O Estado do Rio de Janeiro atravessou, nas últimas duas décadas, uma sucessão estarrecedora de escândalos políticos. Governadores foram presos, agentes públicos foram investigados e estruturas inteiras de poder passaram a ser associadas a esquemas de corrupção. Não se trata de retórica eleitoral, mas de um capítulo sombrio e amplamente documentado da história fluminense.
Esse passado deveria ensinar uma lição elementar: nenhum candidato pode estar acima da lei, mas ninguém deve ser condenado por antecipação, perseguido por conveniência política ou afastado do processo democrático mediante acusações que não resistam ao contraditório.
É nesse contexto que precisa ser examinada a ofensiva contra Anthony Garotinho. Seus adversários têm o direito de questionar suas propostas, examinar sua administração e confrontar suas posições. O que não podem fazer é substituir o debate político por uma condenação moral permanente, baseada na simples repetição de acusações.
Recentemente, uma declaração do Comissário Aranha acrescentou um elemento relevante a essa discussão. Apresentado como profissional que participou de investigações envolvendo Garotinho e Rosinha na Delegacia de Defraudações, ele afirmou publicamente: “Você e Rosinha não têm grana suja”.
A manifestação de um investigador não equivale, por si só, a uma decisão judicial nem encerra qualquer discussão jurídica. Entretanto, constitui um testemunho que não pode ser ignorado, especialmente porque parte de alguém que, segundo seu próprio relato, teve contato profissional com investigações relacionadas ao casal. Em vez de slogans e insinuações, o jornalismo e a sociedade deveriam buscar documentos, decisões definitivas e provas concretas.
Também é necessário reconhecer que Garotinho não é um desconhecido que surge repentinamente em busca do poder. Sua trajetória pode e deve ser submetida ao escrutínio público, mas ela contém realizações administrativas, programas sociais e experiência acumulada no governo estadual e na Prefeitura de Campos dos Goytacazes. Seus acertos e erros devem ser discutidos com objetividade, à luz dos resultados e das necessidades atuais do Rio.
Talvez seja justamente esse o ponto que mais incomode seus adversários: Garotinho possui memória política, capacidade de comunicação, conhecimento do interior do estado e disposição para enfrentar debates públicos. Em vez de derrotá-lo por meio da comparação entre projetos, certos grupos parecem preferir manter sobre ele uma nuvem permanente de suspeitas.
Quando adversários não conseguem superar um candidato no campo das ideias, cresce a tentação de afastá-lo por outros meios. A judicialização estratégica da política, o vazamento seletivo de informações e a exploração eleitoral de investigações inconclusas podem comprometer a legitimidade do processo democrático.
Isso não significa acusar genericamente o Poder Judiciário ou o Ministério Público. Ambas as instituições são indispensáveis à República e reúnem, em sua imensa maioria, profissionais sérios. Exatamente por isso, eventuais desvios, abusos ou instrumentalizações praticados por uma minoria devem ser investigados com firmeza. A defesa das instituições não exige silêncio diante de seus possíveis erros; exige transparência, controle, imparcialidade e respeito ao devido processo legal.
Nenhum agente público pode utilizar a autoridade do cargo para interferir indevidamente na disputa eleitoral. Da mesma forma, nenhum grupo político pode transformar órgãos de Estado em instrumentos de perseguição contra adversários. Quando isso acontece, a vítima não é somente o candidato atingido: é a própria democracia, porque o eleitor perde o direito de escolher livremente entre alternativas legítimas.
A história recente do Rio recomenda prudência. Os mesmos ambientes políticos que tantas vezes se apresentaram como defensores da moralidade conviveram com alguns dos maiores escândalos de corrupção do país. Por isso, os fluminenses devem desconfiar das campanhas de destruição de reputações.
Se existem provas contra qualquer candidato, que sejam apresentadas e julgadas pelas autoridades competentes, com ampla defesa e respeito à lei. Se não existem, que o confronto aconteça onde deve acontecer: nos debates, nas entrevistas, na comparação dos governos e na análise das propostas para segurança, saúde, educação, desenvolvimento econômico e recuperação fiscal.
O Rio de Janeiro está próximo do limite. A população enfrenta serviços públicos deficientes, insegurança, endividamento e uma máquina administrativa que frequentemente parece servir mais aos acordos de poder do que ao interesse coletivo. O estado não suportará outra eleição dominada exclusivamente pelo medo, pela difamação e pelos arranjamentos de bastidores.
A esperança que ainda resta depende da reconstrução do debate público. Anthony Garotinho deve responder por sua trajetória, apresentar suas propostas e enfrentar seus adversários em condições transparentes. Seus opositores, por sua vez, devem demonstrar por que seriam melhores — não apenas tentar impedi-lo de disputar.
Que sejam realizados debates abertos, com regras previamente estabelecidas, exposição de dados e igualdade de tratamento. Que cada candidato explique o que fez, quais grupos o sustentam e como pretende retirar o Rio de Janeiro da crise. Se os adversários de Garotinho estão seguros de sua superioridade, não deveriam temer o confronto direto.
No final, a pergunta é simples: por que tantos se empenham em impedir que Garotinho seja ouvido, em vez de procurarem vencê-lo publicamente pela força dos argumentos?
Em uma democracia nos moldes brasileiros atuais, a resposta não deveria vir dos bastidores, mas das urnas.
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Sobre o autor
Evandro Barros
[email protected]Advogado, historiador, escritor (+ de 10 livros) e pesquisador, com especialização em Direito Tributário; mestre em Cognição e Linguagem e Doutorando em Políticas Sociais - UENF, com tese dedicada ao Licenciamento Ambiental. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Congonhas (MG).
