Dora Paula Paes e Hevertton Luna
06/05/2026 07:13 - Atualizado em 06/05/2026 07:21
Deputado estadual Thiago Rangel
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Divulgação
O deputado estadual Thiago Rangel (Avante) foi preso na manhã de terça-feira (5) na 4ª fase da Operação Unha e Carne deflagrada pela Polícia Federal. Na ação foram cumpridos sete mandados de prisão preventiva e 23 de busca e apreensão nas cidades do Rio de Janeiro, Campos, Miracema e Bom Jesus do Itabapoana. As ordens judiciais partiram do Supremo Tribunal Federal (STF). Os elementos reunidos contra o parlamentar, segundo o ministro Alexandre de Moraes, apontam para a prática de crimes como organização criminosa, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitações.
O ex-chefe de gabinete da presidência da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rui Bulhões, também foi preso, assim como outras cinco pessoas ligadas a Thiago Rangel — operadores das áreas administrativa e financeira do esquema. Um mandado de prisão para o ex-deputado Rodrigo Bacellar (União), também foi expedido; ele, por sua vez, já está encarcerado desde março deste ano.
Rodrigo Silveira
Thiago Rangel foi conduzido, logo pela manhã, à delegacia da Polícia Federal em Campos. Um veículo Porsche, que pertenceria ao deputado, foi apreendido e levado ao pátio da PF, em Campos. Já a transferência do parlamentar para o Rio de Janeiro ocorreu no meio da tarde.
O objetivo, desta vez, explica a PF, foi combater fraudes em procedimentos de compra de materiais e de aquisição de serviços, como obras para reformas, no âmbito da Secretaria Estadual de Educação do Rio (Seeduc). A investigação foi iniciada após a análise de mídias apreendidas na 1ª fase da Operação Unha e Carne contra o vazamento de informações sigilosas por parte de agentes públicos.
As apurações que levaram a esta 4ª etapa revelaram os direcionamentos das contratações realizadas por escolas estaduais vinculadas à Diretoria Regional Noroeste da Seeduc — segundo a PF, uma zona de influência política de Rangel — para empresas previamente selecionadas e vinculadas ao esquema.
De acordo com nota da Polícia Federal, as apurações revelaram um possível esquema de direcionamento das contratações realizadas por escolas estaduais para empresas previamente selecionadas e vinculadas à organização criminosa investigada.
Nota da defesa - A defesa de Thiago Rangel divulgou uma nota após a prisão. No comunicado, ela diz que recebeu com surpresa a notícia e ainda ressaltou: “qualquer conclusão antecipada é indevida” e “o deputado nega a prática de quaisquer ilícitos”.
Na Alerj - A prisão de Rangel também repercutiu na Alerj. Com mais um parlamentar preso durante exercício na Casa, no curso da Operação Unha e Carne, — o primeiro foi o então presidente, Bacellar, — a Alerj tem o poder de votar se mantém ou revoga a prisão. Pelo regimento interno, essa decisão pode se arrastar por até dois meses. O rito passa pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes de chegar ao plenário, sem prazo para acontecer.
Rui Bulhões
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Reprodução
Prisão de Bulhões - Braço direito de Rodrigo Bacellar, Rui Bulhões também foi preso nesta 4ª fase da Unha e Carne, no Rio de Janeiro. Nas primeiras fases da Operação, que ocorrem desde dezembro do ano passado, a Polícia Federal vem encontrando planilha com pedidos políticos. As investigações avançaram após a análise de materiais apreendidos em gabinetes e espaços ligados a Rodrigo, incluindo o computador usado por Rui na presidência da Alerj.
Thiago Rangel e Alexandre de Moraes
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Diálogos violentos foram divulgados
Material reunido durante a investigação e reproduzidos pelo STF mostram que o deputado Thiago Rangel mantinha diálogos violentos. Em trechos divulgados pelo O Globo, Rangel, em conversa com um aliado, afirma: “vou dar jeito nele” e, em seguida, menciona que enviaria uma “surpresa”, acrescentando: “depois de 12 tiros no portão o recado está dado”.
Em outra conversa, os interlocutores discutem uma ação para afastar um alvo. Um deles diz: “temos que arrancar a cabeça dele sem dar direito para ele”, enquanto outro responde: “vamos avaliar o melhor momento e tirar”.
A decisão do ministro Alexandre de Moraes atendeu a pedido da PF, com aval da Procuradoria-Geral da República.
Segundo Moraes, os elementos reunidos apontam para a prática de crimes como organização criminosa, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitações.
A PF ainda encontrou uma série de mensagens em que o deputado trata sobre disponibilizar vagas de emprego em órgãos da Educação para o traficante Arídio Machado da Silva Junior, o Júnior do Beco. A PF diz que ele é um criminoso de “alta periculosidade”.
PF informa que dinheiro da Educação financiou campanha, inclusive, da filha do deputado
Ainda na terça-feira (5), a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, que determinou a prisão de Thiago Rangel, afirma que parte dos recursos movimentados no grupo ligado ao deputado, estimados em R$ 2,9 milhões, teria sido destinado ao financiamento de campanhas eleitorais de forma irregular. Segundo a Polícia Federal, os valores teriam sido usados para a campanha da sua filha Thamires Rangel, em 2024, ao Legislativo de Campos, e outros candidatos ligados à base política de Rangel.
Ainda na manhã da prisão de Thiago, o governador em exercício do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, exonerou mais 82 servidores da Secretaria Estadual do Ambiente e Sustentabilidade, entre eles, Thamires Rangel, que era subscretária da pasta. Na última sexta-feira, Thamires chegou a informar que estaria de volta à Câmara.
Nas eleições de 2024, ela foi eleita a vereadora mais jovem do município, sendo também a única mulher entre os 25 parlamentares eleitos no pleito.
Fases da Unha e Carne
A 1ª etapa da operação foi deflagrada em dezembro de 2025 e teve como alvo o então presidente da Alerj, deputado Rodrigo Bacellar, hoje cassado.
De acordo com a Polícia Federal, Bacellar teria vazado informações sigilosas da Operação Zargun, deflagrada em setembro, contra o CV. O principal beneficiado seria o ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, apontado como articulador político da facção e preso na Operação Zargun. Bacellar chegou a ser preso preventivamente por decisão de Alexandre de Moraes, mas foi solto dias depois — após decisão tomada em plenário da Alerj —, com medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica.
TH Joias e Rodrigo Bacellar (União Brasil)
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A 2 ª fase, também em dezembro de 2025, aprofundou as apurações sobre a origem dos vazamentos. Nessa etapa, a PF prendeu preventivamente o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2).
Segundo os investigadores, o vazamento teria partido do Judiciário federal. A suspeita é que o magistrado repassou informações a Bacellar, que, por sua vez, as transmitiu a TH Joias. A Polícia Federal informou ter encontrado mensagens, registros de ligações e indícios de relação próxima entre o desembargador e o deputado, o que, segundo a investigação, indicaria troca de favores.
A 3ª fase foi deflagrada em 27 de março de 2026. Nessa etapa, Rodrigo Bacellar foi preso novamente, desta vez em casa, em Teresópolis, na Região Serrana do Rio.
A nova prisão foi determinada por Alexandre de Moraes após a cassação do mandato do político pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no caso conhecido como escândalo da Ceperj, e após denúncia formal apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em 16 de março.