Nossas músicas
30/11/2017 | 08h27
quando ainda era assim
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Nossas músicas
Cãndida Albernaz
Está ouvindo a música?
“... Ouça, vá viver a sua vida com outro bem. Hoje, eu já cansei de pra você, não ser ninguém...” Há quantos anos não a escutava? Lembra-me um dos verões que passamos juntos. Que ano era aquele? Você também não sabe, não é? Tanto tempo... A gente conseguia rir de tudo. Era isso mesmo, naquela época não tínhamos motivo para não aproveitar.
“... Nunca mais vou fazer o que meu coração pedir. Nunca mais vou ouvir o que meu coração mandar...” Essa música me recorda cada coisa... o Antenor atrás da Vilminha e ela nem ligando para ele. O sujeito tomava um porre atrás do outro! E todos nós achando engraçado o sofrimento dele. Ninguém conseguia levar aquilo a sério. Dizia que sem ela ia acabar se matando. Vivia nos extremos, o Antenor. Até que uma noite você chegou com uma amiga e ele com o dia quase amanhecendo, veio falar que agora sim, conhecia o que era amar. O que sentira no passado pela Vilminha fora um engano. - Amor à primeira vista, meu irmão. Isso é que é amor real.
E olhávamos para ele, ríamos da cara de bobo que fazia e continuávamos rindo imaginando o quanto sua amiga ia penar com esse amor de perseguição que ele entornaria com vontade em cima dela.
Estou vendo nos seus olhos que está rindo também. Gosto quando a vejo mais animada. Não está com frio? Se preferir, podemos entrar. Mas acho que você também quer ficar mais um pouco. A noite está bonita e amanhã fará sol. Céu estrelado. Será que nossa estrela ainda está lá? Todo jovem de nossa época tinha uma.
Ouve essa que está tocando agora? Alguém que viveu nossa juventude relembra. Assim como nós.
“... Ainda é cedo, amor. Mal começaste a conhecer a vida. Já anuncias a hora da partida...” linda, não é mesmo? Lembro-me de ouvir você cantando algumas vezes. Voz rouca e suave. Nunca falei, mas quando a ouvia sentia um desejo enorme de você. É isso mesmo. Sua voz cantando me deixava louco. Rindo de novo? Acho que fazia de propósito. Sabia que mexia comigo. Às vezes, tínhamos brigado e daqui a pouco você passava por mim interpretando alguma música. Baixinho. Mal me aguentava de vontade de fazer as pazes. Fale a verdade. Quantas vezes usou isso para me seduzir?
Ei! Que olhar triste é esse agora? Só porque não pode mais cantar? E daí? Também já não posso fazer tanta coisa... E você sempre me atraiu. Corpo, olhos, boca, voz. Sabe disso, não sabe?
Ouve “... Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar...”
Você se entusiasmava quando me vendo remando. Eu era um bocado forte. Sei do que você mais sentia atração em mim: o peito!, que era largo, musculoso, costumava passar os dedos nele e quando me abraçava, apertava seu rosto ali. Gostava de remar por nosso clube. Depois a vida, o trabalho, fez com que eu parasse.
Sabe quem vi no outro dia? Romualdo. Lembra-se dele? Está velho, encurvado. Acho que pensou o mesmo de mim. Mas não estou tão velho assim. Claro que ando evitando os espelhos. Essa porcaria não mostra como me sinto. E aquele que vejo ali refletido não tem nada a ver comigo. É apenas a casca. Fala para mim: sou bonitão apesar da idade, e esse cabelo branco dá charme, não acha? Você dizia isso quando eles começaram a aparecer. Falava que me deixava ainda mais interessante e que ia precisar vigiar em dobro, porque mulher adora homem começando a ficar grisalho.
Está esfriando, melhor entrarmos. A música também parou. Acho que quem ouvia resolveu dormir.
Deixe ajeitar a manta em seus joelhos. Pronto. Essa cadeira que comprei é melhor do que a antiga. Mais leve para empurrar.
Sabe qual a parte que mais gosto do dia? Quando tiro você daí, a hora de deitá-la na cama. Coloco-a no meu colo e sinto seu corpo. Vejo o rosto tão próximo do meu e sinto saudades. Uma saudade boa.
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frases nem tão soltas
21/11/2017 | 21h08
caminhos a escolher
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Frases nem tão soltas XXXIII
Cândida Albernaz
Amor quando espalha provoca sorriso que encanta.
*
Ouviu o coração bater sem compasso. Era o medo de ter que desistir. Decidir pelo não agitava seu peito.
*
Viu o brilho daquela estrela? Não conseguiu porque olhava o chão. Perdesse menos tempo sendo sensato.
*
Tantos eram os medos que enfrentava. Logo ela, que se pensou covarde, criou armas e armaduras e agora lutava como se corajosa fosse.
*
Pegou a mala, colocou suas dores ali dentro e fechou com um cadeado. Poderia levá-la para onde quisesse, mas usar a chave para abri-la era escolha sua.
*
Entardeceres me comovem. Esta é a hora em que o dia começa a adormecer e muitas vezes você percebe que o sonho daquele mesmo dia ainda não foi realizado.
*
Há dias que o dia foge. Melhor não ir buscá-los. Melhor deixar para lá.
*
Na cumplicidade do confiar o amor não mede dor, ele se contorce para cativar.
*
Por mais que o tempo passe, que a pele enrugue, nossa alma será sempre criança nos esperando.
*
Passo a passo vai seguindo o caminho que nunca foi traçado. Devagar, para que havendo tropeços, não se machuque demais.
*
O amor é bonito, quando apesar do tempo ou por causa dele se consegue rir junto.
*
Ansiava descansar a cabeça no colo daquela que a acalentara tantas vezes quando criança. Era macio de carinho e acalmava todos os seus medos.
*
Olhou firme em seus olhos e decidiu perdoar. Apenas para que pudesse esquecer.
*
O corredor era longo e frio, mas precisava chegar até a porta. Tinha certeza de que depois dela havia uma luz de aquecer. Só deveria prosseguir.
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alguém vai ajudar
24/08/2017 | 11h08
chuva e esperança
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Alguém vai ajudar
Cândida Albernaz
Minha filha olha este aguaceiro entrando por baixo da porta. Pega logo o saco de areia. Ai meu Deus, não quero morrer afogada.
Nem posso ajudar. Entrevada nessa cama há tantos anos. Por que as pernas não me obedecem mais?
A bacia aqui no quarto está cheia e vai transbordar. Joga fora essa água. Tantas vezes ficamos sem uma gota em casa para preparar a comida ou lavar a roupa. E agora esse esbanjamento. Quando foi que pensei que ia mandar jogar água fora?
Lembra-se daquela semana em que você andava até o poço na outra rua e enfrentava uma fila danada, só para conseguir um balde? E era preciso que durasse bastante. Sempre gostei de ser limpinha e, no entanto tive que ficar sem banho por três dias, só lavando as “partes”.
A goteira está em cima do rádio. Tenho pena de você, agindo tudo sozinha e eu aqui sem prestar para nada.
E essa chuva que não para? Vou rezar mais uma vez porque é só o que posso fazer.
Pede ajuda ao vizinho. Ele é forte, empurra o fogão e a geladeira para um lugar mais seguro. Do jeito que está entrando água vamos perder tudo. Tanto sacrifício.
Não fica aí parada me olhando. Ele não está mais em casa? E os outros? Será que se esqueceram de nós?
Está chegando à altura do colchão. Não tem jeito. Sai e pede ajuda. Vai logo, porque eu não queria falar, mas estou com um medo danado. Chora não, filha. Anda logo e volta com alguém.
Necessito que me carreguem. Nunca odiei tanto as minhas pernas. Sabia que já foram bonitas? Seu pai se encantou por elas. Dizia que na nossa região não existiam mais perfeitas. E não é para me gabar, mas ele tinha razão. Usava uns vestidos curtos, não como os de hoje, que são uma indecência, mas o suficiente para que de vez em quando aparecessem os joelhos. Agora estão mortas, arriadas nessa cama, finas e sem forma.
Desculpe filha. Você precisando ir e eu falando do passado.
Não, nem pense em tentar me levar sem ajuda porque não aguenta.
Vai logo, estou sentindo o colchão molhado. Não se preocupe em que eu fique sozinha porque não vai adiantar. Corre o mais rápido que puder e volte logo.
Ajude minha menina, Senhor, que nós não merecemos passar por isso. Nunca fiz mal a ninguém, e nem ela, coitada. Nem casar, casou, para ficar cuidando dessa velha aqui. Coração bom está ali. Ela está com medo que não dê tempo para me tirarem daqui. Eu também, Senhor, mas vou encontrar forças, se for preciso.
Já me arrastei para a cabeceira da cama, mas não adianta. A água subiu ainda mais. Essas pernas imprestáveis estão cobertas. Estão geladas e começo a sentir frio. Vou fechar os olhos porque não quero nem ver.
O que é isso? Soltem. É muita mão me puxando.
Filha, você conseguiu. Obrigada por estar comigo.
Perdemos tudo, meu Deus.
Não chora meu amor. Deus vai ajudar a gente. Não sei como, mas vai.
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o colecionador
16/08/2017 | 23h48
solidão
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O colecionador
Cândida Albernaz
Costumava chegar a casa no mesmo horário todos os dias. Almoçava com os filhos e a mulher uma comida “saudável”, como gostava de afirmar.
No escritório, um café bem forte e um copo de água gelada eram depositados em sua mesa, cinco minutos depois que entrava. A secretária desde o dia em que começara a trabalhar com ele, fora orientada sobre seus hábitos e horários. Não gostava de mudá-los nem admitia que alguém o fizesse.
Com a pasta, onde guardava tesouros que imaginava possuir, caminhava pelo corredor da empresa cumprimentando um e outro com um movimento de cabeça.
Todos o respeitavam e estranhavam. Com uma estatura alta e corpo magro, mantinha os ombros encurvados, como se o peso da pasta que carregava fosse muito grande. Não era de conversa e quando vinham com um assunto que não o interessava, olhava com tamanho desdém que o outro se sentia constrangido, desistindo de levar a conversa adiante.
Em casa não era muito diferente disso. Quando a mulher levantava, a mesa do café estava arrumada, o jornal ao lado da xícara e a televisão ligada, pois gostava de saber sobre o tempo antes de sair. Acordava-a vinte minutos antes de ir para o trabalho para que tomassem o café juntos. Mal tirava os olhos do jornal que lia rapidamente. Ao sair, beijava-a e dizia que estaria de volta para o almoço que era servido invariavelmente às treze horas.
Sentado à mesa, separava o que julgava ser importante resolver pela manhã. Era arquiteto em uma construtora bem sucedida. Apesar de reservado e ter dificuldade em se comunicar, sua mente e mãos criavam prédios de fácil aceitação para venda.
O que mais chamava atenção em sua figura, era a pasta da qual não se desgrudava por nada. Os comentários eram diversos, desde que ali havia joias, dinheiro, documentos ou fotos comprometedoras.
Depois do jantar servido às dezenove horas, tinha o hábito de sair para uma volta. Sua mulher desfazia a mesa onde jantavam e olhava-o pegar a pasta ao lado da cadeira e ir para a rua. Geralmente voltava em meia hora e assistiam algum programa na tv. Pelo menos uma vez no mês, ele se demorava mais no passeio.
Nesses dias, após pegar a pasta, ele caminhava ao longo da avenida, entrava em um ônibus, descia em algum ponto onde pegava outro.
Fazia sempre percursos diferentes. Pensava que era sorte morar numa cidade grande onde podia variar os lugares que frequentava.
Entrou em uma porta estreita, de onde se podia ver a escada, em que a lâmpada pendurada no teto, mal iluminava.
Enquanto subia, reparava na sujeira à volta. As paredes marcadas por mãos e o chão, todo arranhado. Diante de uma nova porta, bateu com os nós dos dedos, retirando em seguida um lenço do bolso onde limpou as mãos. A mulher que surgiu à sua frente não era tão jovem como anunciara no jornal, nem tão morena também. Alguns fios brancos podiam ser vistos através da tintura mal feita.
Entrou e observou-a. Vestia uma camisola já gasta, e segurando sua mão, levou-o para a cama. Morava sozinha naquele quarto e sala. Verificara antes. Pediu para ir ao banheiro, e ela o indicou sorrindo. Com um movimento deixou um dos seios à mostra.
Ali dentro, depositou a pasta em cima da tampa do vaso sanitário, não sem antes limpar o mesmo com uma enorme quantidade de papel higiênico. Retirou um pote de vidro que continha um líquido transparente e um pequeno nécessaire. Abriu e despejou parte do conteúdo no bolso da calça, deixando todo o resto ali mesmo e foi para o quarto.
A mulher aproximou-se tentando lamber sua orelha. O contato da língua gelada provocou nele uma sensação de nojo.
Virou-a com rapidez, fazendo com que seu corpo, de costas para ele, não visse o que fazia. Ela resmungou estar sentindo um cheiro esquisito, mas, sem que houvesse tempo para qualquer reação sentiu o lenço obstruindo nariz e boca até que perdesse os sentidos.
Ele jogou o corpo agora inerte sobre a cama e tirou do bolso uma lâmina fina. O corte no pescoço fez com que jorrasse sangue encharcando a colcha rapidamente. Pegou a mão da mulher e levantando o dedo anular, colocou um anel que trazia consigo, para em seguida decepá-lo. Voltando ao banheiro, guardou o dedo enfeitado dentro do pote.
Arrumou suas coisas e limpou o que podia para não deixar rastros. Saiu do prédio sem que ninguém o visse. Andou três quadras e de um ponto de ônibus seguiu para casa.
Ao chegar, sua mulher o esperava. Ele sorriu, deu-lhe um longo beijo e chamou para que subissem. Ela o olhou maliciosamente. Sabia que quando a beijava dessa forma, faziam amor.
Dirigiu-se a ela, enlaçou seu corpo apertando levemente o pescoço como se a sufocasse e mordeu sua nuca. Ela fingia sentir dor. Enquanto a beijava, seu olhar procurava a pasta. Tranquilizando-se viu que estava sobre a cadeira onde a colocara. Fechou os olhos sentindo o gozo que o dominava.
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mudei e pronto
22/06/2017 | 22h12
vamos trocar de lugar?
vamos trocar de lugar? / google
Mudei e pronto
Cândida Albernaz
- Não estou entendendo.
- Como assim não está entendendo?
- Você não é deste jeito.
- Mudei.
- De uma hora para outra.
- Não, de um homem para outro.
- Isso não deveria influenciar sua maneira de ser. Pode ter mudado de companheiro, mas você é a mesma.
- Quem disse?
- Logo você que sempre teve um caráter forte.
- E ainda tenho. Por isso essa decisão.
- Não é assim que funciona. As pessoas não decidem ter uma nova personalidade de repente.
- E por que acha que foi dessa forma? Sempre fui certinha, compreensiva, amiga. De que adiantou? Tomei na cabeça.
- Você não tem certeza.
- Claro que tenho. Ele só chegava a casa as tantas, saía todo perfumado, trocou todas as cuecas por novas e ainda por cima começou a pintar o cabelo...
- Não significa nada.
- ... e isso eu não perdoo. Adorava os fios brancos, dava um ar mais sério para ele, de maturidade. Agora essa cor indefinida. Odiei.
- São muitos anos juntos. Sabe que ele quer voltar.
- Mas eu não. Agora que conheci o Tadeu, vou aproveitar.
- Tadeu. E de onde surgiu esse?
- Ele é feliz, para cima e depois tem outra coisa...
- O que?
- Não ronca.
- E desde quando se incomoda? Aposto que você também ronca.
- Não importa, não posso me escutar mesmo. E ele não reclamou de nada.
- Isso é só o começo.
- Pois vou aproveitar o começo, o meio e o fim. Quando acontecer, arranjo outro. Resolvi que quero viver relações sempre no início. Quando mudar para aquela pasmaceira, troco mais uma vez.
- Não podemos levar a vida dessa forma.
- Pelo menos não corro o risco de ser traída. No princípio é tanta paixão que ninguém tem olhos para o lado.
- Virou criança novamente.
- Virei sim e vou tirar proveito disso. Se não der certo, choro muito como sempre e quando cansar de chorar vou à luta.
- Desse jeito vai sofrer mais ainda.
- Mais ainda? Deus me livre! Acho que é impossível. Sabe com quem estava me traindo?
- Não...
- Com uma daquelas meninas que “recebem ajuda” para terminar o estudo. Em casa a maior dificuldade para soltar a grana.
- Isso foi diversão, coisa passageira.
- E daí? Se me pagasse, podia fazer igual, ou melhor do que ela. Por que não tentou? Quem sabe o dinheiro me dava um estímulo extra?
- Que louca. Você não pensa assim.
- E você acha que me conhece.
- Não acredito. O Tadeu paga a você?
- Nem precisa. Viu o corpo dele? O jeito que ele anda? E a pegada? Nossa! Só em lembrar...
- Já vi que esse papo não vai levar a nada mesmo. Seu ex quer conversar, está arrependido. Falou que não deveriam jogar fora o tempo que viveram juntos.
- Olha, em primeiro lugar, quem jogou fora não fui eu. Em segundo, detesto aquele cabelo pintado. Em terceiro, só volto para a cama com ele se me pagar. Em quarto, isso não vai acontecer tão cedo, porque minha cabeça e meu corpo pensam em aproveitar. Em quinto... veja quem chegou!
- Você vai mesmo continuar com esse cara?
- Olhe bem para ele e me diga você. Oi, estava te esperando. Conhece minha amiga?
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quero voltar!
14/06/2017 | 21h29
do céu se vê
do céu se vê
Quero voltar!
Cândida Albernaz
Hoje eu morri. Não posso dizer ainda se é bom como alguns esperam que seja ou se é tão ruim quanto outros dizem. Por enquanto estou achando um saco. Não vejo nada além do que via antes e também não encontrei nenhum parente ou amigo que se foi. Na verdade o que mais incomoda é o desespero de minha filha, Carolzinha. Tenho um casal, ou melhor, tinha. Esse negócio de falar no passado vai levar um tempo para eu acostumar.
Queria saber como está minha mulher, mas ela sumiu daqui. Acho que vou dar uma volta pela casa.
O que é isso? Chorando abraçada com o Alfredo?! Sempre disse que não gostava dele, que era folgado, mulherengo e não servia para meu amigo, que bebia demais, que... Será? Nunca percebi nada. Acho que não... Ele beijou o rosto dela muito próximo à boca e estão se olhando mais tempo do que deveriam.
Carol acabou de entrar. Bem feito! Se ia rolar alguma coisa, estreparam-se. Isso mesmo, filhinha, não saia daí não, porque estes dois querem me fazer de corno depois de morto. Dizem que quando a gente morre, não tem problema, não somos mais denominados corno, afinal a mulher é viúva e viúva pode. Comigo não!
Veja só você, em vez de estar preocupado porque morri, estou pensando em como evitar que minha mulher me traia, mesmo já morto.
Sempre tive alguns casos pela rua, no trabalho, nos dias em que dizia que ia jogar... E as reuniões marcadas com fulano ou sicrano? Casa de massagem era do que mais gostava. Tempo bom. Mas espera aí! Sou homem, é diferente, não posso evitar. Ou não podia. Ai, ai.
Será que agora vou descobrir que ela fazia o mesmo? Ah, danada. Só por imaginar sinto o coração acelerar. Engraçado, como acelera se não bate mais? Esquisito isso.
Olhe quem acaba de chegar. Falei que não queria este rapaz em nossa casa. Foi só eu morrer e o sujeitinho está aqui de novo. O que é isso? Minha filhinha e ele se beijando! Como se atrevem? Preciso ir lá fora pegar um ar ou vou explodir.
Eu e esse moleque trabalhamos juntos. Há uns seis meses engraçou-se para o lado da Carolzinha, e fiquei de olho nele. Minha menina tem apenas dezessete aninhos e o safado vinte e cinco. Vinte e cinco! O pior é que tem um bebê de dois anos e nem cumpriu com a obrigação de se casar com a coitada da mãe da menina. Quer dizer, desgraçou a vida de uma e queria vir se esbaldar com minha garotinha. Mandei embora, porque nem era tão bom de serviço assim. Proibi Carolzinha de falar com ele e avisei que tiraria a mesada. No início, ela quis reclamar, mas sou durão e teve que obedecer.
Mal acabo de morrer e o indivíduo está enfiado em casa. Não sei como, mas lá de cima (ou para onde quer que eu vá), arranjarei um jeito de colocá-lo para correr.
Espera aí, outra vez! Que conversa é essa desses dois? Carol está grávida e ele quer casar com ela? Claro, vai botar a mão no dinheiro da herança. Não vou suportar estar morto por muito tempo.
Quem está entrando é a Zilda e continua linda. Nossa vizinha há uns dez anos. Desde que coloquei os olhos nela, fiquei doido. Agora posso contar: a Zilda e eu temos um caso (ou tivemos. O maldito verbo no passado). Esse mulherão me deu a maior bola e mal acreditei. Vive aqui em casa. Amiga da minha esposa e dos filhos. Essa mulher na cama... até eu pedia arrego. Para ela era sempre pouco. Vou sentir saudades da vizinha.
O meu caçula está com quinze anos, gosta de conversar com a Zilda. Os dois perdem horas conversando. Minha mulher costumava pedir que ela desse conselhos ao Júnior, então ele ia à sua casa com frequência. Zilda tem um jeito de se comunicar com os jovens, como se falasse a língua deles.
Mas o que é isso agora? Zilda e meu filho trancados no banheiro. E a mão dela? Que mão boba é essa aí? Não pode ser. Desisto de morrer. Não quero mais. Por favor, quero voltar. Quero voltar!
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frases nem tão soltas
08/06/2017 | 18h42
bicicleta com flores
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Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
E no ontem usei saia de seda rosa e rodada, que parecia lamber o chão com o movimento do andar, luvas de renda pérola cobrindo o cotovelo e dancei valsas no salão. Ainda acreditava na inocência do sentir e me deixei levar. Não percebi a capa negra que cobria alguns rostos.
*
Deixe-me só porque preciso brigar com meus pensamentos. Necessito ordená-los de forma que parem de bagunçar com minha vida.
*
Gosto de olhar para mim e enxergar por dentro. Sem a s carapaças que uso vez ou outra para me proteger.
*
Sou melhor escrevendo. Falando posso me tornar um desastre.
*
Vou sair agora. Não para a rua, mas para fora de mim. Os gritos que ressoam do meu corpo estão me deixando surda. Surda de ter paz.
*
Tive medo de me perder enquanto escolhia caminhos dos quais nunca havia ouvido falar. Errei algumas vezes, mas em todas que acertei compensaram as que não.
*
Porque ver através de outros olhos nos leva a descobrir uma nova forma de enxergar.
*
Não faço outra coisa senão viver cada dia de todos os dias. Sem deixar nada passar. Porque é preciso. Porque eu preciso.
*
Hoje quero me vestir de cores e sentir os pingos de chuva na pele.
*
Porque menos que tudo é quase nada.
*
E nem pense em me encontrar onde não quero que me ache. Estarei tão dentro de mim que me tornarei invisível.
*
Às vezes balanço a cabeça de um lado para o outro para que os pensamentos possam ir embora. Funciona.
*
Nossa lucidez pode ser a loucura perfeita.
*
Não gosto quando o choro entope o nariz, incha a cara e desfaz a maquiagem interna transformando o sentimento em um enorme borrão escuro.
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Minha música
31/05/2017 | 21h30
partitura
partitura / google
Minha música
Cândida Albernaz
Esta noite foi mais difícil. Se não fossem as músicas que apenas eu escuto, não teria suportado.
Sinto que o colchão parece mais duro do que o normal, machuca o corpo e me deixa sem forças para virar.
O quarto escuro conforta já que mal consigo enxergar. A idade chegou e com ela a falta de visão e a dificuldade de movimentos.
Às vezes grito e até falo alguns palavrões inocentes. Se mamãe ouvisse, chamaria minha atenção ou, com tal rapidez o tapa explodiria em cheio na minha boca. Nunca consegui ser mais rápida do que ela.
Recordo de minha mãe sentada em frente ao espelho da penteadeira escovando os longos cabelos pretos que costumava prender num coque baixo. Eram negros. Mesmo com a idade avançada, podiam-se contar os fios brancos. Comigo é diferente: consigo contar os fios pretos. Principalmente agora que estou doente e não posso pintá-los.
A impressão que tenho é de que mamãe nunca foi jovem, tão preocupada costumava ser. Vida difícil, a que teve. Hoje entendo que se não sorria com frequência ou não nos acarinhava, foi porque não teve acesso a esses gestos.
As costas voltaram a doer. Acredito que a melodia de Chopin fez com que eu me esquecesse de mim e permanecesse numa mesma posição por muito tempo.
Ouvi quando a enfermeira comentou sobre uma ferida no quadril. Falou baixo para que não escutasse, como se não soubesse eu mesma onde sinto minhas dores.
Lembro-me de papai, que tinha nas pernas, próximo ao tornozelo, excesso de veias grandes e roxas e pouca circulação sanguínea formando ali também um ferimento que não cicatrizava quase nunca.
Foi um homem autoritário, difícil de lidar, acho que herdei dele essa parte do temperamento. Em compensação, quando chegavam os netos, virava criança junto a eles. Até o fim foi um homem imperioso. Alto e bonito, assim me recordo.
Não sei por que algumas vezes não consigo saber quem é a pessoa que vejo sorrindo à minha frente. Disseram que estou com lapsos de memória. Talvez seja verdade porque outro dia minha filha falou:
- Mãe, acabei de trazer você da sala. Pediu para vir para o quarto e agora quer voltar.
Não dei o braço a torcer, mas não me lembrava de realmente ter estado na sala. Não gostei de perceber isso. Esquecer o que vivi é o que me angustia. O passado, mesmo que entremeado de lembranças ruins, vem cheio de boas recordações que consolam e aconchegam.
Antônio foi o homem que amei muitos anos atrás. Era gentil e não cansava de repetir o que sentia por mim. Não pudemos ter uma vida juntos. Droga! Não consigo saber de que forma o perdi. Odeio essa dificuldade de reter reminiscências.
O teclado do piano soa forte e faz com que estremeça de prazer. Vivaldi e seus acordes alegres.
É incrível como nesse momento em que a vida parece fugir, a música continue a soar intensa em meu ouvido.
Noto o olhar de preocupação de minha filha. Tenho vontade de gritar para que não sofra por mim. Estou bem, apesar das dores. Preciso descansar. Não se preocupe, vou fechar os olhos apenas um pouquinho.
O som do piano que ouço, é a companhia perfeita para o sono.
Sinto os dedos percorrerem as teclas pretas e brancas, e enfim consigo tirar a melodia mais bonita que jamais toquei.
A música é minha vida.
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briga de marido e mulher...
25/05/2017 | 08h35
 
coração remendado
coração remendado / google
Briga de marido e mulher...
Cândida Albernaz
- Soube o que aconteceu na casa da esquina?
- Não.
- A porrada comeu solta.
- Posso adivinhar?
- A mulher pegou a tampa da panela de pressão e mandou na cabeça dele.
- Nossa, esse troço é pesado.
- Foi parar no hospital. Levou nem sei quantos pontos.
- Mas o que ele fez dessa vez?
- Por que dessa vez?
- Você é nova aqui na área e não sabe de nada.
- Ele foi para o hospital outras vezes?
- Que eu saiba umas quatro.
- Mas como?
- Os dois começam discutindo e depois de um tempo algum vizinho aparece com ele sangrando.
- Que mulher doida!
- E bota doida nisso. Um dia foi água fervendo que jogou em cima dele, em outra, pegou uma faca e quase arrancou a mão do cara.
- Por que continua com ela?
- Sei lá. Vai entender a cabeça dos homens.
- Tem uns que gostam de mulher atrevida.
- Essa deixou de ser atrevida faz tempo. Ela é caso de polícia. E quando jogou as roupas dele pela janela?
- O que ele fez?
- Veio para fora e catou tudo.
- O que é isso???
- E enquanto ele pegava as roupas, ela atirou uma mala, gritando que era para colocar as coisas e ir embora...
- Ela também pensa em tudo.
-... só que a mala tinha rodinhas e uma delas bateu no olho dele. Quase ficou cego.
- Dessa vez foi sem querer.
- Foi. Quando ela viu o que tinha feito, correu para fora e o abraçou chorando. Pediu desculpas e beijou o homem todo.
- Que louca.
- Que loucos.
- Nossa, essa rua é movimentada.
– A rua até que é calma. A festa toda é na casa dos dois.
- Agora me diga: dá para entender um homem ficar com uma mulher assim?
- Dizem que além de fazer mandinga, ela é demais.
- Demais como?
- Sabe como é...na cama.
- Poxa!
- Ele conta para quem quiser ouvir o quanto a mulher dele é danada.
- ...
- Diz que quente igual a ela está para nascer.
- Mas vale a pena?
- Parece que o negócio é que quando fazem as pazes, ela faz tudo o que ele quer e mais um pouco.
- Nós tínhamos que pegar umas aulas com ela.
- Pensa que não tentei me aproximar?
- E então?
- A mulher é desconfiada e ciumenta. Não quer ninguém perto do marido dela.
- Já pensou se ela invoca com você?
-...
- E o cara obedece? Segue as ordens da patroa?
- Mais ou menos.
- Como assim?
- Sabe como são os homens. Ele dá umas escapadas de vez em quando.
- Mesmo ela sendo isso tudo que ele fala?
- Homens!
- Ainda bem que ela não descobriu.
- Quem disse?
- E não matou a pobre coitada?
- Não, mas deu uma coça.
- Quero ficar bem longe dela.
- E ainda proibiu que a tal passasse na calçada em frente a casa dela.
- E você conhece?
- Mais ou menos. Vamos atravessar para o outro lado?
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frases nem tão soltas
19/05/2017 | 13h14
sobre nuvens
sobre nuvens / google
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Encoste minha cabeça em seu peito, me afague os cabelos, faça com que seus braços apertem meu corpo. Quero me sentir em casa.
*
Sem o sonho somos apenas a metade do que poderíamos ser.
*
Não quero me conhecer totalmente. É entediante o conhecimento total, sem possibilidade de descobertas. Surpreendo-me comigo muitas vezes.
*
Quero não temer a solidão. Consegui isso um dia, mas se perdeu nos medos que a vida me provocou.
*
Pensou poder carregá-lo na alma. Estúpida ela era. Não imaginou que não aguentaria o peso de um corpo sem coração.
*
Muitas vezes é na agressividade que escondo do outro o que mais me assusta e deixa exposta.
*
Meu lado sonhador vive pregando peças e de vez em quando faz com que tropece aqui e ali.
*
Atrás de um livro o real se torna imaginário ou o imaginário se torna real?
*
O silêncio pode ser nossa melhor companhia.
*
Muitas vezes preciso ficar quieta com os medos que absorvo. No silêncio finjo que não existem e engano-os rindo de mim.
*
Talvez o melhor fosse sentir menos, mas então não seria quem sou.
*
Não gosto quando testam minha paciência. Porque ela é pouca. É curta. É quase nenhuma.
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Hoje um passarinho me contou que as asas que carrego me farão voar. Não muito alto. Nem muito longe. Apenas até a distância do sonho realizado.
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Vida perfeita para quê? Momentos quase perfeitos são ótimos.
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Quando olho para a folha em branco e as letras brincam de se esconder, penso em fugir. Para algum lugar onde observando o nada, balõezinhos surjam com toda a história dentro deles.
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Sobre o autor

Candida Albernaz

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Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".