Arredores
27/01/2024 | 14h00
Fonte: Pixabay.
Aqui, detrás desses painéis que não te permitem me enxergar, dou as últimas pinceladas nas imagens para as quais pretendo olhar pelo resto dos meus dias - não que sejam muitos, mas são tudo que tenho.
 
Aproveitei para, numa pausa entre a observação e a mistura de tons, relatar o que faço como forma de explicar para mim mesmo os anseios por trás dessa que já considero minha principal obra.
 
VanGogh pode ter retratado a si mesmo, Michelangelo pode ter expressado a divindade, Picasso pode ter dado forma ao indizível, mas eu pinto para compor o que desejo vivenciar.
 
Não me refiro à imaturidade de pintar meus desejos ou paixões juvenis. Já passei disso há anos. Na verdade, falo de pintar minhas ficções pessoais, com as quais convivo e nas quais acredito a cada amanhecer.
 
A ideia de me dedicar a isso surgiu quando passei um tempo na casa do meu irmão, podendo olhar de perto a rotina da família e, em especial, do meu sobrinho mais novo. Parei para ter uma conversa com ele, saber de suas questões particulares e de sua formação, ter um contato com a juventude, mas fui surpreendido com uma realidade paralela.
 
Ele, assim como o restante da família, tinha uma perspectiva distorcida de acontecimentos históricos, descobertas científicas e até mesmo de fenômenos da natureza. Suas convicções chegavam a níveis de creditar fatos singelos ao divino ou mesmo explicar coincidências com teorias conspiratórias.
 
Faz alguns meses, saí de lá para procurar um canto e viver sozinho. E fiz isso convicto de que algo faltava em minha vida. Passar quatro décadas me dedicando a ilustrar, pintar e projetar murais fez com que eu nunca olhasse para o que havia de cor dentro de mim.
 
Se bem que, devo dizer, eu me encontrava simbolizado em cada pincelada que dedicava durante os meses de execução de um trabalho. Mas nunca tive algo meu, voltado para mim. Então resolvi fabricar meu próprio ópio, modelar a ficção absurda com a qual convivo em meus pensamentos e dar, enfim, uma explicação para tudo que fiz até hoje.
 
Aluguei este cubículo que me leva quase toda a aposentadoria e dediquei os últimos meses a idealizar o meu lugar nos painéis que agora me cercam. Penso, olhando agora, que pintei uma espécie de deserto, no qual sou eu mesmo o escaldar do sol e o refletir da lua, sou o centro.
 
Estou cercado de uma imensidão que pode ser infinito vazio ou abastado preenchimento, depende do dia em que observo. Nunca pisei num deserto nem nunca me detive a pensar em um, mas não havia outro motivo para esses painéis que não fossem tornar acessíveis os grãos de areia - ora cortantes como vidro, ora macios como flocos de espuma - que eu trazia em mim.
 
E assim, a partir dessa mensagem que escrevo antes mesmo de concluir as pinceladas, explico por que me isolei de todos e resolvi viver na misantropia da reclusão: tenho um deserto inteiro a percorrer todos os dias, às vezes em jejum, às vezes em um oásis. Foi essa a realidade em que escolhi acreditar e, nela, você me encontra enquanto lê estas palavras.
 
Você já encontrou a sua?
 
*Ronaldo Junior tem 27 anos, é carioca, bacharel em Direito, licenciado em Letras e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
A partir de 2024, escreve no último sábado de cada mês no blog Extravio.
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Metas de ano novo
30/12/2023 | 15h10
Fonte: iStock
É muito possível que você só tenha voltado a me ver neste mês de dezembro, em meio às festas, confraternizações, pausas nas atividades. Essa já vencida lista não esperava visita sua em outro momento do ano, nem mesmo para marcar os feitos de março, agosto ou outubro, meses em que as promessas estão diluídas nos compromissos cotidianos.
 
Eu seria ingênua se esperasse que você abriria o bloco de notas – ou estou em um grupo privado no seu Whatsapp? – para anotar que fez aquela tatuagem ou que apenas se matriculou na academia da esquina sem estímulo algum para ir.
 
Isso já vem de muito tempo. Minhas antepassadas, feitas à mão, algumas em papel de pão, outras em guardanapo de barzinho, eram deixadas no fundo da gaveta, passando por todo esse esquecimento e muito mais. Por isso eu consigo até me ver como privilegiada por existir nesses dias tecnológicos.
 
Talvez até guarde uma ponta de inveja das listas que ficam expostas o ano inteiro, afixadas num quadro do escritório ou na porta de uma geladeira, adornadas com um ímã decorativo. Mas me satisfaço com o celular onde estou quando olho para minhas primas, listas de compras, que têm uma função única e são jogadas fora ou excluídas no mercado mesmo. Eu, pelo menos, ainda sou renovada a cada fim de ano.
 
Esse sentimento mesquinho que acabei de expor diz muito sobre a minha razão de existir. Sinto que sou feita, muitas vezes, por ambição, cobiça ou inveja. Os itens que escrevem em mim são metas motivadas por uma constante insatisfação de ter, de poder ou de conquistar, raramente estão pautados no sentir.
 
Se eu pudesse, numa lista minha – que eu chamaria de filha -, escreveria que tenho como meta apagar essas promessas pragmáticas para deixar livre o tempo da contemplação e do nada. Nunca vi uma lista assim, o que me colocaria na vanguarda de mim mesma.
 
Enquanto nada disso é possível, fico aqui aguardando ver o item “ganhar na Mega” ser riscado. Essa meta é renovada anualmente, longe de sair de mim.
 
*Ronaldo Junior tem 27 anos, é carioca, bacharel em Direito, licenciado em Letras e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Com atraso
02/12/2023 | 14h00
Como se dia fosse, desligou o motor – faróis apagados, lua alta no escuro denso -, abriu a porta sem olhar se vinha um carro repentino e foi até a calçada como se dependesse daquilo.
 
Não ligava para a madrugada alta nem para as poucas horas até o início do expediente de entregas entre bairros. Levava, naquele turno extra, um envelope que não passara pelo centro de distribuição. Era uma carta pendente há muito.
 
Mas quem manda uma carta nestes tempos em que envelopes no correio trazem apenas dívidas, negativações, avisos de corte, notificações judiciais?
 
Depositou lentamente o envelope como se esperasse uma reação imediata, ouvindo o solene ruído do papel ao dar com o fundo metálico da caixa de correio. Estava feito, sem volta e talvez até sem o que esperar.
 
Dia seguinte, a cidade acordava com os baques das engrenagens a atritar os dentes em pleno asfalto, e o envelope foi tocado. Com alguma curiosidade, o lacre sutil foi rompido com a passagem das pontas dos dedos.
 
Dentro, uma folha em branco, mas não por completo: ao rodapé, constava uma assinatura, feita às pressas, com letra de forma, revelando um nome próprio, uma identidade até então resguardada em tantos anos. Agora, sabia quem era.
 
Olhando o papel em branco, chorou.
 
Afinal, antes mesmo de uma palavra lançada, pode ser o silêncio o grande responsável por dizer.
 
*Ronaldo Junior tem 27 anos, é carioca, é praticamente licenciado em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Intermitências
11/11/2023 | 14h00
Foto: acervo pessoal
 
Inerte, ainda deste lado, vejo as andanças de restrita forma, de fora dos carros, de fora dos movimentos – atravessamentos – que passam pela ponte. No aspecto do sentir, nada se repete. Há até paralelos, mas nada que toque duas pessoas com a mesma intensidade.
 
Digo o mesmo das águas. Lá embaixo, movediças, elas vivenciam forças e sensações que eu talvez nunca venha a experimentar, água que não sou, porém enquanto pessoa que se organiza no caos dos fluxos que formam um rio.
 
Não posso, com isso, escrever aqui o que vê e sente alguém que passa e me observa de dentro do carro – não sem inventar, é claro -, então me assombro com as minhas intempestuosidades, não com as dos outros, já que não me encontro no lugar de nenhum deles.
 
Talvez você diga que, ao assumir um lugar antes ocupado, conseguirei experimentar a mesma sensação, o mesmo vento no rosto, o mesmo panorama à frente. Mas como poderia, se a sensação já seria minha, se o vento que sopra já traria ares outros e se o panorama, vivo, já teria criado outra cena?
 
Me proponho, portanto, o exercício do diferente, uma vez que não há igualdade no que se sente – iguais perante a lei, discrepantes no existir, assim somos -, despido da pretensa imprecisão que julga o outro como se fosse eu. Paralelismos de lado, somos imitação imprecisa, capaz de ler estas palavras como quem as escreve, mas dificilmente saberemos o ruído liberado pela página ao ser coberta pela tinta do texto.
 
*Ronaldo Junior tem 27 anos, é carioca, é praticamente licenciado em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Quinze anos depois
04/11/2023 | 14h01
FOTO DE MARCELO GONÇALVES / FLUMINENSE FC
Se, assim como eu, você torce pelo Fluminense ou tem alguma simpatia pelo clube, este não é um sábado qualquer. Quatro de novembro guarda uma conexão direta com o dia dois de julho de 2008, pouco mais de quinze anos atrás.
 
Naquele ano, quando o time tricolor jogou sua primeira final da Copa Libertadores da América, eu tinha doze anos de idade, e o futebol era mais uma emoção inconsciente do que uma compreensão racional – não que hoje tenha mudado muito, mas o tempo me permite olhar o atual momento de forma diferente, sem dúvidas.
 
Na época, o fator social tinha um peso para mim: o que os onze jogadores do Fluminense faziam em campo impactava diretamente no meu dia seguinte, na escola, quando os assuntos eram focados na rodada do campeonato, e eu era zoado – ou me colocava na posição de zoar os rivais – de acordo com a atuação do time. Tudo acontecia como se eu e meus amigos fôssemos os responsáveis por vestir a camisa, entrar em campo, acertar passes e fazer gols.
 
Hoje, sem fatores sociais que me lembrem da adolescência – e isso não é um convite para virem me zoar depois de qualquer jogo -, sinto que muito permaneceu em mim nesses anos: o frio na barriga pelo início da partida, o sonho do título e a intuição de que é chegada a hora de ver meu time levantar essa taça.
 
Há quinze anos, durante a segunda partida da final, na fatídica noite de julho de 2008, eu acompanhava o jogo enquanto minha temperatura era monitorada de perto pelos meus pais, uma vez que eu estava febril – sem qualquer sintoma infeccioso aparente, com exceção da partida contra a LDU.
 
O Fluminense ganhava o jogo, numa noite iluminada de Thiago Neves, e minha temperatura seguia alta. Bastou que, já nos pênaltis, o atacante Washington perdesse a cobrança para que eu começasse a suar, restabelecendo minha temperatura corporal. O antitérmico, pasme, foi o apito final, apesar do resultado. Ainda agora é muito viva a imagem do goleiro adversário agarrado na rede do Maracanã, entre uma e outra cobrança de pênalti, como se lançasse sobre ela algum poder sobrenatural.
 
Neste sábado, apesar da lembrança, a sensação é outra, mas certamente é difícil ver prazer na partida de hoje. É jogo brigado, tenso do primeiro ao último apito. O exaurimento só virá quando tudo passar. Por enquanto, ficam as comparações, superstições, provocações e as tantas justificativas que tentamos encontrar para explicar a magia do futebol.
 
Quem vai ganhar, não sei. Só penso que o Flu tem mais time e joga em casa, mas vai precisar quebrar a retranca e a catimba dos argentinos, que jogam pelos pênaltis desde as oitavas de final. Se a história se repetirá ou se o dinizismo encontrará a glória, só saberemos depois das 19h.
 
Agora com a serenidade que esses quinze anos me permitiram ter, posso dizer que, feliz ou frustrado pelo placar do jogo, o resultado não vai alterar a história escrita pelo Fluminense na competição. O título é sonhado, mas ver tudo que o time construiu diz muito sobre o seu futuro e resgata muito de seu passado glorioso.
 
Para mim, fica a convicção de que, mais tarde, esses jogadores – do mais experiente ao mais novato - vão honrar os outros tantos que já vestiram a camisa tricolor, tendo a chance de lavar a alma dos que estiveram em campo naquela noite de 2008.
 
*Ronaldo Junior tem 27 anos, é carioca, é praticamente licenciado em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Uma desculpa e uma reflexão
30/09/2023 | 14h00
Fonte: Pixabay.
Meses passados desde a última publicação aqui no blog, volto com a sensação de novidade de quem perdeu a prática do que faz. Escrevo enquanto aguardo as últimas notas do curso de Letras serem publicadas no sistema, apesar de já ter comemorado o fato de que tudo acabou – pra ser bem exato, na última quinta, por volta das 20h, logo após uma análise comparativa do “Ensaio sobre a cegueira”, do Saramago.
 
Foi um último semestre intenso e, por isso, em branco no que se refere à criação de textos e a leituras não acadêmicas, o que serve de justificativa acanhada para o meu sumiço repentino deste espaço, “extraviando” minhas ideias para outros rumos.
 
Acontece que, enquanto eu escrevia os parágrafos anteriores, ainda sem saber ao certo o caminho que este texto poderia tomar, notei uma incongruência no meu relato: um (quase ex) aluno do curso de Letras acabou de justificar sua pausa na escrita em razão do curso, que é focado justamente em Língua Portuguesa e suas Literaturas.
 
Fato é que, em parte, é coisa minha esse negócio de suspender meu processo criativo enquanto me ocupo com a seriedade dos compromissos paralelos. Mas, para além das razões pessoais, sinto que foram raros os momentos de verdadeiro estímulo criativo ao longo da graduação, algo que, ao olhar em retrospecto, me surpreende.
 
Você pode pensar: é claro que não há esse tipo de estímulo, já que não é um curso voltado para a escrita e seus processos criativos, mas ao estudo analítico da língua e da literatura. Tudo bem, concordo.
 
Mas, sem qualquer pretensão de atribuir esse desestímulo ao curso de Letras do IFF, digo que não foram poucas, desde que entrei no curso, as vezes em que ouvi colegas falarem sobre a perda do prazer da leitura ou mesmo relatarem um bloqueio na escrita literária em razão do curso.
 
Reitero: não tem nada a ver com a qualidade da instituição nem com a abordagem dos gabaritados profissionais que compõem o colegiado de Letras: tendemos a desprestigiar a criatividade nos diversos níveis de ensino, independentemente de idade, curso ou instituição. Tanto é que raramente uma resposta criativa, capaz de revelar a ambiguidade de um enunciado avaliativo, vai ser pontuada por um professor que busca a gloriosa e objetiva resposta correta.
 
Isso diz pouco sobre o curso que fiz, mas fala verborragicamente sobre nossos processos pedagógicos de maneira geral. E é por isso que lamento por ter escrito, dentro das disciplinas do curso, apenas um poema para cada dez análises ensaísticas solicitadas pelos professores.
 
Os pragmáticos que chegaram aqui ao acaso podem dizer – cenho franzido e óculos na ponta do nariz – que escrever poemas não aprova ninguém em um concurso público e que dissertação de mestrado não se escreve em versos. Mas o que pouquíssimos vão dizer é que não se forma um profissional sensível apenas com a frialdade dos textos acadêmicos.
 
Me dói, portanto, constatar o que ouvi de alguns colegas, que se viram obrigados a substituir o prazer da leitura pela obrigatoriedade, assim como o estímulo criativo por respostas fundamentadas nos autores A ou B, pois é fato que a profissão e a academia tendem a nos afastar de certos processos empíricos – por razões óbvias, mas não menos lamentáveis.
 
Desses quatro anos, contudo, levarei os tantos ensinamentos e os grandes amigos que o curso de Letras me proporcionou. E digo que só aprofundei a imensa admiração que tenho pelo campus Campos Centro do Instituto Federal.
 
Por aqui, vou retomando a prática de experimentar com palavras, algo que eu espero jamais perder.
 
*Ronaldo Junior tem 27 anos, é carioca, é praticamente licenciado em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Descolorir
17/06/2023 | 17h00
Fonte: Pixabay.
 
Logo ao nascer, gris. A noite, marrom sob o breu, abriu em nuvem prestes a tocar o chão. Pássaro ágil, dia lânguido, penumbra solar, chacoalhante vento, cachorro escondido, movimento cortina, folha voante, largado tempo sobre o sofá.
 
Os carros fazem barulho no asfalto quieto, refletido no céu do sábado que promete chuva. Uma frente fria se aproxima do município, e a temperatura deve cair neste fim de semana, anuncia a previsão do tempo na TV preguiçosamente ligada.
 
O que não é dito, nos dias sem cor, é o fato de todas as cores banais disputarem com o cinza, criando o contraste que as permite ser cor todos os dias, muitas vezes não notadas nas pressas sob o céu azul – que já compõe o dia com sua própria cor.
 
Árvore madeira, muro tijolo, parede amarela, cachorro caramelo, carro vermelho, prédio espelho, chão terra, rio barro, poste cal, folha âmbar, envelope pardo, caixa d'água azul, fuligem preta, céu cinza.
 
O dia acinzentado – fuga da coloridade cotidiana – faz os segundos passarem levemente mais lentos, dando tempo aos olhos para ver as cores que passam depressa, podendo até a captura de um instante caber numa prosa, enquanto costuma mesmo caber nos instantâneos versos de um haikai.
 
*Ronaldo Junior tem 27 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Quem lerá?
10/06/2023 | 14h00
Fonte: Pixabay.
Antes mesmo de haver autor, haverá leitor para o tanto de palavra lançada a contragosto da página que aceita e leva consigo os despautérios voluntariamente impensados que o sujeito se envaidece ao escrever? Ou será que, tão perdido quanto a interrogação última, o leitor transita pelo - desimportante - texto e de fato dá sentido às entrelinhas enclausuradas na mente de seu redator? Fato é que, enquanto o leitor caminha pela esquina antevendo o atravessar da rua, ali já se espraia o texto, no abstrato das memórias, nas incertezas de quem se desassossega, até alcançar quem resolva desemaranhar as palavras em estado bruto. O texto, essas linhas contínuas cerzidas ponto a ponto sob a trama do tecido, é levado a fio na agulha dos ponteiros para fazer assunto no passar das horas. Na falta de quem leia, portanto, a palavra vagueia sendo perseguida pelos labirintos da informação, de alguma forma entranhada nas ideias até de quem não leu - já que é parte de um ciclo que sempre retoma a fonte -, sendo contrato assinado com mera passada de olho, vinculante até ser negada por palavra outra que valha a ideia.
 
*Ronaldo Junior tem 27 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Como ser um pseudo-tudo
27/05/2023 | 18h02
Fonte: Pixabay.
Existem variáveis tipos de arrogância - da soberba até a falsa modéstia -, mas uma das mais curiosas que observo é aquela em que o sujeito se autointitula algo que não é.
 
Pode ser uma ideia meio quadrada, mas acredito fielmente na necessidade de uma formação mínima - ou de experiência comprovadamente agregadora - para que uma pessoa seja, de fato, determinada coisa.
 
Dar uma única aula não torna ninguém professor - assim como, talvez, uma licenciatura mal feita também não torne -, de modo que é preciso insistir na valorização das vivências formativas reais.
 
Nem tudo depende de uma graduação, mas um profissional não se faz em dois dias - talvez nem sequer em dois anos. E, além de tudo, a autointitulação gera a óbvia desvalorização dos reais profissionais que dominam os saberes e técnicas de suas profissões.
 
Porém, é claro que não resolvi rascunhar essas linhas para falar sobre profissionais verdadeiros. Este texto fala, mesmo, dos não profissionais: pessoas que, reconhecidamente, afirmam ser sem nunca terem sido.
 
Minha curiosidade sobre essa categoria de arrogância reside no fato de a pessoa promover o autoconstrangimento de se apresentar como alguém que todos sabem que ela não é, mas persistir nisso e divulgar por aí sem nenhuma vergonha.
 
Numa sociedade de aparências, o título é mais valioso do que o fato, então apresento abaixo dicas valiosas para você enxertar seu currículo - ou sua bio do Instagram.
 
Mudou a mesinha de um canto para outro da sala? Que tal expor ao mundo sua badalada carreira de designer de interiores?
 
Já fez uma pesquisa no Google? E se eu dissesse que você se tornou um pesquisador por esse gesto tão singelo e sem prestígio na academia?
 
Cantar no chuveiro é outro ofício pouco reconhecido. Já imaginou se vender como cantor a partir de então?
 
E você que vive de contar histórias por aí? Pode, agora mesmo, ostentar o título de historiador.
 
Mas, dentre os tantos ramos profissionais, o que eu mais pratico, embora sem me intitular, é o da arte teatral. Vivo atuando quando me deparo com a inflada autoestima de quem nada é, mas diz ser.
 
*Esta crônica faz parte da série “Manual de desutilidades”, que tem como finalidade trazer reflexões críticas sobre questões cotidianas, brincando com o pragmatismo dos manuais de instruções – mas sem a pretensão de instruir ninguém.
**Ronaldo Junior tem 27 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Jogo de palavras
13/05/2023 | 23h03
Fonte: Pixabay
A constância dos barulhos que cortam aquele asfalto – em caminhões carros motos bicicletas passos – faz da avenida vários pedaços cíclicos do mesmo lugar, sempre outro sob as mecânicas de cada instante, sempre o mesmo na alma de uma rua atravessada de rotinas.
 
O sinal fechava, e a fila de carros se amontoava até quase alcançar a segunda esquina, a perder de vista. Era um vermelho demorado para os que esperavam, mas também uma pausa forçada no meio do dia. Os pedestres se adiantavam para atravessar a extensão da faixa e n f i l e i r a d a enquanto os motoristas aproveitavam para mexer no celular.
 
Naquele momento de suspensão, surgia um menino que, de carro em carro, mostrava uma pequena caixa para os motoristas. A grande maioria, vidro fechado, sequer olhava para o lado. Outros, porém, desprendiam os olhos do celular e acabavam espantados não apenas pela pouca idade do garoto, mas pelo que ele oferecia.
 
Quanto é?, um curioso perguntou. O que é pra você?, o moleque devolveu.
 
Em diversos tamanhos e fontes e cores, palavras de jornais e revistas formavam um pequeno bolinho de papel que forrava todo o fundo da caixa levada debaixo do braço e aberta para poucos olhos.
 
Acompanhando o menino, um homem recitava poemas entre os carros com sua voz densa enquanto se esquivava das motos que cortavam caminho. Via o pequeno repetir seus passos de décadas naquele semáforo: dando aos motoristas a possibilidade momentânea de descobrir o valor das palavras e da liberdade de tê-las. Desde os primeiros anos, o garoto aprendia e ensinava que palavra não é algo que se usa de graça, nem algo que necessariamente se compra com dinheiro.
 
Não era um doce, nem uma bugiganga, mas uma palavra, banal e corriqueira como esta.
 
Cê vai querer uma só ou vai levar um jogo?, ele perguntava, oferecendo possibilidades numa frase inteira. Os motoristas que o conheciam já abriam um sorriso, mas os que só estavam de passagem torciam o nariz e até debochavam. E o menino seguia seu caminho enquanto ouvia o companheiro recitar versos.
 
Palavra, como os passantes habituais chamavam o homem, deu origem ao apelido do menor, Palavrinha. E o semáforo não tinha apenas o vermelho fatigante de parar os carros, mas também a possibilidade de expressar em gestos o que nem sempre as palavras conseguem dizer.
 
*Esta crônica faz parte da série “Cenas urbanas”.
**Ronaldo Junior tem 27 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Sobre o autor

Ronaldo Junior

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Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.