Aluysio Abreu Barbosa
11/10/2020 08:34 - Atualizado em 11/10/2020 14:15
Foz do rio Paraíba
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Marco Antônio Ribeira da Silva (Careca)
O avanço do mar em Atafona, no litoral mutável de São João da Barra, já levou muitas casas, ruas e histórias. Mas também se transformou em outras, contadas pelo mundo. Em outubro do ano passado, o blog Opiniões, hospedado no portal Folha1, registrou como as imagens de Atafona, feitas pelo fotógrafo carioca Felipe Fittipaldi, foram reunidas em uma exposição embaixo da famosa Ponte do Brooklin, em Nova York. Mais recentemente, geraram também uma reportagem do canal de TV France Info, gravada na no dia 1º deste mês e veiculada terça (06) na França. Na matéria televisiva, foram ouvidos o pescador Celso Simas Borges, o geógrafo da UFF Eduardo Bulhões e o coordenador da Defesa Civil de São João da Barra, Wellington Barreto Gonçalves.
O primeiro a estudar as interrelações entre o oceano Atlântico e a foz do rio Paraíba do Sul, no litoral de Atafona, foi o geólogo canadense Charles Frederick Hartt. Ele veio ao Brasil integrando a famosa expedição Thayer, entre 1864 e 1865, patrocinada pelo imperador Dom Pedro II. Em 1945, na sua obra “O Homem e o Brejo”, o geólogo campista Alberto Ribeiro Lamego externou grande parte das suas teses sobre papel protagonista do Paraíba do Sul na formação da planície goitacá. O processo natural passou a sofrer desequilíbrio pela ação humana. Em 1952, a barragem de Santa Cecília foi inaugurada em Barra do Piraí, desviando 2/3 das águas do rio Paraíba ao rio Guandu, para abastecer de água o Grande Rio de Janeiro. Para o eco historiador Arthur Soffiati, esse “foi o golpe final” em Atafona:
— A transposição de Santa Cecília criou dois rios Paraíba. O primeiro começa na sua nascente mesmo, na serra da Bocaina, em São Paulo, e termina na Baía de Sepetiba, na cidade do Rio, através do rio Guandu. O outro rio Paraíba começa no rio Paraibuna, em Minas Gerais, e termina na foz de Atafona. As lagoas de Grussaí, de Iquipari e do Açu não são mais extravasores auxiliares do Paraíba em período de cheia. Se o Paraíba não encher, esses braços não são reativados mais. E agora a gente vê o fechamento de mais um braço entre o Pontal e a Convivência. E ficou só um braço estreitinho, que é o braço de Gargaú — disse Soffiati no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, em 14 de janeiro deste ano.
O avanço do mar em Atafona fechou a foz natural do Paraíba em outubro de 2019, ligando a praia sanjoanense à antiga ilha da Convivência. Que foi momentaneamente reaberta pela cheia do rio em março deste ano, mas voltou a se fechar em maio. Isso, enquanto o avanço da salinidade marinha sobre o próprio Paraíba tem causado constantes interrupções de captação d’água para São João da Barra, como aconteceu no mês passado.
A única parte da foz natural do rio ainda aberta está entre a praia de Gargaú, no município vizinho de São Francisco de Itabapoana, e a antiga ilha do Peçanha. Onde o comerciante e “poeta da vida” Neivaldo Paes Soares desapareceu navegando sozinho, sem deixar sem deixar pistas, numa noite fria de 21 de junho de 2015. Para gerar outras histórias.
— Só quem nasceu e viveu uma vida às margens do rio Paraíba, onde eu meus irmãos tomávamos banho, pescávamos piaba com bolo de farinha e brincávamos nas areias branquinhas. Encho meus olhos de lágrimas porque vi com eles tudo indo embora pelo oceano ao longo de todos esses anos. Aos poucos tudo vivido foi ficando para trás. Quando fecho meus olhos vejo detalhes por detalhes como era tudo. E me nego a acreditar que tudo acabou por causa do capitalismo. Momentos de muitas dificuldades, mas também de muitas alegrias. Lembro da casa dos meus avós, dos meus tios e dos meus pais — comentou a professora da rede estadual Edna da Silva Pinto Azeredo, na página do Facebook intitulada “Lembranças de Atafona”.