Felipe Manhães - Vozinha defendeu a honra de Cabo Verde. Quem defende a honra do futebol brasileiro?
Felipe Manhães - Atualizado em 17/06/2026 07:53
Felipe Manhães
Felipe Manhães / Reprodução
A Copa do Mundo costuma produzir histórias que justificam a paixão que bilhões de pessoas têm pelo futebol. Uma dessas histórias aconteceu na última segunda-feira, quando Vozinha, goleiro da seleção de Cabo Verde, deu ao mundo uma lição. Aos 40 anos de idade, sem clube, parou a artilharia da poderosa Espanha, uma das seleções mais fortes do planeta e então segunda colocada no ranking da FIFA.
Durante noventa minutos, ele desafiou a lógica, a diferença de estrutura, de investimento e de tradição. Defendeu inúmeras bolas difíceis, segurou a pressão espanhola e ajudou seu país, em sua estreia em Copas do Mundo, a conquistar um 0 x 0 que ficará marcado para sempre na memória de seu povo. E foi além. Vozinha simplesmente fez a Espanha cair para o terceiro lugar no Ranking da FIFA, após a partida.
Sua atuação mostrou ao mundo aquilo que o futebol tem de mais bonito: dedicação, coragem e, principalmente, vontade de vencer.
Enquanto isso, o futebol brasileiro mais uma vez se vê obrigado a conviver com manchetes que nada têm a ver com o esporte.
Segundo o noticiário, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol teria usado dinheiro da instituição para bancar amante nos EUA.
Independentemente do desfecho das investigações e da confirmação ou não das acusações, o simples fato de a entidade máxima do futebol brasileiro estar novamente cercada por suspeitas como essa, já representa uma derrota institucional.
O contraste é quase cruel.
De um lado, um goleiro veterano de uma pequena nação africana dando o sangue para defender seu país contra uma potência mundial. Do outro, dirigentes constantemente envolvidos em polêmicas administrativas, acusações e disputas de poder que transformam a CBF em personagem permanente das páginas policiais, dos tribunais e das colunas de escândalo.
O torcedor brasileiro, por sua vez, parece condenado a defender sua paixão contra algo muito mais difícil: corrupção e falta de credibilidade de quem administra o futebol nacional.
O problema é moral. Cada escândalo enfraquece a confiança do público, desgasta a imagem internacional do futebol brasileiro e reforça a sensação de que a CBF continua refém de uma cultura na qual os interesses pessoais ocupam espaço maior do que os interesses do esporte.
O futebol sobrevive porque existem atletas como Vozinha. Porque existem jogadores, treinadores e torcedores que acreditam no jogo. Porque ainda há gente disposta a entrar em campo por orgulho, por honra e por amor à camisa.
Enquanto a seleção brasileira pareceu apática durante o primeiro jogo da Copa contra o Marrocos, o goleiro cabo-verdiano mostrou que é possível resistir a uma avalanche de ataques durante noventa minutos.
A pergunta que fica para o Brasil é outra: por quanto tempo o futebol brasileiro conseguirá resistir aos ataques que recebe de dentro de sua própria administração?
*Felipe Manhães é advogado, procurador do Instituto Brasileiro de Estudo e Defesa das Relações de Consumo e membro da Comissão de Defesa do Consumidor do Conselho Federal da OAB

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