Fernando da Silveira - A figura ímpar de Alberto Ribeiro Lamego (I)
Fernando da Silveira - Atualizado em 26/05/2021 17:11
Alberto Ribeiro Lamego
Alberto Ribeiro Lamego / Divulgação/IHGB
“Alberto Ribeiro Lamego consegue traçar com perfeição, nas brumas dos tempos, o perfil dos primeiros habi-tantes das restingas, que os estudos antropológicos mal deixam adivinhar” — Heitor Bracet.
Indubitavelmente, Alberto Ribeiro Lamego é de fato uma figura ímpar, real, verdadeira, pois não deixou ao término de sua caminhada pela Terra o zero dos derrotados, mas sim a lembrança do seu inquestionável valor a resplender feericamente na própria História do Brasil. Parece-me imperioso registrar, ao desenvolver esta tese, que na historiografia campista, tomada em sua total abrangência, já avultavam em sua época figuras, dentre outras, de expressão nacional da importância de Júlio Feydit com os seus “Subsídios para a História dos Campos dos Goytacazes”. E tínhamos ainda o pai do próprio Alberto Ribeiro Lamego, o notável Alberto Frederico de Moraes Lamego, com a genial “Terra Goitacá”, obra tecida com dados colhidos na Torre de Tombos, em Portugal. Mas, ninguém, mesmo numa visão que abarca o que há de melhor no Brasil e no mundo, conseguiu, da maneira de Lamego Filho (como também era conhecido), traçar o perfil dos nossos irmãos com tanta clareza, sobretudo os aborígenes, em função dos fatores geográficos. Algo registrado por Heitor Bracet em várias oportunidades, dentre elas no prefácio da 1ª edição de “O Homem e a Restinga”, de Alberto Ribeiro Lamego. É que nesta obra somos levados a ver bem de perto o homem da restinga. E não entristecidos, como assinalava Heitor Bracet, quando deparávamos com esta chocante advertência: Evapora como fumaça, “esfuma-se nas brumas dos tempos o perfil dos primitivos habitantes das restingas, que os estudos antropológicos mal deixam adivinhar”.
Tudo leva a crer que “A Geografia prefigura a História”, como nos alertou Euclides da Cunha. Daí o caminho seguido por Alberto Ribeiro Lamego em não se distanciar da geografia na abordagem dos temas históricos. Os que estudam o conjunto de suas obras sabem que “as pesquisas antropogeográficas, preliminarmente, exigem o conhecimento da base física em que se move o homem, e que resulta da síntese dos fenômenos telúricos que relacionam entre si as diretrizes da evolução humana”. Inegavelmente, para se conhecer de verdade as condições planetárias em que o homem pisa ou mergulha, parece-me imperioso vê-las dos estratos de origem terrestre ou marinha. Aprendi também com Lamego Filho e com os que seguem a sua linha científica que, para se conhecer de fato a historiografia, tem que se olhar para o alto, mas sem medo de abrir os olhos com toda força também para baixo, buscando tudo, sobretudo as pedras que pisamos em nossa caminhada. Sendo bom registrar que a heografia, como muitos intelectuais entendem, “é formada de pedras, ou melhor, de rochas; a geologia é mais que sua irmã — é sua alma”. Acredito que, além do brilho do seu texto a nos encantar em “O Homem e a Restinga”, tão apaixonante como o magnífico “O Homem e o Brejo”, foi a penetrante, a inteligente abordagem da restinga o que levou Lamego Filho a receber o Prêmio José Boiteux, quando lhe foi conferida a medalha de ouro pela Sociedade Brasileira de Geografia. Sim, foi o valor científico deste seu livro, lançado sob os auspícios do Conselho Nacional de Geografia, que o fez merecedor do referido prêmio. Inegavelmente, Alberto Ribeiro Lamego sempre foi um cientista.
Contudo, o cientista, mesmo em sua plenitude, jamais traiu o amante da boa literatura. Como se pode observar em seu cativante livro “A Planície do Solar e da Senzala”. Obra em que Lamego Filho revela com todas as cores o seu refinamento literário. O que fez o requintado, o notável esteta, o delicioso professor (segundo Izimbardo Peixoto), o jurista, o sociólogo Oliveira Viana nela encontrar “ricas matizes do seu estilo”. E Oliveira Viana vai além ao prefaciar “A Planície do Solar e da Senzala”, proclamando que Lamego Filho “é um escritor de estirpe, um colorista cheio de largas provisões de tintas”. E não para por aí ao traçar as características do esteta campista, pois via nele também a raça dos verdadeiros, dos autênticos escritores. Os que “com o senso do traço dominante, do relevo, do movimento, nos revelam as suas características primordiais”. Tendo Oliveira Viana, também no prefácio do livro “A Planície do Solar e da Senzala”, chegado a ponto de bradar, ficando prestes de gritar para os que não sabem ler e ver, que Lamego Filho era um apaixonado pela região em que vivia. Sim, isto inegavelmente ganha clareza solar pela pena de Oliveira Viana: “Enamorado da Terra, das Águas, dos Céus, das Florestas, em suma, da Vida panorâmica, em que formou o seu senso-rium, ele parece ter recolhido e fixado com a sua imaginação de visualista, toda a riqueza de tons, de cores e de sons do pequeno e policrômico microcosmo rural, em que nasceu e vive”.
É que Lamego Filho tinha no local do corpo que abriga o coração, paradoxalmente lampejando sem parar, um alto sentido de pertencimento. Sempre esteve consciente de que pertencia à sua terra. Estava fortemente convencido de que fazia parte de um lugar, de um grupo, de uma história. E tanto é verdade o que estou dizendo que, em 1943, quando publicou “O Homem e a Guanabara”, já havia dado à luz, ao lado das outras obras aqui referidas, textos fascinantes pela beleza e pelo teor cientifico acompanhado do maior entusiasmo no que concerne ao Brasil, como “Esboço Geológico do Estado do Rio de Janeiro”, “Geognose da Terra Goitacá”, “Carta Geológica da Cidade do Rio de Janeiro”, “O Maciço do Itatiaia e Regiões Circundantes”, “Teoria do Protognaisse”, “A Gipsita da Boa Vista”, “Escarpas do Rio de Janeiro”, “Mármores de Muriaé”, “Restingas na Costa do Brasil”, “A Geologia de Niterói na Tectônica da Guanabara”, “Ciclo Evolutivo das Lagunas Fluminenses”, “Areias Arqueanas do Brasil” e “Esboço Geológico do Estado do Rio de Janeiro”. E, sobretudo, nos propiciando o magnifico texto, que então já resguardava a nossa potencialidade econômica da possível boca aberta dos estrangeiros esfomeados, intitulado “A Bacia de Campos na Geologia Litorânea do Petróleo”.
Vou ousar assim dizendo que Lamego Filho, por cultivar o pertencimento, orgulhava-se de fazer parte do Brasil, era um patriota com todas as letras maiúsculas, tal o amor ao seu país. E se empenhava em servi-lo com ardor entregando-se patrioticamente aos deveres cívicos. Tendo ainda o maior apego e admiração por tudo o que se relacionava com a sua terra. Mas, nunca, jamais foi um nativista, pois abominava a xenofobia, chegando a ter asco, a ter nojo dos que cultivam o ódio ao estrangeiro. Evidentemente, não podia ser outro o comportamento de um intelectual que des-cortinou em admiráveis obras humanistas a importância do congraçamento, quer focando com nitidez todos problemas ligados à terra e ao homem, e as relações entre uma e outro através das influências recíprocas, quer mostrando a necessidade imperiosa de uma relação fraterna entre os seres humanos e os seus semelhantes. Sobretudo, com o seu convizinho.
Pode-se dizer com certeza que o esteta Lamego Filho sempre esteve iluminado pelo bem-querer, entregando-se naturalmente ao sentimento dos que gostam dos seres humanos. Razão pela qual falava a mesma linguagem dos estrangeiros fascinados pelo Brasil sem intenções maquiavélicas. Basta ler, nos primeiros instantes do seu livro “O Homem e a Guanabara”, os trinta e um elogios que ele relacionou dos hóspedes de vários países que se curvaram ao es-plendor do Rio de Janeiro. Vou citar alguns deles: “Beleza é coisa rara e beleza perfeita é quase um sonho. O Rio, essa cidade soberba, torna-a realidade (...). Não há cidade mais encantadora na Terra”... — Stefan Zweig; “Um quadro cujo encantamento não saberia a pena descrever (...). Nós vimos desenrolar-se nos nossos olhos um panorama como seguramente o mundo raramente oferece” — Ida Pffeifer; “Não há viajante que tendo visto o Brasil, não fale com admiração do espetáculo que oferece a baia do Rio de Janeiro. O espanhol esquece neste momento as suntuosidades de Sevilha e de Granada; o napolitano apenas relembra vagamente as ondas azuis que vêm morrer aos pés de sua cidade voluptuosa” — Exppilly; “Se o geólogo possuir uma alma, algum amor pela beleza, não há cenário que o possa mais impressionar com toda a sua fria análise dos elementos geológicos e topográficos. Nenhum me afetou tanto, não somente como observador científico, mas como homem, do que das vizinhanças do Rio visto do topo do Corcovado” — Hartt; “Este Rio de Janeiro é um lugar majestoso... A magnificência mais áspera acha-se aí casada na harmonia mais perfeita com o mimo delicado de formas e cores” — Mansfield; “Thalatta! Thalatta! Esta viva e jubilosa exclamação dos gregos ao avistarem o mar que os devia restituir à doce e estremecida pátria, irrompeu involuntariamente dos lábios, quando surgiu, no horizonte, em toda a plenitude da sua magnificência, a deslumbrante baia do Rio de Janeiro” — Lamberg.
Lamego Filho sabia ajustar, como se pode verificar na página vinte e dois do seu livro “O Homem e o Brejo”, os nossos interesses resguardados com os que são também honestamente vantajosos para os estrangeiros, razão pela qual foi delegado do Brasil nos Congressos Internacionais de Geologia de Londres (1948), de Argel (1952) e de Copenhague (1960). E voltou a servir o Brasil em Nova Delhi (1964), e nas reuniões da Comissão da Carta Geológica do Mundo, em Hanover, Alemanha (1965), e em Paris (1966). E deu continuidade a esta hercúlea tarefa em Montevidéu (1967), bem como no Rio de Janeiro (1967). E mais adiante se entregou ao Congresso Internacional de Geologia de Praga (1968). Não deixando de participar também das reuniões da Comissão da Carta Geológica do Mundo em Lima (1969) e em Paris (1970). E chegou a encontrar tempo ainda, em 1970, para integrar os componentes do Congresso Latino-Americano de Lima. Vou parar por aqui com o registro de suas atividades intelectuais, para não cansar o leitor, limitando-me a dizer que ele chegou a ser vice-presidente da Comissão da Carta Geológica Internacional do Mundo, então com sede em Paris.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS