Hamilton Garcia de Lima: O rebaixamento do Brasil e a alternativa
- Atualizado em 21/02/2026 08:31
Hamilton Garcia
Hamilton Garcia / Folha da Manhã
O país chegou ao fundo do poço ou isto ainda é apenas o meio do caminho? Sim, porque, não é de hoje, mas a paisagem impressiona: juízes da Suprema Corte arrecadando milhões para proteger interesses econômicos escusos, parlamentares torrando bilhões do erário sem prestar contas e o filho do Presidente da República metido com pilantras que, sob o beneplácito do Ministério da Previdência, tungaram outros bilhões de aposentados e pensionistas da União. Para piorar, o Presidente, em ano eleitoral, faz como o antecessor e arregaça os cofres públicos, já esgotados, fazendo o diabo para se reeleger. Haja bilhão!
Até quando o país aguenta? Não se sabe ao certo, pois não estamos diante de um problema conjuntural, mas sistêmico, e as crises sistêmicas têm uma dinâmica e temporalidade próprias. Em termos fiscais, os economistas falam em 2027 como o ano do apagão orçamentário.
A crise da Nova República emergiu com força em 2013, quando todas as grandes forças políticas que tomaram parte na luta pela redemocratização já haviam sido, uma após outra, engolfadas pelas práticas políticas neopatrimonialistas, que misturam interesses privados com públicos numa pegada tradicionalista. Ou seja, o interesse privado não constituindo parte do interesse público, como ocorre na sinergia capitalista das sociedades modernas bem sucedidas. Não que nelas não haja corrupção, mas que esta costuma reforçar o investimento produtivo ao invés de sabotá-lo.
O Brasil é um desses casos onde a modernidade foi embarreirada por um Estado escravista que oprimia sobretudo escravos, mas também toda a so ciedade inclusive sua camada empreendedora. Mesmo na República, o processo de democratização se viu contido pela força da tutela municipal (coronelismo) e estatal (bacharelismo), parcialmente suspensas nos períodos autoritários de 1937-45 e 1964-84 – mas nunca completamente extirpadas. A urbanização acelerada do “milagre" de 1968-73 foi capaz de atenuar a primeira, mas não a segunda, e as forças democráticas mais autênticas de então consideravam sua superação como condição necessária para um crescimento econômico com distribuição de renda. No final dos anos 1970, a exuberância do movimento estudantil, a organização de classe média e o despertar popular-operário, indicavam ser possível a superação da contradição entre modernização econômica e democratização político-social. Mas não foi o que aconteceu.
Esta sociedade civil, formada nos "anos de chumbo" do “milagre”, seria atingida em cheio pela recessão de 1980-82 e as massas populares despertadas seguiriam em rota eleitoral pelos atalhos do “chaguismo" – facção neopatrimonialista/colaboracionista do MDB carioca na oposição ao regime militar. Acima de tudo, esta sociedade urbana de massas ansiava por uma inclusão econômica, ou seja, acesso franco ao mercado de consumo recém-revelado. Enquanto isso, as elites liberal-sociais e a esquerda tradicional optavam por contornar o desafio de reinventar o desenvolvimentismo e lançavam suas fichas na política de direitos sociais para a legitimação da Nova República (1985). O “tudo pelo social”, proclamado pelo Governo Sarney (1985-89) teria um peso decisivo nas eleições de 1986 sob a bandeira do combate à inflação e da garantia dos direitos sociais. Nesta perspectiva, o Estado de bem-estar social, sustentado pela taxação indireta sobre bens e serviços, afetando a indústria e o consumo, se sustentaria puxando-se pelos próprios cabelos, como nas fábulas do Barão de Münchhausen (1785).
A mudança do eixo sustentador do sistema, da produção para o consumo, foi gravada na Constituição de 1988 também com o empoderamento dos poderes Legislativo e Judiciário, mascarando a necessidade do planejamento estatal, pelo Executivo, para a continuidade do desenvolvimento nacional; vale dizer, das forças produtivas capazes de sustentar o bem-estar e o consumo das famílias. Vinte e cinco anos depois, em 2013, a fórmula mágica da prosperidade sem trabalho começou a fazer água, sem encontrar lideranças capazes de corrigir o rumo em direção à retomada do desenvolvimento.
O apagão de liderança parece estar chegando ao fim, mas a falta de projeto nacional mantém-se pela força da inércia da memória política, expressa ainda nas candidaturas favoritas. Não obstante o desgaste à vista de todos, fora da bolha, a exploração ad infinitum do tema da pobreza, que atravessou os quase 17 anos de exercício do poder lulopetista sem oferecer uma saída verdadeira para o problema – como fizeram os chineses –, continua firme com a previsão do pacotão de bondades governamentais no montante de R$90 bilhões para este ano. Do lado do bolsonarismo, a indigência intelectual abre pouco espaço para propostas efetivas, fora os chavões de sempre, pela pátria, a família, Deus e o mercado (liberdade), que, ao cabo, acabaram "pragmaticamente" ressignificados pelo centrão no governo passado.
A saída deste atoleiro, mais uma vez, estará nas mãos do eleitor neste 2026. Para tanto, temos de voltar nossos olhos para a história profunda do país e aprender com suas lições, independentemente do que proclamam as ideologias. Indo direto ao ponto: precisamos revalorizar o trabalho, o estudo, portanto a disciplina, sem deixar de ser o povo espontâneo e alegre que sempre fomos. Precisamos nos livrar da condescendência com os malfeitos e parar de justificá-los em nome da “justiça social" ou da “governabilidade" – o que não faz nenhum sentido, pois os pobres são os mais afetados por esta permissividade.
Precisamos revalorizar o Estado como garantidor sistêmico dos arranjos econômicos capazes de criar cadeias produtivas complexas, ao invés de financiador da farra política, de desvios burocráticos ou políticas que buscam fazer do cidadão um eterno devedor do Estado e de seus governantes. Precisamos de menos "orçamento secreto”, bondades eleitoreiras e penduricalhos para burlar o teto salarial do funcionalismo, e mais qualidade nas políticas públicas, inclusive transformando as casas de custódia em escolas de qualificação profissional.
Precisamos de mais investimento público do tipo que criou a Petrobras, a Vale, a Embraer e a Embrapa! Precisamos de crédito para expandir a produção de bens e serviços, e diminuição dos gastos governamentais supérfluos/ruins. Transferência de renda só em troca de qualificação para o trabalho e cuidados efetivos com a prole. Precisamos revalorizar nossos técnicos e aqueles que têm conhecimentos úteis para a coletividade: menos espetáculo e mais ciência&tecnologia. Precisamos revalorizar nosso passado progressista e aprender com o leste asiático – como nos apontou o Prof. João Paulo de Almeida Magalhães (mesmo no PSDB!).
Precisamos superar a visão dicotômica entre liberalismo x desenvolvimentismo, além da visão romântica da teologia da distribuição – que levou Cuba e Venezuela à ruína – e abandonarmos, como nos ensina o Prof. Mangabeira desde Harvard, o modelo perdulário que combina políticas redistributivas na base da sociedade, sem desenvolvimento, com a promoção de clepto-elites em escala.
Tais mudanças, graduais, poderiam começar por um Presidente da República sem os vícios dos atuais favoritos. Está em nossas mãos. Se não fizermos isto agora, por livre escolha, faremos por absoluta falta de opção mais adiante, depois que o Brasil se ver, efetivamente, rebaixado na escala das nações e sem chances de retorno nas próximas décadas.
*Cientista Político e professor da Uenf 

 
 

ÚLTIMAS NOTÍCIAS