Edmundo Siqueira: Banco, Brasília e o velho patrimonialismo — um Estado capturado
Edmundo Siqueira 07/03/2026 09:42 - Atualizado em 07/03/2026 09:56
Fachada do Banco Master no Itaim Bibi, na Zona Sul de São Paulo, no dia 19 de novembro de 2025
Fachada do Banco Master no Itaim Bibi, na Zona Sul de São Paulo, no dia 19 de novembro de 2025 / Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Max Weber, o sociólogo alemão, tinha o hábito — objeto de estudo, transformado em boa obsessão — de tentar explicar como o poder funciona de verdade, e cunhou um conceito que se tornou quase uma chave interpretativa para o Brasil: patrimonialismo. Em termos simples, trata-se da confusão entre o que é público e o que é privado. O governante, o burocrata ou o mesmo poderes independentes como o Judiciário, passam a tratar o Estado como extensão de seus interesses.
A ideia não nasceu pensando no Brasil, mas encontrou aqui um ambiente particularmente fértil, que demonstra diversos frutos desde quando era colônia.
Naquele período — colonial — a administração portuguesa funcionava em regime de favores, concessões e privilégios. O Estado não era uma estrutura impessoal voltada ao interesse público; era estruturado, não raro, para atender a uma rede de relações pessoais, cargos distribuídos como recompensas e decisões tomadas em círculos restritos de poder.Sérgio Buarque de Holanda chamaria isso de “cordialidade política” caso fosse conceituar o fenômeno em “terras brasilis”.
Mais de cinco séculos depois, a engrenagem continua reconhecível. O caso recente envolvendo o Banco Master expõe, mais uma vez, como as fronteiras entre interesse público e interesse privado podem se tornar difusas na política brasileira. O episódio envolve discussões sobre regulação, decisões institucionais e movimentações que atravessam diferentes esferas do poder. Não se trata apenas de um banco ou
de um caso específico — mas de um padrão recorrente.
No Brasil, Executivo, Legislativo e Judiciário deveriam funcionar como poderes independentes, cada qual com mecanismos próprios de controle e responsabilidade. Na prática, porém, muitas vezes operam dentro de um mesmo ecossistema de relações políticas, jurídicas e econômicas. Um projeto de lei nasce no Congresso, recebe incentivos ou resistências do Executivo, e pode acabar reinterpretado ou suspenso em tribunais superiores. Nesse trânsito institucional, interesses organizados frequentemente se movem com uma agilidade que o cidadão comum dificilmente consegue acompanhar.
Não se trata necessariamente de ilegalidade explícita — embora ela por vezes apareça. O fenômeno é mais sutil: trata-se de um sistema em que decisões públicas podem ser influenciadas por redes de poder, lobby informal, relações pessoais ou pressões econômicas. O resultado é um Estado que, formalmente,
pertence à sociedade, mas que frequentemente parece operar para poucos.
A consequência mais visível é a erosão da confiança, e a fragilidade institucional que acaba por erodir a democracia aos poucos. Quando episódios envolvendo grandes instituições financeiras, decisões parlamentares ou disputas judiciais ganham contornos nebulosos, a sensação pública é a de que as regras não são as mesmas para todos. O cidadão comum se sente refém de um sistema que ele não confia. Já grandes grupos econômicos e políticos parecem navegar em um ambiente onde as fronteiras são mais flexíveis.
O Brasil construiu um Estado moderno, com Constituição, tribunais independentes e eleições regulares. Mas o imaginário patrimonialista — a ideia de que o poder pode ser apropriado — nunca desapareceu completamente. Ele se adapta, se moderniza e reaparece sob novas formas. Hoje, não se manifesta mais
em capitanias hereditárias ou cargos distribuídos pela Coroa.
Surge em negociações políticas escusas, em regulações moldadas por interesses específicos e em uma circulação constante entre poder econômico e poder institucional. Talvez seja esse o paradoxo brasileiro: temos instituições democráticas relativamente sólidas, mas convivemos com práticas que lembram estruturas muito mais antigas de poder.
O caso do Banco Master, como tantos outros episódios que atravessam Brasília, é bastante didático para entender os mecanismos do modo de fazer política, patrimonialista e descolado de sensos éticos que deveriam nortear as políticas públicas. Não explica sozinho o sistema, tampouco seja esse um sistema
exclusivo do Brasil, mas o “caso Master” ganhou proporções que dificilmente encontra paralelo na história, uma vez que não deixou nenhum poder de fora.
Os casos do Mensalão, a Lava Jato, e outros episódios brasileiros foram igualmente graves, mas mantiveram o Judiciário como os “salvadores da pátria” — outra característica herdada pelo sebastianismo português —, onde, pelo menos, a população se sentia amparada por um poder isento. E a pergunta que permanece é a mesma que Weber e tantos outros já colocaram, cada um a seu modo: até que ponto o Estado brasileiro pertence realmente à sociedade — e até que ponto continua sendo tratado como patrimônio de quem consegue alcançá-lo.
Não é saudável acreditar em salvadores, até por ser um ilusão pueril, mas quando as instituições são profundamente afetadas por um escândalo financeiro e político, a descrença corre o risco de se generalizar. E aí surge algo pior que o patrimonialismo dos poderes: a ideia de que tudo é permitido na sociedade, e cada um deve cuidar de seus interesses, mesmo que eles colidam com
a coletividade.
* Servidor federal, jornalista e blogueiro do Folha1

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