Arthur Soffiati - A água da bacia com a criança junto
* Arthur Soffiati - Atualizado em 09/08/2026 13:12


Insisto na autenticidade do Roteiro dos Sete Capitães. Vieira Fazenda escreve que ele era apócrifo porque o capitão Miguel Aires Maldonado faleceu em 1650. Ele não poderia, portanto, ter pedido, em 1657 (como registrado no final do documento), a João Nepomuceno de Carvalho que o registrasse no cartório da Câmara de Nossa Senhora da Assunção de Cabo Frio, coisa que só aconteceu em 1664. O documento foi queimado com outros por ter sofrido ataque de traças. Sobreviveu porque uma cópia dele foi transcrita no cartório de São João da Barra e publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil em 1893. Trata-se de um documento sem original.
Já Charles Boxer anotou: “A narrativa de (Miguel Aires) Maldonado, puramente apócrifa, é ainda tomada a sério por alguns historiadores, apesar dos flagrantes anacronismos que contém” O principal, ao entender de Boxer, é a reunião de Maldonado e Antônio Pinto com Salvador Correia de Sã e Benevides em 1647. Maldonado estava velho nessa data, mas ainda vivo. Boxer, contudo, diz que Salvador estava em Lisboa.
Renato Pereira Brandão escreve, em 1996: “O fato do tabelião de São João da Barra ter entregue o translado da descrição em pública forma a Thomé Riscado da Mota elucida assim a razão de tal Roteiro, ou seja, reivindicar para os herdeiros de Miguel Riscado o quinhão concedido a Benevides (,,,) a razão da existência deste Roteiro, como fonte fraudulenta, insere-se também um artigo em um importante contexto histórico referente à construção do espaço colonial”.
Leio no preâmbulo anônimo do testamento de Miguel Vaz Riscado que o Roteiro é “relato apócrifo d’Os Sete Capitães e atribuído a Miguel Maldonado.” Esse preâmbulo foi redigido por Marco Polo Silva, famoso genealogista.
Apesar da apocrifia, Boxer valeu-se muito das informações contidas no Roteiro para escrever seu livro “Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686”, de 1952. Em que parte ele é apócrifo e em que parte é autêntico? Depois de considerar o Roteiro como fraudulento, Brandão registra: “o Roteiro, apesar de, senão por razão de sua forjificação, permanece como um dos mais importantes documentos referenciais da história da construção espacial da Capitania do Rio de Janeiro.” Marco Polo, depois de considerar o documento apócrifo, ressalta que se trata de “importante documento, agora revisitado (Souza, 2012) e que não pode ser descartado.”
Os autores citados não explicam se o documento é totalmente falso ou se apenas parte dele foi forjada. Mesmo assim, não esclarecem a parte confiável e a parte falsa.
Vamos por etapas. Paulo Knauss e Fabiano Vilaça dos Santos demonstraram sobejamente que os Sete Capitães existiram e ocuparam posição de destaque na economia e na política da cidade do Rio de Janeiro. Igualmente existe a carta de doação de sesmarias aos fidalgos pelo governador do Rio, Martin Correia de Sá, em 1627. Está demonstrada também a existência da Escritura de Composição e Repartição dos Currais dos Goitacazes”. Ela está registrada nos livros da Câmara Municipal de Campos e no Livro de Tombo do Colégio de São Bento.
Por que os Sete Capitães teriam feito um registro tão fidedigno de suas viagens às terras ganhas gratuitamente entre os rios Macaé e Iguaçu, designando como relator o capitão João de Castilho ou um escrivão contratado? Primeira hipótese: eles talvez tivessem a intenção de descrever as terras quase desconhecidas então, assim como fizeram os viajantes estrangeiros do século XIX em todo Brasil. Na parte relativa à segunda viagem, está escrito: “... estamos em país inculto, que está em uma escuridade, é necessário que nós lhe demos a luz da aurora para os nossos vindouros e para sua civilização.” Arrogância típica do europeus, mas justificável na época.
Os sesmeiros também poderiam ter o desejo de deixar um exemplo para seus herdeiros. Ainda na parte relativa à segunda viagem, em 1633, lê-se: “...ficamos todos com as nossas propriedades divididas, debaixo de boa harmonia, e outro tanto desejamos que aconteça aos nossos herdeiros (...) fizemos esta descrição para servir de memória aos nossos vindouros, juntamente para o que possa acontecer ao futuro.”
Esta passagem é iluminadora. Conhecemos as brigas por terra até hoje, o que era muito comum no século XVII, com a imprecisão das demarcações de lotes. Lembremos do acordo entra Pero de Góis e Vasco Fernandes Coutinho para estabelecer os limites das capitanias do Espírito Santo e de São Tomé. Pode ser também que esta frase tenha sido inserida no Roteiro anos depois em razão dos interesses cobiçosos de Salvador Correia de Sá e Benevides, dos Jesuítas e dos Beneditinos. Considerar todo documento apócrifo por seu final ou informações não contidas nele é jogar a água da bacia com a criança fora depois do banho.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.

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