Maestro Ethmar Filho - Mário Tavares: o maestro que transformou a regência brasileira em patrimônio cultural
*Maestro Ethmar Filho - Atualizado em 23/07/2026 11:16


Poucos maestros exerceram influência tão ampla sobre a música de concerto brasileira quanto Mário Tavares. Durante décadas, seu nome esteve associado à excelência artística, ao rigor técnico e ao compromisso com a formação de novas gerações de músicos. Mais do que um regente de prestígio, Tavares consolidou-se como um dos principais responsáveis pela modernização da prática orquestral no Brasil, deixando um legado que permanece vivo nas instituições musicais e na memória de seus discípulos.
Nascido no Rio de Janeiro, em 1921, Mário Tavares demonstrou desde cedo uma notável aptidão para a música. Sua formação ocorreu em um período de intensa transformação cultural no país, quando a música erudita buscava consolidar uma identidade nacional sem perder o diálogo com as grandes tradições europeias. Ainda jovem, dedicou-se ao estudo da teoria musical, da composição e da regência, construindo uma sólida base técnica que o acompanharia ao longo de toda a carreira. Sua ascensão profissional foi marcada pela competência e pela disciplina. Ao longo das décadas de 1940 e 1950, começou a conquistar espaço entre os principais regentes brasileiros, destacando-se pela precisão dos gestos, pela clareza das interpretações e pela capacidade de extrair das orquestras sonoridades refinadas. Seu estilo evitava gesticulações excessivas, privilegiando uma comunicação objetiva com os músicos, característica que lhe rendeu respeito tanto entre instrumentistas quanto entre colegas de profissão.
A consolidação de sua carreira coincidiu com o período de fortalecimento das instituições sinfônicas brasileiras. Em uma época em que o país investia na criação e no aperfeiçoamento de corpos estáveis, Mário Tavares participou ativamente desse processo. Sua atuação esteve ligada a importantes orquestras nacionais, nas quais desenvolveu repertórios que conciliavam os grandes clássicos universais com obras de compositores brasileiros. Essa valorização da produção nacional tornou-se uma das marcas de sua trajetória. Embora conduzisse com frequência partituras de Beethoven, Brahms, Mozart, Tchaikovsky e outros mestres do repertório internacional, nunca deixou de abrir espaço para compositores brasileiros. Ao fazê-lo, contribuía para aproximar o público das criações nacionais e fortalecia a presença da música brasileira nas salas de concerto. Sua dedicação à difusão da cultura musical também alcançou o rádio e a televisão, meios de comunicação que, sobretudo entre as décadas de 1950 e 1970, desempenharam papel fundamental na democratização do acesso à música de concerto. Em suas participações, procurava apresentar programas de maneira didática, explicando repertórios, contextualizando compositores e reduzindo a distância entre o público leigo e o universo da música erudita.
Como educador, Mário Tavares exerceu influência profunda sobre diversas gerações de regentes. Muitos dos maestros brasileiros que posteriormente assumiriam posições de destaque receberam dele orientações técnicas ou foram inspirados por sua metodologia de trabalho. Sua preocupação ia além da execução correta das partituras: defendia que o regente deveria compreender profundamente a estrutura da obra, seu contexto histórico e as intenções do compositor antes de subir ao pódio. Essa visão fazia dele um músico de formação humanística. Para Tavares, a regência não consistia apenas na marcação dos tempos, mas na construção de uma interpretação coerente, resultado de estudo, sensibilidade e permanente diálogo com os integrantes da orquestra. Era comum que seus ensaios fossem descritos como verdadeiras aulas de música, nas quais aspectos técnicos conviviam com reflexões sobre estilo, estética e expressão artística.
Ao longo da carreira, recebeu inúmeras homenagens e reconhecimentos pela contribuição prestada à cultura brasileira. Sua reputação ultrapassou o ambiente estritamente musical, tornando-o referência para pesquisadores, críticos e instituições dedicadas ao desenvolvimento das artes. Em diferentes momentos, participou de importantes projetos culturais voltados à valorização do patrimônio musical brasileiro, colaborando para a preservação de obras pouco executadas e incentivando novas interpretações de compositores nacionais. Outro aspecto marcante de sua personalidade era o equilíbrio entre autoridade e cordialidade. Os músicos que trabalharam sob sua direção frequentemente destacavam sua capacidade de conduzir ensaios com firmeza, sem recorrer ao autoritarismo. Essa postura favorecia um ambiente de respeito mútuo e estimulava o comprometimento artístico das orquestras, refletindo-se na qualidade das apresentações. Seu trabalho também contribuiu para ampliar o reconhecimento social da figura do maestro no Brasil. Em um período em que a profissão ainda era pouco conhecida pelo grande público, Mário Tavares ajudou a demonstrar que o regente é o elemento responsável pela unidade interpretativa de uma orquestra, coordenando dezenas de músicos em torno de uma mesma concepção artística. Mesmo após encerrar suas atividades à frente dos principais conjuntos sinfônicos, sua influência permaneceu evidente. Gravações, registros audiovisuais, depoimentos e, sobretudo, a atuação de seus antigos alunos continuam preservando uma tradição interpretativa construída ao longo de décadas. Seu nome permanece associado ao desenvolvimento institucional da música de concerto brasileira e ao fortalecimento da formação profissional de maestros no país. Mário Tavares faleceu em 1994, deixando uma obra construída menos por composições próprias do que pela extraordinária capacidade de revelar a riqueza do repertório sinfônico por meio da interpretação. Seu legado demonstra que o trabalho de um maestro ultrapassa o instante do concerto: ele se perpetua na educação de novos músicos, na consolidação das instituições culturais e na formação do público.
Hoje, mais de três décadas após sua morte, sua contribuição continua sendo reconhecida como parte essencial da história da música brasileira. Em um país onde a consolidação das orquestras exigiu perseverança e dedicação de inúmeros artistas, Mário Tavares ocupa lugar de destaque entre aqueles que compreenderam a regência como uma missão cultural. Sua trajetória permanece como exemplo de disciplina, sensibilidade e compromisso com a excelência artística, atributos que fizeram de seu nome uma referência permanente na música de concerto brasileira.

*Mestre e Doutorando em Cognição e Linguagem pela UENF, regente de corais e de orquestras sinfônicas há 25 anos

ÚLTIMAS NOTÍCIAS