Sigmund Freud escreveu o Mal Estar na Civilização (Cultura) no final da década de 1920, quando as marcas da I Grande Guerra ainda eram evidentes por toda a Europa e o espectro do nazismo já se insinuava sobre a Alemanha. Publicado em 1930, é uma das poucas obras de S. Freud que não trata especificamente da psicanálise, da sua teoria e das suas técnicas. Ao contrário, é uma obra sobre ciências sociais onde a libido encontra a sociologia e as origens da infelicidade humana é investigada.
E é justamente nessa investigação onde S. Freud imprime a contundência das suas considerações sobre a gênese da infelicidade que permeia a nossa cultura.
O primeiro motivo da infelicidade Freud detecta em nosso próprio corpo. Desde muito cedo sabemos que marchamos inexoravelmente rumo à dissolução, ao retorno à nossa forma primeva, mineral. Só não sabemos quando e de que modo isso se dará. Sendo muito improvável que a mente consciente sobreviva a dissolução do corpo físico, Nietzsche escreveu em Considerações Intempestivas : "No fundo, todo homem sabe muito bem que viverá somente uma vez, que é um caso único, e que jamais o acaso, por mais caprichoso que seja, poderá reunir duas vezes uma variedade tão singular de qualidades fundidas em um todo". Frente à isso, então, só nos resta acreditar que a mente consciente seja uma entidade muito mais ampla e transcenda realmente seu substrato óbvio: nosso cérebro.
O segundo motivo está um pouco além do nosso corpo, centrado dessa vez em nosso ambiente, na Natureza. Contra seus desígnios e movimentos somos impotentes. Que o diga os milhares de turistas que fugiam do inverno europeu e se bronzeavam em resorts espalhados pela Indonésia e Tailândia quando foram surpreendidos pelo tsunami que varreu o Oceano Indico no Natal de 2004. Toda riqueza do mundo não teria muita valia para ao menos minimizar essa catástrofe. Em última instância, nossa vida e bem-estar é uma mera concessão da Mãe Natureza, sujeita a alterações sem aviso prévio. Para piorar nossa situação, a Mãe Natureza desconhece o significado da palavra benevolência.
O terceiro motivo é identificado naquilo que nos é mais importante ao longo das nossas vidas: as relações entre os indivíduos, as relações entre os grupos humanos, as relações sociais. Criamos uma sociedade hostil, desigual e violenta onde guerras, perseguições, genocídios, conflitos ideológicos, religiosos e territoriais permeiam nossa história desde que nosso gênero se tornou sedentário e promoveu a agricultura. Por exemplo, ao longo dos milênios aprimoramos e sofisticamos os métodos e os instrumentos de aniquilação mútua mas somos incapazes de facilitar um final de existência digna e confortável para boa parcela dos idosos, mesmo em países desenvolvidos.
O titulo original, em alemão, dessa obra seminal é Das Unbehagen in der Kultur. S.Freud, com toda razão, considerava a Cultura a única qualidade que nos diferenciava dos demais animais. Seus editores, todavia, preferiram, contra a vontade do autor, substituir Cultura por Civilização.
Os direitos dessa obra, no Brasil, é da IMAGO Editora Ltda,(1969) e uma perfeita tradução, a partir do original em alemão, foi realizada por José Otavio de Aguiar Abreu.
Guilherme Peregrini*
* Guilherme Peregrini é handmaker, filósofo amador e considera o rock'n roll o único caminho possível para a Salvação. Pode ser encontrado no "Handmades", fórum que reúne jazzistas, bluseiros e roqueiros que gostam de construir, guitarras, amplificadores, pedais de efeito e processadores de sinais com as próprias mãos. aqui http://www.handmades.com.br
"A Prefeitura do Rio só se recuperaria na gestão seguinte, de Marcello Alencar, beneficiado pelas mudanças promovidas pela Constituinte, além de uma maioria na Câmara de Vereadores. Após a gestão da Prefeitura, Saturnino ainda se elegeu vereador, em 1996, e senador, em 1998. Simultaneamente, passou a se dedicar à literatura, tendo publicado várias obras. Uma delas, “Contos do Rio”, recebeu o Prêmio Malba Tahan, da Academia Carioca de Letras, em 2000".
Tango petista
Um verso do poema "Pneumotórax", de Manuel Bandeira, traduz o melancólico esgotamento dos quase 13 anos da era petista: "A vida inteira que podia ter sido e que não foi".
Lula terminou as eleições de 2002 com um enorme capital político e a chance histórica de promover mudanças estruturais. Sua vitória não foi obra exclusiva do pacto com as elites política e econômica.
Ela também se deveu à mobilização de milhões de pessoas que clamavam por transformações.
Por isso, apesar dos acordos eleitorais, o futuro da gestão não estava determinado, mas em disputa. Foi ao longo do mandato que Lula trocou a possibilidade de transformação pela acomodação aos vícios da política tradicional.
Reconheço conquistas como o fortalecimento dos órgãos de investigação, a valorização do salário mínimo, o aumento do poder aquisitivo dos trabalhadores e a redução da miséria. Entretanto, o PT não avançou nas reformas de base no sistema político, na educação, na saúde, na ampliação da participação social e nas questões agrária e indígena.
A Agenda Brasil, proposta pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, como saída para a crise, é o episódio mais recente da agonia do governo.
Diante do risco de sofrer um golpe na Câmara, dirigida por Eduardo Cunha, Dilma apela a Renan e abraça uma agenda que representa um retrocesso histórico nos direitos sociais.
O resultado desse pragmatismo é a crescente negação da política e o empobrecimento do debate sobre democracia.
Os sonhos das transformações deram lugar ao pesadelo da corrupção. Enxergamos o país sob a ótica do escândalo, não das utopias possíveis.
O desencanto nos fez perder a capacidade de projetar o futuro: os indignados sabem mais o que não querem do que o que querem.
Sou contra o impeachment, pois ainda não há elementos que liguem Dilma às denúncias. A saída de uma presidente deve ser uma medida excepcional, tratada com cautela, para o bem da democracia.
A ética na política não é secundária, mas não pode ser tratada como problema exclusivamente comportamental.
É preciso criar mecanismos para combater a corrupção de forma estrutural, porque esta não é monopólio de um só partido. Isso não diminui a gravidade dos delitos e a desfaçatez dos argumentos que relativizam escândalos devido aos precedentes tucanos.
Paulo Freire dizia que quando não há mais sonho, só nos resta o cinismo.
No fim do poema de Bandeira, o paciente pergunta ao médico se há remédio para suas mazelas. A resposta é ironicamente sombria: "Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino". O tango é a trilha sonora do desencanto petista nestes tempos de Agenda Brasil.
E mais imagens da famigerada intolerância tupiniquim.
Em entrevista à Agência Estado, o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor da cadeira de Ética e Filosofia Política da USP, defendeu que a pregação da ditadura militar deveria ser criminalizada.
“Estamos tendo no Brasil uma tolerância, que é grande, com condutas antidemocráticas que deveriam ser tipificadas como criminosas… Pregar a volta dos militares deveria ser crime, deveria levar a pessoa para a cadeia. Vários países da Europa criminalizaram a pregação nazista. Nós – que tivemos uma ditadura militar – deveríamos criminalizar a pregação da ditadura”, afirmou o filósofo.
Pensando rápido, em breve analisada da abrangência da crise política, econômica e ética que atravessa o país, e nesta o maior responsável ao meu ver somos nós os brasileiros, ao menos as instituições republicanas funcionam sem parar. É a nossa luz no fim do túnel, o Estado democrático.
Marcha civilizacional
O STF deve começar a julgar nesta quinta uma ação que poderá resultar na descriminalização do uso de todas as drogas no país. Trata-se do Recurso Extraordinário 635.659, em que se contesta a constitucionalidade do artigo 28 da Lei Antidrogas (nº 11.343/06), que penaliza a posse de entorpecentes para uso próprio.
Pelas petições que li, o cerne da discussão é se o dispositivo fere ou não o princípio de inviolabilidade da vida privada (CF, art. 5º, X). Trocando em miúdos, haveria uma esfera da intimidade que nem o próprio Estado tem legitimidade para regular. Esse, vale frisar, é um debate que vai além da questão do uso recreativo de psicofármacos. O que o STF terá a oportunidade de definir é o alcance mesmo da liberdade individual no ordenamento jurídico brasileiro.
O embate entre o que é percebido como bem coletivo (no caso, saúde e segurança públicas) e a autodeterminação do cidadão não é novo. E a tendência, desde o Iluminismo, tem sido a de privilegiar o segundo elemento. Foi nesse movimento que o Brasil aboliu, já em 1830, as leis que criminalizavam a sodomia. Pelo código anterior, as Ordenações Filipinas, homossexuais deveriam ser feitos "per fogo em pó". Se o pecado fosse só o de molície (masturbação entre pessoas do mesmo sexo), a pena era mais leve: degredo nas galés.
A marcha liberalizante não parou no sexo e na intimidade. Houve avanços significativos em outras liberdades individuais, como o direito à livre expressão e as garantias contra arbitrariedades do poder público. Obviamente, há muito a melhorar. A noção de autonomia do paciente em questões de saúde, por exemplo, apenas engatinha no Brasil.
O STF tem diante de si a oportunidade de dar um importante passo para consolidar a autonomia do indivíduo, que, numa simplificação tolerável, está entre as maiores contribuições do Ocidente para o mundo. Esperemos que não a desperdice.
Hélio Schwartsman, artigo publicado hoje (11) na Folha de São Paulo
Foto. O Globo.com[/caption]
Perseguidos pela Inquisição, hoje hereges escrevem best-sellers sobre a inexistência de Deus, a opção sexual de cada um só diz respeito a cada um

Foto divulgada dos dois terroristas mortos pela polícia norte americana[/caption]
Oficialmente, em seu canal de rádio nesta terça-feira (05), o Estado Islâmico (EI) reivindicou o ataque em solo americano, mas, a Casa Branca acha cedo para confirmar se o atentado foi mesmo do EI ou se pegaram carona em busca de popularidade. “Nós avisamos a América: ataques futuros serão maiores e mais amargos. Vocês assistirão a coisas horríveis por parte dos soldados do Estado Islâmico com a graça de Deus”, ameaçou o grupo djhadista.
Se os americanos pensavam ainda que atentados tipo “Charlie Hebdo” ficariam reservados a uma Europa incapaz de integrar os seus muçulmanos, o episódio veio comprovar o oposto.
Para aqueles que de forma velada culparam os jornalistas e chargistas do Charlie Hebdo, por "provocarem" (como se a função social do Humor não fosse exatamente a de provocar) a sociedade - de forma ampla, geral e irrestrita -, fica o alerta de que ceder à censura nunca será a solução, mesmo em tempos de intolerância religiosa.
O fato serve para o Brasil tomar todas as providências de segurança para as Olimpíadas de 2016.
Quem desejar se lembrar do ataque terrorista à redação do jornal/revista Charlie Hebdo, ver aqui e aqui. Sobre o autor
Luciana Portinho
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