Arthur Soffiati - Agropecuária na restinga do Paraíba do Sul
A vegetação nativa da restinga de Paraíba do Sul foi a primeira riqueza que ela proporcionou a uma economia de base europeia, ou seja, uma economia de mercado. De imediato, o valor da restinga estava nas partes mais afastadas do mar: a vegetação florestal que desceu da mata atlântica e se enraizou em terreno arenoso seco. Nas partes úmidas da restinga, a vegetação apresentava porte arbustivo e herbáceo. Mais próxima do mar, a vegetação também reduz sua estatura pelas limitações criadas pelo vento e pela salinidade.
Não se tem notícia de que esta vegetação, em seus três estratos principais, integrasse a economia dos povos pioneiros que desceram da serra para a planície antes da chegada dos europeus. Talvez gravetos para fogueiras, mas nenhuma extração de maior porte. Já o pobre europeu ou mestiço da restinga cortava a vegetação nativa em pequena escala para vendê-la como lenha ou para o plantio de pequena roça. Assim Alberto Ribeiro Lamego caracterizava, em parte, o muxuango.
Já o latifundiário encontrou no desmatamento amplo sua primeira atividade lucrativa. Ele visava primeiramente as madeiras-de-lei, que contavam com bom preço na colônia e na metrópole. No limite entre a restinga e os tabuleiros, árvores imponentes abundavam. Se o transporte por terra era difícil, por água ele ficava facilitado. E a restinga aprisionou muita água no seu âmbito. Sobretudo na margem esquerda do rio Paraíba do Sul, a menor umidade geral da restinga favoreceu o desenvolvimento de árvores valiosas para o mercado, e drenos aproveitados para a abertura de canais de navegação permitiam o escoamento de madeiras nobres. Os principais foram o de Cacimbas e o de Nogueira. O de Cacimbas imperou na margem esquerda do rio Paraíba do Sul em quase todo o século XIX. Foi o único canal totalmente aberto em terreno de restinga aproveitando ambientes aquáticos naturais preexistentes. Nas minhas andanças pela restinga de Paraíba do Sul, de 1970 em diante, ainda encontrei árvores com 25 metros de altura, escasseando pouco a pouco.
À primeira vista, a análise de Alberto José de Sampaio e de Alberto Ribeiro Lamego com respeito à comparação da restinga com a planície aluvial está correta. Pela própria natureza, o substrato argiloso do brejo é mais fértil que o substrato arenoso da restinga, salitrado e ventoso. Daí a exaltação do brejo e a depreciação da restinga. Naturalmente, o brejo (a parte mais interior da planície) apresentou aos primeiros colonos europeus uma fácil fertilidade que retardou sua entrada na restinga.
E o desmatamento da restinga não se deteve diante do maior manguezal do Rio de Janeiro, na foz do rio Paraíba do Sul. Muita árvore de mangue foi cortada para atender as usinas, ferrovias e fornos de olarias. Hoje, grandes pastos se estendem no âmbito desse manguezal.
Com o tempo, a ampliação da economia, o desgaste da planície aluvial, os fertilizantes e os implementos agrícolas favoreceram a entrada de uma economia rural de grande porte na restinga. O que restou de vegetação nativa foi removido por máquinas, salvando-se apenas algumas manchas dela. A monoatividade foi ganhando terreno. O cultivo de cana-de-açúcar encontrou uma área de expansão na restinga, assim como o gado. Outros cultivos tiveram sucesso na restinga, como o abacaxi e a mandioca. Atualmente, é comum encontrar na restinga o cultivo de eucalipto, que muitos entendem como reflorestamento.
Observe-se que as pastagens são, geralmente, extensivas. O delgado solo da restinga tem de ser compensado com insumos químicos. Para a restinga também foram sendo empurrados os pequenos produtores de alimentos. A construção do complexo portuário do Açu mostrou que existiam muitos pequenos produtores rurais de olerícolas. Eles aqueciam a economia de alimentos e passavam despercebidos aos olhos dos consumidores das cidades.
Outro fator foi fundamental para a entrada da agropecuária na restinga: a drenagem em larga escala promovida pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS). Entre 1940 e 1950, a maior parte da restinga de Paraíba do Sul, na margem direita, foi drenada. Os canais de Quitingute, São Bento e da Flecha drenaram muitas lagoas e brejos, disponibilizando terras para a agropecuária. Na margem esquerda da restinga, os canais do Vigário e Engenheiro Antonio Resende cumpriram esse papel em menor escala.
Hoje, o observador interessado que cruza a BR-356 e as RJs-194, 196, 216 e 240 divisa pastos e lavouras de um lado e de outro, com tufos remanescentes de vegetação nativa e algumas pequenas áreas alagadas, remanescentes de lagoas.
Remanesceram desse processo de dessecação e desmatamento boa parte do manguezal da foz do Paraíba do Sul, o banhado da Boa Vista com a lagoa do Açu e pequenas áreas de floresta nativa que deveriam ser protegidos pelas várias figuras do Código Florestal.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras