Faculdades de medicina de Campos e Itaperuna tem baixo desempenho em exame e devem sofrer punições
Júlia Alves - Atualizado em 21/01/2026 08:36
Faculdade de Medicina de Campos (FMC)
Faculdade de Medicina de Campos (FMC) / Genilson Pessanha
Três faculdades de medicina do interior do Rio de Janeiro tiveram baixo desempenho no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025 e podem sofrer punições. Entre elas estão, a Faculdade de Medicina de Campos (FMC), a Universidade Iguaçu (Unig) e o Centro Universitário Afya, ambas em Itaperuna. Por outro lado, o Centro Multidisciplinar - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) de Macaé se destacou ao conquistar a nota 4 no exame. O resultado foi divulgado nessa segunda-feira (19), pelo Ministério da Educação (MEC) e Ministério da Saúde (MS).
O Enamed é uma categoria do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) para avaliar os cursos de medicina. Através do resultado dele, permite-se o aproveitamento para os processos seletivos de programas de residência médica. Cerca de 351 cursos participaram desse exame e desses, 304 pertencem ao Sistema Federal de Ensino, que inclui as instituições públicas federais e as instituições privadas. Os demais cursos são regulados pelos sistemas estaduais.
As três faculdades citadas na matéria receberam nota 2 no exame, no entanto, a FMC teve 57,4% de concluintes participantes igual ou acima da proficiência. Nesse caso, de acordo com o MEC, os cursos de percentual de proficiência acima de 50% sofrerão apenas a proibição de aumento de vagas, sem medidas cautelares específicas adicionais. 
Já a Afya e Unig tiveram, respectivamente, 47,9% e 49,3% de proficiência e, nesse caso, os cursos sofrem redução de 25% das vagas, segundo o MEC. Além disso, ambos vão ter a participação no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e em outros programas federais suspensa.
O MEC informou ainda que as instituições responsáveis por esses cursos foram informados sobre a instauração de um processo administrativo de supervisão, onde a instituição pode se manifestar no prazo de 30 dias e requerer a concessão de prazo para saneamento das deficiências. Essas medidas devem durar até a publicação do Conceito Enade 2026.
O destaque positivo foi para a UFRJ de Macaé, que conquistou nota 4 no exame e, teve 79,2% dos concluintes de proficiência.
Em nota, a FMC comentou sobre a aplicação de uma única avaliação teórica para avaliar os cursos e questionou a metodologia adotada no exame. "Uma avaliação única, teórica e padronizada não é capaz de mensurar, de forma integral, o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que compõem a formação médica. Competências clínicas, desempenho prático, postura ética, comunicação, trabalho em equipe, inserção no SUS e compromisso social são dimensões que não se esgotam em um exame dessa natureza, conforme o próprio desenho do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES), que prevê avaliação multidimensional [...] Há questionamentos formais sobre a metodologia adotada, a definição de critérios após a aplicação da prova e, especialmente, sobre o uso dos resultados para fins sancionatórios, em potencial afronta aos princípios, finalidades e garantias previstos na Lei do SINAES (Lei nº 10.861/2004). Entidades civis representativas do ensino superior e diversas Instituições de Ensino Superior em todo o país vêm realizando análises técnicas e jurídicas dos resultados divulgados pelo MEC/INEP”, disse.
A FMC ainda falou sobre a ausência de relação com o reconhecimento do curso: "o resultado do ENAMED não guarda qualquer relação direta com a nota 5 obtida em 2025 pelo Curso de Medicina desta Instituição no processo de renovação de reconhecimento, conduzido nos termos do SINAES. A avaliação de cursos envolve análise ampla de projeto pedagógico, corpo docente, infraestrutura, gestão acadêmica, responsabilidade social e resultados institucionais, conforme estabelecido na Lei nº 10.861/2004", comentou.
Já o Centro Univesitário Afya informou que acompanha os resultados do Enamed e está realizando uma análise detalhada dos dados após divergências nos números divulgados.
“Os resultados do Enamed foram inicialmente disponibilizados às instituições de ensino no mês de dezembro, por meio do sistema e-MEC, e indicavam que 70% das instituições da Afya haviam obtido conceitos entre 3 e 5. Esses dados permaneceram públicos no sistema até esta segunda-feira. Ao longo do dia, diante de questionamentos de instituições de ensino sobre divergências nos números divulgados, especialmente no que se refere ao total de estudantes considerados proficientes, o MEC retirou os resultados do sistema. Em esclarecimento oficial encaminhado às instituições participantes, o Inep informou que foi identificada uma inconsistência na base de insumos do sistema e-MEC. O órgão esclareceu ainda que a conferência dos dados poderá ser realizada pelas instituições por meio dos microdados do Enamed, disponibilizados em seu portal oficial. A Afya segue realizando a análise técnica detalhada dos dados à luz dos esclarecimentos prestados pelo Inep e reforça que trata os indicadores de qualidade com seriedade e transparência, utilizando os processos avaliativos como instrumentos de aprimoramento contínuo”, esclareceu em nota.
A Folha também entrou em contato com a Unig de Itaperuna, mas até o momento, não obteve retono.
Após questionamentos sobre divergências na avaliação, o presidente do Inep, Manuel Palacios, afirmou nessa terça-feira (20), que não há erro no resultado da primeira edição do Enamed. Segundo a Agência Brasil, o não atingimento da proficiência vem sendo questionado por associações que representam faculdades privadas. Elas alegam divergência entre os dados reportados ao sistema em dezembro do ano passado e os números divulgados agora, especialmente em relação ao total de estudantes considerados proficientes nos cursos.

Essa divergência de informação foi reconhecida por Palacios, e ocorreu, segundo ele, em um comunicado interno via sistema eMEC que as faculdades têm acesso para a validação de informações. O dado errado sobre o número de estudantes que alcançaram a proficiência foi corrigido, com base no resultado alcançado na prova, e não teria sido usado para classificar os cursos.

"A aplicação do número de estudantes que acolheram proficiência saiu com resultados divergentes. Houve um erro aqui no Inep desse quantitativo. Mas esse dado não foi utilizado para qualquer cálculo dos indicadores de qualidade dos cursos. Então, o que houve foi uma publicação restrita às instituições com uma prévia do número de alunos com proficiência que saiu com dados incorretos", afirmou o presidente do Inep.
Palacios explicou ainda que os boletins recebidos pelos participantes, os resultados publicados para os cursos e o conceito Enade produzido pelo Inep para todos os cursos de medicina que foram avaliados não têm qualquer problema.

"Os resultados são válidos, estão corretos e não há qualquer intercorrência na publicação desses resultados, tanto daqueles que participaram e receberam o boletim por meio da plataforma do participante, quanto a publicação recente dos resultados", afirmou.

Segundo ele, o que houve foi uma incorreção na comunicação prévia com as instituições, sem um efeito no cálculo desses indicadores.

"Os indicadores publicados que constam o número de participantes está no site do Inep, tem o número de participantes, o número de inscritos, o número de estudantes que alcançaram proficiência e o cálculo do conceito Enade, eles estão todos corretos. Não há nada publicado pelo Inep que tenha sido entregue ao público que esteja com qualquer erro", prosseguiu.
Em nota, a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) destaca que as inconsistências foram reconhecidas pelo próprio MEC e pelo Inep na divulgação dos resultados do Enamed.

"Após a aplicação das provas e a divulgação dos resultados aos estudantes e às instituições, o Inep publicou sucessivas notas técnicas — a NT nº 40, entre 9 e 12 de dezembro; a NT nº 42, em 22 de dezembro; e a NT nº 19, em 30 de dezembro — alterando e complementando critérios metodológicos após o encerramento do exame e do prazo de recursos, que se deu em 17 de dezembro. Medida tão grave quanto foi a alteração dos conceitos que haviam sido apresentados, em dezembro, para as instituições de educação superior. Os dados não batem com os que foram divulgados ontem (19) para a imprensa. O próprio MEC reconheceu a existência de inconsistências nas informações, ampliando o cenário de dúvidas e insegurança regulatória para as instituições", diz a entidade.
Já os resultados individuais dos participantes do Enamed foram divulgados no dia 12 de dezembro do ano passado e os candidatos foram classificados seguindo os critérios presentes no edital do Exame Nacional de Residência (Enare). A nota final será divulgada nesta quarta-feira, dia 21 de janeiro de 2026.
Com informações da Agência Brasil

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