A novela Dona Beja, da Band, algumas cenas, reproduzem ipsis litteris, a recordação dos velhos saraus de antigamente. Havia música. E mais: comes e bebes e muita poesia. Poetas da antiga compareciam e se deliciavam com os momentos de enlevo poético.
Prova é que, em 1918 os saraus eram comuns. Nesse ano foi levado a efeito na casa da conhecida e conceituada família Muylaert, um sarau poético, com a participação de conhecidas figuras da intelectualidade campista, dentre elas os saudosos poetas João Antunes de Freitas e Inácio de Moura. Um dos convidados especiais da época foi o famoso poeta Fagundes Varela (Luís Nicolau Fagundes Varela), inspirado autor de “O Evangelho da Selva”, que aqui esteve.
O sarau foi organizado pelo jornalista Patrício Menezes, fundador e diretor do jornal da época “O Amigo do Povo”, e contou ainda com a honrosa presença do escritor Manuel Múcio da Paixão Soares. Múcio foi um dos fundadores do Sindicato dos Comerciários de Campos, que é um dos mais antigos do Estado do Rio de Janeiro, um fato histórico.
A acadêmica Arlete Parrilha Sendra (ACL) tem razão ao dizer certa vez que o intelectual campista tem tendência ou preferência pela poesia. É uma verdade, e de longa data. O que surgiu de poeta no passado na “santa terrinha” é impressionante. Há alguns anos atrás, muito antes do Clube de Poesia de Campos que, infelizmente, deixou de existir, surgiram muitos poetas avulsos, alguns ingressaram na Academia Campista de Letras e na Academia Pedralva Letras e Artes e outros ficaram fora dos meios acadêmicos, mas produzindo bastante, poetas de inspiração fácil e de valor intelectual.
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Godofredo de Carvalho, poeta popular, autor de “Luar de Minha Terra” e outros livros; Antônio Silva, inspirado poeta de Conselheiro Josino (criou “A Casa do Poeta”); Aurino Tavares, guarda civil municipal, tio de Amaro Prata Tavares, nosso saudoso jornalista; Aluísio Célio Izimbardo Peixoto, filho do acadêmico Izimbardo Peixoto, este, autor de “Albores” e também poeta, e dos bons. E tem mais (se a mente ao teclar, não falhar): Claudinier Pinto Martins (houve um concurso) considerado o ”Príncipe dos Poetas Campistas” foi substituído com o seu falecimento pelo poeta Walter Siqueira (ambos príncipes acadêmicos), que, com os poetas Pedro Baptista Manhães e Almir Maciel Soares, fundaram a Academia Pedralva, que dão nome a entidade, mais tarde mudado para Academia Pedralva Letras e Artes.
Campos dos Goytacazes realmente, no campo cultural, é a terra dos poetas e, agora, dos trovadores, sem contar os inúmeros cordelistas existentes, dentre eles, Aldiney de Souza Sá e Heloísa Helena Crespo. Antigamente eram muitos e os jornais, em maior número, cediam espaço aos cantadores das belezas poéticas. O livro “Cyclo Áureo”, de Horácio Sousa, publica alguns trabalhos de vates locais. Muitos não sabem, mas existe um grupo de poetas campistas em “Rimas Campistas” (Sonetos), pequeno livro editado pela Gráfica Santa Cecília (extinta), de Benjamin Constant, pai do gráfico, jornalista e maçom Salvador da Transfiguração Teixeira Pinto, infelizmente ambos falecidos. Nessa publicação, se não estamos enganados, existem sonetos entre outros de Manuel Múcio da Paixão Soares e João Antunes de Freitas, já citado. E relacionamos, ainda, mais dois nomes que não poderiam faltar: a poetisa Sônia Vasconcellos Tavares e o poeta Mário Carneiro Fontoura, irmão do jornalista e poeta Sílvio Pélico Fontoura. Sônia era presidente da Academia Pan-Americana de Cultura.
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Relacionamos aqui, com muita saudade, mais alguns menestréis da terra que, estavam sempre, no passado, cantando as belezas das liras camposinas. Destacamos Herval Manhães de Azevedo, funcionário da extinta CEDAE e radialista da antiga Rádio Afonsiana. Herval chegou publicar um livro em 1970 que, infelizmente, não o encontrei em minha biblioteca. Existem outros: Constantino Gonçalves, bom poeta, proprietário de uma banca de jornais e revistas no Mercado Municipal, e Antônio Morgado, representante comercial, que não pertencia a nenhuma entidade cultural, mas chegou a publicar dois livros de poesias, se não me falha a memoria. Era, também, um excelente poeta. Não podemos esquecer o poeta, trovador e doutor Plínio Bacelar da Silva, fundador do Laboratório Plínio Bacelar da Silva, autor de “Obras (Quase) Completas”, livro publicado em duas edições post-mortem pela sua família.
E na relação, que é enorme, surge o poeta Jorge Ribeiro de Azevedo (Jorge da Silva), servidor público municipal e radialista. Não pertenceu a nenhuma entidade e não publicou nenhum livro, mas deixou aos cuidados da família diversos poemas e trovas. E “especializados” em acrósticos, figuram Pedro Paulo Caputti, da Academia Pedralva, e Geraldo Linhares, ex-integrante ativo do “Café Literário” campista, que funcionava nos altos da antiga “Casa da Carne”, estando afastado dos meios artísticos por motivo de doença. E merece destaque também os inúmeros e variados compositores da nossa cidade. Vamos apenas, agora, destacar um que admiramos e que tem uma grande bagagem, com gravações, Nilton Manhães Gomes de Almeida (Nonô) também conhecido como “Braguinha Campista” (ele lembra o compositor João de Barro). A lista não tem fim. Repetindo a acadêmica Arlete Parrilha Sendra: “Campos é terra de poetas”.
Por fim, existem os que já estão catalogados pelas entidades de cultura. É fácil saber quem é quem e conhecer, inclusive, a obra de cada um. Mas não para aqui neste final. São muitos e muitos poetas da terra e que aqui surgiram por encanto. Um deles, Raimundo J. (José) de Araújo, baiano, viveu em Campos muitos anos. Era autor de dois livros de poesias. Um deles, “Yara”, nome de uma filha que vivia na Bahia. Outro poeta, Jair Ferreira de Morais, pouco conhecido, falecido, mas chegou a publicar “Poesias” – Acrósticos, Quadras, Homenagens e Cantos Diversos (2011). Jair era um homem humilde, evangélico e maçom, mas gostava de cantar as belezas da vida. Destacamos, ainda, na sequência que chega ao fim, o escritor e poeta Gipson Antunes de Freitas, campista, que residia em Niterói, e que, independentemente de escritor, foi poeta e autor de um pequeno livro intitulado “Pássaro Cego” (ele havia perdido a visão). No entanto, mesmo assim, com dificuldade, escrevia os seus poemas. Antes do ponto final: o poeta Agostinho Rodrigues Filho morou em Campos e deixou poesias e muita saudade. Era Senador da Cultura. Faltou pouco para ser empossado na ACL, tendo falecido na véspera ou no dia da solenidade de posse, infelizmente.
E no final desta página de lembranças (quantas lembranças...), não poderíamos deixar de recordar do querido poeta Antônio Roberto Fernandes (ACL), dizendo: “Fazer ou viver poesia é bom, não interessa como chegar a esse estado. A poesia é vida e necessária nos dias atuais – e sempre!”.
*Academico e ex-presidente da Academia Campista de Letras.