Fernando Iuri Chagas Rangel era militar e morreu aos 19 anos
A Justiça decidiu que três médicos de Campos vão a júri popular pela morte do jovem Fernando Iuri Chagas Rangel, de 19 anos, em 2013, após complicações neurológicas decorrentes de uma cirurgia de clavícula, realizada em um hospital particular do município. O anestesista Luis Bernardo Vital Brasil Bogado e o cirurgião Paulo César Mota da Rocha responderão por homicídio doloso (qualificado no caso do primeiro) e falsidade ideológica. Já o médico Hugo Manhães Areas, apenas por falsidade ideológica. A data do júri ainda não foi definida.
Fernando Iuri era militar e foi submetido a uma cirurgia eletiva em 18 de dezembro de 2013 para correção de uma fratura na clavícula decorrente de um acidente anterior. Devido à falta de oxigenação adequada (ventilação assistida) durante a parada cardiorrespiratória foi causada uma encefalopatia anóxica grave (danos cerebrais irreversíveis). Ele foi encaminhado à UTI em coma e veio a óbito no dia 26 de dezembro.
O processo está em andamento na 1ª Vara Criminal de Campos, que aceitou em 2017 a denúncia do Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ) por meio da 1ª e da 2ª Promotorias de Justiça de Investigação Penal. O advogado Antônio José Barbosa Neto, assistente de acusação, disse acreditar que a Justiça virá com o júri popular.
"A assistência de acusação reafirma seu compromisso com a Justiça e a memória de Fernando Iuri, confiando que o Conselho de Sentença do Tribunal do Júri de Campos dos Goytacazes dará a resposta adequada a esta grave violação dos deveres mais basilares da medicina", afirmou Antônio.
A Folha buscou um posicionamento dos médicos citados na reportagem. A defesa de Hugo Manhães Areas afirmou que ele não vai se manifestar sobre o caso. A equipe de reportagem também entrou em contato com Luis Bernardo Bogado e Paulo César Mota, mas até a publicação desta matéria não obteve retorno.
Denúncia do Ministério Público Segundo o Ministério Público, o dolo eventual ficou caracterizado pelo fato de os dois terem assumido o risco da morte do rapaz, com a omissão de deveres de cuidado, ao injetarem pesadas drogas sem ofertar oxigênio suplementar e praticando cirurgias e anestesias simultâneas.
Ainda de acordo com o MP, o fato foi comprovado por vídeos da cirurgia que teriam revelado que, apesar da previsibilidade quanto à evolução e aos efeitos dos remédios que aplicava, o anestesista não agiu de forma a conter os riscos mortais que decorreriam da depressão respiratória advinda da sua ação médica.
De acordo com a denúncia, o cirurgião Paulo Cézar realizava cirurgias simultâneas, previamente agendadas e eletivas. Paulo teria deixado de suspender o ato ou de convocar o anestesista de plantão de forma a substituir o profissional de sua escolha, que insistia em se manter fora da sala cirúrgica. Para o Ministério Público, a realização de anestesias simultâneas é considerada uma prática atentatória à ética médica, por comprometer seriamente a segurança do paciente.
De acordo com o MP, ao final do procedimento, Paulo Cézar e Luis Bernardo teriam desaparecido com as informações reais do procedimento cirúrgico realizado, registrando no prontuário médico dados e informações que não condiziam com a verdade. Junto com eles dois, o médico Hugo Manhães Areas teria omitido, no prontuário médico, declarações que deveriam constar no documento.