Arthur Soffiati - Vale do Muriaé
Mais uma vez, subo o vale do rio Muriaé de automóvel. Estou dispensado do volante e posso contemplar a paisagem. Alguém dirige o veículo. Não apenas contemplo, mas analiso. Venho me dedicando à leitura de paisagem há cinquenta anos. Atravesso primeiro a zona de tabuleiros, relevo com cerca de 5 milhões de anos ou mais. São as barreiras descritas pela primeira vez na carta de Pero Vaz de Caminha. Elas são constituídas de barro e concreções ferruginosas. À minha direita, na estrada, estão elas. À minha esquerda, estende-se uma parte da planície aluvial, bem mais nova.
Existem depressões na Formação Barreiras onde água de transbordamento do rio Muriaé, de chuvas e do lençol freático se acumula, formando lagoas. A julgar pela lagoa Limpa, eram lagoas muto belas, cercadas de matas estacionais semideciduais, aquelas que perdem de 20% a 50% na estação seca, voltando à plenitude do verdor na estação chuvosa. Todas essas lagoas foram mutiladas pela economia canavieira. Mesmo a lagoa Limpa está cercada de canaviais. Há um projeto do extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento que pretendia abrir um canal da lagoa da Onça, quase no fim dos tabuleiros, até a lagoa do Campelo, na restinga, com fins de drenagem. Felizmente, o órgão foi extinto sem levar adiante tal projeto.
O canavial se alastra por todo o lado e o fogo para queima de palha também. Estamos entrando na zona cristalina. Agora, elevações pedregosas despontam, com várzeas entre elas. O relevo pedregoso apresenta-se muito desgastado, não por ação humana, mas do tempo. As montanhas na margem esquerda do rio Paraíba do Sul são mais antigas que as da margem direita. Elas vêm sofrendo ação das intempéries há milhões de anos. Em alguns trechos de várzeas, existe água acumulada. Menos mal numa região que forças econômicas desejam classificar com alcançadas naturalmente por clima semiárido.
O revestimento florestal original é constituído pela Mata Atlântica estacional semidecidual. Mas cabe observar que essa mata vem sofrendo uma remoção de pelo menos dois séculos para dar lugar a lavouras e pastagens. O café foi o principal cultivo responsável pela remoção desta floresta muito rica, embora sua aparência no inverno cause ao leigo a impressão de morte. O gado também subiu as encostas e os topos de morro. A lavoura e o pasto substituíram a mata. O café e as gramíneas não retêm solo e água como as floretas. Daí a erosão, carreando sedimentos para dentro dos rios e várzeas. Daí, a turbidez das águas. Daí, o assoreamento dos vales.
O aspecto é desolador. Há duzentos anos, o caminho para o futuro noroeste mostrava outra fisionomia. Quem lê a paisagem hoje com conhecimento de história ambiental pode comparar as duas paisagens da bacia do Muriaé, considerado o último afluente do Paraíba do Sul. Trata-se de um tema que suscita discussão, pois pode-se considerar o córrego da Cataia, hoje vedado, como seu último afluente.
No caminho, cruzam-se vários córregos afluentes do Muriaé. A secura é acentuada. Atualmente, o eucalipto está com o pé fincado no Noroeste Fluminense como se fosse a sua redenção. Quando uma nova atividade econômica desponta como redenção regional, deve-se temer. A propaganda argumenta que o eucalipto promete o reflorestamento regional. Mas um bosque de eucalipto deve ser considerado monocultura. As árvores não estão misturadas a outras espécies, mas cultivadas como espécie de árvore exclusiva. Além do mais, são plantadas para corte. Essa monocultura não retém solo e absorve muita água do ambiente.
Para completar, instalaram-se as cidades. Cardoso Moreira, Italva, Itaperuna e Laje do Muriaé ergueram-se às margens do Muriaé. Natividade e Porciúncula, às margens do Carangola, seu principal afluente. Mas um historiador ambiental não se limita a divisas municipais e estaduais. Os dois rios viram cidades se erguerem no estado de Minas Gerais. Quem analisa a bacia do Pomba, que tem também relevo semelhante à bacia do Muriaé, o mesmo tipo de floresta, a mesma devastação e o mesmo tipo de economia, encontrará ambiente semelhante. Menos pior, mas apenas um pouco.
Cardoso Moreira instalou-se numa área de várzea, às margens do rio Muriaé. O crescimento de Italva e de Itaperuna impressiona. Não há ordenamento urbano. As cidades invadiram as áreas de preservação permanente. A contribuição que elas dão à poluição hídrica e à produção de lixo é muito grande. O Noroeste Fluminense todo é uma região em declínio econômico. A agricultura, a pecuária e a baixa industrialização deixaram um rastro de destruição não gerando renda adequada. O eucalipto, que me levou a Itaperuna para um debate, certamente não será a redenção regional, assim como não foram as atividades anteriores. É preciso repensar o conceito de desenvolvimento numa fase da história em que o desenvolvimento convencional criou uma crise mundial.
* Professor, historiador, escritor, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras