Misérias e glória do Trianon em foco
Matheus Berriel
João Vicente lança novo livro
João Vicente lança novo livro / Antônio Filho
Provocativo por natureza, o professor e escritor João Vicente Alvarenga acaba de publicar o seu 10º livro. Em “O ó do borogodó — Teatro Trianon em cenas obscenas, suas misérias, suas glórias”, publicado pela Dialética Editora, ele relata episódios relacionados a dois momentos marcantes do teatro municipal de Campos: a sua inauguração, em 1998, e a festa de 15 anos de existência, em 2013, ambas testemunhadas como gestor do espaço — primeiro como presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, e depois, da Fundação Teatro Municipal Trianon.
O próprio título do livro traz uma mensagem que pode inicialmente passar despercebida pelo leitor, mas foi meticulosamente planejada pelo autor. As “misérias”, no plural, representam artimanhas políticas e desavenças nos bastidores dos eventos que norteiam a construção do livro, tendo entre os personagens a ex-prefeita Rosinha Garotinho e a ex-primeiradama Ilsan Vianna. Já a “glória”, no singular, simboliza a presença de uma atração campista na cerimônia de inauguração do teatro.
— A frequência ao Trianon pode se dar como o artista que vai se apresentar, geralmente de fora; como o público, que vai assistir aos espetáculos; como o funcionário e como o gestor principal do Trianon. Essas frequências se chocam ali dentro, há uma guerra de interesses, uma guerra por cargos, como naturalmente acontece em outros lugares — afirma João Vicente Alvarenga. 
— Mas, não sei por que, no Trianon as coisas se estendem. Tudo o que ali acontece se transforma em grandiosidade. Não aquela grandiosidade generosa, afetiva, que quer se aproximar do artista. Pelo contrário. Então, essas são as misérias do Trianon. A glória, que não vai se repetir mais, é Orávio (de Campos Soares) ter apresentado, com o grupo de teatro do Sesc, do qual eu fazia parte, “Boulevard de cabo a rabo”, a única peça com autor campista que fez parte da programação de inauguração do Teatro Trianon. Ali foi a glória. Parece que nós acendemos uma luz que resistia a se acender. Enquanto estivemos ali, acendemos essa luz, mas que depois se apagou — complementa o autor.
Na visão de João Vicente, falta ao Trianon o caráter acolhedor que tem o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, equipamento historicamente importante para o desenvolvimento do setor artístico-cultural na planície goitacá.
— O Trianon tem um DNA que o personaliza de forma não acolhedora. Não é o DNA de uma instituição que abraça as pessoas. O Trianon é refratário. Então, quando eu digo, no título, “suas misérias e sua glória”, é porque tem muito mais mal feito do que bem feito. O fato de a gente ter vivido e compartilhado a existência do Teatro de Bolso, a minha geração, que teve essa oportunidade, verifica muito facilmente o quanto o Trianon é refratário à presença do artista dentro do seu espaço. É uma coisa ruim, uma coisa que desmobilizou a comunidade artística local. Essa desmobilização pode não ter sido programada, pode não ter sido calculada, mas ela existe — enfatiza.
Por sentir-se desprestigiado — e até desrespeitado —, João Vicente não esconde o fato de guardar consigo lembranças negativas do período em que esteve à frente tanto da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima quanto da hoje extinta Fundação Teatro Trianon:
— Costumo dizer em tom de brincadeira, mas é sério: quando eu morrer, não me enfiem naquele teatro. Não quero ser velado dentro do Teatro Trianon, que mais parece uma lápide de cemitério. Não quero. Foi uma coisa que a mim, como gestor, não me fez bem. Houve uma falta de respeito à minha pessoa dentro daquele contexto, e eu não quero, então, nos meus últimos momentos sobre a terra, estar diante do Trianon.
Inaugurado em 1998, o atual maior teatro de Campos substitui o antigo Cine-Teatro Trianon, cujo centenário de fundação é comemorado neste ano. Idealizado e viabilizado pelo empresário Francisco de Paula Carneiro, o Capitão Carneirinho, o antigo Trianon ficava no Boulevard Francisco de Paula Carneiro (Calçadão) e, num período de grande efervescência cultural, recebeu grandes espetáculos nacionais e internacionais. Mas acabou demolido em 1975, sendo homenageado no novo espaço sob as “misérias” e a ”glória” agora contadas por João Vicente.

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