.
Carol acabou de entrar. Bem feito! Se ia rolar alguma coisa, estreparam-se. Isso mesmo, filhinha, não saia daí não, porque estes dois querem me fazer de corno depois de morto. Dizem que quando a gente morre, não tem problema, não somos mais denominados corno, afinal a mulher é viúva e viúva pode. Comigo não!
Veja só você, em vez de estar preocupado porque morri, estou pensando em como evitar que minha mulher me traia, mesmo já morto.
Sempre tive alguns casos pela rua, no trabalho, nos dias em que dizia que ia jogar... E as reuniões marcadas com fulano ou sicrano? Casa de massagem era do que mais gostava. Tempo bom. Mas espera aí! Sou homem, é diferente, não posso evitar. Ou não podia. Ai, ai.
Será que agora vou descobrir que ela fazia o mesmo? Ah, danada. Só por imaginar sinto o coração acelerar. Engraçado, como acelera se não bate mais? Esquisito isso.
Olhe quem acaba de chegar. Falei que não queria este rapaz em nossa casa. Foi só eu morrer e o sujeitinho está aqui de novo. O que é isso? Minha filhinha e ele se beijando! Como se atrevem? Preciso ir lá fora pegar um ar ou vou explodir.
Eu e esse moleque trabalhamos juntos. Há uns seis meses engraçou-se para o lado da Carolzinha, e fiquei de olho nele. Minha menina tem apenas dezessete aninhos e o safado vinte e cinco. Vinte e cinco! O pior é que tem um bebê de dois anos e nem cumpriu com a obrigação de se casar com a coitada da mãe da menina. Quer dizer, desgraçou a vida de uma e queria vir se esbaldar com minha garotinha. Mandei embora, porque nem era tão bom de serviço assim. Proibi Carolzinha de falar com ele e avisei que tiraria a mesada. No início, ela quis reclamar, mas sou durão e teve que obedecer.
Mal acabo de morrer e o indivíduo está enfiado em casa. Não sei como, mas lá de cima (ou para onde quer que eu vá), arranjarei um jeito de colocá-lo para correr.
Espera aí, outra vez! Que conversa é essa desses dois? Carol está grávida e ele quer casar com ela? Claro, vai botar a mão no dinheiro da herança. Não vou suportar estar morto por muito tempo.
Quem está entrando é a Zilda e continua linda. Nossa vizinha há uns dez anos. Desde que coloquei os olhos nela, fiquei doido. Agora posso contar: a Zilda e eu temos um caso (ou tivemos. O maldito verbo no passado). Esse mulherão me deu a maior bola e mal acreditei. Vive aqui em casa. Amiga da minha esposa e dos filhos. Essa mulher na cama... até eu pedia arrego. Para ela era sempre pouco. Vou sentir saudades da vizinha.
O meu caçula está com quinze anos, gosta de conversar com a Zilda. Os dois perdem horas conversando. Minha mulher costumava pedir que ela desse conselhos ao Júnior, então ele ia à sua casa com frequência. Zilda tem um jeito de se comunicar com os jovens, como se falasse a língua deles.
Mas o que é isso agora? Zilda e meu filho trancados no banheiro. E a mão dela? Que mão boba é essa aí? Não pode ser. Desisto de morrer. Não quero mais. Por favor, quero voltar. Quero voltar!
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frases nem tão soltas
08/06/2017 | 18h42
bicicleta com flores
bicicleta com flores / google
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
E no ontem usei saia de seda rosa e rodada, que parecia lamber o chão com o movimento do andar, luvas de renda pérola cobrindo o cotovelo e dancei valsas no salão. Ainda acreditava na inocência do sentir e me deixei levar. Não percebi a capa negra que cobria alguns rostos.
*
Deixe-me só porque preciso brigar com meus pensamentos. Necessito ordená-los de forma que parem de bagunçar com minha vida.
*
Gosto de olhar para mim e enxergar por dentro. Sem a s carapaças que uso vez ou outra para me proteger.
*
Sou melhor escrevendo. Falando posso me tornar um desastre.
*
Vou sair agora. Não para a rua, mas para fora de mim. Os gritos que ressoam do meu corpo estão me deixando surda. Surda de ter paz.
*
Tive medo de me perder enquanto escolhia caminhos dos quais nunca havia ouvido falar. Errei algumas vezes, mas em todas que acertei compensaram as que não.
*
Porque ver através de outros olhos nos leva a descobrir uma nova forma de enxergar.
*
Não faço outra coisa senão viver cada dia de todos os dias. Sem deixar nada passar. Porque é preciso. Porque eu preciso.
*
Hoje quero me vestir de cores e sentir os pingos de chuva na pele.
*
Porque menos que tudo é quase nada.
*
E nem pense em me encontrar onde não quero que me ache. Estarei tão dentro de mim que me tornarei invisível.
*
Às vezes balanço a cabeça de um lado para o outro para que os pensamentos possam ir embora. Funciona.
*
Nossa lucidez pode ser a loucura perfeita.
*
Não gosto quando o choro entope o nariz, incha a cara e desfaz a maquiagem interna transformando o sentimento em um enorme borrão escuro.
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Minha música
31/05/2017 | 21h30
partitura
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Minha música
Cândida Albernaz
Esta noite foi mais difícil. Se não fossem as músicas que apenas eu escuto, não teria suportado.
Sinto que o colchão parece mais duro do que o normal, machuca o corpo e me deixa sem forças para virar.
O quarto escuro conforta já que mal consigo enxergar. A idade chegou e com ela a falta de visão e a dificuldade de movimentos.
Às vezes grito e até falo alguns palavrões inocentes. Se mamãe ouvisse, chamaria minha atenção ou, com tal rapidez o tapa explodiria em cheio na minha boca. Nunca consegui ser mais rápida do que ela.
Recordo de minha mãe sentada em frente ao espelho da penteadeira escovando os longos cabelos pretos que costumava prender num coque baixo. Eram negros. Mesmo com a idade avançada, podiam-se contar os fios brancos. Comigo é diferente: consigo contar os fios pretos. Principalmente agora que estou doente e não posso pintá-los.
A impressão que tenho é de que mamãe nunca foi jovem, tão preocupada costumava ser. Vida difícil, a que teve. Hoje entendo que se não sorria com frequência ou não nos acarinhava, foi porque não teve acesso a esses gestos.
As costas voltaram a doer. Acredito que a melodia de Chopin fez com que eu me esquecesse de mim e permanecesse numa mesma posição por muito tempo.
Ouvi quando a enfermeira comentou sobre uma ferida no quadril. Falou baixo para que não escutasse, como se não soubesse eu mesma onde sinto minhas dores.
Lembro-me de papai, que tinha nas pernas, próximo ao tornozelo, excesso de veias grandes e roxas e pouca circulação sanguínea formando ali também um ferimento que não cicatrizava quase nunca.
Foi um homem autoritário, difícil de lidar, acho que herdei dele essa parte do temperamento. Em compensação, quando chegavam os netos, virava criança junto a eles. Até o fim foi um homem imperioso. Alto e bonito, assim me recordo.
Não sei por que algumas vezes não consigo saber quem é a pessoa que vejo sorrindo à minha frente. Disseram que estou com lapsos de memória. Talvez seja verdade porque outro dia minha filha falou:
- Mãe, acabei de trazer você da sala. Pediu para vir para o quarto e agora quer voltar.
Não dei o braço a torcer, mas não me lembrava de realmente ter estado na sala. Não gostei de perceber isso. Esquecer o que vivi é o que me angustia. O passado, mesmo que entremeado de lembranças ruins, vem cheio de boas recordações que consolam e aconchegam.
Antônio foi o homem que amei muitos anos atrás. Era gentil e não cansava de repetir o que sentia por mim. Não pudemos ter uma vida juntos. Droga! Não consigo saber de que forma o perdi. Odeio essa dificuldade de reter reminiscências.
O teclado do piano soa forte e faz com que estremeça de prazer. Vivaldi e seus acordes alegres.
É incrível como nesse momento em que a vida parece fugir, a música continue a soar intensa em meu ouvido.
Noto o olhar de preocupação de minha filha. Tenho vontade de gritar para que não sofra por mim. Estou bem, apesar das dores. Preciso descansar. Não se preocupe, vou fechar os olhos apenas um pouquinho.
O som do piano que ouço, é a companhia perfeita para o sono.
Sinto os dedos percorrerem as teclas pretas e brancas, e enfim consigo tirar a melodia mais bonita que jamais toquei.
A música é minha vida.
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briga de marido e mulher...
25/05/2017 | 08h35
 
coração remendado
coração remendado / google
Briga de marido e mulher...
Cândida Albernaz
- Soube o que aconteceu na casa da esquina?
- Não.
- A porrada comeu solta.
- Posso adivinhar?
- A mulher pegou a tampa da panela de pressão e mandou na cabeça dele.
- Nossa, esse troço é pesado.
- Foi parar no hospital. Levou nem sei quantos pontos.
- Mas o que ele fez dessa vez?
- Por que dessa vez?
- Você é nova aqui na área e não sabe de nada.
- Ele foi para o hospital outras vezes?
- Que eu saiba umas quatro.
- Mas como?
- Os dois começam discutindo e depois de um tempo algum vizinho aparece com ele sangrando.
- Que mulher doida!
- E bota doida nisso. Um dia foi água fervendo que jogou em cima dele, em outra, pegou uma faca e quase arrancou a mão do cara.
- Por que continua com ela?
- Sei lá. Vai entender a cabeça dos homens.
- Tem uns que gostam de mulher atrevida.
- Essa deixou de ser atrevida faz tempo. Ela é caso de polícia. E quando jogou as roupas dele pela janela?
- O que ele fez?
- Veio para fora e catou tudo.
- O que é isso???
- E enquanto ele pegava as roupas, ela atirou uma mala, gritando que era para colocar as coisas e ir embora...
- Ela também pensa em tudo.
-... só que a mala tinha rodinhas e uma delas bateu no olho dele. Quase ficou cego.
- Dessa vez foi sem querer.
- Foi. Quando ela viu o que tinha feito, correu para fora e o abraçou chorando. Pediu desculpas e beijou o homem todo.
- Que louca.
- Que loucos.
- Nossa, essa rua é movimentada.
– A rua até que é calma. A festa toda é na casa dos dois.
- Agora me diga: dá para entender um homem ficar com uma mulher assim?
- Dizem que além de fazer mandinga, ela é demais.
- Demais como?
- Sabe como é...na cama.
- Poxa!
- Ele conta para quem quiser ouvir o quanto a mulher dele é danada.
- ...
- Diz que quente igual a ela está para nascer.
- Mas vale a pena?
- Parece que o negócio é que quando fazem as pazes, ela faz tudo o que ele quer e mais um pouco.
- Nós tínhamos que pegar umas aulas com ela.
- Pensa que não tentei me aproximar?
- E então?
- A mulher é desconfiada e ciumenta. Não quer ninguém perto do marido dela.
- Já pensou se ela invoca com você?
-...
- E o cara obedece? Segue as ordens da patroa?
- Mais ou menos.
- Como assim?
- Sabe como são os homens. Ele dá umas escapadas de vez em quando.
- Mesmo ela sendo isso tudo que ele fala?
- Homens!
- Ainda bem que ela não descobriu.
- Quem disse?
- E não matou a pobre coitada?
- Não, mas deu uma coça.
- Quero ficar bem longe dela.
- E ainda proibiu que a tal passasse na calçada em frente a casa dela.
- E você conhece?
- Mais ou menos. Vamos atravessar para o outro lado?
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frases nem tão soltas
19/05/2017 | 13h14
sobre nuvens
sobre nuvens / google
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Encoste minha cabeça em seu peito, me afague os cabelos, faça com que seus braços apertem meu corpo. Quero me sentir em casa.
*
Sem o sonho somos apenas a metade do que poderíamos ser.
*
Não quero me conhecer totalmente. É entediante o conhecimento total, sem possibilidade de descobertas. Surpreendo-me comigo muitas vezes.
*
Quero não temer a solidão. Consegui isso um dia, mas se perdeu nos medos que a vida me provocou.
*
Pensou poder carregá-lo na alma. Estúpida ela era. Não imaginou que não aguentaria o peso de um corpo sem coração.
*
Muitas vezes é na agressividade que escondo do outro o que mais me assusta e deixa exposta.
*
Meu lado sonhador vive pregando peças e de vez em quando faz com que tropece aqui e ali.
*
Atrás de um livro o real se torna imaginário ou o imaginário se torna real?
*
O silêncio pode ser nossa melhor companhia.
*
Muitas vezes preciso ficar quieta com os medos que absorvo. No silêncio finjo que não existem e engano-os rindo de mim.
*
Talvez o melhor fosse sentir menos, mas então não seria quem sou.
*
Não gosto quando testam minha paciência. Porque ela é pouca. É curta. É quase nenhuma.
*
Hoje um passarinho me contou que as asas que carrego me farão voar. Não muito alto. Nem muito longe. Apenas até a distância do sonho realizado.
*
Vida perfeita para quê? Momentos quase perfeitos são ótimos.
*
Quando olho para a folha em branco e as letras brincam de se esconder, penso em fugir. Para algum lugar onde observando o nada, balõezinhos surjam com toda a história dentro deles.
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sem rastros
27/04/2017 | 00h10
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coração / google
Sem rastros
Cândida Albernaz
Deixe a luz do quarto acesa e quando sair não se despeça de mim. Finja que não estou aqui. Espero que doa em você o tanto que sinto arder.
A chave, coloque por debaixo da porta. Não quero ainda ter a certeza de que se foi. Mas preciso saber de que não pode voltar.
Talvez na cozinha, eu sinta ainda o cheiro do café que pela primeira vez não preparou.
Quem sabe sentada de frente para a televisão eu aceite que é normal que a esta hora ela esteja ligada para eu assistir o que jamais me interessou.
Não se volte, não me olhe, porque não pretendo que note em meu rosto, as lágrimas que não consegui evitar. Teria que dizer que o ridículo programa que não vejo está me fazendo chorar. E vou pretender que creia nesta explicação, porque meu orgulho não admitirá que pense que a dor em meus olhos tenha sido provocada por você.
Não se esqueça de deixar a cama arrumada como se em nenhum dia algum amor tenha sido feito ali.
Por favor, retire o porta-retratos onde na foto me deixei abraçar rindo com vontade por estar me sentindo dentro de você. Leve-o.
Não deixe rastros, nem mesmo marcas das juras que fizemos um ao outro afirmando que estaríamos para sempre juntos. Palavra longa demais: sempre.
Foram pedaços de tempo recheados de horas que pareciam nunca iriam morrer. Palavra longa demais: nunca.
Não vi a lágrima que deveria estar escorrendo de seus olhos para desaguar em sua boca.
Aliás, não recordo da boca que engolia a minha, do gosto da saliva que se misturava em nossas línguas.
Leve embora o tênis que ontem, num gesto de carinho, limpei a areia que nele havia grudado. Está na área de serviço sobre o parapeito da janela para que secasse mais rápido.
Quando eu levantar e desligar a tv, quero ter a certeza de que sempre fui eu comigo mesma.
Se estiver saindo, feche a porta devagar, sem fazer barulho, para que não haja sobressalto em meu coração.
Daqui posso ver que sobre a pia ainda estão as duas taças com restos de vinho. Fez de propósito, não foi? Teve a necessidade de que ficasse algo para lembrar.
Não vou abrir gavetas ou portas de armários agora. Preciso voltar a dormir, mesmo que ainda seja manhã. Ao acordar deste novo sono estarei melhor.
Durante toda a noite permaneci fixando o teto, o nada. Mentira! Não era “o nada”. Enxergava pedaços de vida vividas com você que eu parecia fazer questão de não esquecer. Ouvi quando roncou algumas vezes. Como pôde dormir tão profundo enquanto eu sofria?
Descobri o pequeno papel amassado que sem querer (sem querer?) você deixara cair no chão: “obrigada amor por mais uma noite perfeita. Da sua para sempre...”. E esta palavra de novo: sempre.
Foi então que comecei a puxar os fios e desenrolá-los, trazendo à memoria um sinal aqui e outro ali. Mensagens que chegavam durante a madrugada, isolava-se para atender o celular, mudanças de horário. Não importa mais.
Ontem quando chegou, abrimos um vinho e jantamos. Esperei terminarmos para entrar no assunto.
Foi doído. Senti que rasgava pedaços da minha pele a cada palavra sua. Não tentou esconder. Ao contrário, parecia aliviado por poder enfim dividir sua história de amor comigo.
- Preciso que entenda... pode ser uma fase... não foi a primeira vez (não??)...estou certo de que passará e estaremos ainda mais fortes.
Tentei sorrir, mas foi impossível. Não se consegue se sente facas pontiagudas enfiadas no peito.
Falou quase sem parar e eu escutei. Resolvemos dormir.
Hoje, quando tentou novamente, pedi que se calasse. Só pude dar as costas e sentar onde estive até a pouco. Não quis conversar e não vou querer qualquer outro dia.
Lavarei as benditas taças antes de deitar. Não desejo resquícios.
O quarto está com um cheirinho bom. Não o seu, mas o meu perfume recende dele. Com a cortina fechada parece ainda ser noite. Pensei vestir a camisola, mas percebi que ainda não a havia tirado.
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frases nem tão soltas
20/04/2017 | 10h14
acervo pessoal
flor / acervo pessoal
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Se todos os sonhos fossem possíveis eu guardaria alguns para serem realizados aos poucos e outros para que permanecessem sonhos. Estes seriam guardados em meios sorrisos como segredos.
*
Em alguns dias, à flor da pele... Apenas um sopro para voar longe.
*
Quero te contar um segredo. Ninguém pode saber. Mas se eu te contar, quem mais ouviria de ti um segredo que era só meu? Agora meu e teu?
*
Só uma parte dela estava ali. A melhor. A outra deixara para trás. Não voltaria para buscar.
*
Algumas vezes a sensação de paz e felicidade é tão intensa que me assusta esperar pelo minuto seguinte.
*
Por que deixar que os desejos passem como se o tempo pudesse parar?
*
Com os olhos falo o que penso, o que quero, o que não deveria. Com os olhos enxergo o mundo com as cores da minha cartela.
*
Venha assim, através de mim me mostrar caminhos que não vivi.
*
Em alguns dias sinto-me tão frágil que penso vou sumir como poeira.
*
Há dias que permaneço anestesiada esperando que as horas venham me trazer o sono.
*
Porque a melhor parte pode ser esperar pelo dia seguinte. E hoje já é o dia seguinte!
*
Algumas pessoas sopram apenas para ter a oportunidade de morder de novo.
*
E quando ficar bem velhinha que eu me encontre assim: murchinha, assanhada e sempre querendo mais da vida.
*
Cartas não foram escritas, palavras não foram ditas, abraços não foram dados. E tudo o que poderia ter sido o tempo se encarregou de levar.
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Uma vez basta
06/04/2017 | 00h26
                  
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flor no asfalto / google
                           
Uma vez basta
Cândida Albernaz
Na faixa de cor amarela todos podiam ler: ”Minha Loura, saudades. Seu para sempre, Moreno”.
***
Quando acordou, “a irmã caçula”, Daiana, estava ao seu lado. Mal abriu os olhos e ouviu um parabéns cantado numa voz fina, sem definição, de uma cópia sua em miniatura. Completava hoje vinte e um anos. Mas sentia como se tivesse muito mais.
A mãe, que cuidava das duas foi embora no ano passado.
- Minha querida, Nosso Senhor precisou dela, porque era muito boa. Ela vai ajudá-Lo e nós estaremos sempre juntas. – tentou convencer Daiana que chorava sem parar.
A explicação não convenceu a irmãzinha, com seis anos na época, mas foi a melhor que conseguiu dar.
Quando aos treze anos ficou grávida, não planejaram que Daiana pensasse que era sua irmã, mas nunca tentou ensinar a filha para que a chamasse de mãe. Acostumou-se desse jeito. Quem sempre acordava a noite era sua mãe, dava banho, cuidava das febres e alimentava a menina. Ficou mais fácil assim. Precisava estudar. Depois de algum tempo não soube mais como dizer a filha quem era realmente.
***
Abriu a janela que dava para a rua, e viu a faixa presa em dois postes, de frente para ela. Os olhos encheram-se de água e a sensação que teve estava longe de ser agradável.
Ele voltou a aparecer há um ano mais ou menos, e tem certeza, esse foi o principal motivo da perda de sua mãe. Ela tinha problemas no coração e vendo aquele homem rodeando a casa outra vez, foi ficando cada dia mais triste. Durante o sumiço, as pessoas comentavam que havia fugido para não ser preso. Os caras estavam atrás dele por conta de droga.
Lembrou-se de quando ia aos bailes ficava encantada com aquele homem bem mais velho, poderoso na área onde moravam, dedicando atenção exagerada a ela. Sentia-se importante. Era casado com a irmã de sua mãe e costumava ir à sua casa acompanhando a mulher e os filhos, em alguns domingos. Chamava-a de minha loura e costumava comparar a cor de sua pele com a dela. Pediu que parasse de chamá-lo de tio, e o chamasse de Moreno.
Notou que os olhares para seu lado foram ficando cada vez mais descarados e sentia-se mulher. Não foi só ela quem percebeu. A mãe tentou afastá-la dele e daqueles bailes que produzia.
- Esse safado do meu cunhado está ficando cheio de grana. E não é só com festinhas, não. Tem coisa podre atrás disso. Ninguém faz tanto dinheiro em tão pouco tempo.
Ela fingia não ouvir e perdia seu tempo com conversas com esse tio.
Aos treze anos, indo para casa, encontrou com ele no caminho, que se ofereceu para levá-la de carro: ela e as amigas. Tinha uma conversa engraçada e todas riam muito. Ficou por último, e antes de chegar, ele parou o carro num terreno. O sorriso sumiu de seu rosto, e enquanto a agarrava à força, dizia que parasse de manha porque “acha que não percebi que joga charme para mim?”. As mãos eram grandes e pesadas. Tentou se defender como pôde, mas ao final, ele bateu em seu rosto diversas vezes e com tanta força que desistiu de lutar.
Sua mãe estava na sala quando entrou em casa. Olhou para ela, e sem fazer qualquer comentário, abraçou-a chorando. Não contou quem havia feito aquilo, e quando a barriga começou a aparecer, cuidou de tudo. Nunca insistiu para saber, mas tinha certeza de que havia notado o sumiço do tio da casa delas.
No ano passado ele voltou a se insinuar quando a encontrou sozinha no supermercado. Agora, ele costumava andar com dois camaradas acompanhando-o em todo lugar.
Tentou sair, mas ele segurou seu braço com força:
- Não está com saudades do titio?
Chegou à casa agitada e a mãe perguntou o que houve.
- Nada. Encontrei com o tio agora a pouco. Não gosto dele, é só isso.
Dias depois, voltando da rua, ouviu a voz de sua mãe alterada e um barulho em seguida. Entrou e notou que o rosto dela estava vermelho. O tio saiu pisando duro e com a cara mais lavada disse estar com a mão doída e precisaria dos cuidados dela.
- Volto mais tarde para que você cuide de mim.
O sorriso em seu rosto era nojento.
Sua mãe não durou muito tempo mais depois disso. O coração que já era fraco parou de funcionar e ela se foi.
***
Ontem estava em frente de casa com Daiana e ele apareceu.
- Essa garota está ficando muito parecida com você. Quis se fazer de rogada comigo e, no entanto, logo arranjou um para te embuchar.
Ficou quieta observando a filha que brincava.
- Sabe de uma coisa? Daqui a uns três ou quatro anos essa garota vai estar no ponto. Se puxar a mãe...
Com os olhos fixos na filha, ela tinha certeza de que não permitiria.
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desabafo
30/03/2017 | 10h30
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                             Desabafo
                             Cândida Albernaz
Percebo o que pensa de mim e talvez eu mereça, mas a esta altura, mudar é difícil. Não é que não queira: não posso. E só quero algumas vezes, quando você diz que não aguenta.
Não ajo desta forma porque gosto, simplesmente não sei fazer diferente. Nunca aprendi.
Sempre soube que se sente enganada porque me apresentei a você como penso que sou. Um homem galante, atencioso, que ama em excesso. Só deixei que me visse de verdade quando já se sentia presa a mim.
Você me ama apesar de tudo e isso dói porque também a amo. Amar é pouco: sou louco por você. E é por esse motivo que a rasgo com palavras e atos. Tudo em nome do amor sem fim.
Quando a conheci era doce e alegre, hoje a vejo amarga e sorri apenas quando ordeno.
Não queria que fosse assim e peço desculpas mais uma vez. É do fundo de mim quando me desculpo e espero perdão. Não prometo que não farei mais. Porque vou. Muitas vezes mais.
Queria um filho, mas os médicos dizem que apesar de não haver motivo algum não consegue engravidar. Tenho uma opinião sobre isso: seu subconsciente não permite que eu a emprenhe. Não quer ficar ainda mais presa a quem lhe faz tanto mal.
Observo as crianças dos vizinhos e tenho inveja. Não gosto deste sentimento.
Às vezes é apenas porque não me dá esse filho que a agrido, às vezes é só por falta de qualquer motivo.
Não se iluda, não a libertarei de mim. Nunca.
Quantas vezes vi minha mãe tentar o mesmo. Papai não permitia. Sou como ele era.
Não vejo mamãe há alguns meses. Desde que foi presa, é a primeira vez que fico tanto tempo sem visitá-la.
Não adianta ter ideias. Você não é como ela e jamais vai conseguir fazer o que ela fez, não é do seu temperamento. Além de medrosa, já provei que não vale nada.
Meu pai foi um babaca. Confiou demais em si mesmo. Quando ela enfiou a faca nele várias vezes, o idiota dormia tranquilamente por conta da bebedeira.
Comigo é diferente, qualquer ruído me acorda e não como nada sem que você prove antes.
Quando falo com ela, pergunto se valeu a pena tantos anos numa prisão. Responde que mortos não sentem e que estava morta muito antes de ter entrado ali.
Amo minha mãe e tenho pena dela. Raramente tenho pena de você.
Em alguns momentos minhas ideias parecem ficar claras e digo a mim mesmo que vou procurar ajuda. Isso dura pouco. O suficiente para que bata de novo.
Com você percorro limites. Vou do amor ao ódio.
No início tentou revidar. Hoje chora, chora e isso me irrita. Disse-me outro dia que a qualquer hora vou acabar matando-a. Não posso imaginar perdê-la. Não saberia viver sem você.
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Sobre o autor

Candida Albernaz

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Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".