Folha Letras - Os limites do projeto decolonial
01/04/2026 08:03 - Atualizado em 01/04/2026 09:48
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Arthur Soffiati*
Horácio, poeta latino, escreveu um verso lapidar: “Ainda que a expulses com um forcado, a natureza voltará a aparecer”. A decolonialidade entende que o processo de descolonização não expulsou de todo o ocidente colonizador. De fato, a partir do século XV, a Europa Ocidental começou a se expandir por mar e a alcançar outros continentes. Sua intenção não era o conhecimento do outro apenas, mas a dominação do mundo para explorá-lo. Para tanto, usou a força. Constituiu colônias. Impôs seus valores culturais.
Os povos dominados foram forçados a adotar tais valores. As colônias ocidentais na América, África, Ásia e Oceania foram exploradas pelo capitalismo e aprenderam a ser capitalistas, ainda que de maneira disfarçada, como na China. Usaram o conceito ocidental de Estado Nacional e as armas ocidentais para se emanciparem do Ocidente. Assim, os Estados Nacionais de molde ocidental multiplicaram-se pelo mundo com suas bandeiras e hinos nacionais.
Nos novos Estados Nacionais extra-europeus, muitos valores ocidentais restaram depois da independência política e até se desenvolveram, como nos Estados Unidos, por exemplo. Agora, uma segunda onda de repulsa ao ocidente se avoluma com o movimento da decolonialidade. Mas até onde será possível expulsar de todo a influência ocidental?
Pode-se tomar vários exemplos, mas escolherei um dos mais modestos para ilustrar o colonialismo e a decolonialidade: a do Império Colonial Português na Ásia. Portugal foi o primeiro país europeu a se expandir usando os mares como caminho. O objetivo mais ambicionado era a Ásia, de onde vinham muitas riquezas para a Europa. Portugal pretendia controlar esse fluxo comercial. Em 1499, Vasco da Gama chegou à Índia. Ele era muito violento e cruel. Mesmo assim, não conseguiu se apoderar de entrepostos comerciais importantes.
Usando a força e a diplomacia, Afonso de Albuquerque obteve Cochim, na Índia, em 1504. Ali ergueu um forte e partiu para conquistar Goa, mais ao norte da Índia, Malaca, na Malásia, e o estreito de Ormuz, na Pérsia. Em todos os locais conquistados foram erguidas fortalezas e igrejas católicas romanas. A diplomacia, os acordos de proteção e os canhões foram usados para constituir o império colonial português na Ásia.
Caravelas portuguesas viajaram para o arquipélago da Indonésia em busca de especiarias. Na ilha de Ternate, foi erguido um forte português em 1529. Na China, os portugueses chegaram até Cantão e fundaram um entreposto em Macau, foz do rio das Pérolas.
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Por cerca de um século, os portugueses mantiveram relações comerciais com o Japão, uma cultura muito fechada ao mundo exterior. O resultado desses contatos amistosos e beligerantes foi a construção de fortalezas, igrejas, núcleos populacionais de tipo europeu, mas que receberam influência das culturas asiáticas. O português se tornou uma língua franca em toda a Ásia, principalmente no comércio.
Não foram os povos dominados pelos portugueses que se levantaram contra eles num primeiro momento, mas países europeus que foram ingressando na expansão marítima, como Espanha, Holanda, França e Inglaterra. Mesmo perdendo território para esses países, fortalezas e igrejas construídas por portugueses restaram em pé ou na forma de ruínas. Principalmente, a marca da língua permaneceu em muito povos dominados. São os chamados crioulos de base portuguesa. Melhor dizendo, provocados pela língua portuguesa. Para tanto, o domínio prolongado, direto ou indireto, de Portugal numa área asiática, levou a população nativa a incorporar vocábulos e estruturas da língua portuguesa, criando um modo de falar que não existia na metrópole e na colônia. Nas costas ocidental e oriental da Índia, na Malásia, no sul da China e na Indonésia, constituíram-se falas crioulas com base no português (como mostra o mapa), no espanhol, no holandês, no francês e no inglês. Fiquemos só com o português. O padre Sebastião Rodolfo Dalgado (1855-1922), nascido em Goa, foi um grande estudioso das línguas crioulas oriundas do encontro do português com as línguas faladas na Índia e no Sri Lanka, principalmente. Portugal perdeu Goa, Diu e Damão para a Índia independente em 1961. Timor Leste proclamou sua independência de Portugal em 1975 e da Indonésia em 1999. O último reduto português na Ásia foi a cidade de Macau, integrada pacificamente pela China em 1999. A descolonização foi consumada, mas não um processo decolonial completo. Restaram ruínas de fortalezas e igrejas. Vários crioulos de base portuguesa continuaram.
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Contudo, países asiáticos formados na concepção ocidental de Estado nacional não foram muito simpáticos com os remanescentes culturais de países europeus. As igrejas cristãs sofreram restrições. As ruínas portuguesas foram abandonadas e até mesmo destruídas. Os crioulos foram sub-repticiamente bombardeados. Trata-se de um projeto decolonial disfarçado. O linguista Hugo Cardoso mostra que os crioulos de base portuguesa estão desaparecendo. São conhecidos como língua dos velhos. Mas alguns mostram resistência, como os de Diu, Damão, Korlai, Sri Lanka e Malaca.
Em Diu e Damão, ainda se fala “use kere ãda?” (você quer andar?). Em Korlai, ainda é conhecido o poema “Maldita Maria Madulena,/Maldita firmosa,/Ai, contra ma ja foi um Madulena,/Vastida de mata!” (“Maldita Maria Madalena,/Maldita formosa,/Ai, contra minha vontade foi uma Madalena,/Vestida de mata!). “Quiança lô priguntá co pai-mai” (“A criança perguntará aos pais”).
No Sri Lanka, “Ala nontem asiilei cousa” significa “Não existe tal coisa” e “Huma nonpode ouvir otro huma que papia” é “Não se pode ouvir o outro falar”. Em Malaca, ainda se fala o kristáng (cristão). “Bong atadi” é Boa tarde; “muleh” é mulher; “maridu” é marido; “bela” é velha; “godru” é gordo. Em Macau, “Nhonha da jinela” é “A moça na janela”; “Língua di gente antigo di Macau” é “Língua da gente antiga de Macau.”
No século XIX, habitantes de Malaca e falantes do crioulo local (paiá kristáng) emigraram para Singapura. Lá, o crioulo malaquense correu o risco de desaparecer, mas está sendo alvo de um processo de revitalização pelo projeto ‘Kodrah Kristang’ (Acordar o Cristão). O mesmo se verifica em Macau, onde o português ainda é falado e escrito.
Como o projeto decolonial enxerga essa questão do patrimônio material e imaterial do colonizador? Os traços deixados devem ser de todo varridos ou preservados? Hoje, o dominador é o Estado nacional herdeiro do colonialismo europeu. E age como ele.
 *Acadêmico da Academia Campista de Letras, professor, escritor, historiador e ambientalista

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