Agora, mais do que nunca, vai!
19/11/2022 | 02h53
Brasil joga contra a seleção da  Colômbia  na arena Castelão em Fortaleza (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Brasil joga contra a seleção da Colômbia na arena Castelão em Fortaleza (Marcello Casal Jr/Agência Brasil) / Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Contrariando as frustrações políticas e futebolísticas promovidas pela seleção brasileira na última década, não tenho dúvidas de que estamos prontos para a embriaguez utópica e alienante desta Copa do Mundo.

2018, pelo menos pra mim, foi uma Copa sem registro na memória, o que é absolutamente normal para quem vivia o luto do 7 a 1 misturado com a perda da camisa canarinho pra um pessoal com quem eu não desejava – e ainda agora não desejo – ser associado.

Então meu intervalo entre a última Copa e esta é um tanto maior, o que é ótimo para deixar no passado as lástimas e reapropriar os símbolos, que vêm junto com as esperanças – apesar de uma lateral (extrema) direita um tanto duvidosa.

Não vou ficar enrolando pra dizer que, como é repetido desde 2006, neste ano o hexa vem. Pronto. Ilusões fazem bem, ainda mais em tempos tão excruciantes.

Eu já preparei a camisa amarela, completei o álbum desde setembro e estou tentando fazer uma agenda para ver os jogos – de verdade, sentar e assistir, sem papos paralelos e interrupções que possibilitem quebrar a energia da vitória.

Uma coisa é certa: se ganharmos, eu já estarei esperando a sétima estrela em 2026, mas, se perdermos – hipótese absurda - , eu seguirei esperando a sexta sem problema algum.

O que eu realmente sinto é que precisamos de algo para suturar as feridas remanescentes de um corte profundo e tentar deixar para trás tudo que fez mal nesses tempos estúpidos. Precisamos da embriaguez coletiva que minimiza as diferenças e concentra o fanatismo no futebol – ao menos por um mês.

Ou seja, só reclamo do Daniel Alves para não perder a tradição de dizer que o técnico da seleção errou – algo me diz que isso dá sorte -, mas já estou aqui torcendo pelo hexa com a mesma crença ingênua de quem acreditou numa vitória sobre a Alemanha em 2014. Mas agora vai!

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
Escreve aos sábados no blog Extravio.
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Pra não falar de política
01/10/2022 | 10h33
Fonte: Pixabay.
Depois de um considerável período de silêncio neste blog – por motivos vários -, retorno num momento em que não se fala em outra coisa: amanhã é o primeiro turno das eleições.

Fiquei tentado a falar sobre o tema, já ciente de que poderia – enquanto improvisado comentarista político - falar mais do mesmo e ficar repetindo ecos de uma abordagem qualquer que eu li no jornal.

Indo na contramão das minhas expectativas, porém, quero tomar rumo distinto e falar sobre teimosia.

Sim, esse é um assunto que move a humanidade, afinal, um teimoso inveterado é capaz de muita coisa para provar seu ponto. Quem já discutiu com um teimoso verdadeiro sabe que ele é capaz de relativizar até o terraplanismo para sair com a razão – e com a última palavra, pois ninguém suporta algo assim.

Isso significa dizer que o ser humano pode assumir consequências absurdas para garantir o posto de “coberto de razão” ou mesmo para se sentir superior ao outro, o que inclui questionar a realidade, dar um safanão na lógica e desacreditar séculos de estudos sérios sobre algo.

Tal coisa acontece, sobretudo, quando há paixão pelo tema. Um indivíduo apaixonado é capaz de garantir que seu time só foi rebaixado porque o VAR não deu um pênalti claro na rodada 15 do campeonato e brigar ferozmente por isso. Ou até dizer que seu ídolo pop não fez nada depois de ser acusado de uma centena de crimes aterradores – “mas ele é perfeito”, o sujeito dirá.

A questão da teimosia, no final das contas, se reduz ao ego de alguém que tem certeza de algo, apesar de tudo dizer o contrário – tudo mesmo. Há algo de teoria da conspiração nessa postura insensata, mas, na real, é só coisa da cabeça mesmo.

Imagine quem, ainda agora, acredita que não existiu pandemia, que vacina causa aids, que a monarquia é a solução para o Brasil e que todas as pesquisas de intenção de voto foram forjadas para favorecer um único candidato. Parece absurdo, mas pessoas que pensam assim estão por aí, teimosas até o fim, com razão até se cansarem de gritar pelo que não existe.

Ao teimoso, pode até faltar bom senso, mas falta, antes, um bom choque de realidade para entender o tempo e as condições em que se vive.

(Viu só? Em poucos parágrafos, escapei com tranquilidade do impertinente tema eleitoral.)

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Candidato da esquina
03/09/2022 | 04h45
Fonte: Pixabay.
Numa esquina, recém acordado por um lojista irritado que abrira agressivamente a porta metálica do estabelecimento, José fixou seus olhos num estardalhaço que adentrava a rua.

Faixas bandeiras cânticos sorrisos apertos de mão santinhos números cargos e um samba frenético de ensurdecer.

Um pequeno grupo vinha ao redor distribuindo panfletos e apontando para o tal da foto, que estava no carro estardalhante acenando para um público imaginário, que não se fazia presente para ver o alvoroço.

José, vidrado naquele furdúncio aleatório, percebeu que a turma se aproximava, mas não em sua direção. Ainda entre as cobertas, ele foi completamente ignorado, é claro, pelo candidato e sua equipe. De um lado, isso foi ótimo, pois preferia passar mais tempo em repouso. De outro, se sentiu apenas um obstáculo a ser desviado no caminho.

Foi quando, a partir daquela tarde, ele estabeleceu uma peculiar rotina na esquina daquela rua movimentada: resolveu lançar oficialmente sua candidatura e postular um cargo para - ilusão - desbancar o homem do carro barulhento que o tratara como nada. Um banco improvisado e duas madeiras apoiadas qual balcão permitiam ler na placa, em letras malformadas, VOTE EM MIM – 0000.

O cargo para o qual se candidatava pouco importava. A questão era que causava, em seu silencioso gesto de disposição eleitoral, um espanto e até um riso naqueles que o viam ao passar pela esquina. Queria marcar posição, fazer parte daquele movimento destinado apenas aos poderosos.

E passou, então, a ocupar suas tardes inteiras sentado a acompanhar os transeuntes que se fixavam na informação do candidato sem registro, sem partido e de número vazio.

Certo dia, um garoto passou olhando e perguntou o nome dele. José, disse. Um dia você vai trabalhar com meu pai. José sorriu. Claro que não sabia quem era o pai do moleque, mas seguiu acompanhando o garoto com seu olhar sereno e abstrato, em sua seriedade de candidato anônimo.

Enquanto o pai não saía da loja ao lado, o menino corria às voltas por ali quando se voltou novamente ao homem e questionou, muito interessado, qual era o seu partido. O da rua, o garoto ouviu.

O meu pai deve conhecer seu partido. O dele é o... é o... esqueci! Mas você também deve conhecer.

Apesar da inércia de José, o garoto continuou por perto, como a sabatiná-lo em audiência única, com perguntas definidas por critério parcialíssimo – e sem a presença da assessoria do candidato.

E o que você vai fazer quando ganhar a eleição? A primeira coisa que meu pai faz sempre que ganha é comprar uma casa nova bem longe daqui e fazer uma festa lá. Toda eleição é assim.

Mal o menino dissera isso, o candidato do carro barulhento saiu da loja tomando a mão da criança. Ato contínuo, José virou ao contrário a placa que anunciava seu número. Tomado por uma repentina desesperança, viu que era inútil tentar desbancar o poderoso das tantas casas: estava retirando sua natimorta candidatura.
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Lembrança tecnológica
06/08/2022 | 02h34
Mal acordou, não sabia sequer onde estava. Ao seu lado, a mulher com quem passara mais da metade dos anos vividos até então, uma completa desconhecida.

Sua primeira reação, atônito, foi sentar de prontidão na beira da cama, tatear o chinelo que se perdera ao longo da noite pelo tapete e, prestes a atacar a mulher, gritar: sai da minha casa AGORA!

Aflita, Neide se ergueu com a robustez da voz do marido e ainda tentou o diálogo: Freitas, sou eu, a Neide. Mas ele continuou a repelir a invasora, chegando a pegar o copo plástico da cabeceira para lançar contra ela.

Só então, vencida pelo esquecimento do marido, ela levantou e foi fazer o café, deixando ele só. Os dias passavam assim, entre lapsos de passado e presente, com o constante esquecimento de quem era ela.

Já na sala, tempos depois, ela assistia ao telejornal quando ouviu Freitas falar sozinho no quarto: Alexa, acenda a luz. Uma ponta de ciúme bateu. Dela, ele não se esqueceu.

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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O simbolismo das fotografias
16/07/2022 | 04h21
(1999)
 
Pra qualquer criança, ter sua espoletice interrompida é uma espécie de negação da própria liberdade. Faz parecer que o adulto - essa figura chata que vive querendo colocar limite e responsabilidade em tudo – sente, no fundo, alguma dor de cotovelo por não viver mais aquele mundo de criatividade descompromissada, tentando podar a criança a fim de vingar as opressões da vida. Mas talvez exista um porquê em alguns desses casos.

Se tem um momento incompreendido pelas crianças e supervalorizado pelos adultos, é o de tirar fotografias. É aquele momento em que o pequeno interrompe sua preciosa correria e – suado, descabelado, roupa suja e tudo mais de direito – ouve a desalmada frase: “dá um sorriso direito, garoto!”.

Isso significa dizer, no mínimo, que a passagem do tempo ou faz com que a pessoa fique cada vez mais parecida com um tio chato e ranzinza ou faz com que valorize cada vez mais o passado e sinta a importância de acumular momentos em objetos simbólicos, como as fotografias – que já nem são mais objetos corpóreos, banais que ficaram.

No meu tempo – sim, uso essa expressão taxativamente antiquada para dizer, do alto dos meus vinte e três anos, que, de alguma maneira, sou da antiga -, tirar foto era ainda pior, pois tinha toda a engenharia da máquina, a limitação dos filmes, a pose da foto e essas coisas que eu já nem compreendo mais, afinal, a idade vai chegando, e a memória vai ficando limitada sobre as coisas da infância.

E falar disso leva minha lembrança diretamente a um dia, eu tinha três anos, perto do aniversário dos meus pais, quando estavam todos arrumando a casa para a festa, e eu corria de um lado para o outro, sem parar. Não estou inventando nada: fui uma criança legitimamente travessa. E, num espaço aberto, na animação festiva do momento, eu corria de um lado para o outro, é claro.

Até que, num repentino momento de pausa, minha mãe me chamou para tirar uma foto. Eu, sorriso forçado, suor escorrendo, camisa molhada, peguei meu cachorro, um poodle chamado Floffy, e tirei uma foto corrida para logo voltar a brincar.

Hoje, tantos anos passados, tenho essa foto como uma gostosa lembrança do meu cachorro, da minha infância, da minha espoletice – hoje ranzinzice -, e valorizo demais essas pequenas lembranças. Estou, decerto, com os sintomas do adultismo – e faço questão de registrar cada momento que posso pra alimentar as lembranças do depois.
 
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Enquanto sou observado
18/06/2022 | 02h57
Fonte: Pixabay.
 
Uma confidência pouco relevante: eu me divirto enquanto, num lugar movimentado, crio ficções improváveis sobre as pessoas ao meu redor.

Praça de alimentação de shopping, por exemplo, é o lugar perfeito para sentar e observar e comentar os hábitos das pessoas – numa espécie de flaneurismo sedentário que substitui tranquilamente uma caminhada urbana por um hambúrguer.

Horas antes de este texto ser escrito, três homens reunidos numa mesa da área de alimentação de um shopping campista dividiam garrafinhas de água e pacotes de um biscoito de isopor com corante amarelo não identificado.

O motivo de estarem ali? Hipóteses surgiram – de terapia em grupo até promessa religiosa -, mas eles, provavelmente, estavam apenas fugindo da pacata rotina de suas casas numa sexta à noite.

Quase ao mesmo tempo, uma menina chorosa derrubou uma cadeira e saiu acompanhada por um grupo de adolescentes agitados. Teria ela ficado sabendo do fim de sua banda preferida por um colega inclemente que deu a notícia sem a devida cerimônia?

Tudo se passa na dinâmica dos minutos enquanto a comida não chega.

Ao meu lado, um homem sozinho passou cerca de meia hora com dois pratos de comida intocados na sua frente. Teria ele sido abandonado num encontro ou a pessoa realmente estava a caminho? Ou teria ele espaço interno para duas refeições?

Na verdade, a vida dos outros é de interesse público enquanto o estômago não está ocupado.

O que não se sabia, porém, é que o pessoal da mesa ao lado ria inventando histórias sobre quem estava observando a atitude dos outros – numa reação desencadeada pela simples presença humana ociosa num ambiente aglomerado.

Antes de terminar, vale um detalhe final a título de desfecho: apesar do tempo passado, a acompanhante do rapaz da mesa ao lado chegou. A espera não foi em vão, e eu não podia deixar vocês sem esse comentário relevante.

Com um pouco de criatividade ou de esperança, portanto, até o apetite pode aguardar.
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Vida sebastiana
18/06/2022 | 02h35
Fonte: Pixabay.
 
O primeiro passo para a frustração, você já deve saber, é criar expectativa sobre algo. Alimentar esperanças sobre o que se deseja pode ter repercussões danosas por uma vida inteira.

Sebastião, por exemplo, nunca se ligou nisso. Passou toda sua trajetória esperando reconhecimento da mãe por seus feitos na escola e no trabalho. Chegou recentemente ao doutorado ouvindo não fez mais que a obrigação.

E essa postura esperançosa sobre as coisas fez dele um ranzinza diante de surpresas nada surpreendentes: esperava que o prato do restaurante chegasse quente – tolice -, esperava que o amigo pagasse o empréstimo devido – coitado -, projetava uma tarde de domingo divertida toda semana – mas sempre dormia.

Sua esperança chegava a dar dó principalmente em Patrícia, sua esposa, que padecia junto com Sebastião ao ver que ele sempre esperava mais do que seria entregue – até quando o contrário era óbvio.

Ele fazia questão, por segurança, de tomar as mesmas atitudes e se frustrar com os mesmos resultados todos os dias.

Alguns tópicos, porém, deixavam Sebastião irritado. Quando falavam de política, por exemplo, ele tinha até um discurso decorado: sempre estava cansado de tanta corrupção e roubalheira, que precisava de alguém comprometido com a moralidade da nação.

Nesse caso, a ilusão do nosso personagem estava em pensar que o político deveria ser um sujeito escolhido divinamente para assumir o poder - e não uma pessoa gestada e escolhida como um reflexo da sociedade ao seu redor.

E veja só a curiosa expectativa criada por ele: em 2018, resolveu apostar suas fichas em um político com quase trinta anos de estrada – sem um único feito relevante em sua vida pública – acreditando que ele faria relevantes trabalhos ao sair do Legislativo para se tornar presidente.

Diferente de Sebastião, eu não criarei nenhuma expectativa quanto a você, leitor(a), e sinceramente não vou ficar esperando que você chegue a este ponto do texto.

Mas, sem querer me iludir, deixo aqui a questão: você realmente ainda acha que os problemas atuais do país são culpa de um governo que está fora do poder há cerca de seis anos e que o governante atual faria algum milagre para sairmos do buraco econômico, social e sanitário?

Sendo a resposta positiva, vale rever o quão Sebastião você tem sido.
 
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Biscoitagem
30/04/2022 | 12h29
Fazer e postar – um movimento sincronizado tão curioso quanto incômodo.

Eu sempre achei esquisita a relação obsessiva das pessoas com as redes sociais – o que se aplica também a mim -, sobretudo ao conhecer pessoalmente quem está por trás de determinados perfis.

Já gargalhei com perfis cômicos de amigos virtuais, repletos de memes engraçadíssimos – sim, meu senso de humor não é muito exigente -, e descobri depois que o administrador era um cara completamente sem graça e introvertido. Timidez ou dupla personalidade? Vai saber.

Por outro lado, para além das pessoas que viram personagens caricatos nas redes, eu fico abismado quando vejo aqueles que postam absolutamente tudo: do aniversário do cachorro ao cachorro quente na praça, nada passa sem um registro nos stories.

Neste exato instante, por exemplo, estou numa cafeteria presenciando alguém fotografar seus solitários (apesar de unidos) três pães de queijo antes de comê-los solitariamente – um like ou um emoji de coração pode, certamente, preencher esse vazio que a comida não conseguiu alcançar.

Essas pessoas, decerto, têm um dom único para criar conteúdo – desinteressante, claro -, mas expõem uma mesquinha característica humana ao querer virar os holofotes para si: a de não controlar o ego.

Se as celebridades, que costumam gerar curiosidade sobre tudo que fazem, já forçam a barra para criar conteúdo 24 horas por dia, imagina o seu amigo de trabalho, que tira foto da marmita dele todos os dias antes de almoçar? Ele pode estar indo longe demais sobre sua autoimagem.

Será um amor próprio sem limites ou uma tentativa de se fazer interessante forçosamente? Talvez nem um, nem outro. Pode ser que ele só queira se sentir menos sozinho, receber uma reação genérica e, como dizem, ganhar um biscoito.

A lista de motivos para a carência biscoital é imensa, mas o meu interesse se volta especialmente para as ideias. Por exemplo: de onde uma pessoa que posta opiniões a cada quinze minutos no Twitter tira tanta bobagem? Navegar por alguns minutos nas aleatoriedades do microblog me deixa pasmo ao ver que as pessoas têm muitas razões para se expressar – e uma criatividade que vai além do limite de caracteres.

Aliás, quem dá importância para tanta opinião lançada na internet? Esta minha, como se pode ver, não importa nada, mas exemplifica muito bem o ponto aqui colocado.

Essas ideias e opiniões devem vir de onde surgem os tantos memes dos perfis administrados por usuários introvertidos: da vontade de parecer alguém que não são. Mais impressionante ainda é conseguirem fazer as bobagens parecerem coisas relevantes.

Nota: quase tirei uma foto da cena do pão de queijo para ilustrar esse texto, mas aí já seria um biscoito extra pra pessoa da mesa ao lado.

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Desmascarar
25/03/2022 | 04h53
Fonte: Pixabay
Por trás do pano, a vaga lembrança de quando o costume era manifestar as emoções com traços faciais e dizer, muito além da fala e dos gestos corporais, um sem número de coisas – do deboche ao consentimento.

A pandemia tirou muito de nós, ceifando vidas e oprimindo liberdades, o que se apresenta não apenas com o isolamento social, mas também com a necessidade do uso de máscaras, que acaba isolando as pessoas em si próprias, ocultadas por seus paninhos de nariz e boca.

Este texto, claro, fala de quem usa máscaras. Quem não usa – nem agora nem antes – já é absolutamente descrente da gravidade da doença e do momento pandêmico.

Como muitas outras pessoas, ainda mantenho o costume de usar máscara – sobretudo em lugares fechados - por não sentir essa segurança plena que estão pregando por aí. Mas admito, claro, que sinto a diferença dos tempos e percebo que vivemos um novo momento de transição.

Nada disso de “novo normal” ou qualquer outra nomeação pasteurizada. Acredito que esse negócio de normal já é discutível por si só, mas não é o foco daqui. Fico com o fato de que certos hábitos acabam sendo mais fortes do que as exigências da rotina, não estando necessariamente aptos a ser banidos de forma abrupta.

As incômodas máscaras são um deles. Fazem parte de uma rotina cristalizada – da qual queremos, acredito, nos livrar enervadamente – que gerou uma série de dificuldades e comodismos muito próprios.

As dificuldades eu nem preciso mencionar – cada um tem a sua. Mas, entre os comodismos, decerto está a possibilidade de ocultar as emoções ao se esconder atrás do paninho com elásticos, seja para murmurar, cantarolar ou rir de alguém, a máscara guarda a função de ocultar muito do que somos e fazemos.

Numa sociedade em que as pessoas se pautam em se mostrar fortes e maduras a todo tempo, esconder suas fraquezas e feições pode ser um ganho para alguns, que guardam desde a infância a reforçada ideia de que chorar, por exemplo, é sinal de embaraço e fragilidade.

Isso fala muito sobre nós, o que desemboca no fato de que a ocultação de parte considerável da face tem um significado próprio nas relações sociais, na forma como falamos uns com os outros pelas expressões não verbais e, sobretudo, na forma como expressamos o que sentimos.

Numa época em que o sentir se resume a um story ou a um número delimitado de caracteres – que acabam por ocultar a realidade da mão que posta e nem sempre sente o que representa -, tirar máscaras é se despir em público, expondo além do que se pretende, desocultando a privacidade que se queria guardar.

Para além da doença que tirou vidas e quebrou rotinas, se mascarar tem um fundo simbólico profundo, que leva ao questionamento interno: estamos prontos, enquanto sociedade, para nos livrarmos das tantas máscaras que acumulamos ao longo desses últimos anos, expondo francamente quem somos e o que sentimos dentro do caos social em que vivemos?
 
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Conviver com a ficção
18/03/2022 | 10h31
Fonte: Pixabay
 
Tem gente que resolve mergulhar numa trama com o objetivo pontual de fugir da realidade, se permitindo ler um livro ou ver um filme sob o raso olhar que dissocia a trama do mundo factual. Decerto, tal leitura de uma obra não vai se desdobrar em debates ou reflexões sobre o que se quis dizer com certa cena, uma vez que se pautará apenas em “assistir por assistir” ou “ler por ler”.

Mas a verdade é que as tantas camadas de uma obra de ficção podem ser acessadas a partir de uma breve comparação entre elas e o que está, por exemplo, nos jornais. Até a ficção fantástica possui correlação intrínseca com a realidade. Não porque os seres humanos ganharão super força ou habilidade de voar, mas porque a referência fundamental de qualquer ficcionista é a realidade humana.

Isso, por si só, é algo fácil de perceber.

Mais fácil ainda é notar que as ficções comprometidas com a dinâmica do mundo real criam um pacto com o leitor/espectador no sentido de não fugir do que se considera real, palpável aos seres humanos e seus sentimentos. Porque a ficção sempre traz um balanço entre o que vivemos e o que imaginamos e sentimos, demonstrando as humanidades de diversas formas numa linguagem metaforizada.

Diante disso, surge uma problematização pertinente: ao apresentar mazelas cotidianas, intolerância, discriminação ou qualquer forma de violência real ou simbólica, a obra de ficção estaria fazendo uma apologia ou apenas replicando o mundo real?

Depende. A forma como a ficção apresenta a realidade pode soar como elogio ou reprovação a depender do público a que se destina e do contexto em que a ação é colocada. Uma cena de agressão, por exemplo, pode gerar empatia e, por meio dela, reflexão sobre o que muitas pessoas sofrem cotidianamente, de modo a criar um paralelo com as vivências e com o que se conhece da sociedade.

A partir disso, é intrigante ouvir de algumas pessoas que o fato de um filme de cinco anos atrás – com a flagrante proposta de ser caricato – ter como personagem um vilão pedófilo é apologia ao abuso sexual de crianças, o que parece, no mínimo, ser um sério problema de interpretação ou de caráter – a menos que a ideia seja fazer marketing para que mais pessoas vejam o tal filme, o que, é claro, está ocorrendo.

Tal confusão, por mais estarrecedora que seja – gerando, inclusive, uma decisão autoritária de censurar o filme do Gentili – expõe a grave crise de realidade que vivemos. Isso porque acreditar nas narrativas vendidas como se realidade fossem provoca uma falsa percepção sobre o atual estado das coisas e, principalmente, confunde muitas pessoas sobre o que é fictício ou não, como se vivêssemos numa espécie de alucinação em que realidades paralelas se colidem, e o palpável, o que se vê na vida diária, fosse mera invencionice.

Nessas invencionices, o ódio e a intolerância se alastram, pois é ignorada a existência das violências e pressões geradas pela vida em sociedade, ampliando muitas formas de agressão por desconsiderar que alguns assuntos existem e precisam ser debatidos.

Isso se apresenta, por exemplo, numa comédia ridícula, e certas pessoas tentam flagrantemente abafar a vilanização de um pedófilo sob o discurso (falso) moralista de que se trata de uma apologia. Mas, se você notar, viver um conto de fadas pode ser uma apologia à completa ignorância sobre o que se passa fora do castelo encantado – no mundo real.

A verdade é que essa crise de realidade, entre tantos absurdos vividos – dos preços disparados às manifestações insanas do chefe do Executivo –, chega a tornar plausível questionar a ficção por apresentar algo que, aterradoramente, existe na realidade.

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Sobre o autor

Ronaldo Junior

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Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.