* Arthur Soffiati
- Atualizado em 07/03/2026 09:58
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Um especialista entrevistado em janeiro de 2026 afirmou que o verão de 2026 estava perdido para as chuvas. Em outras palavras, não choveria mais a ponto de reabastecer os reservatórios. Em fevereiro, as chuvas o desmentiram numa das Zonas de Convergência do Atlântico Sul que se formaram. Choveu em demasia na Zona da Mata Mineira, mostrando de forma dramática onde ficam as áreas de risco de Juiz de Fora. Muitas casas foram arrastadas com as chuvas e os deslizamentos na nona cidade com mais construções em áreas de risco. Ubá, na sub-bacia do Pomba, foi devastada. Cataguazes, às margens do rio Pomba, também foi castigada.
Toda a Zona da Mata Mineira sofreu com chuvas volumosas. O rio Muriaé e seu afluente Carangola tiveram sua vazão e nível elevados. Em Itaperuna, houve transbordamento. Recebendo águas do Paraibuna, Pomba e Muriaé, o rio Paraíba do Sul também teve seu volume engordado, mas não causou maiores problemas às populações ribeirinhas. No rio Grande, afluente do Paraíba do Sul pela margem direita, as chuvas e transbordamentos afetaram Bom Jardim.
O rio Itapemirim também se avolumou e subiu de nível sem maiores consequências. Na altura de Cachoeiro de Itapemirim, qualquer elevação de nível provoca transbordamento porque a cidade emparedou o rio. Não há mais leito maior. A cidade ocupou todo o leito de segurança e se tornou presa fácil de elevações pouco maiores que as ordinárias. Em direção ao sul, corre a bacia do Itabapoana, que tem suas cabeceiras na Zona da Mata Mineira.
Na vertente externa da Serra do Mar, no norte fluminense conhecida como Imbé, a concentração de chuvas chegou a 125 milímetros, mas não causou transbordamento. O rio Imbé desemboca na lagoa de Cima, que verte para o rio Ururaí, que, como o rio Macabu, desemboca na lagoa Feia. Atualmente, a maior concentração de lagoas de água doce está neste sistema. A lagoa Feia é o maior reservatório de água doce do Estado do Rio de Janeiro.
Nessa mesma vertente da Serra do Mar, ficam as cabeceiras da bacia do Macaé. Esta bacia também colheu um grande volume de água. Houve transbordamento na serra, mas o rio Macaé aguentou o tranco. Se o grande banhado do Brejo da Severina não tivesse sido dragado nos anos de 1970, as águas pluviais seriam detidas em grande parte dentro dele.
Já não se pode dizer o mesmo com relação ao rio das Ostras, que ocupou o terceiro lugar no estado do Rio de Janeiro quanto à pluviosidade. Foram 144 milímetros em 24 horas. O pequeno rio, hoje encurralado pela cidade de Rio das Ostras, encheu, transbordou e alagou as ruas.
Sem ser necessário aprofundar, nota-se que as planícies suportam mais a grande pluviosidade. Campos ficou em quinto lugar em termos de precipitação pluviométrica. Foram 127 milímetros. Pouco se notou em termos de enchente e transbordamento do rio Paraíba do Sul, o maior da região. Sua caixa suportou o volume hídrico.
O agravamento progressivo das secas e chuvas leva-nos a refletir, com relação ao mundo inteiro, a necessidade de lidar com a escassez e com o excesso hídrico. Já que não está ao alcance local reduzir as emissões de gases do efeito-estufa, cabe repensar o que fazer nas áreas rurais e urbanas além de contar com a Defesa Civil, com o Corpo de Bombeiros e com a solidariedade pública.
Parece que a construção de lagoas às margens dos rios, a montante e a jusante, com canais que conduzam o excedente hídrico para elas e delas novamente para o rio por um vertedouro é solução melhor que barragens dentro do rio. Saturnino de Brito, no início do século XX, defendia barragens baixas nos rios e a construção de lagoas marginais.
No caso do rio Paraíba do Sul, que conta com canais de drenagem sobretudo em sua margem direita, cabe abrir as comportas e permitir que o excedente hídrico penetre neles sem jogar a água no mar pelo canal da Flecha durante e depois das chuvas. Pode-se sugerir o mesmo para a margem esquerda, na lagoa do Campelo.
Quanto ao reflorestamento, já passa da hora de começar um programa integrado entre os municípios do Norte e Noroeste Fluminense de reconstituição florestal nas margens de rios e nos pontos críticos de erosão. Ainda não foi descoberto um meio mais eficaz para a saúde dos rios e controle de enchente e estiagem que a floresta.
Por fim, as cidades. Entra prefeito e sai prefeito e a vulnerabilidade das cidades só aumenta. A urbanização descontrolada e permitida discretamente pelos poderes públicos cria problemas hoje e os empurra para o futuro. Já passou o momento de repensar as cidades e partir para adaptá-las às mudanças climáticas. Na serra e na planície, as cidades têm de se adaptar aos novos tempos.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras