Arthur Soffiati - Antes e fora do ocidente
* Arthur Soffiati 17/10/2026 10:58 - Atualizado em 17/10/2026 10:59
Arthur Soffiati
Arthur Soffiati / Divulgação
Nossa visão de mundo continua sendo eurocêntrica. Mesmo os analistas com proposta decolonial continuam aferrados à Europa, pois ela é o adversário a ser combatido. Não se pode negar que a civilização ocidental cristã, centrada na Europa Ocidental, expandiu-se a partir do século XV e alcançou todas as sociedades da América, África, Ásia e Oceania de forma violenta, buscando vantagens econômicas. Assim, a Europa criou domínios em todos os continentes, deixando marca indelével em todo o mundo. A primeira onda decolonial corresponde ao processo de independência das antigas colônias europeias. A descolonização, contudo, resultou em Estados Nacionais do tipo europeu em todo o mundo. Novos países contam com bandeiras, hinos nacionais e governos de tipo europeu. A marca europeia foi tão profunda que não vejo como se livrar totalmente dela. Melhor seria admiti-la e desenvolvê-la em neo-europas mestiças.
Mas antes da civilização ocidental se constituir e de se expandir, como era o mundo? Em todos os continentes, a diversidade sociocultural era extraordinária. Os humanos estavam reunidos em sociedades nômades, sedentárias e altamente complexas. Estas últimas eram (e ainda são) consideradas civilizadas. Quase todas contavam com cidades e com sistemas de escrita. Fiquemos com estas últimas apenas.
Na Ásia, encontraremos as civilizações mesopotâmica e suas afiliadas siríaca, elamita, hitita, Urartu e iraniana; índica, hinduista (e sua afiliada khmeriana), chinesa, japonesa, coreana, vietnamita, tibetana e das estepes da Ásia central. Todas elas tinham um núcleo duro, com as margens sofrendo influências de outras culturas.A indiana e a chinesa formaram grandes impérios, assim com a das estepes. O cristianismo nestoriano também ensaiou o desenvolvimento de uma cultura, mas não teve sucesso frente ao islamismo.
Na África sobressaiu-se a civilização egípcia com sua longa história de estabilidade e com sua influência na Ásia menor e nas nascentes do Nilo. Desenvolveram-se também a civilização meroítica, a civilização cristã copta, as fortes civilizações de Benin, de Gana, do Mali, de Zimbabue.
Na América, antes da chegada dos europeus, floresceram as civilizações mexicana, com várias culturas intrincadas, a maia (na América Central) e a Andina, mais conhecida como Inca, mas que foi formada por várias culturas aparentadas. Um grupo de arqueólogos aventa a existência de uma civilização amazônica, que teria desenvolvido obras de grande porte. Examinando algumas tradições cerâmicas da Amazônia, não se pode descartar a possibilidade de existirem sociedades complexas por trás delas.
Por fim, a chamada Oceania não fica de fora. Os polinésios alcançaram grande desenvolvimento cultural. O grande número de ilhas conquistadas exigiu o desenvolvimento da arte náutica. A embarcação típica desse povo é o catamarã, que permite estabilidade e rapidez. Os polinésios também desenvolveram a agricultura e a criação de animais. Pelo menos do cão, do porco e da galinha. Sua cultura imaterial e material é aprimorada. Além do mais, essa civilização alcançou seu auge na pequenina ilha de Páscoa. Nela, as grandes esculturas em rocha vulcânica ainda impressionam vivamente os estudiosos.
Na Europa, antes da expansão da civilização ocidental cristã, podemos identificar as civilizações cretense, etrusca, greco-romana, escandinava e irlandesa. Todas elas desenvolveram culturas complexas. O ser humano é o mesmo em todos os rincões do planeta. Em todo lugar, ele pode desenvolver culturas complexas (que denominamos displicentemente de civilizações). Todas elas mantiveram contatos com outras e promoveram trocas culturais. Mantiveram o seu núcleo duro. Assim, puderam permitir a sua caracterização pelos estudiosos. Todas elas mantiveram relações com seu território, expressando-as na sua cultura. Algumas delas, como a khmeriana, a maia e a polinésia (na ilha de Páscoa), passaram dos limites e provocaram crises ambientais localizadas e temporárias.
O ensino de história ignora quase todas. Quando atuei como professor de história da antiguidade, na Faculdade de Filosofia de Campos, mostrava, de forma panorâmica, todas essas civilizações. Como o programa oficial exigia de mim estrita observância, eu procurava “roubar” algum tempo desse programa para apresentar esse quadro de culturas complexas do globo. O que fazia muito efeito nos estudantes era o uso da imagem. Com slides, era possível mostrar a cultura material na forma de pintura, escultura, arquitetura, escrita e outras manifestações. Para os estudantes, era uma revelação. Poderia ser também para os professores de história, se eles “roubassem” um pouco dos currículos para mostrar aos estudantes esse mundo esquecido pelos livros. É uma forma de mostrar que existiu vida fora do ocidente.
*Professor, historiador, escritor, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras

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