Audiência pública debate demora na primeira consulta e tratamento de câncer em Campos
Júlia Alves 26/06/2026 11:58 - Atualizado em 26/06/2026 12:06
Audiência realizada na Câmara Municipal de Campos para debater atendimento a pacientes oncológicos
Audiência realizada na Câmara Municipal de Campos para debater atendimento a pacientes oncológicos / Reprodução TV Câmara
Foi realizada, nessa quinta-feira (25), uma audiência pública para debater a demora na primeira consulta e tratamento de câncer em Campos, presidida pelo vereador Anderson de Matos na Câmara Municipal de Campos. O parlamentar destacou ainda o registro de 17 mortes apenas neste ano de pacientes que aguardavam o atendimento para iniciar o tratamento.
Na abertura da audiência, o vereador falou sobre a finalidade do tema e comentou sobre a ausência de representantes da Secretaria Estadual de Saúde no local.
“Essa audiência pública tem como finalidade principal fazer um alerta e fazer com que o atendimento para pessoas que sofrem com câncer seja de forma rápida, porque quem tem câncer tem pressa. Não tem como, é impossível uma pessoa que sofre com câncer aguardar e esperar por atendimento [...] A cobrança é diretamente para o Secretário Estadual de Saúde e para a Superintendente Estadual de Saúde por não estarem aqui hoje presente, por não enviarem aqui hoje nenhum representante da secretaria”, comentou o vereador, destacando que a superintendente é a pessoa responsável por regular todos os pacientes com câncer em todo o estado do Rio de Janeiro.
Vereador e presidente da audiência, Anderson de Matos
Vereador e presidente da audiência, Anderson de Matos / Reprodução TV Câmara
No entanto, ele informou que a superintendente esteve em Campos na quarta-feira (24) por conta da judicialização da questão oncológica no município.
“Morreram esperando. Essas pessoas não morreram por causa do câncer, não foi o câncer que as matou. O que matou essas pessoas foi a demora na regulação estadual. O que fez com que essas pessoas morressem foi essa demora. Quem tem um câncer não pode ficar esperando dois, três, quatro cinco meses, dois anos por um atendimento para fazer a primeira consulta oncológica para depois então iniciar o tratamento. Quero deixar aqui a minha indignação com essa falta que eu considero, particularmente, uma falta de respeito com o povo da minha cidade, uma falta de respeito com essas 17 pessoas que só esse ano já morreram dentro do HGG esperando”, disse Anderson de Matos, relembrando que o Hospital Geral de Guarus (HGG) é um hospital geral e não uma unidade especializada em tratamento oncológico.
Durante a sessão, o parlamentar destacou ainda que duas filas do município, que se encontravam no total com 82 pessoas, foram zeradas de quarta para quinta. Em maio, a fila reunia pacientes na espera de atendimento para diversas especialidades.
“É com alegria que a gente fala da redução da fila de espera de uma primeira regulação em oncologia, o núcleo tem a responsabilidade de avaliar as solicitações para inserção na fila do Estado, no Sistema Estadual de Regulação (SER), e fazemos as inserções no sistema de acordo com as especialidades dessas neoplasias, como mastologia, oncologia clínica, urologia, próctologia, cabeça e pescoço. Importante ressaltar que como esse paciente é inserido numa fila estadual, a responsabilidade da regulação dessa primeira consulta, ou seja, pela porta de entrada no serviço é do estado. O município não tem gerencia sobre essa fila", contou Rúbia Helena, uma das superintendentes do núcleo de regulação municipal.
Núbia, uma das superintendentes do núcleo de regulação municipal
Núbia, uma das superintendentes do núcleo de regulação municipal / Reprodução TV Câmara
Rúbia abordou ainda as especialidades atendidas: "Com alegria, percebemos que a fila de espera de mastologia, que tinha 29 pessoas foi zerada, todas as pessoas foram agendadas. O Estado regulou também as 12 pessoas de oncologia clínica do município e reduziu a fila de espera da urologia e de cirurgia geral. Hoje, entre fila de urologia, ginecologia, cirurgia geral, cabeça e pescoço e a fila para tratamento fora do município tem 35 pessoas aguardando. Em relação ao mês de junho tivemos uma redução significativa”, comentou.
A profissional explicou ainda que a regulação do Estado é feita de acordo com a oferta das agendas de Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) dos serviços de oncologia do município, unidade habilitada pelo Ministério da Saúde para prestar assistência especializada e integral a pacientes com câncer.
A Folha entrou em contato com a Secretaria de Saúde do Estado sobre o assunto e questionou ainda sobre o porquê de não ter representantes estaduais da pasta na audiência, além do número de mortes que seria por conta da grande fila e demora, mas ainda aguarda retorno. 
Outra audiência sobre o assunto na mesma semana
Na última terça-feira (22), a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ), por meio da Coordenação de Saúde e do 1º Núcleo Regional de Tutela Coletiva, participou da primeira audiência da ação civil pública ajuizada em face do Estado do Rio de Janeiro e do Município de Campos por conta do fechamento da Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) no Hospital Dr. Beda.
De acordo com a Defensoria, o hospital é hoje responsável por mais de 40% dos novos diagnósticos e tratamento de câncer da região Norte Fluminense. O anúncio do fechamento do Hospital em agosto de 2026 vinha sendo acompanhado pela Defensoria Pública e, diante da ausência de diálogo com o poder público nas tratativas extrajudiciais de resolução do litígio, deu origem à judicialização da demanda.
Além do Hospital Dr. Beda, participaram da audiência representantes da Sociedade de Beneficência Portuguesa de Campos (SBPC) e do Hospital Escola Álvaro Alvim, que são outras duas Unacons em Campos, bem como do Estado e da Prefeitura. Na ocasião, segundo a Defensoria, ficou determinado que o Hospital Dr. Beda enviará, no prazo de 10 dias, o prontuário de todos os pacientes que hoje se submetem a alguma espécie de tratamento no hospital. Além disso, já ficou acordado que os novos tratamentos em radioterapia passarão a ser realizados pelo Hospital Álvaro Alvim, mantidos os tratamentos já iniciados no Beda.
Em nota quanto ao caso, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) informou que o município de Campos conta com outras duas Unacons, além do Hospital Dr. Beda. São elas: o Hospital Escola Álvaro Alvim e o Hospital Beneficência Portuguesa.

"Os pacientes são encaminhados com forte suspeita ainda sem a confirmação diagnóstica, cumprindo o preconizado pelo Ministério da Saúde para as Unacons. Os casos são avaliados e classificados por critérios de gravidade, assim, as situações mais graves são encaminhadas com prioridade. Além disso, o Complexo Estadual de Regulação (CER) faz agendamentos de acordo com as características das vagas ofertadas pelas Unacons, que podem ser indicadas para diferentes perfis de pacientes. É necessário que o perfil do paciente esteja de acordo com a vaga liberada", diz trecho da nota.
Ainda de acordo com a SES-RJ, os agendamentos para consultas de primeira vez em Oncologia dependem da oferta disponibilizada pelas unidades de saúde. Além disso, o Governo do Estado do Rio de Janeiro está articulando ações para ampliar o acesso da população a consultas, exames e cirurgias especializadas na rede pública de saúde, por meio do programa ‘Agora Tem Especialistas’. O secretário de Estado de Saúde, Ronaldo Damião, tem se reunido com representantes do Ministério da Saúde para ampliar a adesão dos municípios fluminenses ao projeto do Governo Federal.
O objetivo é reduzir o tempo de espera da população por atendimentos especializados, a partir da integração entre estados, municípios e unidades de saúde. O programa ‘Agora Tem Especialistas’ contempla áreas estratégicas como Cardiologia, Ortopedia, Oftalmologia, Oncologia e Ginecologia. Os atendimentos podem ser realizados por hospitais estaduais, federais, universitários e unidades contratualizadas ao Sistema Único de Saúde (SUS)", afirmou a nota.
A SES-RJ também informou que no momento, na Região Norte do estado, o prazo médio de atendimento em 1ª consulta para Oncologia Geral (adulto) é de 45 dias. O acompanhamento pode ser feito no Painel Público do Complexo Estadual de Regulação.

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