Beth Landim
Estava sossegada no quarto de uma aconchegante pousada campestre, escondida entre os pinheiros, numa tarde noite muito agradável... Ao tempo do por do sol escuto o som de uma desesperada luta de vida ou morte perto de mim. Uma mosca está gastando as últimas energias de sua curta vida na vã tentativa de voar através da vidraça. O zumbido das asas rápidas conta a pungente historia da estratégia da mosca: tentar sempre! Mas não está dando certo. Os esforços frenéticos não dão esperança de sobrevivência. Ironicamente, luta é parte da armadilha. Por mais que tente, é impossível para a mosca atravessar a vidraça. Contudo, esse pequeno inseto empenha a vida para atingir sua meta através de puro esforço e determinação. A mosca está condenada. Vai morrer na vidraça. A três metros dela, a porta está aberta. Dez segundos de vôo e essa criaturinha poderia chegar ao mundo externo que deseja. Apenas uma fração desse esforço desperdiçado bastaria para se livrar da armadilha criada por ela mesma. A possibilidade de travessia está ali. Seria tão fácil.
Por que a mosca não tenta algo drasticamente diferente? Como se fechou tanto na idéia de que determinada via e determinado esforço prometem o sucesso? Que lógica há em continuar até a morte procurando chegar a um lugar diferente através da mesmice? Sem dúvida, essa solução faz sentido para a mosca. Infelizmente, é uma idéia que leva à morte. Tentar sempre não é necessariamente a solução para chegar a um fim. Pode não ser uma promessa verdadeira de obter o que se quer na vida. De fato, às vezes, é uma boa parte do problema. Se você empenha suas esperanças de travessia, tentar sempre a mesma coisa, pode matar as oportunidades de sucesso.
Como nos diz Confúcio: “Nada é bastante para quem considera pouco o que é suficiente.” Muitas vezes insistimos em uma única tecla, ficamos cegos, a bater insistentemente ou porque não dizer cegamente, naquele “único caminho”... E então, não levantamos a cabeça para vislumbrar o horizonte a nosso frente... não nos permitimos tirar os “óculos escuros” que tiram nossa visão... não arejamos o cérebro... na maioria das vezes, nossa teimosia nos cega... Já repararam que as pessoas que tem maior poder de inventividade, de criar o novo, são aquelas que procuram mudar sempre... São aquelas que gostam da mudança e não se desestabilizam com ela, são aquelas que não se acomodam, buscam a satisfação na simplicidade, que é bem diferente da “mesmice”...
Saint Exupéry nos fala que... “Só se vê bem com o coração, pois o essencial é invisível aos olhos.” Quantas vezes ficamos a bater na vidraça da janela? Quantas vezes deixamos de olhar para o lado e ver uma imensa porta a nos chamar? Mais do que uma tentativa, isto é um exercício diário que temos que fazer várias vezes ao dia... Não devemos reclamar da vida, e sim levantar a cabeça, pois dias ruins são necessários para que os dias bons valham à pena.
Steve Jobs nos deixou um legado de acreditar, de sonhar, e mais do que isso, tentar sempre outras portas: “Cada sonho que você deixa para trás é um pedaço do seu futuro que deixa de existir.” Não podemos, nem devemos gastar as nossas energias para “desafinar o piano”, batendo na mesma tecla... Enquanto reclamamos da vida, tem gente lutando por ela... Não nos condenemos como a mosca na vidraça... sempre existirão milhares de possibilidades e caminhos... aprendamos a exercitar a nossa liberdade interior para que possamos olhar para o mundo sem nos aprisionarmos, pois na maioria das vezes, nós é que colocamos as grades do nosso cárcere...
Quantas armadilhas você cria para você mesmo? Pois o ideal é ser feliz e não perfeito!!! A perfeição exacerbada nos leva a cobranças e aprisionamentos, e nos impede também de exercitar o perdão! Pense nisso... Há sempre uma porta, um rasgo de sol, uma fresta de luz para aquecer nossos dias e descortinar o horizonte de beleza colorida que é viver! Voemos sempre... em liberdade... rumo às montanhas e aos vales... Pois muitas vezes não podemos escalar as grandes montanhas, mas podemos contorná-las através dos vales... Bater de frente na maioria das vezes não demonstra sabedoria e contornar não significa subterfúgio, mas sim uma gama de alternativas que nos possibilita ver outros caminhos que o horizonte nos apresenta...
É sempre bom sermos vales na nossa vida e instrumento na vida dos que nos cercam, porque é maravilhoso escalar as montanhas, é um desafio instigante, e nos traz emoções e vivências maravilhosas, mas quando se torna impossível, nada como caminhar pelos vales... Pense nisso e tire a venda dos olhos... pare de criar suas próprias armadilhas... deixe de dar cabeçadas na vidraça para que possa vislumbrar as várias frestas e portas que existem ao seu redor...
Com afeto,
Beth Landim

Encantamento... este é o sentido, o sentimento, o estado de espírito que talvez possa traduzir o dia dos “enamorados”...
Digo talvez, por ser sempre indecifrável, e por isso encantador...
Quando estamos e permanecemos encantados pelo agir, pelo ser, por alguém, pela relação, significa que admiramos, ou seja, conseguimos olhar para o outro, vê-lo e nos encantarmos tal como ele é...
Esta sintonia, esta afinidade, esta intimidade não se explica, apenas sente-se...

O sol se põe, o cheiro de alfazema inebria os campos, as nuvens descem as montanhas e se espalham sobre o mar, a lua desponta de uma pequena fresta e uma lareira nos aquece e ilumina a noite estrelada... e nossa caminhada continua encantada...
A pedra que surge no caminho... pulamos ou a utilizamos para uma construção sólida, sempre se constituindo em aprendizado para nós.
E para que possamos nos encantar com o outro, precisamos ouvir o sussurro dos nossos sonhos e desejos, garimpá-los para que possamo ouvir com todo o nosso ser.

Segundo o escritor Neale Donald Walsd “... enquanto estiver preocupado com o que os outros pensam a seu respeito, você pertence a eles.
Só quando deixa de buscar a aprovação externa, você se torna dono de si mesmo.”
Às vezes precisamos reunir coragem, ousar, darmos um passo a frente...
para continuar a nos encantarmos...
Encante-se com você em primeiro lugar...
E para isso o primeiro passo é ser grato... Se a única oração que você fizer na vida for “obrigado” já será suficiente...
A gratidão lhe dá perspectivas. A gratidão pode mudar qualquer situação.
A gratidão altera suas vibrações e traz energias positivas.
Te cuide com carinho, te indique o melhor caminho, te perdoe quando preciso for...
Te dê asas para voar, nos sonhos te ajude a pousar...
Compreendas porque amanhece antes do anoitecer e então poderás encantar-se...
Assim como as ondas do mar ao beijar a areia...
E nesse encontro, encantada estou, porque isto é amor...
Adoro ver o pôr do sol e a maneira como ele transforma o céu. A natureza sabe lidar melhor com transformações do que nós, seres terrenos.
Evoluir como ser humano é um processo de escavação que dura a vida inteira; é preciso cavar fundo para revelar suas questões mais ocultas.
Às vezes, ao fazer isso, parece que você só encontra rochas duras, impenetráveis.
Ao longo da vida, descobri uma coisa: quando não removemos uma rocha, ela se torna primeiro uma colina, depois uma montanha.
Portanto, é nossa obrigação limpar o terreno todos os dias, no trabalho, na família, nos relacionamentos, nas finanças e na saúde.
Alcançar seu potencial máximo como pessoa é mais do que um ideal: é o objetivo principal da sua vida.
As maravilhas de que somos capazes nada têm a ver com os critérios de avaliação da humanidade, com as listas do que está em voga ou fora de moda, de quem é atraente e quem não é.
Com o passar dos anos, enfim aprendi que recebemos do mundo o que damos a ele.
A física nos ensina isso através da Terceira Lei de Newton: para cada ação há uma reação igual e oposta.
Essa é a essência do que os filósofos orientais chamam de carma.
Em A cor púrpura, a personagem Celie explica justamente isso para Mister: “Tudo o que você tenta fazer comigo já foi feito contra você.”
Seus atos giram ao seu redor assim como a Terra gira ao redor do Sol. Quando as pessoas dizem que estão em busca da felicidade, eu pergunto: “O que você está dando para o mundo?”
Na verdade, a felicidade que você sente é diretamente proporcional ao amor que é capaz de dar. Se estiver pensando que falta algo em sua vida, ou que não está recebendo o que merece, lembre-se de que a Estrada de Tijolos Amarelos só existe em O mágico de Oz.
Você conduz sua vida; não é conduzido por ela.
E então o sorriso largo surge, os olhos brilham, o mundo fica num colorido diferente, o perfume exala em nossos pensamentos... Queremos estar perto, abraçar, beijar, conversar, conhecer, sentir... Sentir a felicidade do outro que se mistura na sua!
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque o amor de verdade existe e, se você ainda não sentiu, vai sentir.
Quem ama tem um coração limpo. Quer o bem do próximo, o vê em sua plenitude, independente dos defeitos que cada um de nós possui. Quando sabemos o que queremos, podemos até esperar um bom tempo, mas o “tempo bom” chegará, pois o universo conspira a favor do amor!
Muitas vezes não precisamos de palavras, um abraço, um carinho no rosto, um aperto de mãos, falam por si só...
Quando estamos encantados, não nos acomodamos...
é um sentimento maduro, de saber olhar de dentro pra fora, perceber a beleza tanto sua, quanto do outro...
Encantar combina com admirar...
Hoje exercitamos pouco à admiração, temos pressa, nos encantamos pouco, não admiramos quase nada.
Gosto de parar para ver os detalhes de uma flor, de ouvir o canto dos pássaros, muitas vezes de ouvir e admirar o silêncio...
O barulho das ondas do mar. Já pararam para pensar que espetáculo mais encantador? O mar com suas ondas, beijando a areia, e o sol que vai surgindo, na imensidão do mar e nos leva para o infinito...
Precisamos nos encantar mais, beijar mais, abraçar mais, admirar a vida e então se deixar invadir pela simplicidade da vida, que não obedece à razão, e nos faz vivos de coração.
Encantada estou...
Com afeto,
Beth Landim!
Campanha publicitária do Citibank espalhada pela cidade de São Paulo através de Outdoors:
"Crie filhos em vez de herdeiros."
"Não deixe que o trabalho sobre sua mesa tampe a vista da janela."

"Não é justo fazer declarações anuais ao Fisco e nenhuma para quem você ama."
"Para cada almoço de negócios, faça um jantar à luz de velas."
"Dinheiro só chama dinheiro, não chama para um cineminha, nem para tomar um sorvete."
"Por que as semanas demoram tanto e os anos passam tão rapidinho?"
"Quantas reuniões foram mesmo esta semana? Reúna os amigos."
"Trabalhe, trabalhe, trabalhe. Mas não se esqueça, vírgulas significam pausas..."
"...e quem sabe assim você seja promovido a melhor do mundo! (amigo/ pai/mãe/filho/filha/namorada/namorado/marido/esposa/irmão irmã... etc.)"
"Você pode dar uma festa sem dinheiro. Mas não sem amigos."
"Precisamos deixar filhos melhores para o mundo e não um mundo melhor para nossos filhos"
E para terminar: "Não eduque seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz.
Assim, ele saberá o valor das coisas e não o seu preço."
Com afeto,
Beth Landim

Que a gente perca tudo...
a hora, os dentes,
a razão (em alguns momentos),
o sono, os sapatos,
as roupas, o cabelo, qualquer coisa.

Menos os sonhos e a alegria de viver!
Com afeto,
Beth Landim
Deixe a imaginação falar mais alto...
O vento soprar...
A música convidar pra dançar..
e então...
Com afeto,
Beth Landim
O Ise Censa alargando fronteiras com seus alunos ...
Com afeto,
Beth Landim
Conta-nos um mestre, que certa vez, um urso faminto perambulava pela floresta em busca de alimento. A época era de escassez, porém, seu faro aguçado sentiu o cheiro de comida e o conduziu a um acampamento de caçadores. Ao chegar lá, o urso, percebendo que o acampamento estava vazio, foi até a fogueira, ardendo em brasas, e dela tirou um panelão de comida. Quando a tina já estava fora da fogueira, o urso a abraçou com toda sua força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo. Enquanto abraçava a panela, começou a perceber algo lhe atingindo. Na verdade, era o calor da tina… Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a panela encostava. O urso nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras pelo seu corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida. Começou a urrar muito alto. E, quanto mais alto rugia, mais apertava a panela quente contra seu imenso corpo. Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava contra o seu corpo e mais alto ainda rugia. Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a tina de comida. O urso tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na panela e, seu imenso corpo, mesmo morto, ainda mantinha a expressão de estar rugindo.

Quando terminei de ouvir esta história de um mestre, percebi que, em nossa vida, por muitas vezes, abraçamos certas coisas que julgamos ser importantes. Algumas delas nos fazem gemer de dor, nos queimam por fora e por dentro, e mesmo assim, ainda as julgamos importantes. Temos medo de abandoná-las e esse medo nos coloca numa situação de sofrimento, de desespero. Apertamos essas coisas contra nossos corações e terminamos derrotados por algo que tanto protegemos, acreditamos e defendemos.

Fernando Pessoa nos ensina a prática do desapego nos falando que... “Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário... Perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos que já se acabaram. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas possam ir embora. Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: Diga a si mesmo que o que passou jamais voltará. Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo... - Nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Encerrando ciclos, não por causa do orgulho ou por incapacidade... Mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais em sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Quando um dia você decidir a pôr um ponto final naquilo que já não te acrescenta. Que você esteja bem certo disso, para que possa ir em frente. Desapegar-se, é renovar votos de esperança de si mesmo, é dar-se uma nova oportunidade de construir uma nova história melhor. Liberte-se de tudo aquilo que não tem te feito bem, daquilo que já não tem nenhum valor, e siga, siga novos rumos, desvende novos mundos. A vida não espera. O tempo não perdoa. E a esperança, é sempre a última a lhe deixar. Então, recomece, desapegue-se! Ser livre, não tem preço!”

O desapego não é desinteresse, indiferença ou fuga. Muitos dos problemas da vida são causados pelo apego. Todas as causas de infelicidade, tensão, teimosia e tristeza são devidas ao apego. Se você tem algum problema ou preocupação, examine a si mesmo e descobrirá que a causa pode ser o apego. Não devemos nos tornar indiferentes aos problemas da vida. Não devemos fugir da vida, pois não se pode fugir dela quando somos sinceros. A vida e seus problemas devem ser encarados de frente, mas não são coisas às quais devamos nos apegar. O apego às condições favoráveis leva à avidez e ao falso otimismo, enquanto que o apego às condições desfavoráveis leva ao ressentimento e ao pessimismo. Sem dúvida, nosso apego às coisas, condições, sentimentos e idéias é muito mais problemático do que imaginamos. Quando adoecemos, chegamos até mesmo a nos apegar à doença. Quando você estiver doente, aceite a doença e faça o possível para se recuperar. Aceite a doença e a transcenda… ou melhor, aceite transcendendo. A vida é mutável, todas as coisas são mutáveis, todas as condições são mutáveis. Por isso, “deixe ir” as coisas. Muitas pessoas se apegam ao passado ou ao futuro, negligenciando o importante presente. Devemos viver o melhor “agora”, com plena responsabilidade. Quando o sol brilha, desfrute-o, quando a chuva cai, desfrute-a. Todas as coisas nesta vida – deixe que venham e deixe que se vão. Este é um grande segredo da vida.

Tenha a coragem e a visão que o urso não teve.
Tire de seu caminho tudo aquilo que faz seu coração arder.
Solte a panela!
Com afeto,
Beth Landim
Hoje divido com vocês trechos do escritor moçambicano Mia Couto, que compartilha as suas impressões acerca do futuro da África e do mundo, destacando que mais do que gente preparada para dar respostas, necessitamos de capacidade para fazer perguntas... “Não podemos entrar na modernidade com o atual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico.

O primeiro sapato é a idéia que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas.
Nós já conhecemos este discurso. A culpa já foi da guerra, do colonialismo, do imperialismo, do apartheid, enfim, de tudo e de todos. Menos nossa. É verdade que os outros tiveram a sua dose de culpa no nosso sofrimento. Mas parte da responsabilidade sempre morou dentro de casa. Estamos sendo vítimas de um longo processo de desresponsabilização. Esta lavagem de mãos tem sido estimulada por algumas elites africanas que querem permanecer na impunidade. Os culpados: são os outros, os da outra etnia, os da outra raça, os da outra geografia. Estou completamente cansado de pessoas que só pensam numa coisa: queixar-se e lamentar-se num ritual em que nos fabricamos mentalmente como vítimas. Choramos e lamentamos, lamentamos e choramos. Queixamo-nos até à náusea sobre o que os outros nos fizeram e continuam a fazer. E pensamos que o mundo nos deve qualquer coisa. Lamento dizer-vos que isto não passa de uma ilusão. Ninguém nos deve nada. A desresponsabilização é um dos estigmas mais graves que pesa sobre nós.

O segundo sapato é a idéia de que o sucesso não nasce do trabalho.
Ainda hoje despertei com a notícia que refere que um presidente africano vai mandar exorcizar o seu palácio de 300 quartos porque ele escuta ruídos “estranhos” durante a noite. O palácio é tão desproporcionado para a riqueza do país que demorou 20 anos a ser terminado. As insônias do presidente poderão nascer não de maus espíritos, mas de uma certa má consciência. Nunca ou quase nunca se vê o êxito como resultado do esforço, do trabalho como um investimento a longo prazo. As causas do que nos sucede (de bom ou mau) são atribuídas a forças invisíveis que comandam o destino.
O terceiro sapato é o preconceito de quem critica é um inimigo.
Muitos acreditam que, com o fim do mono partidarismo, terminaria a intolerância para com os que pensavam diferente. Mas a intolerância não é apenas fruto de regimes. É fruto de culturas, é o resultado da História. Muito do debate de idéias é, assim, substituído pela agressão pessoal. Basta diabolizar quem pensa de modo diverso. Existe uma variedade de demônios à disposição: uma cor política, uma cor de alma, uma cor de pele, uma origem social ou religiosa diversa.

O quarto sapato é a idéia que mudar as palavras muda a realidade.
Uma vez em Nova Iorque um compatriota nosso fazia uma exposição sobre a situação da nossa economia e, a certo momento, falou de mercado negro. Foi o fim do mundo. Vozes indignadas de protesto se ergueram e o meu pobre amigo teve que interromper sem entender bem o que estava a se passar. No dia seguinte recebíamos uma espécie de pequeno dicionário dos termos politicamente incorretos. Estavam banidos da língua termos como cego, surdo, gordo, magro, etc… Nós fomos a reboque destas preocupações de ordem cosmética. Estamos reproduzindo um discurso que privilegia o superficial e que sugere que, mudando a cobertura, o bolo passa a ser comestível. Hoje assistimos, por exemplo, a hesitações sobre se devemos dizer “negro” ou “preto”. Como se o problema estivesse nas palavras, em si mesmas. O curioso é que, enquanto nos entretemos com essa escolha, vamos mantendo designações que são realmente pejorativas.

O quinto sapato é a vergonha de ser pobre e o culto das aparências.
A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre, mas quem cria pobreza. Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a idéia que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres. É triste que o horizonte de ambições seja tão vazio e se reduza ao brilho de uma marca de automóvel entre outras coisas... É urgente que as nossas escolas exaltem a humildade e a simplicidade como valores positivos. A arrogância e o exibicionismo não são, como se pretende, emanações de alguma essência da cultura africana do poder. São emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo.
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O sexto sapato é a passividade perante a injustiça.
Estarmos dispostos a denunciar injustiças quando são cometidas contra a nossa pessoa, o nosso grupo, a nossa etnia, a nossa religião. Estamos menos dispostos quando a injustiça é praticada contra os outros. Persistem em Moçambique zonas silenciosas de injustiça, áreas onde o crime permanece invisível. Refiro-me em particular à violência domestica.
O sétimo sapato é a idéia de que para sermos modernos temos que imitar os outros.
Todos os dias recebemos estranhas visitas em nossa casa. Entram por uma caixa mágica chamada televisão. Criam uma relação de virtual familiaridade. O resultado é que a produção cultural nossa se está convertendo na reprodução macaqueada da cultura dos outros. O futuro da nossa música poderá ser uma espécie de hip-hop tropical, o destino da nossa culinária poderá ser o Mac Donald’s. Falamos da erosão dos solos, da deflorestação, mas a erosão das nossas culturas é ainda mais preocupante. Temos que gostar de nós mesmos, temos que acreditar nas nossas capacidades. Mas esse apelo ao amor-próprio não pode ser fundado numa vaidade vazia, numa espécie de narcisismo fútil e sem fundamento. A razão dos nossos atuais e futuros fracassos mora também dentro de nós. Mas a força de superarmos a nossa condição histórica também reside dentro de nós. Saberemos, como já soubemos antes conquistar certezas, que somos produtores do nosso destino.”

O texto de Mia parece que foi escrito para nós... fica então a reflexão... tirarmos os sapatos sujos... e se possível calçarmos as sandálias da humildade e do trabalho...
Com afeto,
Beth Landim
Sobre o autor
Elizabeth Landim
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