Nos presídios do Brasil: tortura
14/08/2015 | 08h58
 O relator da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Tortura, Juan Méndez, em visita realizada nos dez últimos dias aos presídios brasileiros (nos estados do Maranhão, Sergipe, Alagoas, São Paulo e Distrito Federal) e, após ouvir testemunhos de presos, confirmou que a tortura é prática recorrente. Espancamento com cassetete, choque elétrico com pistola taser e sufocamento com água e sacos plásticos figuram entre as mais praticadas. Segundo Juan Méndez, essas práticas são heranças da ditadura militar, período em que, segundo o relator, a tortura era a “política estatal e deliberada”. Ainda segundo o especialista em direitos humanos, esses crimes ficam impunes pois não são investigados: "Não encontramos provas de que esses crimes foram adequadamente investigados, nem processo penal ou punição". — O Brasil tem hoje 600 mil presos. Numa relação per capita é a quarta maior população carcerária do mundo. E esse crescimento foi muitíssimo rápido. A taxa de encarceramento no Brasil se dá de forma muito rápida. E algumas boas medidas até são adotadas, mas são anuladas pela velocidade com que se prende no país - disse o relator, constatou também que as prisões apresentam condições insalubres e que a refeição oferecida não apresenta aspecto visual nem odor de comestível. Nos locais visitados o relator constatou que o tratamento aos presos é cruel e desumano e citou a superlotação das cadeias como um problema grave. — Reduzir idade de responsabilidade penal viola normas internacionais e é um grave erro do ponto de vista prático. Só aumenta a superlotação carcerária. E também sou contra ampliar o período de permanência do menor nos centros destinados a eles. Pelo que vi, em São Paulo, esses locais não ressocializam. O relatório final será apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em março de 2016. Lá vamos nós de novo mostrar uma de nossas piores faces.
fonte: O Globo, o negrito é nosso.
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"PRA FRENTE BRASIL"
02/09/2014 | 08h00
É o filme que apresento amanhã (quarta-feira - 3/09), às 19h, no Cine Clube Goitacá. O filme é um dos quatro que integram o ciclo intitulado 'Golpe'. Convido a todos, é bem interessante. O Cine Clube fica no  Ed. Medical Center - Rua 13 de Maio,286, sala 507. Nos encontramos por lá!

"Uma viagem desagradável a um passado bem conhecido. Assim foi novamente assistir ao filme “Pra Frente Brasil” de Roberto Farias, Prêmio do Festival de Gramado, em 1982. Com música de Egberto Gismonti e, Reginaldo Faria, Natália do Valle, Antônio Fagundes e Elizabeth Savalla, no elenco. Retornamos à realidade brasileira de 44 anos atrás. Era 1970, anos de chumbo e do milagre econômico. O Brasil eufórico com a Copa do Mundo sendo disputada no México, onde fomos Tricampeões. Tempo do infame bordão “Brasil, ame-o ou deixe-o”, do General Médici, dos 70 milhões em ação, salve a Seleção. Ainda que tenha sido lançado em 1982, ou seja, depois da Anistia, portanto, da “Abertura, Lenta e Gradual” do último milico no poder, o General Figueiredo; nem a volta dos exilados políticos, nem as eleições gerais, nem o fim do imposto bipartidarismo, foram capazes de impedir que no dia seguinte ao seu lançamento, o filme tenha sido proibido de circular em território nacional, curto e grosso: censurado. A trama começa simples. Jofre Godoi da Fonseca é um cidadão apolítico de classe média. É casado com Marta, tem dois filhos. Miguel, seu irmão, também um cidadão comum, apesar de amar Mariana, uma guerrilheira de esquerda. Quando Jofre divide um táxi com um militante de esquerda, é tido como "perigoso subversivo" pelos órgãos de repressão. É ilegalmente preso, desaparece para ser submetido a sucessivas sessões de tortura. Daí em diante, na tentativa de encontrá-lo, Miguel e Marta encaram todo tipo de intimidação; se surpreendem ao descobrir a relação entre a repressão política e empresários que a patrocinam. Para os órgãos de repressão do regime militar, os dois (e todos os que com eles se relacionam) passam a ser ‘colaboradores comunistas’. O final é dramático. Incomoda".  Luciana Portinho
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Modesto da Silveira, em defesa da liberdade
01/04/2014 | 10h09
Modesto da Silveira é uma legenda na defesa dos perseguidos, presos, torturados pelo Golpe de 64. Figura doce, dedicada e amiga. Em 1978, foi eleito deputado federal pelo MDB, com uma vitória retumbante da oposição ao regime militar. Tive a honra e o privilégio de ter convivido na ocasião com este brasileiro. É emocionante vê-lo ativo, fiel aos princípios que nortearam sua carreira e vida. Sugiro a leitura da matéria aqui.
Alessandra Duarte (Email · Facebook · Twitter)
Publicado: 30/03/14 - 8h00
 Modesto da Silveira foi o advogado que mais defendeu brasileiros na ditadura Foto: Pedro Kirilos / Pedro Kirilos 
Modesto da Silveira foi o advogado que mais defendeu brasileiros na ditadura Pedro Kirilos / Pedro Kirilos
RIO - Defensor de agricultores, intelectuais, líderes estudantis e religiosos, Modesto da Silveira viu “os tanques do golpe” na Cinelândia. Seis anos depois, foi sequestrado e levado a uma sala do DOI em que as paredes tinham sangue coagulado. Hoje, guarda mais de 30 agendas daquela época. Algumas encardidas, outras empoeiradas. E, como se de um jogo se tratasse, convida: “Vamos ver a de 68?” O advogado de 87 anos vai então ao dia 13 de dezembro, data da decretação do Ato Institucional número 5 (AI-5) e na agenda lê: “Prisão Sobral Pinto”. — Esse “prisão” escrevi entre aspas porque foi o sequestro do Sobral, né? — conta ele, lembrando colegas de profissão. Todas as agendas estão em seu apartamento. E, numa época de infiltrados e acusadores, os compromissos anotados viraram álibis e testemunhas de defesa. Até hoje Silveira é considerado, por colegas, como o advogado que mais defendeu brasileiros no regime militar. Ele não sabe dizer quantos clientes teve, mas diz que cuidou de gente “de Belém a Porto Alegre”, de agricultores e operários a nomes como Mário Alves, Ferreira Gullar, David Capistrano e Dom Adriano Hipólito. De muitos, não cobrou nada. E a memória do dia do golpe é nítida: — Naquele dia, quando cheguei à Cinelândia, o povo esperava um comício em apoio a Jango. Mas não apareceram líderes sindicais, estudantis ou intelectuais. Apareceram tanques do Exército. Quando voltaram os canhões para o povo, ficou claro que eles eram do golpe. Então começaram a vaiar. Dois à paisana deram tiros para o alto e entraram no Clube Militar. No meu escritório, gente já pedia socorro. Para o mineiro de Uberaba, “o pior era quando você perdia o cliente”, numa referência à morte. Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Dodora — citada pela presidente Dilma Rousseff em discurso de 2010, foi um deles. Presa e torturada, suicidou-se no exílio. Em 1970, Silveira foi sequestrado pela repressão e ficou no DOI-Codi do Rio por dois dias. Não sofreu tortura física, mas psicológica. Na sala havia sangue coagulado, e a máquina de choque estava ligada. — Passaram a falar das minhas três filhas: “Sabe aquela? Trago aqui, boto a arma na boca e pow!” Modesto está hoje na Comissão de Ética da Presidência e presta assistência jurídica a antigos clientes. Auxilia a Comissão Nacional da Verdade e pede que ela tenha mais membros, poder de intimação e dê mais atenção à Operação Condor. — É preciso olhar o apoio financeiro e logístico de um regime que fez, no mínimo, meio milhão de vítimas diretas.
 
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BRASIL DA HIPOCRISIA
13/01/2014 | 03h19
Tem dias que eu sinto vergonha de ser brasileira. A cara queima com o desleixo das nossas autoridades públicas, com o distanciamento destas da realidade da população. Sei que certo não é generalizar, mas, os horrores (me parecem) têm sido banalizados e, o pior, as falas oficiais permanecem nas nuvens. O discurso da governadora Roseana Sarney ao apontar o suposto enriquecimento do estado do Maranhão, como causa do horror, é esquizofrênico, não é inocente. Não tenho dúvida: breve haverá nova explosão popular. Entre tantas selvagerias, espertezas e hipocrisias que ocuparam o noticiário nacional na última semana, a da trágica situação carcerária brasileira, desmascarada com a barbárie em penitenciária maranhense, foi o golpe que faltava na boca do estômago nacional. Se não fomos ainda capazes de criar um sistema integral público educacional de qualidade para todos, fomos doutores em implantar o inferno nas penitenciárias do país, ao formar uma legião de 550 mil presos em condições de animal. Fatos são fatos, números são números. Hoje temos 340 mil vagas, ou seja, 200 mil a menos que o necessário, fora os que estão amontoados em delegacias, em flagrante arrepio da Lei. Não há nenhum indicador de que o número de criminosos decresça, pelo contrário, sem esforço concentrado dos poderes executivo, judiciário e legislativo, na próxima década o número explodirá.  Como negar? Culposamente construímos o caos no sistema prisional brasileiro. [caption id="attachment_7444" align="aligncenter" width="630" caption="Ft. Google"][/caption]

Um adendo: na Suécia, país da Escandinávia, quatro presídios foram fechados, em 2013, por falta de detentos, ver aqui.

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LENÇÓIS MARANHENSES
11/01/2014 | 10h55
[caption id="attachment_7435" align="aligncenter" width="460" caption="Charge copiada da rede social Facebook"][/caption]

 

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DA VIA DO PODER:VIDA NEGADA
11/01/2014 | 09h29

Do discurso do progresso à realidade da barbárie, um Maranhão construído com afinco.

Clique abaixo:

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História viva
22/09/2013 | 09h45
Passados 40 anos da morte do Nobel de Literatura Pablo Neruda em condições suspeitas, o Chile traz a história à tona ao exumar os restos mortais do poeta e por fim à incerteza de que ele teria sido assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet. Oficialmente Neruda foi morto em decorrência do agravamento do câncer de próstata que sofria. É o escrito no atestado de óbito. A exumação feita em abril passado poderá confirmar se ele foi assassinado com uma injeção misteriosa inoculada na mesma clínica onde morreu anos depois o ex-presidente Eduardo Frei, como denuncia o seu ex-motorista Manuel Araya. De acordo com Araya, na tarde de 23 de setembro de 1973, Neruda, que até aquele momento estava lúcido e estável, disse a ele e a sua esposa, Matilde Urrutia, que um médico havia inoculado uma injeção que agravou sua condição. [caption id="attachment_6901" align="alignleft" width="400" caption="Ft.Google"][/caption] O poeta Pablo Neruda que também foi diplomata e senador pelo Partido Comunista, morreu em 1973, 12 dias depois do golpe que derrubou seu amigo, o presidente socialista Salvador Allende. No dia seguinte à sua morte, Neruda viajaria ao México, onde pretendia se exilar e mobilizar a oposição de Augusto Pinochet. Na mesma Clínica Santa Maria, para onde ele foi transferido e veio a falecer, outros casos reforçaram as suspeitas de envenenamento. Nove anos depois, nesta clínica, o ex-presidente Eduardo Frei Montalva (1964-1970) morreu devido a uma "introdução gradual de substâncias tóxicas", segundo determinou a justiça em um caso que permanece em aberto. Frei - que na época surgia como um dos maiores adversários de Pinochet - deu entrada na Clínica Santa Maria para o tratamento de uma hérnia, morreu subitamente pouco depois devido à septicemia. "Este aniversário vivemos com muita tensão. Estamos muito atentos aos resultados dos testes de toxicologia", disse à AFP Rodolfo Reyes, sobrinho de Neruda e advogado no caso. Os serviços secretos da ditadura de Pinochet (1973-1990) desenvolveram armas químicas como sarin, soman e tabun, para usar contra países inimigos e opositores. A ditadura brasileira forneceu ao Chile, entre os anos 1970 e 80, neurotoxina botulínica, uma poderosa arma química que provoca a morte por asfixia. Vestígios desta substância foram encontrados no Instituto de Saúde Pública do Chile há cinco anos pela então diretora Ingrid Heitmann. O Chile ainda investiga a extensão do uso de tais armas na ditadura que deixou 3.200 mortos.    
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“Cumpro a sina”
27/09/2012 | 05h32
[caption id="attachment_4856" align="alignleft" width="350" caption="Ft. Google"][/caption] 36 anos e 11 meses nos separam do assassinato do jornalista Vladimir Herzog. Era um 24 de outubro de 1975, Vladimir, então diretor de jornalismo da TV Cultura, foi convocado a comparecer ao II Exército (capital de São Paulo). Prestar depoimento o motivo alegado. Queriam saber sobre as ligações dele com o Partido Comunista Brasileiro (naquela época colocado na ilegalidade pela ditadura militar). De peito aberto o jornalista se apresentou. Horas depois, passada intensa tortura, estava morto. A versão oficial divulgada foi “suicídio”. A foto liberada à sociedade brasileira mostrava o jornalista enforcado em sua cela. Mentira que atravessou mais de três décadas até que agora é assumida pelo Estado brasileiro. O juiz Márcio Martins Bonilha Filho, da 2ª Vara de Registros Públicos do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), determinou na segunda-feira (24/09) a retificação do atestado de óbito. Poderá ser finalmente retificado o seu atestado de óbito e retirada a falsa ‘causa mortis’ bancada (por tanto tempo) contra a nossa inteligência. Aos poucos - mais aos poucos do que aos muitos - as verdades se restabelecem. O Estado assume suas responsabilidades atrozes. É cansativo ter que, volta e meia, retornar a crimes dos quais parte dos leitores, talvez nem saiba que aconteceram, mas, aconteceram. Como na poesia de Adélia Prado, “cumpro minha sina”.  

Com licença poética

Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos – dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.

 

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TORTURA NUNCA MAIS.
26/07/2011 | 09h09
MOVIMENTO DE JUSTIÇA E DIREITOS HUMANOS/Brasil INFORMA:

Sarney e o torturador, Ustra e o presidente

“Acreditando no inacreditável e defendendo o indefensável, José Sarney encontrou, enfim, o roteiro e o personagem que podem levá-lo definitivamente ao brejal da desmemória, da inverdade e da injustiça”
por Congresso em Foco 26/07/2011 07:00
[caption id="" align="aligncenter" width="420" caption="Ft. Google"][/caption]

 

Luiz Cláudio Cunha* O próximo desatino de José Sarney já tem hora, dia e local definidos: às 14h30 desta quarta-feira, dia 27, no Fórum João Mendes do Tribunal de Justiça de São Paulo, no centro da capital paulista. Ali, na inesperada condição de testemunha de defesa, o senador Sarney, presidente do Congresso Nacional, vai louvar e enaltecer o maior ícone vivo da repressão mais feroz da mais longa (1964-1985) ditadura da história brasileira — o coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra. É o homem que montou e comandou, na fase mais sangrenta do Governo Médici (1970-1974), o centro de tortura mais notório do regime, o DOI-CODI do II Exército, na rua Tutóia, a cinco quadras do ginásio do Ibirapuera, no coração de São Paulo. Sarney vai tentar livrar Ustra de uma nova condenação como torturador (a primeira foi em 2008), agora acusado pelo assassinato em 1971 do jornalista Luiz Eduardo Merlino, que sucumbiu após quatro dias de tortura brutal no DOI-CODI paulista. As unidades de Destacamento de Operações de Informações (DOI) do Centro de Operações de Defesa Interna (CODI) instaladas nos principais comandos da força terrestre no país se converteram em sinônimo de morte e terror. Poucos saíam vivos dali. Quem sobrevivia carregava na carne e na memória as marcas do suplício. José Sarney sempre soube disso, na comprometedora condição de um dos caciques nacionais da Arena, o partido inventado pelos militares para apoiar politicamente a ditadura sustentada pelo terror metódico das masmorras de Ustra e seus comparsas. Sarney será o único civil no banco de defesa, que ele vai dividir com um coronel e três generais da reserva. Serão confrontados, pelo lado da acusação, com o testemunho de cinco ex-presos políticos e ex-militantes — como Merlino — do Partido Operário Comunista (POC), e de dois ex-torturados do DOI-CODI: o ex-ministro de Direitos Humanos do Governo Lula, Paulo Vanucchi, e o historiador e escritor Joel Rufino dos Santos. É sempre saudável reavivar a mambembe memória de Sarney para a sórdida natureza do ofício de Ustra e para a macabra sina de seu local de trabalho. No Rio de Janeiro, o DOI-CODI do I Exército operava no sinistro endereço da rua Barão de Mesquita, sob a direção do major Adyr Fiúza de Castro, versão carioca de Ustra. O comandante do I Exército era o general Sylvio Frota, que dizia não tolerar a tortura. Mas, nos 21 meses em que exerceu seu comando, entre julho de 1972 e março de 1974, Frota teve o dissabor de lamentar a morte de 29 presos no seu DOI. [caption id="" align="aligncenter" width="397" caption="Ft. Google"][/caption]

 

No DOI-CODI paulista — o maior do país, que chegou a ter 400 beleguins selecionados por Ustra na barra mais pesada da PM paulista, da polícia e do Exército —, o ar também era insalubre. Nos 40 meses em que ali reinou sob o codinome de ‘Major Tibiriçá’, Ustra amargou 40 mortes e uma denúncia de tortura a cada 60 horas, segundo a Comissão de Justiça e Paz do cardeal Paulo Evaristo Arns. Em depoimento oficial ao Exército, o major camarada de Sarney contabiliza em São Paulo, no período de 100 meses entre janeiro de 1969 e maio de 1977, a prisão de 2.541 “subversivos” e o fim violento de 51 “terroristas” — como sempre, “mortos em combate” contra as equipes carcará de Ustra. Luiz Eduardo Merlino, repórter do Jornal da Tarde, entrou como preso no DOI-CODI e, quatro dias depois, estava irremediavelmente morto, antes de completar 23 anos.  Na noite de 15 de julho de 1971, ele dormia na casa da mãe, em Santos, quando foi despertado por três homens em trajes civis, armados com metralhadoras. “Logo estarei de volta”, disse Merlino, tentando tranquilizar a mãe e a irmã. Nunca mais voltou. [caption id="" align="aligncenter" width="400" caption="Ft. Google"][/caption]

 

Merlino passou a madrugada e o dia seguinte na sala de tortura. Ao lado ficava a solitária, conhecida como “X-Zero”, uma cela quase totalmente escura, com chão de cimento, um colchão manchado de sangue e uma privada turca. O único preso do lugar, Guido Rocha, ouvia os gritos e gemidos de Merlino, submetido a sessões continuadas de tortura pelas três turmas de agentes que se revezavam em turnos de oito horas no DOI-CODI para preservar o ritmo da pancadaria ao longo do dia. Horas depois, arrastado pelos torturadores, ele foi jogado na “X-Zero”. Estava muito machucado, as duas pernas dormentes pelas horas pendurado no pau-de-arara. Para ir à privada, Merlino precisava ser carregado por Guido. Estava tão debilitado que, no lugar da usual acareação com outro preso na sala de tortura ao lado, Merlino teve o ‘privilégio’ de ser acareado na própria “X-Zero”. Na manhã do dia 17, o enfermeiro da Equipe A de Ustra arrastou uma mesa até o pátio para onde se abriam sete celas. O carcereiro carregou Merlino até a mesa improvisada, onde o enfermeiro, com bata branca, calças e botas militares, colocou-o de bruços para massagear as pernas. Quando lhe tiraram o calção, os presos viram que as nádegas de Merlino estavam esfoladas. Os presos das celas 2 e 3 o ouviram dizer que fora torturado toda a noite e que suas pernas não o obedeciam mais. Um dos detidos, Rui Coelho, seria anos depois vice-diretor da Faculdade de Filosofia da USP. De volta ao “X-Zero”, Merlino foi submetido pelo enfermeiro ao teste de reflexo no joelho e na planta do pé. Nenhum respondeu. Tudo o que ele comia, vomitava. Havia sangue no vômito. Guido deu uma pêra a Merlino, que lhe fez um apelo: “Chame o enfermeiro, rápido! Eu estou muito mal”, disse Merlino, agora com os braços também dormentes. O companheiro bateu na porta, gritou por socorro.  O enfermeiro voltou, com outras pessoas, identificadas por Guido como torturadores. Merlino foi transferido para o Hospital Geral do Exército. No dia 20, pela manhã, o PM Gabriel contou aos presos do DOI-CODI de Ustra que Merlino morrera na véspera. “Problemas de coração”, disse.  Às 20h daquele mesmo dia, dona Iracema Merlino recebeu um telefonema de um delegado do DOPS com uma versão menos caridosa: seu filho, contou o policial, matou-se ao se jogar embaixo de um carro na BR-116, ao escapar da escolta que o levava a Porto Alegre. O corpo do jornalista foi entregue à família num caixão fechado. Dois anos depois, ainda preso no DOI-CODI, o historiador Joel Rufino dos Santos ouviu de um de seus torturadores, o agente Oberdan, esta versão: “O Merlino não morreu como vocês pensam. Ele foi para o hospital passando mal. Telefonaram de lá para dizer: ‘Ou cortamos suas pernas ou ele morre’. Fizemos uma votação. Ganhou ‘deixar morrer’. Eu era contra. Estou contando porque sei que vocês eram amigos”. O laudo do IML, assinado por dois médicos legistas, apontava como causa da morte “anemia aguda traumática por ruptura da artéria ilíaca direita”, e finalizava com uma suposição nada científica: “Segundo consta, foi vítima de atropelamento”. Amigos de Merlino acorreram ao local do suposto atropelamento, e não encontraram nenhum vestígio do acidente. Não houve registro policial, o atropelador não deixou pistas. A censura impediu a notícia da morte de Merlino. Só no dia 26 de agosto de 1971 é que O Estado de S.Paulo conseguiu vencer a barreira, publicando o anúncio fúnebre para a missa de 30? dia na Catedral da Sé. Quase 800 jornalistas compareceram ao culto na Sé, cercada por forte aparato policial, que incluía agentes com metralhadoras infiltrados até no coro da igreja. Esta é a história que José Sarney vai ouvir no tribunal. A história que o coronel Ustra contará é a mesma de sempre e foi antecipada por ele, no início do mês, num site de ex-agentes da repressão e nostálgicos da treva, o Ternuma, abreviatura de ‘Terrorismo Nunca Mais’. Esta é a delirante, cândida versão de Ustra: “Ao voltar [da França, Merlino] foi preso e, depois de interrogatórios, foi transportado em um automóvel para o Rio Grande do Sul, a fim de ali proceder ao reconhecimento de alguns contatos que mantinha com militantes. Na rodovia BR-116, na altura da cidade de Jacupiranga, a equipe de agentes que o transportou parou para um lanche ou um café. Aproveitando uma distração da equipe, Merlino, na tentativa de fuga, lançou-se na frente de um veículo que trafegava pela rodovia. Se bem me lembro, não foi possível a identificação que o atropelou. Faleceu no dia 19/7/1971, às 19h30, na rodovia BR-116, vítima de atropelamento”. Um parágrafo adiante, Ustra concede: “Hoje, quarenta anos depois, se houve ou não tortura, é impossível comprovar”. [caption id="" align="aligncenter" width="400" caption="Ft. Google"][/caption]

 

Assim, só cuspindo marimbondos de fogo para confiar na versão de uma equipe tão distraída do mais temido DOI-CODI do país e para acreditar na repentina agilidade física de um preso capaz de correr para uma rodovia federal e incapaz de alcançar a privada da masmorra pela paralisia das pernas destroçadas no pau-de-arara.  Nem o imortal José Sarney, autor de 22 livros, três deles romances, conseguiria produzir ficção tão ordinária, tão sórdida, tão indecente. No Tribunal de Justiça de São Paulo, a partir desta semana, um ex-presidente da República poderá apressar (ou não) o seu melancólico final de carreira. Acreditando no inacreditável e defendendo o indefensável, José Sarney encontrou, enfim, o roteiro e o personagem que podem levá-lo definitivamente ao brejal da desmemória, da inverdade e da injustiça. Pensando bem — pensando no presidente e no torturador, no ‘coronel’ e no coronel —, Sarney e Ustra bem que se merecem! O Brasil e os brasileiros é que não mereciam isso. *Luiz Cláudio Cunha é jornalista
   
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Sobre o autor

Luciana Portinho

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