Arthur Soffiati - Marcos da história de Campos e região
Um historiador pesquisa fontes, mas também faz reflexões. Suas conclusões são sempre provisórias. Ou devem ser. Refletindo sobre pesquisas e leituras, concluo provisoriamente que os momentos significativos da história de Campos e região são os seguintes:
Um historiador pesquisa fontes, mas também faz reflexões. Suas conclusões são sempre provisórias. Ou devem ser. Refletindo sobre pesquisas e leituras, concluo provisoriamente que os momentos significativos da história de Campos e região são os seguintes:
Formação da planície: dirão os historiadores que a formação geológica da planície é assunto da geologia e da geografia. Do ponto de vista cultural, contudo, a planície está na vida econômica, social, política e cultural dos municípios que foram criados nela. Basta ver os livros de Alberto Ribeiro Lamego e de José Cândido de Carvalho, além de outros.
Colonização goitacá. À medida que a planície se formava, a nação goitacá, de fala macro-jê, promovia a sua colonização, explorando as lagoas para a pesca e a caça.
Primeira tentativa de colonização europeia. Por iniciativa de Pero de Gois, donatário da capitania de São Tomé, foi erguida a Vila da Rainha junto à foz do rio Itabapoana, em sua margem direita, em 1539. Subindo o rio até a última cachoeira, foi instalado o Porto da Limeira. Se existissem ainda hoje, seriam mais antigos que o núcleo do Rio de Janeiro e de São Paulo. Foram abandonados em 1546.
Os sete capitães: cana e gado. Com a devolução da capitania de São Tomé por Gil de Gois, sete fidalgos requereram um grande lote de terra a título de sesmaria no interior da capitania de São Tomé. Situado entre a foz do rio Iguaçu e a foz do rio Macaé, ele foi dividido em sete parcelas. Na foz do Paraíba do Sul, pescadores de Cabo Frio já haviam se instalado em 1622. Os sete capitães e seus herdeiros iniciam uma colonização contínua da planície (mais uma vez ela) em 1632 com o gado e a cana. Logo depois, chegaram os Jesuítas e os Beneditinos.
Escravização africana. Como aconteceu em todo o Brasil colonial e mesmo independente, africanos foram trazidos compulsoriamente para o grande lote de terra para trabalhar na agricultura e na pecuária. Posteriormente, nos engenhos de açúcar. Na planície, e depois na zona serrana, os escravizados eram os pés e as mãos dos senhores, como escreveu Antonil no período colonial.
Vala do Furado. O grande fator limitante para a agricultura e a pecuária, na vasta planície, era a água. A solução parcial para drenagem foi a abertura da vala do Furado pelo capitão José de Barcelos Machado, em 1688. Tão logo a água de chuva acumulada era escoada para o mar pela vala, a forte energia marinha a fechava. No ano seguinte, os jesuítas e seus escravizados tornavam a abri-la. A vala do Furado marcou época, como escreveu Manuel Aires de Casal na segunda década do século XIX.
Retorno da Capitania à Coroa. Devolvida a capitania de São Tomé à Coroa Ibérica e requeridas sesmarias pelos Sete Capitães, Salvador Correia de Sá e Benevides reivindicou a antiga capitania para sua família com o nome de Paraíba do Sul. A vila de São Salvador dos Campos dos Goytacazes foi fundada na segunda metade do século XVII. As lutas dos habitantes contra a família Correia de Sá culminaram no retorno da capitania para a Coroa. De 1742 a 1832, a administração da justiça ficou com a capitania do Espírito Santo. A junção das capitanias de São Vicente 1 e de Paraíba do Sul deram origem à capitania do Rio de Janeiro. A capitania de Paraíba do Sul transformou-se no distrito de Campos, com sede na vila do mesmo nome.
Abertura de vias de transporte e comunicação. A economia sucroalcooleira na planície exigiu a criação de vias para transporte. No século XIX, foram abertos os canais de Cacimbas, da Onça, do Nogueira e Campos-Macaé para escoamento de madeiras e de açúcar. Logo foram suplantados pela malha ferroviária, que tinha em Campos um grande entroncamento. No século XX, as rodovias começaram a substituir as ferrovias, que foram literalmente abandonadas.
Colonização da zona serrana. Partindo da planície colonizada e das Minas Gerais, a zona serrana foi também colonizada em moldes europeus. Núcleos urbanos ergueram-se às margens dos rios Pomba, Muriaé e Carangola, integrantes da bacia do Paraíba do Sul, e às margens dos rios Itabapoana, Itapemirim e Macaé. Na década de 1970, o Noroeste Fluminense foi desmembrado do Norte.
Drenagem. Mesmo com a abertura da Vala do Furado, a planície conservava muita água. Essa umidade limitava a agropecuária, sobretudo com o advento das grandes usinas e engenhos centrais. Várias comissões de saneamento foram criadas para a drenagem das baixadas. Vingou o Departamento Nacional de Obras e Saneamento, que drenou as águas para favorecer a economia agroindustrial.
Petróleo. Na década de 1970, bases de exploração de petróleo se instalaram na plataforma continental, tendo Macaé como centro. A urbanização tomou vulto. Além do porto de Macaé, instalou-se recentemente o complexo portuário do Açu. Anunciam agora complexos semelhantes para Presidente Kennedy e Barra do Furado.