Herbson Freitas
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“A trova tudo nos conta. / De coisas belas nos fala. / Basta ALMA para fazê-la... / E OUVIDOS para escutá-la”. Luiz Otávio
Não há uma data precisa para se saber quando a trova teve início, ou melhor, quando ela começou a ser divulgada; quem fez a primeira e qual foi o lugar. No entanto, segundo consta, a trova tem cerca de 500 anos e, segundo dicionaristas, ela é definida como composição poética ligeira e de caráter mais ou menos popular.
Antigamente, era quadra popular, “quadrinha”, “trovinha” ou “versinho”, mais precisamente. Aliás, até hoje muita gente faz confusão. A trova já foi confundida e citada como cordel em várias partes do Brasil, principalmente no Nordeste.
Infelizmente, no passado, foi um gênero literário pouco apreciado, difundido e versejado, apesar da trova existir há séculos. É cantada ou declamada, em determinadas ocasiões, por nomes famosos da literatura mundial, como Luís de Camões, Gil Vicente e Fernando Pessoa, ilustres poetas portugueses.
Alguns pesquisadores afirmam que o famoso William Shakespeare, o maior poeta dramático da Inglaterra; o festejado autor de “Romeu e Julieta”, “Otelo” e outras inesquecíveis obras, há cerca de 450 anos atrás, deixou algumas trovas escritas. Será? No Brasil, dos poetas românticos, parnasianos, simbolistas aos modernistas, quase todos compuseram trovas.
A trova começou realmente a tomar vulto, maior expressão, no Brasil, graças ao odontólogo e trovador carioca Luiz Otávio, secundado pelos poetas J. G. (José Guilherme) de Araújo Jorge e Carolina Ramos de Oliveira, musa do primeiro. (Autora, hoje, do livro “A TROVA - Raízes e Florescimento - UBT”, do qual faço parte). Nessa ocasião, foi criada a UBT - União Brasileira de Trovadores e, em seguida, delegacias e seções da mesma entidade pelo Brasil afora.
Luiz Otávio era uma criatura admirável, educada, inteligente. No ano passado (2016), os trovadores brasileiros não deixaram de comemorar o seu centenário de nascimento. Fazia trova com a maior facilidade do mundo. Sabia fazer trova. Era um inspirado mestre.
Abertura da exposição de trovas
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Em Campos tudo começou em julho de 1959, há, portanto, 58 anos passados, quando da realização do 1º Salão Campista de Trovas, promovido pela Academia Pedralva Letras e Artes, com a presença de expressivos nomes da trova brasileira, destacando-se o “Papa da Trova” - Luiz Otávio.
A organização do evento esteve a cargo do poeta Pedro Baptista Manhães, um dos mais ilustres vates da planície, uma doçura de ser humano, considerado pelo poeta Almir Maciel Soares, seu amigo, como “o poeta da simplicidade”. Pedro, Almir e Walter Siqueira foram os fundadores da APLA e o 1º Salão de Trovas contou com a colaboração de vários poetas, dente eles, José Ferreira da Silva.
Os Salões Campistas de Trovas foram realizados de 1959 a 1973 (se não me falha a memória), com enorme sucesso e a participação de intelectuais de projeção nacional, como Luíz Otávio (Gilson de Castro, seu verdadeiro nome), Carolina Ramos de Oliveira, J. G. de Araújo Jorge, João Felício dos Santos (consagrado autor de “Ganga Zumba” e “Chica da Silva”), Aparício Fernandes, Raul de Oliveira, José de Paiva Brasil (campista), Jorge Murad (humorista da emissora Rádio Nacional do Rio de Janeiro), Alice de Oliveira (poetisa e declamadora), João Oscar do Amaral Pinto, A. A. de Assis, Maria Moura da Costa, Hélio Teixeira e dezenas e dezenas de outros nomes famosos.
Os Salões deixaram de ser realizados por questões financeiras. No passado, a Municipalidade ajudava. Com o passar do tempo, deixou de ajudar. Aí... ficou difícil. Eram Salões mais ou menos dispendiosos, com exposições, coquetéis, palestras, passeios turísticos e sessões poéticas. Cultura, na realidade, é idealismo e sem ajuda financeira, fica impossível levar à frente certas realizações culturais.
Na verdade, a grande expansão da trova, no Brasil, ocorreu somente a partir de 1956 (muito antes de Campos), com o lançamento de “Meus Irmãos, os Trovadores”, de Luiz Otávio; e, em nossa cidade, três anos depois, por iniciativa da Academia Pedralva, que participou da fundação e acolheu a UBT campista por muitos anos, durante os quais houve alguns interregnos. A Pedralva era a UBT e a UBT era a Pedralva. Dessa forma, mais tarde, a Pedralva acolheu também o ICL - Instituto Campista de Literatura.
Os Jogos Florais, oriundos da França e de Portugal, começaram em Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro, em 1960, por iniciativa também de Luiz Otávio, com o apoio de J. G. de Araújo Jorge e poetas-trovadores da região.
Na terra campista, na UBT - Seção de Campos, sob a presidência do jornalista e poeta Amaro Prata Tavares, com muita dificuldade, alguns Jogos Florais foram realizados. No entanto, atualmente, a UBT - Seção de Campos, em nova fase, já realizou seis jogos, também com muita luta financeira, mas com grande sucesso. A nova fase teve início com o poeta Antônio Roberto Fernandes, prosseguiu com a trovadora Neiva de Souza Fernandes e, agora, sob a presidência da dinâmica professora e trovadora Talita Tavares Batista Amaral de Souza.
Com a fundação da UBT-Campos e o surgimento de novos trovadores, a trova cresce a cada dia que passa. Sem contar as iniciativas passadas de concursos de trovas escolares; promoções e passeios além de viagens trovadorescas. A UBT local, nos dias atuais, tem realizado palestras e cursos de versificação da trova.
Em 1980, a Confraria do Calçadão, entidade que existiu no “Largo da Imprensa”, no Calçadão da Avenida 07 de Setembro, fundada pela turma da antiga boemia campista, promoveu o 1º Festival de Trovas do Calçadão, sob o tema “Humor”. E saiu cada uma... Fui presidente dessa entidade, atualmente substituída pelo Grupo dos Amigos do Calçadão, que deverá, em breve, realizar um festival idêntico.
Hoje, a cidade de Campos orgulha-se de ter excelentes trovadores e trovadoras, e, antes de tudo, uma entidade atuante, com curso até de “Como fazer trovas”, como já foi citado, sob a responsabilidade da trovadora Talita Batista e outros membros. Todos os trovadores campistas estão de parabéns! E para aprender a fazer trova, é fácil. Primeiro, querer fazer os quatro versos setissílabos com rima. Segundo, inspiração e métrica. E para aprender - a métrica, por exemplo -, indico o pequeno livro de Eno Teodoro Wanke, mestre da trova, intitulado “Como fazer trovas e sonetos”, ou a UBT local.
E quem quiser conhecer mesmo mais um pouco desse gênero poético, é só aguardar e participar do VII Jogos Florais de Campos, a realizar-se no final do mês, dentro da programação do II FDP - Festival Doces Palavras, promoção da Academia Campista de Letras e da Associação de Imprensa Campista, com o apoio da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes.
Os trovadores são conhecidos e tratados como irmãos. Que beleza! E é por isso que o final do poema de Maria da Conceição Nobre, de Angola - África - 1957, dedicado ao poeta Pedro Baptista Manhães, é a mensagem final deste trovador, que afirma e diz: “Bendito sejas, meu irmão / e benditos sejam todos / MEUS IRMÃOS, TROVADORES (ou não...), PELO CORAÇÃO!”. (*).
(*) No poema de Maria da Conceição: “TROVADORES (ou não...)”, o acréscimo é do autor deste resumido histórico.