Votemos pensando nas Carolinas do Brasil
Matheus Berriel 02/10/2022 09:26 - Atualizado em 21/08/2025 14:45
São aproximadamente 6h15. O despertador toca numa casa simples em Ururaí, e assim começa mais um dia na vida da jovem Carolina. Ela lava o rosto, escova os dentes, faz café e, depois de algumas goladas no mesmo, ajeita a bolsa da filha para levá-la à casa da avó materna, em Ibitioca.
Aos 18 anos, Carolina tem nos braços uma menina de quase dois, e nas costas a realidade de uma vida adulta que se apresentou cedo demais. Tão cedo quanto o horário em que teve que deixar a cama para cumprir os afazeres matinais, a tempo de pegar a van rumo à casa da mãe, onde deixa a pequena Maria. De lá, segue para a escola e cumpre com os estudos do dia, quase sempre tendo que achar espaço no cérebro para os conteúdos não se perderem em meio aos demais compromissos.
Não bastassem os dois últimos anos, em que as aulas deixaram de ser presenciais devido à pandemia, no retorno à normalidade a jovem tem que se virar para aprender tudo ali mesmo, no colégio, pois nem pensar em revisar as matérias em casa. Com que tempo? Logo após sair da escola, já no início da tarde, ela pega um ônibus rumo ao Jóquei, em Campos, para fazer serviços domésticos na casa da prima e poder ajudar com algum dinheiro em casa. Almoça por lá. Depois, varre, passa pano, lava o que tiver que lavar e, quando termina o trabalho, já é por volta das 16h30. Até dá para falar que terminou "cedo". Entre aspas mesmo, porque sua carteira de identidade venceu, e ela ainda precisa passar no Detran para tirar a via atualizada.
Aí surge um problema, pois a previsão do tempo tinha indicado chuva e acertou. No Detran, quase tudo é agilizado, mas os procedimentos finais da nova identidade ficam marcados para o dia seguinte. Abre sombrinha, corre para pegar a van, e tudo parece estar bem a caminho do terminal rodoviário, no Centro. Só que, por conta do trânsito caótico, Carolina chega instantes depois de ter saído o último ônibus para voltar a Ibitioca. Até descobre que passará outro, intermunicipal, em uns 20 minutos, mas este não aceita o seu passe escolar, e no bolso ela não tem os R$ 4 e alguns centavos necessários para comprar a passagem.
Por providência divina, a jovem encontra um senhor solidário, que lhe dá R$ 5. Ou melhor, daria R$ 5, mas, com dificuldade para trocar a nota de R$ 10 e percebendo a sua aflição, decide lhe dar a quantia inteira ao saber da missão que ela ainda tem pela frente na reta final do dia. Agradecida, Carol aguarda a chegada do ônibus e, enfim, embarca de volta para a casa da mãe. Provavelmente vai levar uma chamada quando chegar, já que Dona Matilde tinha lhe avisado para não voltar tarde. Se esforçou, coitada, mas logo naquele dia tinha que chover para prejudicar o trânsito!
É nos cerca de 30 minutos passados na poltrona do ônibus que Carolina lembra dos seus sonhos. São muitos, mas se destaca o de ter um futuro tranquilo. O pai sonha em vê-la numa farda policial. Porém, ela pensa mesmo é em fazer medicina, já que tem agonia só de pensar numa arma disparando, enquanto se encanta com a ideia de tratar um machucado até sará-lo, além de levar jeito para cuidar de idosos. Pensando nisso, vai fazer o Enem em novembro, com foco em conseguir uma bolsa quando terminar o ensino médio, no final deste ano. Está confiante. Se não der certo de primeira, talvez busque um curso de técnica em enfermagem no IFF ou noutra instituição pública. O sonho de ser médica ainda parece distante, confessa, “mas não é impossível”.
Acontece que estes são planos futuros. Bem mais próximo está o dia seguinte, em que mais uma vez pode ter que lidar com o motorista de van mal-humorado que insiste em mudar o caminho para não passar em frente à sua casa, só para não ter que aceitá-la com seu passe livre. Quando consegue se sentar, ouve que precisa levantar caso entre alguém que compre passagem. Nunca quis denunciar as mudanças de rota do motorista, pois não gosta de arrumar confusão. Também não denunciou uma diretora de creche que disse não ser sua responsabilidade caso a filha chegue em casa com um braço mordido. Acabou adiando a matrícula de Maria, pretendendo agora conseguir colocá-la numa creche mais perto de casa e que tenha uma diretora menos problemática.
Ainda no ônibus, por ser simpática e talvez tentando evitar um cochilo que a faça passar da casa da mãe, Carolina bate papo com um rapaz que conhecera minutos antes. Conversa saudável, com os dois falando das suas vidas. Ao descobrir que o colega de poltrona é jornalista, ela aproveita para lembrar da própria facilidade para colocar vírgulas e pontos nos lugares certos (ao contrário de muita gente estudada Brasil afora). “Sonho com a medicina, mas sinto que posso trabalhar com alguma coisa ligada a textos também”, confidencia.
Eis que chega o destino de Carol, que acabara de ganhar ali alguém que torce pelo seu sucesso. Ela se despede educadamente, desejando “que Deus nos abençoe”, e segue para explicar à mãe que não se atrasou de propósito. Só uns 40 minutos depois, com o troco da passagem anterior, vai poder embarcar com a filha no último ônibus do dia, que passa por ali vindo de outra cidade. Enfim chegará à casa, lá por volta das 21h.
O jornalista com quem a jovem conversou é este que aqui escreve, e isso aconteceu no início da chuvosa noite de quarta-feira (28). Carolina tomou seu destino, focada em encontrar o também jovem marido, que trabalha como servente de pedreiro boa parte do dia e a quem fez elogios por ocasionalmente ajudá-la em alguns afazeres domésticos. Naquela noite, ela ainda teria que fazer comida, ajeitar a casa e aproveitar algum tempo dando atenção à pequena Maria antes de tomar banho, comer (se o cansaço deixasse) e dormir.
Eu segui minha viagem, que deixou de ser pós-expediente quando passei a rascunhar no celular um pouco do que aprendi com aquela lição de vida. Em casa, encontrei janta pronta e vi na TV o segundo tempo de um frustrante Fortaleza 3 x 2 Flamengo. Depois, tomei o meu banho e fui ao computador terminar este texto. Quando me deitei para dormir, provavelmente aquela jovem já tinha adormecido, porque em algumas horas o despertador voltaria a tocar em sua casa, novamente por volta das 6h15, para começar tudo outra vez. Seu nome, os nomes de familiares e os dos bairros em que vive foram alterados para preservar detalhes da vida pessoal, mas sua essência está presente em incontáveis pessoas guerreiras e sonhadoras desta cidade, deste estado, deste país. Pensemos nelas quando formos às urnas neste domingo (2). Em meio a tanta bravata, eu acredito é nas Carolinas do Brasil.

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