Arthur Soffiati - A grande questão do nosso tempo
- Atualizado em 20/06/2026 07:12
O historiador indiano Dipesh Chakrabarty escreveu: “... o aquecimento global antropogênico traz à tona a colisão – ou o defrontar-se – de três histórias que, do ponto de vista da história humana, normalmente se supõe estarem funcionando em ritmos tão diferentes e distintos que, para todos os fins práticos, são tratadas como processos separados: a história do sistema Terra, a história da vida, incluindo a da evolução humana no planeta, e a história mais recente da civilização industrial (para muitos, o capitalismo).” (O global e o planetário: a história na era da crise climática. São Paulo/Rio de Janeiro: Ubu/PUC-Rio, 2025).
De fato, os historiadores, em sua maioria, continuam indiferentes à crise ambiental planetária da atualidade. Quem estuda a história da economia do Brasil, por exemplo, aborda a cana-de-açúcar, o ouro, o café etc. como atividades econômicas apenas, sem abordar seus impactos ambientais. Se se dedica à história política, não lhe interessa a política ambiental de cada governo. O mesmo acontece com a história das ideias, da cultura etc. A questão ambiental ainda é restrita ao ativismo. O professor pode até simpatizar com ela, mas não a inclui no seu planejamento de aula. A pesquisa acadêmica até avançou no terreno da história ambiental, mas se mostra fragmentária e restrita a redutos.
Desde 1978, com a publicação, no Brasil, de “A humanidade e a mãe Terra”, de Arnold Toynbee (Rio de Janeiro: Zahar), minha visão de história mudou. Tornei-me o que se denomina de historiador ambiental. Toynbee hoje (ou sempre) foi um historiador menosprezado pelos seus pares por ter assumido posturas políticas de militante nas questões de genocídios, de defesa dos palestinos e de condenação à guerra. Depois de se dedicar durante anos ao estudo da emergência, expansão e declínio das civilizações, ele estudou o processo de globalização do mundo pelo ocidente e concluiu que a história havia alcançado novo patamar: a cultura ocidental globalizada agredia também a Terra.
A Terra e a Vida interagem desde que foram colocadas em contato. Só não se pode esperar que ambos os atores tivessem consciência do encontro. A vida sofreu bastante com as mudanças que se operaram na Terra ao longo de milhões de anos. Basta considerar as crises naturais por que passou o planeta, gerando grandes extinções de espécies vegetais e animais, mas, ao mesmo tempo, propiciando a emergência de novas.
Com a emergência da humanidade, em torno de um milhão de anos, três histórias convergem: a da Terra, a da vida e a humana. O ser humano, até o momento, é a única espécie dotada de consciência. Mas, viveu ao longo de um milhão de anos sem se dar conta dos impactos ambientais de suas atividades. Elas eram tão limitadas que não causavam preocupação nos indivíduos e nas sociedades. As crises ambientais que sociedades humanas causaram no vale do Indo, no Sudeste Asiático, na América Central e na ilha de Páscoa foram muito limitadas para provocar reflexões em grupos humanos, que costumavam recorrer ao sobrenatural.
Mais que a crise climática antropogênica mencionada por Chackabarty, a humanidade vive uma crise ambiental planetária causada pela economia capitalista globalizada. Crise que não se limita ao clima, embora este seja mais evidente. No meu entendimento, esta crise tem sua origem no século XV, com a expansão marítima da Europa, e não na Revolução Industrial, em fins do século XVIII. Antropoceno não é a melhor designação para ela. Afinal, o termo remete à ideia difusa de que a espécie humana é naturalmente agressora do ambiente. Pensadores críticos entenderam que capitaloceno é expressão mais adequada para nomear a crise ambiental da atualidade por ser causada pelo capitalismo.
Também tenho minhas dúvidas. Tanto os defensores do antropoceno quanto do capitaloceno sustentam que a humanidade criou uma nova época geológica que sucedeu o Holoceno. Adoto postura mais prudente: a humanidade globalizada pelo capitalismo gerou uma crise ambiental dentro do Holoceno nos últimos 600 anos. Não se pode afirmar ainda que se trata de uma crise estrutural ou conjuntural. Tem mais traços de crise estrutural. Seria uma crise inédita: causada pelas atividades humanas, global e estrutural ao mesmo tempo.
Voltando a Chakrabarty, o encontro das histórias da Terra, da Vida e da Humanidade ocorreu há cerca de um milhão de anos, mas esse encontro só se tornou consciente pela humanidade nos últimos cinquenta anos, mesmo assim por uma elite intelectual. Mesmo assim, por alguns integrantes dessa elite, que não só estudam a crise pelos ângulos da física, da biologia e das humanidades. Acompanhando a produção historiográfica atual na área de história ambiental, noto a tendência de privilegiar o local em detrimento do global. De fato, examinar aspectos locais da crise permite um aprofundamento maior da pesquisa, mas o global deve sempre iluminar o local. O global nunca pode ser perdido de vista.


*Professor, historiador, escritor, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras.

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