Dora Paula Paes
19/10/2026 12:23 - Atualizado em 19/10/2026 16:29
Imóvel doado à prefeitura de Campos
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Rodrigo Silveira
É comum ouvir, entre os próprios conterrâneos, que Campos é a “cidade do já teve”. O imóvel doado à municipalidade onde funcionou o antigo Museu Olavo Cardoso está ameaçado de entrar para essa lista, mesmo diante de uma decisão da Justiça que determina sua restauração. Desde 2012, a administração municipal sob o comando de quatro prefeitos — Rosinha Garotinho, Rafael Diniz, Wladimir Garotinho e, agora, Frederico Paes —, o imóvel foi fechado, abandonado e, com futuro cada vez mais incerto, corre o risco de desabamento ou demolição.
O atual prefeito já declarou que pretende recorrer das decisões judiciais que determinarem a restauração do imóvel.
“O Museu Olavo Cardoso, para mim, não tem restauração e eu vou provar isso tecnicamente. Por anos de abandono, aquilo ali é quase irrecuperável. E eu vou provar tecnicamente para o juiz ou para a Justiça, seja quem for, que tecnicamente é inviável. Não tem viabilidade naquela restauração. E, publicamente, estou assumindo que sou contra. Se a Justiça determinar, eu vou recorrer. Eu tenho que cumprir a ordem judicial”, disse Frederico durante entrevista ao Programa Folha no Ar, da Folha FM, na sexta-feira (16).
Desde o dia 29 de setembro deste ano, a Justiça de primeira instância determinou que o município de Campos recupere o imóvel. Na sentença, o juiz Eron Simas estabelece que “o município tem prazo de três meses para apresentar o projeto de restauração integral da Casa de Cultura Olavo Cardoso”. Após a apresentação do projeto, terá mais três meses para iniciar as obras, que deverão ser concluídas no prazo de 12 meses.
Sobre a decisão, a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL) chegou a informar que a sentença judicial foi proferida durante audiência e que a decisão foi encaminhada às secretarias municipais de Obras e Planejamento, diretamente envolvidas no projeto, além de ter sido comunicada à própria Fundação.
Em nova nota nesta segunda-feira (19), a Fundação informa que a decisão mencionada pelo prefeito se refere às condições estruturais do imóvel e à possibilidade de apresentação de argumentos técnicos, inclusive, com avaliação das condições da estrutura por parte dos órgãos técnicos responsáveis, como a Defesa Civil e a Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura, cabendo à Procuradoria-Geral do Município conduzir os encaminhamentos jurídicos necessários.
"A Fundação esclarece ainda que a demolição do imóvel não foi apresentada como solução por nenhuma das partes envolvidas. A questão em análise diz respeito às condições estruturais da edificação e às medidas que poderão ser adotadas com base nas avaliações técnicas e nos procedimentos legais pertinentes", completa a nota.
No outro extremo, o alívio provocado pela decisão judicial e pelo encaminhamento da questão dentro do governo deu lugar à incredulidade entre os defensores do patrimônio histórico de Campos diante da declaração do prefeito Frederico Paes.
Membro da atual diretoria do Instituto Histórico e Geográfico de Campos dos Goytacazes (IHGCG) e preservacionista, Genilson Soares lamenta que o atual gestor municipal não demonstre a sensibilidade necessária para compreender a importância da preservação e da recuperação de um patrimônio arquitetônico da cidade.
“É lamentável o descaso com um bem pertencente à própria administração municipal. Mais preocupante ainda é que anos de abandono sejam agora apresentados como argumento para justificar a inviabilidade de sua restauração. Essa postura estabelece um precedente perigoso e transmite à sociedade civil uma mensagem inaceitável: pode-se permitir que um imóvel histórico se degrade e, depois, alegar que sua recuperação já não é possível”, disse Genilson.
Segundo ele, o IHGCG fez, de maneira responsável e dentro de suas atribuições, tudo o que lhe cabia: denunciou publicamente a situação, cobrou providências junto ao Coppam (Conselho de Preservação do Patrimônio Municipal) e levou o caso ao conhecimento do Ministério Público.
“Lamentavelmente, corremos o risco de assistir a mais um triste capítulo na história das perdas do patrimônio cultural de Campos dos Goytacazes”, reforçou.
Rodrigo Silveira
Em maio de 2025, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) oficializou à Secretaria Municipal de Obras de Campos a necessidade de adoção de providências urgentes. Atualmente, o prédio é um esqueleto de patrimônio público em estado de abandono.
Membro do Coppam, o urbanista Renato Siqueira também usa a expressão “lamentável” para definir o futuro do imóvel.
“É lamentável a determinação do prefeito em endossar o descaso que trouxe o museu ao estado em que está, principalmente diante das determinações do Ministério Público, que a Prefeitura não cumpriu em 2025, quando havia melhores condições para a restauração, ainda possível. Óbvio, agora, a um valor maior, mas devido à irresponsabilidade da Prefeitura”, afirmou.
A Folha encaminhou uma demanda à presidente do Coppam, Patrícia Cordeiro, que também preside a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, para conhecer sua posição sobre o assunto e saber se o conselho pretende tomar alguma medida. A reportagem aguarda resposta.
Nota da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima
A Fundação informa que a decisão mencionada pelo prefeito se refere às condições estruturais do imóvel e à possibilidade de apresentação de argumentos técnicos por meio dos instrumentos legais cabíveis.
A avaliação das condições da estrutura compete aos órgãos técnicos responsáveis, como a Defesa Civil e a Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura, cabendo à Procuradoria-Geral do Município conduzir os encaminhamentos jurídicos necessários.
A Fundação esclarece ainda que a demolição do imóvel não foi apresentada como solução por nenhuma das partes envolvidas. A questão em análise diz respeito às condições estruturais da edificação e às medidas que poderão ser adotadas com base nas avaliações técnicas e nos procedimentos legais pertinentes.