Arthur Soffiati - Egocentrismo na literatura brasileira atual
* Arthur Soffiati 04/04/2026 09:13 - Atualizado em 04/04/2026 11:26
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Não tenho formação em letras, mas leio desde os 13 anos de idade. Considero-me um leitor ávido em tempos de redes sociais. Nessa condição, tenho notado uma mudança nos assuntos da literatura brasileira contemporânea: ela passou do social para o individual. Não são mais temas amplos os abordados, mas a vida do escritor, a família do escritor, o drama do escritor e outros ângulos do escritor. Não é dizer que contos e romances sejam mal escritos. Antes, um escritor, um pintor, um artista de teatro e de cinema, ao serem entrevistados, falavam sobre sua arte. Agora, falam de sua intimidade, de sua vida privada, de sua sexualidade. Deve ser efeito das redes sociais.
Em “Tarde no planeta”, segundo livro de Leonardo Piana, propõe-se ele a abordar a crise ambiental da atualidade. Ambientado numa cidade do interior, ele tangencia a questão ambiental. Seu assunto é uma espécie de triângulo amoroso entre seu pai, um amigo e sua mãe. Fica no ar se os dois homens amam a mesma mulher ou se eles se amam. A homossexualidade do filho aflora cedo e ele tem um caso com um colega. O autor está longe de um Ignácio de Loyola Brandão de “Não verás país nenhum”.
Manoela Sawitzki, no romance “Filha”, dedica-se ao estranho amor dela e dos irmãos por um pai alcóolatra e violento com a mulher e com os filhos. Sua escrita é primorosa, mas ela, como muitos, não percebe o mundo ao seu redor, tão absorvida que está pela figura do pai.
A busca das origens e do esbulho sofrido por sua família pobre e ignorante está em “Corsária”, de Marilene Felinto. No meio da incessante busca de justiça aos pais do sertão da Caatinga, está uma relação amorosa da autora com um homem e com uma mulher. O caso de Felinto parece mais uma efabulação que um caso real. Mas ela dá poucas escapadas desse mundo pessoal.
“A teta racional”, de Giovana Madalosso, reúne contos sobre relacionamentos interpessoais, gravidez, amamentação e outros intimismos. Mas não são apenas as escritoras que se encerram no seu pequeno mundo individual ou pseudo-individual. Os homens também estão olhando para seu umbigo. Bruno Inácio, em “De repente nenhum som”, está encerrado em seu mundo, um mundo que não comporta tanto o mundo. Da mesma forma, Ricardo Terto em “Brincadeira sem futuro”, livro em que reúne suas memórias. Mas não são memórias como as de Proust e de Nava. Ele até me fez lembrar das minhas, que eu abordaria mais num artigo referente a um mundo analógico que está desaparecendo diante do mundo virtual – superficial e fragmentado.
“O último dia da infância”, de Marcelo Moutinho, reúne crônicas centradas na vida do autor. Até aí, tudo bem. O cronista observa o mundo em que vive e o traduz segundo sua percepção e sensibilidade. Moutinho, contudo, parece não ver além da sua casa, do seu bairro, do seu cachorro, dos seus amigos, do seu boteco. Seu mundo é bem diferente do de Carlos Drummond de Andrade, que teve suas crônicas
inéditas em livro publicadas no jornal “Correio da Manhã” entre 1954 e 1969 e reunidas para o leitor em “A intensa palavra”. Drummond estava atento a tudo. Desde o micro ao macro. A casa, a vizinhança, o bairro, a cidade, os meios de transporte, o país e o mundo.
Até mesmo Cristóvão Tezza, escritor que já admirei muito por ter partido de uma escrita linear para uma escrita polifônica, tomou os diários do pai para redigir “Visita ao pai”, seu mais recente romance. Talvez seus editores tenham lhe dito que a polifonia reduzia o número de leitores. Então, parece, ele voltou à escrita homofônica. Ao comentar os muitos diários do pai, Tezza fala de si mesmo. De sua juventude
dividida entre a marinha mercante, a aviação, a relojoaria, o culto ao escritor Wilson Rio Appa, ao teatro. Sua trajetória é individualista, mais talvez que de seu pai.
Nos livros lançados em 2025, destaco “Nihonjin”, do descendente de japoneses Oscar Nakasato. Ele narra a trajetória de um japonês que imigrou para o Brasil à procura de vida melhor, mas que não abandou suas raízes. Ele atravessa gerações. A primeira geração nipônica de imigrantes não esqueceu o Japão. Muitos pretendiam voltar ao seu país. Havia, no Brasil, o culto ao imperador. O mundo japonês no Brasil estava dividido entre conservadores e liberais, entre tradicionalistas e pragmáticos. O romance está focado na figura de um imigrante, mas amplia o foco para o contexto histórico.
O mesmo pode-se dizer de “Dança de enganos”, último romance da trilogia “O lugar mais sombrio”, de Milton Hatoum. É verdade que livros com continuação e publicados com grande intervalo entre si exigem memória do leitor. Ainda mais quando muitos personagens figuram na trama.

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