É realmente muito triste para um velho sócio, o único dos mais antigos vivos, ver a sua Casa fechar as suas portas e se encontrar em condições precárias de conservação, depois dele ter iniciado a sua vida entre ilustres nomes e grandes acontecimentos, chegando mais tarde a ser presidente - o oitavo - durante 14 anos ininterruptos.
O sonho do professor Manuel Múcio da Paixão Soares foi ”pro terra”. No passado, quando as dificuldades eram muitas para os jornalistas, Múcio sonhou com uma entidade que pudesse reunir a categoria e lutar por melhores dias para todos. Várias reuniões foram realizadas nos altos da antiga Agência Sant´Anna de Jornais e Revistas, na Avenida 07 de Setembro – Centro, infelizmente, sem sucesso. Mais tarde, um grupo de jornalistas que se reunia na sucursal do “Diário Oficial” do Estado (ou do jornal “O Estado”, de Niterói), nos altos do Cine Teatro Trianon, decidiu levar à frente a ideia e aí nasceu a Associação de Imprensa Campista para ser “A Casa do Jornalista Campista”. Faziam parte os jornalistas Gastão Machado, Carlos Ferreira Amorim e outros que acreditaram e foram aderindo à ideia e entregaram a incumbência ao jornalista Octacílio Ancântara Ramalho.
O primeiro passo foi uma campanha popular para construção de uma sede própria. Começou com a adoção de um terreno na Rua Tenente Coronel Cardoso, 460, pela Prefeitura. Assumiu o comando das obras o jornalista Octacílio Ancântara Ramalho, que levou pouco tempo e transferiu a responsabilidade da construção para outas mãos. Assumiram e fundaram a AIC: Godofredo Nascentes Tinoco, João Rodrigues de Oliveira, Gastão Machado, Sílvio Pélico Fontoura, Alcides Carlos Maciel, Raimundo Magalhães Júnior, que residia em Campos, Horário Sousa e Alcindor de Moraes Bessa, médico e jornalista, entre outros profissionais, que eram mais idealistas e não dependiam de renda da profissão; eram realmente sonhadores em defesa da categoria, particularmente dos poucos da imprensa que naquela época não tinham nenhuma proteção.
Pronto festivamente o prédio, o mesmo foi cognominado “A Casa do Jornalista Campista”. A partir da inauguração, tendo usado da palavra, na ocasião, fazendo um retrospecto da obra, o jornalista Godofredo Nascentes Tinoco, diversas reuniões administrativas foram realizadas, independentemente das festivas. A AIC recebeu o professor Hélio Gomes, figura bastante conhecida nos meios jurídicos, autor do livro “Medicina Legal”, para uma palestra pública; o líder Luiz Carlos Prestes, que superlotou o auditório; o lançamento da candidatura de Rosinha Garotinho ao Governo do Estado, além de palestras (ele dizia conferências) mensais do doutor Ulísses Pinto Martins, em tempos idos sempre acompanhadas de um ato variado; palestra ilustrada do doutor Plínio Bacelar da Silva sobre “causos” médicos; jantares mensais organizado pela direção da Casa e servido pelo especialista Vicente, não contando outras promoções como a “Semana da Imprensa”, na semana do “Dia da Imprensa”, precisamente primeiro de junho, data considerada pela ABI. Promoção realizada tempos atrás, com sucesso, e ainda continuam da melhor maneira possível...
AIC denominou o auditório de “Prata Tavares”, a biblioteca de “Sílvio Fontoura”, o hall de “Alcides Carlos Maciel” e, principalmente, o prédio de “Edifício Hervé Salgado Rodrigues” (algumas placas desapareceram); havia uma Galeria de Ex-Presidentes; um quadro de 95 sócios pagantes e oito salas alugadas, todos em dia (também acabaram, porque a Casa fechou as portas), nas últimas gestões. Felizmente a Casa de grandes realizações passou por várias reformas, mas agora chegou ao fim. O teto está desabando e os atuais inquilinos, com medo de um desabamento total saíram do prédio. O prédio está abandonado em péssimo estado de conservação, precisando de ajuda e voltar a ser tudo como era antigamente. As portas estão fechadas, repetimos. Difícil voltar como antes... Mas acreditamos na classe e nos nossos políticos, além dos esforços do atual presidente Wellington Cordeiro.
É triste, quase 100 anos. Atualmente com 97 anos (a AIC é de junho) a caminho dos 98 anos, considerada como uma das mais antigas depois da ABI, passando a ser mais uma entidade em Campos que chega ao fim com sua casa aguardando por melhores dias, sem solução ainda. O nosso desejo é que os “defensores do patrimônio campista” façam alguma coisa em favor desse importante imóvel, que não pode morrer. E tem mais. Você, leitor, sabia da importância da AIC e que algumas companhias teatrais ensaiaram na AIC? A Companhia Teatral Iracema de Alencar, no passado, por exemplo; os artistas do antigo Pavilhão Vasconcelos, instalado na Rua 13 de Maio, também no passado; programas de auditório da Rádio Cultura de Campos: Regional de Valiôncio Alves, “Show de Atrações”, de Jece Valadão, todos eles ocuparam a nossa sede.
Na nossa gestão de 14 anos, fizemos o possível e o impossível para manter de pé e à ordem a Casa, e tudo terminou bem. O cinquentenário da Casa foi festejado durante três dias, com a presença de Barbosa Lima Sobrinho (ABI), Austreségilo de Athayde (ABL), Cássio Chaves (AFJ) e os fundadores João Rodrigues de Oliveira e Raimundo Magalhães Júnior. As “Semanas da Imprensa”, já citadas, foram bastante festivas e concorridas. Fizeram palestras, em ocasiões diferentes, o jornalista Fernando Segismundo, presidente da ABI, jornalista e escritora Ana Arruda Calado (viúva do acadêmico Antônio Callado), o homem de televisão Gontijo Teodoro, Jomar Pereira da Silva, consagrado publicitário, o escritor Júlio César Monteiro Martins, do “Pasquim”. E mais os jornalistas campistas Latour Neves da Silva Arueira, Orávio de Campos Soares e Fernando da Silveira. A ideia foi na gestão do presidente Hélio Gomes Cordeiro.
E tem mais alguns registros: a presença do Coral Wagner e do cantor Ronaldo Lopes, que realizaram espetáculos musicais maravilhosos, e festa no antigo Jockey Clube de Campos, com coquetéis e cafés amigos, e as mesmas confraternizações nas “Semanas da Imprensa”. Tudo isso aconteceu e, infelizmente, chegou ao fim. Da inauguração aos dias atuais, se não falha a nossa memória, em épocas diferentes e por uma ou duas vezes. foram presidentes: Octacílio de Acântara Ramalho, Godofredo Nascentes Tinoco, Alcides Carlos Maciel, Oswaldo de Almeida Lima, Hervé Salgado Rodrigues, Latour Neves da Silva Arueira, Herbson da Rocha Freitas, Amaro Prata Tavares, Hugo de Campos Soares, José Dalmo Queiroz de Azevedo, Hélio Gomes Cordeiro, Herbson da Rocha Freitas (em dois períodos), Orávio de Campos Soares, Vitor Menezes e atualmente Wellington Cordeiro, que, ao que tudo indica, está lutando para reconstruir tudo. O jornalista Sílvio Pélico Fontoura foi o presidente da fundação durante um certo período.
AIC tem história. E muito mais. Mas para o momento foi o que veio à mente ao teclar o nosso computador, com muita tristeza porque é mesmo frustrante ver “A Casa do Jornalista Campista” fechar as suas portas e talvez chegar ao fim. Um prédio construído com muita luta com ajuda popular e tombado pelo COPPAM. Vai ser muito difícil ou impossível voltar ao passado, com tanta história ainda para ser contada... Mas vamos aguardar – nem tudo está perdido. Não se pode esquecer ainda que a entidade, em tempos difíceis, abrigou diversas entidades culturais locais; como, por exemplo, as Academias Pedralva Letras e Artes e a Campista de Letras, o Centro de Campista de Letras e Artes (e seu DESP), atualmente paralisado, o Sindicato dos Radialistas e outras entidades mais.
É pena! Chegamos ao fim, mas que não seja da nossa Casa, de ricas tradições e que seus diretores e a categoria façam alguma coisa para que o sua Casa não morra e se reconstrua e prossiga a sua trajetória em defesa de todos nós jornalistas.
*Jornalista e ex-Presidente da AIC.
Nota explicativa da AIC
A Associação de Imprensa Campista vem a público prestar esclarecimentos aos seus associados, profissionais da comunicação e à sociedade a respeito do fechamento temporário de sua sede física.
Neste caso, a expressão “fechar as portas” levada ao público, acabou levando a um entendimento de encerramento de atividades, o que não reflete a verdade. As suas portas físicas foram lacradas por motivo de segurança, tendo em vista que a sede está com uma situação precária de seu telhado e pela vulnerabilidade da segurança do local que sofreu tentativa de arrombamento.
A decisão, embora difícil, tornou-se necessária diante de um conjunto de fatores que, ao longo dos últimos anos, vêm afetando não apenas a nossa entidade, mas também diversas associações de classe e instituições representativas em todo o país.
Entre as principais razões está a falta de recursos financeiros para a manutenção de uma sede física, considerando despesas permanentes como aluguel, energia elétrica, água, serviços, impostos, conservação e outras obrigações indispensáveis ao funcionamento de um espaço próprio. A realidade financeira da Associação já não permite assumir esses compromissos sem comprometer a própria continuidade da entidade.
Outro fator que precisa ser mencionado, com serenidade e transparência, é a reduzida participação da categoria na vida associativa. Uma associação somente se mantém forte quando existe envolvimento coletivo, presença dos associados, renovação dos seus quadros, participação nas atividades e colaboração para sua sustentação. Infelizmente, essa participação vem diminuindo ao longo dos anos, fenômeno que não é exclusivo da Associação de Imprensa Campista.
As tradicionais entidades de classe atravessam um período de grandes dificuldades. Associações, sindicatos e outras instituições representativas enfrentam problemas para manter suas estruturas e mobilizar seus integrantes, reflexo das profundas mudanças ocorridas nas relações profissionais e na própria sociedade.
No caso da imprensa, esse cenário é ainda mais evidente. O jornalismo atravessa uma das maiores transformações de sua história. Jornais impressos deixaram de circular ou reduziram suas estruturas, bancas de jornais fecharam as portas, redações foram reduzidas, postos de trabalho desapareceram e sindicatos e associações passaram a conviver com crescentes dificuldades financeiras e de participação.
A expansão das plataformas digitais mudou definitivamente a maneira de produzir, distribuir e consumir informação. Essas transformações abriram novas possibilidades para a comunicação, mas também provocaram impactos profundos no modelo econômico que durante décadas sustentou empresas jornalísticas, profissionais e suas entidades representativas.
A Associação de Imprensa Campista, instituição que faz parte da história da imprensa de Campos dos Goytacazes e da região, também sente os efeitos dessa nova realidade. É importante ressaltar, entretanto, que o fechamento da sede física não significa o encerramento da Associação. Significa, neste momento, a necessidade de adequar sua estrutura às condições existentes, buscando novas formas de recuperação, funcionamento e participação.
Uma instituição não se resume às paredes de uma sede. Sua verdadeira força está em sua história, nos profissionais que ajudaram a construi-la, nos princípios que representa e, sobretudo, na capacidade de se renovar diante das transformações de cada época.
Este momento deve servir também para uma reflexão de toda a categoria. Que Associação queremos para o futuro? Como fortalecer novamente a participação dos profissionais? Como preservar a memória da imprensa campista e, ao mesmo tempo, construir uma entidade adequada à realidade do jornalismo contemporâneo? São questões que não pertencem apenas a uma diretoria. Pertencem a todos aqueles que reconhecem a importância da imprensa e de suas instituições representativas.
A atual direção agradece a compreensão dos associados e reafirma seu compromisso com a preservação da história da entidade, com a defesa e valorização dos profissionais da comunicação e com a busca de alternativas que permitam à Associação continuar cumprindo seu papel.
Fechar uma sede não significa fechar uma história. Significa reconhecer uma realidade, reorganizar caminhos e preservar a instituição para que ela possa continuar existindo e, no momento adequado, encontrar novas formas de se fortalecer.