O Ceará como exemplo de enfrentamento do fascismo miliciano
02/03/2020 16:08 - Atualizado em 02/03/2020 18:13
Um dos sintomas da indigência moral e intelectual que assola o país com a ascensão da extrema-direita é exigir imparcialidade de quem tem o direito e o dever de opinar, como colunistas e blogueiros, e esquecer esta cobrança quando ela é realmente cabível, como em relação ao poder judiciário. A horda de canalhas e imbecis bolsonaristas cobra cinicamente imparcialidade de quem opina na esfera pública e aplaude a parcialidade vergonhosa de juízes venais como Sérgio Moro.
Esta postagem, como tudo em um blog de opinião, é parcial. Mas mesmo assim tenho a pretensão de verdade: os adjetivos que uso para caracterizar o comportamento dos atores aqui abordados se mostram verdadeiros à luz de fatos conhecidos, cujas consequências parciais também demonstram a justeza dos adjetivos. Não há como tratar do caso da greve de policiais militares no Ceará sem recorrer à justeza destes adjetivos.
1) O governador Camilo Santana, do PT, demonstrou a firmeza de estadista, necessária para debelar esta greve criminosa sem fazer compromisso com os bandidos amotinados que pretendiam humilhar o poder do estado democrático de direito. Sustentado na articulação dos governadores, conseguiu derrotar a chantagem de Bolsonaro e de sua aliança descarada com os bandidos amotinados. Foi o maior vitorioso deste enfrentamento e imprimiu aquela que pode ser vista como a maior derrota política ao fascismo miliciano de Bolsonaro. Ao chantagear o Ceará, o miliciano eleito presidente chantageou todos os governadores que não se submetem ao braço armado criminoso do poder bolsonarista. E perdeu
2) A conduta do senador Cid Gomes, do PDT, relevou-se cheia de virtudes, entre as quais o heroísmo consequente. Entre os que não tiveram a pachorra de aderir à narrativa canalha da “legítima defesa” dos bandidos amotinados, restaram ainda muitos, inclusive na esquerda, que consideram a conduta de Cid inconsequente. Teria sido mais um arroubo tresloucado sem calculo político e institucional. Esquecem, estes críticos, não apenas que fascismo não se combate com flores. Agora estão obrigados a aceitar também que o virtuoso senador realizou uma mobilização popular consequente, coroada com seu gesto de sacrifício: foi a insurgência de Sobral que criou o clima de opinião pública necessário para a ação institucional de Camilo. Na esquerda, tirando o posicionamento isolado de alguns líderes do PT, do PCdoB e do PsoL, apenas o PSB assumiu, enquanto partido, posição de defesa clara e inconteste do senador, tratando os fatos com as qualificações que lhe cabem: um líder eleito atendendo ao chamado obrigatório de defender seu povo do arbítrio. Cid demonstrou que fascistas milicianos devem ser enfrentados com dedo na fuça, retroescavadeira e lei dura no lombo. Mostrou que o enfrentamento institucional do fascismo não pode prescindir de indignação moral. Pode e deve prescindir do moralismo de goela e das cirandas de psolistas covardes como Chico Alencar. Mas não da verdadeira indignação moral de psolistas destoantes como Glauber Braga e dos cidadãos que saem às ruas para defender sua liberdade, sua vida, suas propriedades, seus direitos fundamentais.
3) Sérgio Moro mostrou que é mesmo um capanga de milícia. Coube a ele, no momento em que suas pretensões de tomar o lugar de Bolsonaro como líder da extrema-direita se mostram menos promissoras, a vergonhosa tarefa de legitimar a greve ilegal dos bandidos amotinados. Ora, como assim “o policial não pode ser tratado de maneira nenhuma como um criminoso” (Sérgio Moro)? Basta, para isso, que ele seja e se comporte como um criminoso! Pelo menos deve ser assim no “império da lei”. Certamente não é assim para um capanga de milícia. Nesta condição, foi escalado também para enfrentar quem o chefe não pretende encarar: os Ferreira Gomes. Sua tentativa de responsabilizar o grupo político de Ciro e Cid pela crise na segurança do estado do Ceará é o recibo de derrota que Bolsonaro não precisa passar diretamente, já que contratou um capanga para isso.
Sim, eu poderia desenvolver estas “três teses” sem chamar Bolsonaro de miliciano, Camilo de estadista, Cid de herói e Moro de capanga de milícia. A escolha por usar os adjetivos e qualificar os atores revela minha parcialidade. Mas o sentido destes adjetivos não mancha, só endossa, tudo que de verdadeiro se pode dizer sobre a luta e o exemplo do Ceará contra o fascismo miliciano.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Roberto Dutra

    [email protected]