O momento intelectual da política: as razões do bolsonarismo
19/06/2020 08:29 - Atualizado em 19/06/2020 09:01
Karl Marx no Museu Britânico
Karl Marx no Museu Britânico
Enfrentar de verdade o bolsonarismo exige diagnosticar de modo complexo o suficiente as razões sociais, culturais, econômicas e políticas de sua ascensão e vitória. As razões são estruturais e múltiplas. Não podem ser apreendidas com “contos de fadas políticos para adultos” que reduzem a complexidade dos eventos atribuindo culpa e responsabilidade a pessoas. Não se pode negar que a ascensão e vitória do bolsonarismo tenha a contribuição de decisões pessoais, seja de grandes líderes políticos, empresariais, religiosos, ou mesmo as decisões de cada indivíduo que votou em Bolsonaro, apoiou o bolsonarismo ou foi negligente com a ameaça que ele sempre representou.
No entanto, as razões principais não têm a ver com pessoas, mas sim com problemas estruturais na economia, com a frustração social crescente em relação aos serviços públicos e as respostas oferecidas pelos partidos que dominaram a política nacional desde a constituição de 1988. Entender estas razões exige um momento intelectual da esquerda que é da maior relevância política não só a longo, mas também a curto e médio prazo. Sem entender e enfrentar as razões práticas que nos trouxeram a esta situação calamitosa não é possível oferecer estratégia efetiva contra o bolsonarismo. O enfrentamento político requer uma narrativa que seja capaz de redirecionar as disposições políticas que levaram as pessoas a votar e apoiar o bolsonarismo. Mas requer também um programa que consiga oferecer soluções para os problemas estruturais que continuam sendo uma oportunidade para a extrema-direita.
A autocrítica moral de pessoas é importante, sobretudo de quem lidera a política profissional e a formação da opinião pública. E ela não pode ser cobrada apenas de um partido político, mas de todos os envolvidos na vida pública. Mas a moral não é a fonte do problema e nem de sua solução. As fontes são múltiplas, mas envolvem sempre a cegueira de nossas elites políticas, midiáticas e intelectuais para os problemas estruturais da sociedade que batem a porta da política. Da parte dos progressistas, precisamos assumir que perdemos a capacidade de compreender a complexidade social do país, a magnitude de seus problemas de subdesenvolvimento econômico, educacionais, as frustrações de amplos setores médios e populares com o discurso da esquerda. O mesmo vale para os liberais. Como é possível que o liberalismo brasileiro continue ignorando suas contradições e seu colonialismo mental? O momento intelectual não é uma tarefa externa à atividade política. As razões sociais e políticas do bolsonarismo são as mesmas que explicam o fracasso de progressistas e liberais. Sem entendê-las em sua complexidade não é possível oferecer um caminho coletivo mais atraente e crível. As elites liberais e progressistas gostam de dizer que cultivam o conhecimento e o pensamento crítico, mas elas tem falhado em questionar a cultura político-intelectual que orientou suas ações nas últimas décadas, marcada sobretudo por moralismo, fatalismo sociológico e negação da questão nacional, e as vezes até por atitudes anti-intelectualistas de culto à personalidade. É preciso que o momento intelectual, no sentido maquiaveliano que o associa à virtude, tenha mais espaço na vida interna dos partidos políticos, não enquanto departamento isolado de reflexão, mas enquanto uma atividade permanentemente em contato com a política profissional e com a construção de programas partidários e governamentais.
Neste contexto, o livro de Ciro Gomes (Projeto Nacional: o Dever da Esperança. São Paulo, Leya, 2020) é boa novidade. Uma liderança política importante propõe, com seu livro, um debate público sobre as razões que nos trouxeram até Bolsonaro. Além de ser sucesso de vendas, o livro desencadeou debates interessantes, inclusive críticas vindas de marxistas. Nas décadas de 1950 e 1960, marxistas, nacional desenvolvimentistas e liberais desenvolveram perspectivas distintas sobre o subdesenvolvimento e as possibilidades de superá-lo em um debate produtivo que envolvia parte importante das lideranças políticas. Precisamos retomar este momento intelectual, sem esquecer de buscar soluções para os problemas urgentes que afetam o país. O enfrentamento do urgente não pode impedir a ação sobre o que é importante, especialmente porque sem encaminhar a solução de problemas estruturais não há enfrentamento sustentável e efetivo das urgências. A urgência de salvar a democracia depende da importância e centralidade que atribuímos a tarefa de compreender as razões sociais e políticas do bolsonarismo.
 
 
 
 
 
 
 
 

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    Roberto Dutra

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