Maestro Ethmar Filho - ENNIO MORRICONE: QUANDO A MÚSICA PASSOU A CONTAR A HISTÓRIA DO CINEMA
*Maestro Ethmar Filho 18/09/2026 13:44 - Atualizado em 18/09/2026 13:46


Há compositores que escrevem música para o cinema. E há aqueles que conseguem fazer com que o espectador não consiga mais separar a música da própria imagem. Ennio Morricone pertence à segunda categoria. Ao longo de quase seis décadas, o maestro e compositor italiano construiu uma obra que modificou profundamente a maneira de pensar a trilha sonora. Em suas mãos, uma guitarra elétrica, um assobio, uma voz humana, um sino, uma percussão incomum ou mesmo um ruído podiam adquirir a mesma importância narrativa de uma grande orquestra. Morricone não compreendia a música cinematográfica como simples acompanhamento. Para ele, a música deveria participar da narrativa. Poderia anunciar um acontecimento, caracterizar um personagem, criar tensão, provocar estranhamento ou simplesmente ampliar uma emoção que a imagem, sozinha, não seria capaz de transmitir. Foi justamente essa compreensão que o transformou em um dos mais importantes compositores da história do cinema. Nascido em Roma, em 10 de novembro de 1928, Morricone cresceu em um ambiente musical. Seu pai, Mario Morricone, era trompetista profissional e participou de sua formação inicial. Ainda jovem, Ennio ingressou no Conservatório de Santa Cecília, em Roma, onde estudou trompete, composição e regência. Teve como professor o respeitado compositor Goffredo Petrassi, uma das figuras mais importantes da música italiana do século XX. Sua formação, portanto, não nasceu exclusivamente do cinema. Antes de se tornar mundialmente conhecido, Morricone trabalhou como músico, arranjador e orquestrador. Atuou na rádio e na indústria fonográfica italiana, escrevendo e realizando arranjos para diferentes intérpretes. Essa experiência foi fundamental para que desenvolvesse uma extraordinária capacidade de combinar linguagens musicais distintas. A relação de Morricone com o cinema começou profissionalmente no início dos anos 1960. Seu primeiro trabalho para um longa-metragem foi Il Federale, de Luciano Salce, em 1961. A partir daí, sua produção cresceu rapidamente. Mas seria o encontro com o diretor Sergio Leone que mudaria definitivamente sua trajetória. Leone estava construindo uma nova maneira de filmar o faroeste. Seus filmes tinham planos extremamente longos, close-ups intensos, personagens silenciosos e uma montagem que valorizava a espera. Morricone percebeu que aquela estética exigia uma música igualmente diferente. Nascia uma das parcerias mais importantes da história do cinema. Em Por um Punhado de Dólares (1964), Por Alguns Dólares a Mais (1965) e, sobretudo, Três Homens em Conflito (1966), Morricone ajudou a criar a identidade sonora do chamado western spaghetti. A música deixou de ser uma camada colocada sobre as imagens depois que o filme estava pronto. Ela passou a dialogar diretamente com a construção dramática. O resultado era revolucionário. Em vez de depender exclusivamente de uma grande orquestra sinfônica, Morricone empregava uma combinação aparentemente improvável de instrumentos e sons: guitarra elétrica, trompete, percussão, assobios, vozes, cordas, efeitos sonoros e instrumentos tradicionais. O famoso tema de Três Homens em Conflito tornou-se praticamente uma assinatura sonora do gênero. A sequência final do duelo entre os três personagens demonstra com clareza a importância da música. Os personagens se observam, o tempo parece suspenso e a tensão cresce progressivamente. A música participa da cena como se fosse um quarto personagem. Morricone havia descoberto uma das grandes possibilidades da linguagem cinematográfica: a música poderia fazer o espectador sentir o tempo de maneira diferente.
Uma das características mais fascinantes de Morricone era sua capacidade de compreender o silêncio. Sua música não precisava estar permanentemente presente. Em determinadas situações, a ausência de música podia ser tão expressiva quanto uma grande explosão orquestral. O compositor entendia que o contraste entre som e silêncio poderia aumentar dramaticamente a força de uma cena. Essa concepção explica parte da originalidade de sua obra. Morricone também não tinha medo de utilizar sons que, até então, poderiam parecer inadequados para uma trilha cinematográfica convencional. O assobio, por exemplo, tornou-se um elemento musical marcante em seus trabalhos com Leone. Sons secos, ruídos, vozes humanas e instrumentos elétricos foram incorporados à estrutura das composições. O resultado foi uma espécie de ampliação do vocabulário musical do cinema. O compositor trabalhou com cineastas de diferentes gerações e estilos, entre eles Pier Paolo Pasolini, Gillo Pontecorvo, Bernardo Bertolucci, Brian De Palma, Roland Joffé e Giuseppe Tornatore. Essa capacidade de adaptar sua linguagem às necessidades de cada narrativa acompanharia toda a sua carreira.

Mas talvez nenhum filme revele tão bem sua capacidade de unir simplicidade, memória e emoção quanto Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore. Lançado em 1988, Cinema Paradiso tornou-se um dos grandes clássicos do cinema italiano. A história de amizade, infância, cinema e memória encontrou na música de Morricone uma de suas principais forças emocionais. Ramente falo de minhas experiências musicais nos meus artigos mas, esse filme do Tornatore reproduz uma das mais impressionantes passagens da minha vida, na minha infância: eu passava as férias no apartamento da minha tia, “Mamãe Elza”, no Edifício Plaza, em cima do cinema de mesmo nome, no bairro da Cinelândia, no Rio de Janeiro. Anos 1960, Governo Militar, “milagre econômico”, de manhã eu jogava bola no aterro do Flamengo, de tarde passeava na Mesbla (Magazine estilo francês) e de noite minha tia pedia ao ascensorista, o Jajá, para que me colocasse na sala de projeção do cinema, para assistir aos filmes, por aqueles “buraquinhos” onde são colocadas as lentes do projetor. Fiquei amigo do Projecionista e ia sempre assistir aos filmes; essa é a estória do filme “Cinema Paradiso”, quem viu sabe. Os filmes musicados por Ennio Morricone me inspiraram a ser músico e regente.

O compositor Ennio Morricone conseguiu criar melodias que parecem simples, mas que carregam enorme capacidade evocativa. Não é necessário explicar a música ao espectador. Ela simplesmente o conduz para dentro da memória do personagem. Essa talvez seja uma das maiores virtudes de Morricone: a capacidade de escrever melodias acessíveis sem torná-las superficiais. Sua música podia ser sofisticada do ponto de vista harmônico e orquestral, mas continuava capaz de estabelecer uma comunicação imediata com o público. Morricone não estabelecia uma hierarquia rígida entre o que poderia ser considerado "erudito" e aquilo que pertenceria à música popular. Uma guitarra elétrica podia conviver com um quarteto de cordas. Uma melodia simples podia ser construída com sofisticada elaboração orquestral. Um ruído podia transformar-se em componente fundamental da composição. Nesse sentido, Morricone não foi apenas um compositor de trilhas sonoras. Foi também um pesquisador das possibilidades do som. Apesar de ter produzido algumas das trilhas mais famosas do cinema mundial, Morricone demorou a receber o principal reconhecimento da Academia de Hollywood. Em 2007, recebeu um Oscar honorário pelo conjunto de sua carreira. Quase uma década depois, em 2016, conquistou finalmente o Oscar competitivo de Melhor Trilha Sonora por Os Oito Odiados, dirigido por Quentin Tarantino. Em Os Oito Odiados, Morricone voltou ao universo do faroeste, mas sem simplesmente repetir as fórmulas do passado. Sua música recupera elementos de sua própria trajetória e, ao mesmo tempo, constrói uma atmosfera sombria e claustrofóbica. O Oscar representou, de certa maneira, o reconhecimento oficial de uma carreira que já havia conquistado o público muito antes. Ennio Morricone morreu em Roma, em 6 de julho de 2020, aos 91 anos. Deixou uma produção monumental, que atravessa o cinema italiano, europeu e norte-americano. Sua importância, entretanto, não pode ser medida apenas pelo número de filmes ou prêmios. Seu verdadeiro legado está na transformação da própria ideia de trilha sonora. Ele mostrou que a música pode narrar. Pode sugerir. Pode esconder. Pode provocar. Pode criar expectativa. Pode revelar o interior de um personagem. Pode transformar uma paisagem em memória.
Talvez seja por isso que, décadas depois, bastem algumas notas para que o espectador reconheça um duelo no deserto, uma lembrança de infância, uma história de amor ou uma paisagem distante. A imagem desaparece quando a tela escurece. A música, porém, continua. Ennio Morricone compreendeu essa verdade como poucos. Ele não escreveu simplesmente músicas para o cinema. Ele ensinou o cinema a ser ouvido.

Maestro Ethmar Filho – Mestre e Doutorando em Cognição e Linguagem pela UENF, regente de corais e de orquestras sinfônicas há 25 anos.

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