Uma forma diferente de contar a história da ciência por meio dos quadrinhos japoneses. Foi com esse olhar que a então doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Naturais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Gisele Rangel, encontrou uma maneira inovadora de dialogar com o público jovem e apresentar a trajetória de dois dos mais importantes cientistas da história: Pierre Curie e Marie Curie.
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O resultado foi o livro "Pierre Curie: Edição em Mangá — Uma adaptação da obra 'Pierre Curie: com notas autobiográficas de Marie Curie'", que busca mostrar não apenas as descobertas científicas do casal, mas também os aspectos humanos, sociais e culturais envolvidos na construção do conhecimento. Publicada pela Editora Encontrografia, a obra é dividida em sete capítulos e reúne 135 páginas. As ilustrações são assinadas por Kevin Areas e Hotallyp Franco.
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Trabalhando juntos, Pierre e Marie Curie revolucionaram a ciência com seus estudos sobre a radioatividade. O casal descobriu os elementos polônio e rádio, e suas pesquisas abriram caminho para avanços importantes, como tratamentos contra o câncer e a utilização dos raios X. Os efeitos da exposição prolongada à radiação, entretanto, comprometeram a saúde de Marie, que morreu em 1934 em decorrência de uma anemia aplástica.
A ideia do mangá surgiu quando Gisele participava de um projeto de extensão coordenado pelo professor Fernando Luna, do Laboratório de Ciências Químicas da Uenf (LCQUI). A iniciativa tinha como objetivo reeditar obras da história da ciência já em domínio público, contribuindo para a formação continuada de professores.
Durante uma atividade com estudantes do ensino médio de uma escola local, ela percebeu que os alunos não demonstraram interesse pelo livro original, que reproduzia a biografia escrita por Marie Curie sobre seu marido há mais de um século.
Incomodada com a situação, Gisele decidiu investigar outras formas de apresentar o conteúdo. Ao perguntar aos estudantes quais gêneros literários mais apreciavam, ouviu uma resposta quase unânime: histórias em quadrinhos e mangás.
— Quando coloquei a história em formato de mangá, eles se apaixonaram. Então pude perceber que o problema não era a história, mas a maneira como ela estava sendo contada — relata Gisele, que lançou a obra em junho do ano passado.
Segundo a pesquisadora, a adaptação ajudou os estudantes a reconhecerem o lado humano dos cientistas e despertou em muitos deles o desejo de seguir carreira na ciência, algo que antes parecia distante de seus projetos de vida.
Busca histórica motivou ilustrador
O designer Hotallyp Franco, um dos responsáveis pelos desenhos do livro, conta que sempre foi apaixonado por histórias em quadrinhos, especialmente mangás. Foi justamente a leitura de uma dessas obras que o motivou a cursar Design Gráfico, após descobrir que o autor também havia se formado na área.
Ele admite que, ao receber o convite para participar do projeto, ficou apreensivo devido à presença de conteúdo científico, que exige atenção especial.
— Mas, conforme fui ilustrando quadro por quadro, fui me interessando cada vez mais pela história do casal. Ao buscar referências e fotografias históricas, surgia a motivação de entender aquele momento, o que eles faziam ali e o que os levou até lá. Foi muito importante para mim, como ilustrador, representar parte de uma história que mudou o mundo — afirmou.
Participação feminina na ciência
Gisele explica que escolheu trabalhar com a obra porque ela foi escrita por uma mulher cientista. Para ela, trata-se também de um resgate histórico, já que, embora as mulheres tenham contribuído significativamente para a produção do conhecimento científico ao longo dos séculos, muitas vezes o reconhecimento foi direcionado apenas aos homens.
— Quando Marie ganhou o primeiro Prêmio Nobel, inicialmente apenas Pierre e outro colega seriam premiados. O nome dela havia sido retirado por ela ser mulher. Pierre se recusou a receber o prêmio sem a inclusão dela, pois os dois haviam realizado a pesquisa juntos. Isso ainda é muito real na nossa sociedade — destaca.
A pesquisadora ressalta ainda que o livro evidencia os desafios enfrentados pelas mulheres na carreira científica, realidade que, em sua avaliação, permanece atual.
— No livro, ela relata as dificuldades para sair de casa e ir ao laboratório. Se não fosse o apoio do sogro, que cuidava das crianças, talvez ela não tivesse conseguido concluir a pesquisa. Isso continua acontecendo. Quando a mulher não tem uma rede de apoio, muitas vezes acaba enfrentando prejuízos em sua trajetória acadêmica e profissional — observa.
Primeira mulher a receber um Prêmio Nobel e a única pessoa a conquistar a premiação em duas áreas científicas distintas — Física, em 1903, e Química, em 1911 —, Marie Curie escreveu a biografia de Pierre Curie após a morte precoce do marido e parceiro de pesquisas, em 1906, vítima de um atropelamento por uma carroça nas ruas de Paris.