O primeiro debate entre os candidatos ao governo do Rio de Janeiro, realizado na nite de domingo (9), em uma parceria entre a Firjan e a TV Band, expôs o desgaste político de nomes que estiveram no centro do poder fluminense nos últimos anos. O ex-governador Cláudio Castro (PL) e o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Rodrigo Bacellar foram alvos frequentes de críticas, em um encontro marcado por acusações de ligação com o crime organizado, defesa de medidas mais duras na segurança pública e acenos às principais forças da disputa presidencial.
Participaram do debate Douglas Ruas (PL), Anthony Garotinho (Republicanos), William Siri (PSOL) e André Marinho (Novo). Líder nas pesquisas de intenção de voto, Eduardo Paes (PSD) decidiu não comparecer e optou por agenda fora da capital fluminense.
O desgaste de Castro e Bacellar ganhou ainda mais peso diante do cenário político atual. Castro deixou o governo com baixa aprovação: na última pesquisa Genial/Quaest, 28% dos entrevistados avaliaram sua gestão positivamente, enquanto 54% desaprovaram o governo. Já Bacellar, que chegou a ser apontado como um dos principais nomes da sucessão estadual, enfrenta o impacto político de sua prisão e das investigações que atingiram seu entorno.
Segurança
Logo no primeiro bloco, William Siri escolheu questionar Douglas Ruas sobre possíveis vínculos entre políticos fluminenses e o crime organizado, tema que veio à tona em investigações da Polícia Federal.
O candidato do PSOL afirmou que Ruas representa Castro e Bacellar. A associação colocou o candidato do PL diante da necessidade de se desvincular dos dois antigos aliados.
Ex-secretário estadual de Cidades de Cláudio Castro e aliado de Bacellar durante sua passagem pela Alerj, Ruas afirmou ter “identidade própria” e disse que “nunca escolheu chefe”. A estratégia busca afastá-lo da imagem do grupo político que comandou o estado nos últimos anos e, ao mesmo tempo, consolidá-lo como um candidato com discurso próprio.
Na resposta, Ruas também procurou reforçar a defesa da atividade policial e de medidas mais firmes para enfrentar a crise de segurança pública, uma das pautas que devem ocupar espaço central na eleição.
Corrida ao Planalto
Embora o debate tenha sido concentrado em temas estaduais, a eleição presidencial também apareceu nas falas dos candidatos.Douglas Ruas e André Marinho sinalizaram apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. William Siri declarou voto na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Garotinho, que vem se posicionando como crítico tanto de Flávio quanto de Lula, evitou declarar apoio a um dos dois.
Ao mencionar a disputa nacional, atacou Eduardo Paes e afirmou que o prefeito do Rio estaria escondendo seu eventual apoio a Lula.
Ruas também reforçou sua ligação com a família Bolsonaro, considerada um dos principais ativos eleitorais de sua candidatura para ampliar o conhecimento do seu nome.
Segundo a última pesquisa Genial/Quaest, 70% dos entrevistados disseram não conhecer o candidato do PL. O índice é bem superior ao registrado por Eduardo Paes, de 10%, e Anthony Garotinho, de 15%.
— Quero agradecer ao (ex-)presidente Bolsonaro, que confiou a mim a missão de concorrer a governador na chapa do próximo presidente da República, Flávio Bolsonaro — declarou Ruas.
O movimento mostra como a eleição estadual começa a incorporar a polarização nacional. Enquanto Ruas tenta transformar o apoio da família Bolsonaro em impulso para uma candidatura ainda pouco conhecida do eleitorado, Siri aposta na associação com Lula. Garotinho, por sua vez, procura ocupar um espaço próprio entre os dois polos.
No debate da Band, porém, foi a sombra do governo Castro e das denúncias envolvendo Bacellar que acabou predominando. No atual momento, os candidatos, a disputa pelo Palácio Guanabara, passam pela tentativa de se apresentar como alternativa ao grupo político que comandou o estado nos últimos anos.
Ausência de Paes
A ausência de Eduardo Paes se impôs como tema do debate logo no primeiro momento. A jornalista Adriana Araújo, responsável pela apresentação e mediação do evento, afirmou que a desistência fere o acesso do eleitor à informação e compromete a disputa democrática de ideias entre os postulantes. Neste momento, a manifestação da mediadora deu o tom do incômodo causado pelo recuo de última hora.
Já para os demais candidatos, o não comparecimento foi tratado como uma falha grave neste momento do processo eleitoral. E neste sentido, o que era um momento de apresentação das propostas acabou sendo preenchido por uma sucessão de ataques ao ex-prefeito, em um movimento que uniu candidatos de diferentes espectros em torno de um mesmo alvo. Candidatos acabaram por ligar Paes a milícias e atacaram sua agenda na área da segurança pública.
Garotinho foi um dos mais incisivos ao apontar uma suposta ligação de Paes com milícias. A acusação elevou o tom do embate e colocou a segurança pública no centro do confronto.